Israel além da Hasbará

guila 7Guila Flint possui uma história diferente dos demais jornalistas brasileiros cobrindo o Estado de Israel. Em 1969, ainda adolescente, imigrou para um Kibutz e desde então vive no país. Mais do que uma correspondente brasileira vivendo em Israel, Guila é testemunha viva da história do Estado Judeu.

A jornalista tem dois livros publicados, “Israel, Terra em Transe: Democracia ou Teocracia?”, em parceria com a socióloga Bila Sorj, uma coleção de entrevistas com importantes figuras israelenses discutindo a questão da religião no País; e o mais recente, Miragem de Paz: Israel e Palestina Processos e Retrocessos, da editora Civilização Brasileira que reúne uma seleção de textos publicados por Guila na imprensa brasileira.

Em agosto de 2012, estive em seu apartamento em Tel Aviv para uma conversa que resultaria em um trabalho acadêmico para meu mestrado e que agora foi adaptada para o Conexão Israel.

 

Como você começou sua carreira como correspondente?

Eu comecei em jornalismo aqui em Israel, trabalhando para imprensa local e escrevendo sobre o Brasil. Foi em 91, época do Impeachment do Collor. Mas comecei mesmo a trabalhar full time em jornalismo para o Brasil em 95. Em novembro, logo depois do assassinato do primeiro ministro Itzhak Rabin. Eu estava no Brasil quando ele foi assassinado, e aquilo me chocou muito. Eu tinha muita esperança no processo de paz que ele estava encaminhando, criando uma relação de confiança com Yasser Arafat, e apesar das dificuldades parecia que ia dar certo. Com o assassinato eu escrevi um texto curto. Foi uma reação pessoal, senti que precisava fazer alguma coisa. Mostrei o texto para um amigo que trabalhava no Jornal da Tarde e acabou sendo publicado. Em consequência daquele texto o editor de Internacional do jornal me convidou para ser correspondente quando eu voltasse para Israel.

A partir daí outros veículos como Estadão, Globonews e BBC Brasil me convidaram. Em um ano e meio eu comecei a trabalhar simultaneamente para vários meios de comunicação. Eu era a única jornalista brasileira aqui. Havia alguns que trabalhavam para a imprensa judaica, mas para imprensa geral naquela época eu era única.

E como foi esse início da carreira de correspondente brasileira?

Eu sempre me interessei pela politica da região. Eu sempre li jornal, sempre estive atenta. E fui aprendendo aos poucos, fazendo contatos, aprendendo como trabalhar. No começo eu era muito mais tímida, não era óbvio para mim que as pessoas falariam comigo. E também, o Brasil, naquela época, tinha uma posição muito mais fraca aqui em Israel do que a que ocupa hoje. Em 95 os israelenses em geral não sabiam nada sobre Brasil, havia certa arrogância de um país supostamente de primeiro mundo em relação a um de terceiro mundo. Para a maioria era apenas futebol e carnaval, não era considerado um país sério. Se você precisasse falar com um porta-voz e se identificasse como correspondente de um jornal brasileiro a atenção seria mínima. Não era fácil.

Isso mudou radicalmente. Foi um processo. Um ponto de virada interessante foi 2005 com a primeira visita de [ex-ministro das relações exteriores] Celso Amorim, que foi muito bem sucedida. A partir daquele momento os porta-vozes governamentais perceberam que o Brasil estava virando um país sério. Ele fez um trabalho muito eficiente de melhorar a imagem do Brasil na comunidade internacional, e aqui eu senti isso. E, claro, o crescimento e a importância econômica também influíram.

Capa do livro "Israel: Terra em Transe"
Capa do livro “Israel: Terra em Transe”

E nos Territórios Palestinos?

Nos territórios palestinos o fato de ser brasileira sempre me ajudou, os palestinos gostam muito do Brasil. O futebol era um dos elementos principais, era, porque hoje em dia é a política. A atuação do Brasil em favor do Estado Palestino na área internacional, principalmente depois da visita de Lula em 2010 e do reconhecimento do Estado Palestino pelo Brasil, sendo o primeiro da América Latina, contribuiram muito para a imagem positiva do Brasil entre os palestinos.

Como é o seu processo de trabalho?

