ISIS é Hamas e Hamas é ISIS

23/11/2015 | Conflito; Opinião; Política

A ministra das Relações Exteriores da Suécia, Margot Wallström, causou indignação em Israel na semana passada. Em declaração à televisão pública, a ministra associou os ataques terroristas em Paris cometidos pelo Estado Islâmico (ISIS ou Daesh) ao conflito entre israelenses e palestinos.

Sem dúvida, Wallström cometeu um grave erro ao vincular os ataques de Paris à situação dos palestinos. O problema é que ela não foi a primeira a apontar elementos comuns no terrorismo palestino e no jihadismo do ISIS – a diplomacia civil israelense traça esse paralelo há algum tempo.

O que exatamente Wallström disse?

Quando perguntada se estava preocupada com a radicalização dos jovens suecos que lutam pelo ISIS, Wallström respondeu: “[Nós] obviamente temos razões para estarmos preocupados, não apenas na Suécia, mas em todo o mundo, porque muitos estão sendo radicalizados. Aqui, mais uma vez, nos defrontamos com situações como [as que vemos no] Oriente Médio, onde palestinos não veem um futuro. [Nesse caso] deve-se aceitar a desesperadora situação ou recorrer à violência”.

Não tardou para que políticos israelenses interpretassem a declaração como uma sugestão de que Israel é o culpado pelos ataques de Paris. O ex-ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, classificou as observações de Wallström como “um ato ofensivo, cínico e hipócrita que nos remete as memórias do comportamento da Suécia durante a Segunda Guerra Mundial”. A vice-chanceler, Tzipi Hotovely, afirmou que Wallström demonstrou “não apenas cegueira sobre a realidade, mas também uma maldade inacreditável”. Emanuel Naasson, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, chamou os comentários de Wallström “chocantes por sua chutzpah (falta de educação)” e disse que a Suécia exibiu novamente “genuina hostilidade” em relação a Israel. O Ministério das Relações Exteriores em Jerusalém convocou seu embaixador na Suécia para esclarecimentos.

Wallström não vinculou, especificamente, os ataques de Paris a Israel. Ainda assim, a relação que estabeleceu entre as origens do ISIS e o sofrimento dos palestinos foi suficiente para provocar a indignação. Nesse sentido, a crucificação da ministra sueca é cabível – ela sabia quais seriam as implicações do paralelo que estava traçando.

No entanto, deve-se admitir que não foi Margot Wallström quem inventou a equação ISIS = palestinos. Horas após a tragédia em Paris, Benjamin Netanyahu escreveu em sua página do Facebook: “Em Israel, como na França, o terrorismo é terrorismo, e sua motivação é o Islã radical e um desejo por destruição”. A ministra da Cultura, Miri Regev, postou uma imagem que dizia: “Paris 13/11, New York 11/09, Israel 24/7”.

Essas não foram as primeiras comparações entre o terror palestino e o ISIS. Em  discurso à Assembléia Geral da ONU em 2014, Netanyahu declarou: “ISIS e Hamas são ramos da mesma árvore venenosa … Hamas é ISIS e ISIS é Hamas”.

Há anos, a diplomacia israelense tenta impor essa mentalidade de que o Estado Islâmico e os grupos terroristas palestinos são “farinha do mesmo saco”, o que é, de certa forma, uma verdade.  No entanto, como bem sabemos, há uma grande abismo entre o fato e a retórica que construímos sobre dele. O grave erro diplomático cometido pela ministra sueca é apenas uma demonstração, carregada de má fé, de que a correta e bem intencionada lógica “Hamas = ISIS” pode conduzir a incorretas e provocativas interpretações da realidade.

O ponto é que apesar das ínumeras semelhanças entre o fanatismo e a crueldade dos grupos terroristas palestinos e o ISIS, é praticamente impossível vender essa retórica comparativa. É impossível pois ela pressupõe que o julgamento que o ocidente faz do ISIS utiliza os mesmos critérios para julgar o Hamas ou a Jihad Islâmica. Sabemos que há no mundo uma assimetria moral e devemos lidar com ela, ao invés de agir como se ela não existisse. O fato é que, concordemos ou não, muitos no ocidente acreditam que o governo de Israel tem uma parcela de culpa no terrorismo palestino. É, portanto, razoável que a equação “ISIS = Hamas” os conduza a pensar que Israel é também parcialmente responsável pelas atrocidades cometidas pelo ISIS. Infelizmente para Israel, essa  é apenas uma derivação lógica da equação.

