O Irã vai às urnas, e daí?

15/06/2013 | Política

A cada quatro anos, o mundo assiste com grande interesse as eleições para a presidência da República Islâmica do Irã. E não é de se espantar que o faça: nação milenar, potência regional em uma área conturbada do globo, entre os principais produtores de petróleo do planeta e população beirando os oitenta milhões. O Irã não está aí para ser ignorado. Mas qual a efetividade de suas eleições?

O atual presidente, Ahmadinejad
O atual presidente, Ahmadinejad

As eleições iranianas são diretas, quem conseguir 50%+1 dos votos é eleito e qualquer cidadão iraniano maior de 18 anos pode votar (estima-se que sejam cerca de 50 milhões de potenciais eleitores) e apresentar uma candidatura. Mas é aí que o bicho pega: se não é necessário nem ao menos estar filiado a um partido para apresentar sua candidatura, e é permitido haver até mesmo mais de um candidato do mesmo partido, toda candidatura deve ser aprovada pelo Conselho dos Guardiões da Constituição – seis juristas e seis clérigos xiitas encarregados, entre outras coisas, de avaliar se as leis aprovadas pelo parlamento estão de acordo com a Sharia islâmica.

Ex-presidente Rafsanjani
Ex-presidente Rafsanjani

Este ano, impressionantes 689 homens iranianos – ainda que isso não fique claro, a legislação pertinente está toda redigida no masculino[ref]Os verbos têm masculino e feminino nesta parte do mundo, se você não sabia.[/ref], o que inviabiliza candidaturas femininas ao cargo – apresentaram sua candidatura ao Ministério do Interior, mas o Conselho dos Guardiões aprovou apenas oito candidatos. Nem o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, considerado progressista demais, sobreviveu a esta fase. Entre os aprovados pelo regime, os analistas identificam uma maioria de cinco conservadores. E dos três liberais aprovados, dois desistiram.

A relevância local das eleições não pode ser contestada. Caso contrário, não teria ocorrido o imenso movimento de contestação da legitimidade do resultado do pleito de 2009. A República Islâmica é presidencialista e seu chefe-de-governo é responsável direto por políticas econômicas, planos de investimento e outras áreas profundamente afetadas pelas sanções internacionais impostas em função do projeto nuclear iraniano.

O primeiro líder supremo, Khomeini
O primeiro líder supremo, Khomeini

Por outro lado, a República é Islâmica. Em 1979, após a revolução que derrubou o regime pró-ocidente do Xá Mohammad Reza Pahlevi e culminou na instauração da teocracia no país, o cargo de Líder Supremo foi criado sob medida para o carismático aiatolá Ruhollah Khomeini. Desde a morte de Khomeini, o aiatolá Ali Hosseini Khamenei ocupa a posição que controla, entre outras coisas, a política externa e as forças armadas do país, além de ser o único constitucionalmente habilitado a declarar guerra e paz em nome do Irã.

E, naturalmente, é o Líder Supremo quem tem a palavra final em tudo que está relacionado ao programa nuclear iraniano. O mundo testemunha incrédulo à negação do Holocausto de Mahmoud Ahmadinejad e suas promessas de jogar Israel ao mar, mas o presidente iraniano é um mero porta-voz do Líder Supremo na arena internacional.

Líder supremo atual, Khamenei
Líder supremo atual, Khamenei

A política interna e a opinião pública nacional são componentes pesados e influentes na posição de qualquer país em meio às relações internacionais. O povo iraniano não é burro e percebe que o posicionamento firme de sua liderança, disposta a ir às últimas consequências para desenvolver seu projeto nuclear, trouxe as sanções econômicas. O preço do pão triplicou nos últimos dois anos, a gasolina está sete vezes mais cara e o rial iraniano perde força diariamente frente ao dólar. O apoio quase cego de Khamenei a Ahmadinejad custou-lhe caro em termos de popularidade, a ponto do aiatolá nem declarar seu voto na eleição presidencial, sob risco de acabar prejudicando seu candidato preferido.

As pesquisas indicam que nenhum candidato deverá conquistar a maioria absoluta dos votos nesta sexta-feira e um segundo turno é esperado para a próxima semana. Ainda que possamos identificar pressões internas que possam alterar a política externa iraniana, não custa lembrar que todos os candidatos foram considerados inofensivos à revolução e à teocracia. Uma virada radical só ocorrerá se o aiatolá Khamenei sentir que todo o seu aparato opressor, incluídos aqui o sistema de censura e a poderosa Guarda Revolucionária, não tem mais forças para mantê-lo no poder.

E o próximo presidente que se vire com a economia.