O trabalho requer muita leitura, muitas conversas com especialistas de todos os tipos, ouvir as posições diversas sobre o mesmo tema. E de preferência ir ao local do acontecimento. O jornalista deve saber detalhes. Do fato todos tem conhecimento imediatamente, mas o jornalista tem que ter conhecimento das informações detalhadas.

No caso do conflito, com o triste histórico de violência, certos eventos no início são difíceis de ser relatados, mas o ser humano se adapta. Eu me lembro de um dos primeiros grandes atentados suicidas em Tel Aviv, do ônibus da linha 5, na Rua Dizengoff, em 1994, deixando mais de 15 mortos. 

Na época a imprensa e a sociedade não sabiam como agir. Foram publicadas fotos chocantes do ônibus dividido em dois, pedaços de cadáveres nas árvores, corpos enfileirados. Cenas de horror absoluto. A imprensa fez todos os erros possíveis. As forças de resgate não sabiam como lidar com o corpos, pois de acordo com a lei judaica o corpo inteiro deve ser enterrado junto.

Hoje em dia, depois de centenas de atentados suicidas, virou rotina, existe um modus operandi que já é adotado por todos. Por exemplo, hoje se sabe que ao invés de tentar recolher cada pedacinho do corpo se corta o galho da árvore inteiro. Infelizmente as pessoas se acostumam aos piores horrores e aprendem como lidar com eles.

Agora, novamente, o jornalista deve saber os detalhes. O macro todo mundo sabe, explodiu um ônibus, morreram tantas pessoas. O jornalista deve saber onde foi, quanto tempo demorou até as forças de resgate chegarem, quem assumiu a autoria, como Israel reagiu, da onde era o responsável, qual a história pessoal do suicida. São detalhes, e você tem que ir atrás desses detalhes.

Você acompanha a cobertura brasileira sobre Israel?

Sim, e eu acho que a imprensa é pluralista. Eu já li coisas em veículos que se auto-definem como esquerda que beiram ao antissemitismo, que enxergam a sociedade israelense como monolítica. É uma visão racista, já que Israel não é monolítica. Por outro lado existe a imprensa que acha que Israel é a vítima e que não enxerga os palestinos como seres humanos. E no meio há a imprensa profissional, que faz trabalhos de alta e baixa qualidade, mas que coloca a informação de uma maneira correta. Eu estou falando dos grandes veículos, grandes canais de TV e impressos. As TVs, por sua própria natureza fazem um trabalho mais superficial, porque as reportagens tem um limite de tempo, mas mesmo na TV já vi alguns jornalistas que fizeram um trabalho excelente, como Alberto Gaspar e Carlos de Lannoy, da Globo.

E depende da capacidade, da honestidade e do público alvo de cada jornalista. Se um jornalista que escreve aqui tem como foco o público da Hebraica, o texto vai sair de uma maneira. Se ele escreve para Brasil em geral o texto vai sair diferente. O Marcelo Ninio [ref]Correspondente da Folha de São Paulo em Israel na época da entrevista.[/ref], por exemplo, faz uma cobertura séria, honesta, e escreve para a Folha de São Paulo, o maior jornal do Brasil. Então não se pode generalizar. Por outro lado há o Reinaldo Azevedo, da Veja, que escreve uma porção de absurdos e é aplaudido pelo establishment da comunidade judaica. Temos de tudo.

Há também os que escrevem para veículos panfletários de uma certa esquerda que comparam Israel com o nazismo, que é uma comparação absurda que não ajuda a entender a realidade. Israel exerce uma ocupação militar, essa ocupação envolve segregação, confisco de terras, repressão, violação dos direitos humanos, mas entre isso e o nazismo ainda há uma diferença enorme. Esse tipo de equiparação não ajuda a entender, confunde ainda mais.

Aliás, vale mencionar um caso emblemático que aconteceu há 10 anos quando José Saramago esteve aqui. Ele foi aos territórios palestinos, viu a situação, ficou muito chocado, e deu uma entrevista comparando a ocupação israelense com o regime nazista e afirmando que os territórios são campos de concentração. Uma das jornalistas que o estava entrevistando era a israelense Amira Hass, do Jornal Haaretz, que cobre os Territórios Palestinos há muitos anos e é a única jornalista israelense que mora em Ramallah. E os pais dela eram sobreviventes do Holocausto. Daí a Amira se virou para Saramago e disse “Se este é um campo de concentração onde estão as câmaras de gás?” E Amira defende veementemente os direitos dos Palestinos, já recebeu muitos prêmios por sua cobertura e não é suspeita de ser tendenciosa em favor da politica de Israel. Nós sabemos muito bem que não é a mesma coisa. Essas comparações são antididáticas, injustas, manipulativas.