É também absolutamente compreensível que políticos israelenses busquem incessantemente vincular o ISIS ao terror palestino, afinal o Estado Islâmico é uma organização assassina que escraviza mulheres e não possui qualquer legitimidade internacional. O problema é que o ocidente não enxerga jovens palestinos de 15 anos armados com chaves de fenda e talheres  da mesma forma que enxerga a crueldade do ISIS. Um crescente número, aliás, é capaz de encontrar justificativa nas ações dos jovens palestinos.

Dessa forma, é plausível que afirmações como “não somos culpados pelo terror cometidos contra nós, assim como os franceses não são culpados pelo terror cometidos contra eles” criem, em termos retóricos (e apenas em termos retóricos), associações entre Israel e ISIS.

Convenhamos. É o cúmulo da ingenuidade acreditar que os antissemitas de plantão não farão [mau] uso dessa lógica para vincular Israel ao wahabbismo do ISIS. Não se pode comparar o terror palestino com o ISIS  e esperar que eles não coloquem Israel como responsável pelos dois. Não se pode dizer continuamente que “Hamas é ISIS” sem esperar que outros dêem o próximo passo e vinculem o Estado Islâmico à causa palestina. É uma ligação absurda e sem fundamento, sem dúvida. Mas ela é razoável para alguém que pensa que “ISIS é Hamas e Hamas é ISIS”.

O jogo retórico é perverso. Devemos sempre estar um passo à frente daqueles que estão dispostos a nos aniquilar. Para isso não podemos jamais subestimar a malévola imaginação do inimigo. Basta uma mente com um nível de sofisticação um pouco acima da média para que um argumento que tinha tudo para dar certo torne-se um ataque massivo a ser defendido. Por isso, não se espante quando as redes sociais forem inundadas por imagens, vídeos e textos vinculando Israel ao ISIS – esse é apenas um desdobramento mal intencionado de uma retórica mal elaborada. Não digam que eu não avisei.

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O texto acima constitui um “diálogo intelectual” com o artigo de Asher Schechter publicado no dia 18 de Novembro no diário online Haaretz.

 

Comentários    ( 16 )

16 Responses to “ISIS é Hamas e Hamas é ISIS”

  • Raul Gottlieb

    23/11/2015 at 11:06

    Sim, Bruno, o Hamas, o ISIS, o Hezbolá, a Al-Qaida, o Boko Haram são todos farinha do mesmo saco. Todos estes movimentos emergem da cultura islâmica de ódio às liberdades individuais e ao iluminismo que forjou o Ocidente desde os séculos 17-18 (e que provocou o mais espetacular salto de qualidade na vida dos pobres em todos os períodos da humanidade).

    Isto não quer dizer que só exista esta corrente de pensamento no Islã. Mas que ela existe, que ela é poderosa, e que é dela que emergem os grupos que nós chamamos de extremistas e terroristas (enquanto que eles se chamam apenas de Islâmicos, sem outros adjetivos).

    O ódio ao Ocidente destes grupos não decorre do desespero (contra Israel ou contra qualquer outra coisa) e sim da própria natureza do Ocidente (ou seja, das democracias), que contrasta frontalmente com uma sociedade que (vejam só que mimo) endossa o pai matar a filha porque ela namorou fora dos cânones aceitos.

    É desesperador ver que os líderes da maior parte das democracias ainda não tenha entendido isto!!!

    A ministra sueca errou tragicamente em sua análise. Assim como errou tragicamente o secretário de Estado John Kerry quando disse que os atentados de janeiro eram mais compreensíveis do que os novembro, pois em janeiro havia o fator das charges do Charlie Herdo. Ambos (e muitos outros) pensam que o Islã jihadista é composto por mentes ocidentais.

    Assim que, Bruno, não é a correta associação que o Bibi faz entre o Hamas e o ISIS que induz a ministra em associar o desespero Palestino aos atentados em Paris.

    O que induz a ministra à sua declaração intelectualmente indigente é a incorreta associação dela (sublinhado) entre o Hamas e o desespero dos palestinos. Ou a qualquer outra percebida ou real situação além do confronto ideológico entre a liberdade e o totalitarismo.