[ATUALIZAÇÃO] Na noite de sábado, 15.06.2013, o ministro iraniano do Interior anunciou em rede nacional de televisão que o clérigo Hassan Rouhani, o único candidato considerado moderado, conquistou 50,7% dos votos e será o próximo presidente do Irã. Contrariando todas as pesquisas de opinião, não haverá necessidade de segundo turno. 72% dos eleitores compareceram às urnas.

Foto de capa: http://www.rnw.nl/data/files/images/lead/130609%20Ahmadinejad%20ANP-9997907_0_2.jpg

Foto de Ruhollah Khomeini: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/thumb/9/99/Portrait_of_Imam_Khomeini.jpg/220px-Portrait_of_Imam_Khomeini.jpg

Foto de Ali Khamenei: http://thenewcontext.milanoschool.org/wp-content/uploads/2012/11/khamenei1.jpg

Foto de Akbar Rafsanjani: http://www.iranchamber.com/history/arafsanjani/images/akbar_rafsanjani1.jpg

Foto de Mahmoud Ahmadinejad: http://www.ibn-tv.com/wp-content/uploads/2012/10/Mahmoud-Ahmadinejad.jpg

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “O Irã vai às urnas, e daí?”

  • Raul Gottlieb

    15/06/2013 at 12:57

    Cláudio, você sabe informar como o Líder Supremo e os membros do Conselho dos Guardiões são escolhidos e se estes cargos são rotativos ou vitalícios? Abraço, Raul

    • Claudio Daylac

      15/06/2013 at 18:28

      Raul,

      Eu sei que o Líder Supremo é eleito por um órgão composto por dezenas de autoridades religiosas muçulmanas xiitas (não sei se são todos aiatolás, mas é possível). Este órgão se reúne regularmente, algumas vezes por ano, para avaliar o trabalho do líder supremo e pode, ao menos teoricamente, demití-lo e escolher um novo para o seu lugar.

      O Conselho dos Guardiões eu acho que é formado por pessoas indicadas pelo próprio líder supremo, mas não tenho certeza.

      Enfim, é um sistema que se auto-alimenta.

      Um abraço!

  • João K. Miragaya

    16/06/2013 at 20:16

    Muito bom o texto, Claudio. Permita-me, no entanto, discordar em partes de você.

    Estou de acordo com seu argumento central. Para que as coisas mudem no Irã, é necessária uma revolução. O regime não é democrático, mas seu sistema eleitoral funciona como um medidor de tensão para parte da população.

    A vitória de Rohani pode ser, de fato, insignificante. Você mesmo demonstrou muito bem no seu artigo o (pouco) poder que tem o presidente para “reformar” o regime. Mas a eleição no primeiro turno do único candidato reformista mostra uma insatisfação popular importante neste momento. Caso o presidente deseje derrubar o regime, mesmo que a lei não o permita, parece que o povo está ao seu lado.

    Não estou de acordo com a importância dada a um único homem em nenhum acontecimento histórico. Estes não dependem da vontade nem do poder de um único personagem, e não é necessário ser marxista para concordar com esta ideia. Leon Tolstoi, na sua obra prima Guerra e Paz, já desconstruía o argumento personalista que dava a Napoleão os méritos da batalha de Austerlitz e do czar Alexandre I em 1812.

    E nós já percebemos que, em geral, não é por meios democráticos que se dão as grandes mudanças no mundo, em especial no mundo árabe.

    • Claudio Daylac

      17/06/2013 at 20:04

      João,

      Obrigado pelos elogios.

      Para mim, o principal é não esquecer que, antes de tudo, Rouhani foi considerado casher pelos aiatolás.

      Sua eleição em primeiro turno é um claro sintoma de que o povo quer mudanças, mas ele não é o líder que as trará.

      Um abraço!

  • Raul Gottlieb

    18/06/2013 at 23:11

    João e Cláudio, permitam-me discordar. A eleição de um novo presidente com um perfil de “moderado” é ruim e não boa (como diz o João) ou nula (como diz o Cláudio), pois:

    a) de moderado ele não tem nada, nadinha mesmo.Nada irá mudar.

    b) cria uma falsa impressão que o Irã está mais tolerante, pois o presidente anterior era tão caricato em suas afirmações alucinadas que prejudicou o Irã. Uma face mais razoável dá mais espaço ao Irã para continuar os seus projetos nefastos.

    Antes do João observar (ele é muito meticuloso) que não disse que a eleição é boa e sim que tem elementos positivos, afirmo que eu entendi isto sim, mas que abreviei aí em cima para dar legibilidade à frase.

    Na minha opinião a mudança no Irã só virá através de um colapso econômico. O rodízio do presidente não vai trazer mudança alguma e nem o plantonista eleito semana passada pretende mudar uma palha.

    Abraço, Raul