Israel abre os olhos por uma noite

por Soraya Rajs

O dia 24 de agosto ficará marcado como um dia histórico na memória de todos os israelenses que lutam pelos direitos dos animais. Nesse dia, mais de 3.000 pessoas se reuniram em uma só voz para pedir à sociedade não só um basta à violência, à crueldade e ao descaso com os animais, mas, principalmente, para pedir um fim à ignorância que nos impede de enxergar o que está por trás do nosso prato de comida, das roupas que vestimos e dos produtos que usamos: a imensurável exploração desses seres.

foto1
Imagem publicada pelos organizadores da manifestação na página oficial do evento no Facebook.

Há cerca de um mês, o advogado e ativista israelense Asaf Harduf teve a ideia de organizar um grande evento reunindo diferentes aspectos na luta pelos direitos dos animais. Harduf conseguiu recrutar as principais organizações defensoras dos animais para realizar o que seria a primeira manifestação israelense unindo a luta contra: a indústria da carne, leite e ovos; os experimentos cruéis feitos em animais; a indústria da pele e do couro; a violência contra animais domésticos; e a exploração dos animais na indústria do entretenimento.

O esforço de Asaf Harduf ganhou simpatizantes em diferentes cidades de vários países. Assim, o evento que, inicialmente, seria realizado somente em Tel Aviv, espalhou-se para 41 cidades do mundo, com o chamado: Earthlings – No Longer Blind to Injustice. Em Israel, a manifestação ganhou o título “Olhem em seus Olhos”. O empenho de Harduf e dos demais organizadores foi recompensado com a maior passeata pelos direitos dos animais já vista em Israel. Jovens, crianças, idosos, famílias inteiras vindas de diferentes regiões do país marcharam ao longo da Av. Rothschild até a Cinemateca, no centro de Tel Aviv, para dar voz àqueles que não a têm.

foto2
Imagem retirada da edição do dia 26/08/13 do jornal israelense Yedioth Ahronoth. Do lado direito, a manifestação em Israel e do esquerdo, nos EUA.

Eu estive lá. Não sou ativista e nunca havia participado de uma manifestação a favor dos animais antes. Como vegana, estava ansiosa para, finalmente, encontrar outras pessoas que pensam como eu. Preparei o meu pôster e me juntei aos gritos de “O povo! Exige! Justiça aos animais!”, uma alusão à famosa expressão que marcou as manifestações sociais israelenses de 2011: O povo! Exige! Justiça social! Mas, diferentemente dessas manifestações, que pediam mudanças no governo, a passeata do dia 24 de agosto teve como principal foco atingir a própria sociedade.

Os manifestantes acreditam que, enquanto consumirmos produtos de origem animal ou testados em animais, enquanto escolhermos comprar animais de estimação ao invés de adotá-los e, enquanto pagarmos para vê-los enjaulados, a exploração continuará a existir, pois esses seres continuarão a ser tratados como objetos.

[kkytv id=”rug_d6YKMbg”]

A quantidade de pessoas que compareceram ao local e apoiaram a causa não me surpreende. Já há algum tempo, Israel vem ganhando mais e mais adeptos na luta pelos direitos dos animais. Isso se manifesta, principalmente, pela quantidade de novos vegetarianos e veganos surgindo no país. Israel está também se tornando referência no ativismo pelos direitos dos animais. Recentemente, o grupo ativista israelense “269 Life” ganhou seguidores em todo o mundo ao realizar manifestações consideradas extremistas até mesmo para muitos veganos.

No ano passado, alguns membros do grupo tatuaram o número 269 a ferro quente em suas próprias peles, lembrando a marcação dolorosa que é comumente utilizada na pecuária com o objetivo de identificar o gado. O ato foi realizado em plena luz do dia na Praça Rabin em Tel Aviv e foi amplamente divulgado pela imprensa local e mundial. Em julho deste ano, o ato foi repetido por ativistas de vários países em apoio ao grupo israelense. O número 269 foi escolhido em homenagem a um bezerro identificado pelos mesmos dígitos, visto pelos fundadores do grupo em uma fazenda de laticínios em Israel. Desde então, a cifra tornou-se para muitos o símbolo da luta pelo fim do sofrimento animal.

Esses ativistas sabem que a sociedade israelense não mudará de uma hora para outra. Mas através do esforço dessas pessoas, o veganismo vem ganhando cada vez mais adeptos e mais destaque nos meios de comunicação. É claro para todos que a maioria das pessoas não concorda com nenhum tipo de violência contra os animais. O que parece não estar óbvio para a sociedade ou o que ela não quer enxergar é que ela própria financia essa crueldade.

foto3
Photo copyright : Yaron Eini (yaronein@hotmail.com)

“Separem-se do cinismo e da repressão psicológica, deixem o passado para trás. Não importa o que fomos ontem, importa o que seremos amanhã. Então quem vocês querem ser amanhã? Aqueles que devolvem a venda aos olhos? Ou aqueles que resolvem agir?”. Assim Asaf Harduf, idealizador da maior manifestação a favor dos animais já vista em Israel, abriu os olhos da sociedade israelense, mesmo que isso tenha durado somente algumas horas.

E você leitor, qual a sua escolha?


Saiba mais sobre a manifestação (matérias em hebraico): aqui e aqui.

Saiba mais sobre o grupo ativista 269 Life (site em inglês).

Saiba mais sobre o ativismo pelos direitos dos animais em Israel (site em inglês).


Soraya é curitibana, tem 30 anos e é casada com o Daniel Rajs.

Vegana, ama os animais e já adotou três cachorras.

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Israel abre os olhos por uma noite”

  • Marcelo Treistman

    29/08/2013 at 10:09

    Soraya, parabéns pelo texto. Gostei muito!

    Já algum tempo acompanho a sua transformação alimentar e “luta” em prol dos direitos dos animais. Aprendi muita coisa contigo, recebi muita informação interessante e mudei a forma de pensar em vários aspectos.

    Espero sinceramente que os matadouros não acabem (e que não acabem com o meu figado de ganso)
    mas, se no final, o discurso acima contribuir de alguma forma para melhorar a condição de vida desses animais, e a qualidade da morte desses animais, isso, por si só, já será uma imensa vitória.

    Mais uma vez, parabéns e obrigado pelo seu testemunho.

    ———–

    Marcelo Treistman é carioca, tem 31 anos e é amigo do Daniel Rajs.

    Onívoro, ama os animais ao ponto ou levemente mal passado.

    ———–

    Abraços

  • Soraya

    30/08/2013 at 02:38

    Marcelão,

    Obrigada pelo comentário e pelo espaço.
    Obrigada por expor esse tema.

    As pessoas precisam entender que, sim, existe um grave problema na maneira como tratamos os animais. Precisam entender as proporções disso. Escondem-se por trás da desculpa que “temos coisas mais importantes para resolver”. Não querem ser informadas sobre a crueldade que existe por trás da exploração animal. Isso, porque no fundo elas se importam com eles e têm medo de querer mudar. As pessoas têm compaixão, mas o medo de trocar alguns ingredientes no cardápio fala muito mais alto. Infelizmente.

    Por outro lado, as coisas estão mudando aos poucos e eventos como esse são a prova disso.

    Eu te achava um caso perdido, mas saber que consegui mudar sua maneira de pensar me enche de esperanças!