    Entendido?

    • Bruno Lima

      23/11/2015 at 11:47

      Raul,

      Acho que você não entendeu o texto e, como de praxe, comete a falácia de analisar um argumento que não foi colocado. Já estou acostumado.
      Concordo e deixo claro que o Hamas, o ISIS e outros apresentam semelhanças que os colocam “no mesmo saco”. De fato são, mas esse não é o ponto do texto.

      O ponto central, e percebê-lo exige certa capacidade de abstração, é que essa retórica (e apenas a retórica) que compara o ISIS ao terrorismo palestino pode levar a um associação entre Israel e o jihadismo dos dois. Obviamente, essa associação é absurda e motivada por um antissemitismo maquiado de anti-Israelismo ocidental, mas dentro dessa retórica ela é plausível.

      A lógica ISIS = Hamas dá (muita) margem para interpretações que não gostaríamos de ver se tornando “verdades” nas redes sociais. Por isso, o texto alerta para os efeitos colaterais dessa retórica, utilizando o exemplo da ministra sueca.

      Pelo que vejo, leio e escuto (no meu trabalho e na vida em geral) a atual diplomacia israelense não parece estar funcionando bem. Precisamos tomar muito mais cuidado com a retórica que utilizamos para entender os seus efeitos sobre a mente ocidental que insiste em ver Israel de forma negativa.

      Para finalizar, copio aqui duas partes do texto que sintetizam a ideia central. Talvez ajude.

      “Há anos, a diplomacia israelense tenta impor essa mentalidade de que o Estado Islâmico e os grupos terroristas palestinos são “farinha do mesmo saco”, o que é, de certa forma, uma verdade. No entanto, como bem sabemos, há uma grande abismo entre o fato e a retórica que construímos encima dele. O grave erro diplomático cometido pela ministra sueca é apenas uma demonstração, carregada de má fé, de que a correta e bem intencionada lógica “Hamas = ISIS” pode conduzir a incorretas e provocativas interpretações da realidade.”

      “O ponto é que apesar das ínumeras semelhanças entre o fanatismo e a crueldade dos grupos terroristas palestinos e o ISIS, é praticamente impossível vender essa retórica comparativa. É impossível pois ela pressupõe que o julgamento que o ocidente faz do ISIS utiliza os mesmos critérios para julgar o Hamas ou a Jihad Islâmica. Sabemos que há no mundo uma assimetria moral e devemos lidar com ela, ao invés de agir como se ela não existisse. O fato é que, concordemos ou não, muitos no ocidente acreditam que o governo de Israel tem uma parcela de culpa no terrorismo palestino. É, portanto, razoável que a equação “ISIS = Hamas” os conduza a pensar que Israel é também parcialmente responsável pelas atrocidades cometidas pelo ISIS. Infelizmente para Israel, essa é apenas uma derivação lógica da equação.”

      Entendido?

  • Raul Gottlieb

    23/11/2015 at 15:59

    Entendido, Bruno. Muito obrigado pela explicação e pelo teu esforço em colocar luz na minha cabeça dura.

    Mas veja que a preocupação que você externa quanto às falhas da diplomacia israelense pode estar muito mal direcionada.

    Pois pode ser (e eu acho que é) que quem esteja fazendo tudo errado é a diplomacia da Suécia, dos Estados Unidos, da França, etc.

    Pode ser (e, repito, eu acho que é) que sejam eles a não entender o que se passa no mundo e portanto a associação deles quanto a participação de Israel no fundamentalismo islâmico seja fruto de uma visão distorcida, que Israel não tem como desfazer.

    Eu penso que, no final das contas, eu e você pensamos parecido, mas como duas importantes diferenças:

    Eu não culpo Israel (melhor dizendo, Bibi) pela cegueira da ministra da Suécia, pela estultice do Obama, etc.

    E sou mais direto nas minhas conclusões. O teu texto tem alguns atenuantes que me parecem capciosos: O Hamas e o Isis seriam farinha do mesmo saco, mas apenas de “certa forma”. Qual certa forma, Bruno? Eles emergem da mesma cultura.