E há também a negação do Holocausto, dizendo que seria uma invenção sionista para justificar a política israelense. Eu já li coisas de brasileiros, que se dizem jornalistas, onde estava escrito que no Holocausto não morreram 6 milhões, morreram no máximo 1 milhão. E que as câmaras de gás foram inventadas pelos Russos após o fim da II Guerra Mundial. É um absurdo total.

Por outro lado há também absurdos na comunidade judaica que são propagados indiscriminadamente, como o caso das noivas de 5 anos em Gaza. Fotos de meninas vestidas de branco dando as mãos para homens de terno em Gaza foram propagadas por membros da comunidade judaica nas redes. O texto acusava os palestinos de pedofilia, e afirmava que os palestinos se casam com meninas de 5 anos, quando na verdade eram damas de honra, já que no casamento muçulmano a noiva só aparece na hora da cerimônia em si. De vez em quando vejo que continuam publicando essa mentira. Essa visão maniqueísta existe dos dois lados. 

Capa do livro "Miragem de Paz: Israel e Palestina Processos e Retrocessos"
Capa do livro “Miragem de Paz: Israel e Palestina Processos e Retrocessos”

Você não acredita no discurso comum na comunidade judaica de que Israel é massacrado pela imprensa?

Não, a imprensa profissional faz um bom trabalho – eu diferencio a imprensa profissional da imprensa panfletária, seja de esquerda ou de direita. A profissional relata os fatos e repercussões dos eventos.  O grande interesse por Israel se deve a dois fatores: primeiro à localização geográfica do país, no meio do Oriente Médio, maior fonte de petróleo do planeta, o que faz com que qualquer evento na região tenha consequências imediatas e às vezes desastrosas para a economia mundial.

Segundo, uma expectativa de que um país que foi fundado por refugiados de guerra saiba tratar o outro de uma forma mais humana, especialmente depois do Holocausto. Eu vejo muito na comunidade judaica a frase “por que ninguém se revolta contra massacres na África e quando Israel ataca um vilarejo palestino o mundo todo se importa?”. Sim, é uma pena que o mundo não se revolte mais contra as barbáries na África, mas o mundo espera mais de Israel exatamente por seu passado. E criticar a politica de Israel não é antissemitismo.

Você acompanha a repercussão do seu trabalho no Brasil?

Quando eu comecei a escrever para internet, no Portal Terra, eu fiquei horrorizada com a violência dos comentários. Quem geralmente escreve comentários são os mais fanáticos, de ambos os lados. Essa agressividade não é direcionada a mim, eles pegam um gancho do texto e começam a discutir entre eles, num nível baixíssimo. Mas isso não é uma amostra real do que são os leitores. Os mais racionais normalmente não escrevem comentários.

Já o retorno dos colegas de profissão é bom, claro, depende do círculo em que você está. De vez em quando eu recebo uma alfinetada de pessoas da comunidade judaica, acusações do tipo que eu “lavo roupa suja fora de casa”, e que não deveria escrever certas coisas porque, segundo eles, incentivam o antissemitismo. Daí eu tento explicar que no século XXI, com internet e Youtube, não existe mais dentro de casa e fora de casa.

Não adianta tentar fazer Hasbará [ref]Palavra em hebraico que significa “explicação” e é utilizada como uma tentativa de melhorar a imagem de Israel no mundo.[/ref] só procurando os lados bons de Israel, porque o lado ruim aparece na mídia internacional em um segundo. Se alguém de fato se importa com o que acontece aqui a primeira coisa deveria ser procurar saber realmente o que acontece. Não adianta ficar de olhos fechados só procurando o Instituto Weizmann e as laranjas. É necessário olhar para a cara verdadeira dessa  realidade para tentar mudá-la. Falar que não se lava roupa suja fora de casa ainda é a mentalidade do Shtetl [ref]Antigos vilarejos judaicos na Europa Oriental.[/ref].