    “Concordemos ou não” muitos do ocidente depositam a culpa pelo terrorismo palestino em Israel. Quem dentre as pessoas bem informadas concorda com isto, Bruno?

    Abraço, Raul

  • Felipe

    23/11/2015 at 18:32

    Não acho que a ministra sueca foi feliz na sua declaração.
    Mas há pelo menos uma diferença fundamental e irrefutável entre o terror do Hamas e do ISIS:
    O primeiro é resultado de um pleito legítimo (o terrorismo não é legítimo, mas o pleito é), secular, nacionalista, relacionado a usurpação de território e de direitos humanos e direcionado aos perpetradores desta usurpação.
    O segundo é fruto de sectarismo niilista apocalíptico, direcionado a todo mundo que não compartilha da mesma seita.
    Afirmar que “ISIS é Hamas e Hamas é ISIS”, mesmo que “de certa forma” (??), não é senão uma tentativa, ao meu ver desonesta, de transferir a condenação unânime ao ISIS para o Hamas e, por extensão, à causa palestina.
    Concordo com o post que esta retórica não vai funcionar. No entanto – e neste ponto acho que discordamos – é preciso rever muito mais do que a simples retórica neste tema.

    • Raul Gottlieb

      23/11/2015 at 21:08

      Felipe,

      O Hamas não é um movimento secular.

      O Hamas não respeita os direitos humanos nem dos palestinos e muito menos o dos israelenses.

      O Hamas não disputa um território, ele luta pela conquista de todo o planeta, exatamente como o ISIS o faz.

      Você já leu a declaração de princípios do Hamas?

      Abraço, Raul

    • Mario S Nusbaum

      23/11/2015 at 22:49

      “O primeiro é resultado de um pleito legítimo (o terrorismo não é legítimo, mas o pleito é), secular, nacionalista, relacionado a usurpação de território e de direitos humanos e direcionado aos perpetradores desta usurpação.”

      Só tem um pequeeeeeeeno problema com a sua tese Felipe: esse NÃO é o pleito dos palestinos. Sim, sei que eles DIZEM ser esse, mas já provado, algumas vezes, que é mentira. SE fosse, porque recusaram a desocupação? SE fosse, porque não havia paz antes de 67? Nesse ponto o hamas é sincero, (ao contrário da AP) não negando que seu objetivo é a aniquilação de Israel.

    • Felipe

      26/11/2015 at 20:55

      Recomendo o artigo de Asher Schechter no Haaretz de 18/11/15, com o qual Bruno fez este “diálogo intelectual”.
      Algumas partes do original que não aparecem aqui explicam com palavras melhores que as minhas o ponto de vista que tentei expressar.

  • Mauricio Victor

    24/11/2015 at 20:15

    Terrorismo é uma forma de atuação politica, Se o mundo ocidental acredita que a mesma é válida ou não, é um outro problema, mas o mesmo terá que se adaptar para conviver com esse meio politico. O ISIS não é o primeiro, não é o único e nem será o último a se utilizar dela. E tão pouco é uma exclusividade muçulmana, ou religiosa. A única diferença para o terrorismo muçulmano para os outros é o fato de eles estarem dispostos a se matar pelo seu objetivo, enquanto para o mundo ocidental, o “normal” é morrer pelo seu objetivo.

    • Mario S Nusbaum

      24/11/2015 at 23:22

      Tudo o que você disse é incontestável Mauricio, ou melhor, tudo menos a palavra única. Existem ALGUMAS diferenças.
      1) Não lembro de outros grupos terroristas atacando em países que não tem nada a ver com a sua causa. O ETA agia na Espanha, o IRA no Reino Unido, o Irgun em Israel e assim por diante.
      2) Todos eles tinham um objetivo claramente definido, separatismo nos dois primeiros casos e independência no terceiro.
      3) Nenhum deles matava pessoas do seu próprio povo

    • Bruno Lima

      25/11/2015 at 11:24

      Terrorismo é exatamente o contrário de atuação política. Ele se apresenta como a alternativa àquilo que os sistemas políticos oferecem. Há três grandes problemas nessa visão de que terrorismo é uma forma de atuação política.
      1) O terror é essencialmente anti-democrático (em seu sentido mais anti-popular) e não vê na política recursos para promover as mudanças que almeja. Ou vence o terror ou vence a política. O terror torna a “vida pública” na expressão dos interesses privados de um só grupo.
      2) O terror é, em sua maioria, ineficiente. Em geral, o terrorismo mais impede que se chegue a uma solução do que catalisa o processo de negociação.
      3) O “objetivo político” de grupos terroristas (principalmente sub grupos dissidentes da organização de origem) muitas vezes se perde ao longo do caminho. O terrorismo, e esse é o seu maior problema, torna-se um fim em si, uma ação deliberada baseada no ódio que visa exclusivamente causar caos e medo. Nesse e em muitos outros casos, violência arbitrária e terror são indistinguiveis.

    • João K. Miragaya

      25/11/2015 at 20:36

      Gostei do seu texto, mas não estou de acordo com esta sua resposta. Eu acredito que o terrorismo seja uma atuação cujos fins são políticos, mesmo que possa ser considerado ineficiente e tenha caráter antidemocrático. A política nem sempre é democrática, e atividades políticas também podem ter como intuito impedir soluções políticas. O fato de organizações dissidentes se desviarem do objetivo político inicial do grupo-mãe não os torna “não políticos”.

      Eu escreveria a sua segunda frase inserindo uma palavra, e aí estaria de acordo contigo: “Ele (o terrorismo) se apresenta como a alternativa àquilo que os sistemas político-democráticos oferecem”.

    • Raul Gottlieb

      26/11/2015 at 11:24

      Bruno,

      Quando você não está tentando culpar o Bibi por todos os males do mundo (ou apenas os da região) eu gosto do que você escreve.

      Parabéns pela resposta, Bruno. E creio que o João está procurando pelo em casca de ovo quando diz que terrorismo é um meio político, pois em última análise, tudo é: até mesmo a roupa que você veste. O que o Bruno quis dizer é que o terror é a negação da política pelos meios convencionados como legítimos pela humanidade.

      Abraço,
      Rau;

    • Bruno Lima

      26/11/2015 at 18:52

      Raul,

      Obrigado pelo elogio.

      Pelo que você diz, posso concluir que você gosta de tudo que escrevo. Afinal, eu não culpo exclusivamente o Bibi por todos os males do mundo tampouco pelos da região.

      Ironias à parte, acredito que a nossa diferença está no valor que damos à crítica (nesse caso, ao governo israelense). Eu considero a crítica não apenas um exercício da liberdade que usufruo em Israel, mas objetivamente um elemento fundamental na preservação da única democracia judaica do mundo. Por outro lado, você enxerga a crítica ao governo israelense como uma afronta ao nacionalismo judaico.

      O problema é que essa sua filosofia de defesa incondicional das políticas israelenses se demonstrou falha perante as mudanças na mentalidade ocidental – quanto mais defendemos, menos ouvimos e mais somos atacados. Tardiamente percebeu-se em Israel que essa estratégia é não apenas ineficiente, mas moralmente contraproducente. Hoje, há um reposicionamento gradual na diplomacia civil israelense nesse sentido.

      Espero que você e muitos outros possam um dia enxergar que nem toda crítica ao governo tem como objetivo demonizar o nosso primeiro-ministro (que é também ministro das relações exteriores, ministro da economia, ministro da comunicação e ministro da cooperação regional). O objetivo é sempre tornar o país um lugar melhor pra se viver – moral e concretamente.

      Abraço,

      Bruno.

    • Raul Gottlieb

      26/11/2015 at 21:54

      Você está redondamente enganado, Bruno.

      Eu absolutamente não defendo todas as políticas de Israel de forma incondicional (e concordo com a tua análise sobre as consequências nefastas desta atitude).

      Me parece que isto é uma leitura maniqueísta tua, talvez baseada em preconceitos. Mas posso estar errado, talvez eu me expresse mal as vezes.

      O que eu falo “ad nauseam” é que é preciso ver todos os ângulos do processo que colocou o mundo árabe numa posição de confronto existencial contra o nacionalismo judaico.

      Não dá para olhar um pedacinho do processo e tirar conclusões. Quando eu era da Chazit nós tínhamos uma atividade que fazia cada chanich apalpar de olhos vendados um pedaço de alguma coisa e depois descrever o que era o todo. Era um exercício muito interessante, poucos chegavam perto de acertar.