Qual a sua visão sobre a situação atual de Israel?

Eu estou muito pessimista quanto ao futuro de Israel e o processo de paz. É muito triste ver que nada avança, perceber que a sociedade está cega. Uma cegueira histórica. É especialmente triste o fato de um povo como o povo judeu, que passou pelo Holocausto, não ter empatia pelo sofrimento do outro. Depois de tudo o que passou deveria ser o primeiro a educar suas crianças a serem sensíveis ao sofrimento do outro, mas a gente vê, por exemplo, o caso do linchamento de um adolescente palestino[ref]http://www.haaretz.com/news/national/in-suspected-jerusalem-lynch-dozens-of-jewish-youths-attack-3-palestinians-1.459002[/ref] por crianças de 13, 14 anos. Crianças, com pais, que vão à escola, e que crescem com ódio do outro. E não é um incidente isolado, é um sintoma da doença do racismo que a sociedade Israelense está vivendo. Isso se manifesta não só contra os árabes, mas com os refugiados africanos, com tudo que é o outro.

E isso é triste olhando pra grande contribuição do povo judeu para o humanismo. Nós temos Freud, Einstein, Marx. E eu me pergunto pra onde foi essa tradição humanista? Ela é ausente em nível de Estado. Claro, ainda existem humanistas judeus. Existem ONGs de Direitos Humanos em Israel, existem pacifistas, que são os justos dessa sociedade. Israel, ao invés de segregá-los ou reprimi-los deveria agradecer a esses humanistas que ainda existem aqui pelo trabalho que fazem. Porque são eles que ainda preservam a tradição humanista do judaísmo.

Mila Chaseliov é formada em Comunicação pela Uiversidade Federal do Rio de Janeiro, mora em Jerusalém desde 2011 e faz mestrado na Universidade Hebraica.
Mila Chaseliov é formada em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mora em Jerusalém desde 2011 e faz mestrado na Universidade Hebraica.

Comentários    ( 15 )

15 Responses to “Israel além da Hasbará”

  • Raul Gottlieb

    28/04/2013 at 16:59

    Ao longo do dia me ocorreu que vale a pena comentar também a respeito da afirmação de que Israel é “um país fundado por refugiados de guerra”, visto que ela é completamente equivocada.

    Os fundadores de Israel não chegaram aqui na década entre 1935 e 1945. A esmagadora maioria dos fundadores de Israel chegou aqui entre 1890 e 1940, impulsionados não pelo nazismo mas pelo sionismo.

    Os refugiados da guerra vieram a um país que estava se constituindo e que tinha instituições sólidas o suficiente para absorve-los. Os sobreviventes do nazismo catalisaram (deram um impulso significativo) a fundação do Estado, mas não o fundaram.

    A alegação de que Israel é fruto da Shoá é mais uma das falácias com que os inimigos árabes tentam deslegitimizar o sionismo, sob o olhar complacente (e as vezes cúmplice) da imprensa.

  • Raul Gottlieb

    10/05/2013 at 18:52

    Acabo de ver no G1 da O Globo: “Mulheres oram em público pela 1a vez em frente ao Muro das Lamentações”.

    Se faltava alguma coisa para entender quão ruim é a cobertura jornalística feita pelos jornais brasileiros em Israel, já não falta mais nada. Vamos aos fatos:

    a) Mulheres rezam em público no Muro das Lamentações desde sempre (ou melhor, desde que os homens também começaram a rezar).

    b) As “Mulheres do Muro” rezam em público de forma igualitária (igual aos homens) no muro há 25 anos.

    c) O que houve hoje foi apenas uma reza com mais gente – tanto do lado dos que são a favor da reza igualitária pelas mulheres como por parte dos que se opõem a isto.

    d) A meu ver, é impossível um jornalista minimamente familiarizado com este assunto cometer os absurdos que foram escritos no G1. Ou a reportagem foi feita por uma pessoa completamente desinformada ou a editoria do Brasil distorceu gravemente o que o jornalista informou.

    e) Ambas hipóteses mostram que a cobertura de Israel é terrivelmente mal feita. Talvez possa se dizer que a cobertura de outros países também o seja. Mas isto não melhora nada a questão, não é mesmo?

    f) Se eles erram assim neste assunto interno, porque não erram também nos reportes do conflito?