      E quando eu olho de forma abrangente, eu percebo que “nós” fomos arrastados a este confronto, contra a nossa vontade.

      Estou falando desde 1920 até hoje.

      Sob esta ótica a ocupação é uma consequência da guerra que nos foi imposta em 1967.

      O êxodo Palestino (alguns voluntários e outros forçados) é uma consequência da guerra que nos foi imposta em 1948.

      E os exemplos se sucedem, são muitos.

      O que não quer dizer que Israel não cometa os seus erros – alguns trágicos.

      Mas eu coloco na balança o fato de que uma nação condenada a viver, CONTRA A SUA VONTADE, com as armas na mão é sujeita a cometer erros. E estes erros têm que ser creditados a quem obriga esta nação a se defender diuturnamente (a Dilmanta diria que noturnamente também…).

      Antes de ser judaica, ou uma democracia, Israel precisa existir. E isto obriga a meter a mão na merda muitas vezes.

      Não sou a favor das colônias e já fui contra a ocupação, mas desde que os árabes mudaram a natureza do conflito de nacional para religioso, acho que não tem como desocupar.

      O fato do conflito hoje estar centrado na defesa de Al Aksa o torna insolúvel. Tudo o que podemos fazer é esperar esta onda religiosa árabe se auto destruir e depois voltar a conversar.

      Vejo a auto destruição do mundo árabe com pesar, não tenho nenhuma alegria em vê-los se explodir diuturnamente (em homenagem à Dimanta).

      Mas numa coisa você está certo: eu acho que você escreve coisas boas, mas acho que a tua agenda (e a do João – um amigo querido – também) está centrada em meter o pau no governo do Bibi.

      Não gosto do Bibi, mas igualmente não gosto do Meretz que tem a ousadia de comentar uma declaração antissemita do Abas como prova que o Bibi não sabe ganhar a confiança dele.

      Igualmente não acho possível analisar a situação diplomática de Israel sem analisar o antissemitismo e a estultice de seus críticos.

      Enfim, creio ser esta a essência do meu pensamento sobre a situação política de Israel. Estarei aí no mês que vem, talvez possamos nos ver.

      Abraço, Raul

    • Bruno Lima

      29/11/2015 at 12:06

      Raul,

      Ao que tudo indica pensamos de forma semelhante. Tomo o direito de parafrasear o seu último comentário – acredito que através das suas palavras será mais fácil a compreensão da minha visão.

      “Você está redondamente enganado, Raul.
      Eu absolutamente não tenho uma agenda centrada em meter o pau no governo do Bibi. Me parece que isto é uma leitura maniqueísta tua, talvez baseada em preconceitos (te convido a me indicar qualquer texto meu em que critico Benjamin Netanyahu de forma arbitrária e exclusiva).
      O que eu falo “ad nauseam” é que é preciso ver todos os ângulos do processo que colocou o mundo árabe numa posição de confronto existencial contra o nacionalismo judaico.
      Não dá para olhar um pedacinho do processo e tirar conclusões.”

      É isso. Será um prazer nos encontrarmos durante a sua estadia em Israel.

      Abraços.

  • Marcelo Starec

    27/11/2015 at 22:36

    Oi Bruno,

    Gostei muito do artigo!…Concordo plenamente com a essência do mesmo…Entendo que de fato as características em comum entre ISIS, Boko Haram, Hamas, Jihad Islâmica, Al Nusra etc. etc. etc…são um fato – não há como negar. Acho que entendi o seu ponto – devemos (Israel) tomar o devido cuidado ao afirmar essa similaridade, pois os antissemitas terminam usando isso contra Israel – não deixa de ser verdadeiro…Agora, em meu entender, de fato o ISIS e o Hamas tem um “objetivo final” parecido – digo isso pois é um objetivo declarado e está disponível (inclusive online) para quem quiser ver…mas infelizmente há um claro viés do mundo ocidental que tenta justificar o terror brutal contra civis inocentes – quando as vítimas são israelenses, mas jamais faz o mesmo se as vítimas forem outras – americanos, franceses, ingleses, nigerianos etc. E nesse ponto entendo que o Bibi tem razão em suas criticas, mas talvez deva realmente ter o devido cuidado ao colocar esses pontos – na forma de colocar (concordo contigo)….

    Abraço,

    Marcelo.