Israel do Nahum

11/12/2015 | Sociedade

Trabalhei com o Nahum Sirotsky, desde fevereiro de 2013 até agora. Tive o privilégio de privar com ele e ouvir histórias fantásticas sobre o jornalismo brasileiro. Sempre fatos marcantes, sendo testemunha ocular, na grande maioria das vezes.

O Nahum viveu época de jornalismo romântico, nas décadas de 1940, 1950 e 1960. Criou revistas, editou jornais e teve passagens importantes pelo rádio. Com o advento da internet, não se assustou com a nova ferramenta. Pelo contrário, foi mais um veículo dominado.

Entre idas e vindas, mais de 30 anos em Israel. Várias coberturas de guerra, conflitos, cotidiano e bastidores da política. Além de repórter, foi diplomata, adido cultural da Embaixada do Brasil. Nas próximas linhas, trago fragmentos de conversas entre nós. Bate-papos animados. Com vocês, o Israel do Nahum.

“Eu adorava pegar meu carro e sair por aí. Viajava até Rosh HaNikrá (fronteira com o Líbano, pelo litoral), apreciava a bela vista e voltava a Tel Aviv”.

“Também adorava o deserto. O pôr do sol mais lindo que tem. Em menos de duas horas, chegava lá”.

“A cada esquina, um pedaço da História. Tudo aqui é milenar. Eles mordenizam isso, mas não apagam a Antiguidade”.

“Sempre fui judeu, com muito orgulho, mas sempre tive boas relações com a Igreja Católica, com a Cúria. No fim da década de 1960, ajudei na organização da Missa do Galo em português, realizada em Belém e transmitida para o Brasil. Participei como coroinha, na hora da cerimônia. O padre me conhecia, sabia de minha origem, mas era meu amigo e me chamou. Foi uma honra”.

“Muito da simpatia dos israelenses pelo Brasil vem do tempo em que fazíamos exposições da cultura brasileira, nos Chadrei HaOchel (refeitórios) dos kibutzim. Íamos sempre às sextas-feiras, durante os jantares de Shabat. Passávamos slides, trazíamos músicas, filmes. O pessoal começava a se interessar”.

“Cheguei a conhecer líderes políticos. Eram pessoas muito simples. Vivíamos uma outra época. Não havia distâncias entre governantes e populares. Isso influenciava muito no modo de administrar”.

“Um empresário brasileiro, do ramo das comunicações, pediu minha ajuda para montar uma revista em Israel. Fiz a intermediação com o pessoal daqui, o negócio avançou, mas não fechou por conta de detalhes. Os israelenses deram muitos incentivos, mas fiscalizavam muito cada detalhe do contrato”.

“Peguei um tempo em que jornalista ia para o front, junto com os soldados. Entendo a mentalidade do israelense por ter vivido o que eles vivem”.

“Um senador nordestino esteve em Israel, fim da década de 1960. Ele me fez o pedido pitoresco de ver uma batalha. Bom, disse que era quase impossível, mas resolvi viajar para Tiberíades. Chegamos a um hotel, às margens do Mar da Galiléia, e sentamos na varanda. Pedimos suco de laranja Jaffa e ficamos conversando. Passou um tempo, cruzaram o céu aviões israelenses e sírios. Todos se esconderam embaixo das mesas. Ouvimos explosões. Minutos depois, levantamos. Quando fui tranquilizar o senador, ele estava eufórico. Agradeceu-me por ver a guerra de perto. Era isso que ele queria”.

“Fui muito de carro ao Sinai. Não apenas na época que Israel dominou. É uma região encantadora. O deserto e o mar. Praias fantásticas. Algumas, até, as mais lindas do mundo. Olhava para um lado e via o azul sem fim. Do outro, um tapete de areia”.

“O melhor café de Tel Aviv fica na frente da minha casa (rua Iehuda HaNassi, bairro Ramat Aviv). Atravesso, bebo e sou bem atendido. Criei amizade com todos daqui. O pessoal da farmácia, do mercadinho, da quitanda. Parece uma cidade do interior, mas é um bairro nobre”.

“Ramat Aviv era considerado longe quando compramos o apartamento. Todo mundo queria morar no centro de Tel Aviv. Minha mulher foi visionária e disse que iria valorizar. Ela tinha razão. Anos depois, pagavam muito mais para morar ao meu lado”.

“Eu era repórter durante a Guerra dos Seis Dias. Recebi a informação de que haveria a conquista da Cidade Velha de Jerusalém. Fui um dos primeiros jornalistas a entrar, com os soldados israelenses”.

“Existem muitas diferenças entre Jerusalém e Tel Aviv. Uma é na serra. A outra, no litoral. As mentalidades também conflitam. O religioso e o cosmopolita. O santo e o profano. Para mim, em apenas 40 minutos, eu viajo de uma para outra. Era quase uma coisa só”.

Foto: Daniela Feldman Niskier.

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Comentários    ( 14 )

14 Responses to “Israel do Nahum”

  • Raul Gottlieb

    11/12/2015 at 12:57

    Bonito, Nelsinho. Muito legal.

    Uma perguntinha: se o jornalismo dos anos 40-50-60 era romântico, o de agora é o que?

    Comercial? Falso? Distorcido? Tudo isto junto?

    Se puder justificar a resposta eu agradeço.

    Shabat Shalom e um feliz Chanuká

    • Nelson Burd

      11/12/2015 at 13:12

      Não vou julgar o jornalismo de agora, apenas registrei que o jornalismo daquela época era chamado de romântico. Por vários motivos. Dentre eles, muitos escritores e poetas nas redações, por exemplo. Era uma outra época. O repórter de polícia resolvia os casos, antes da própria polícia. Os jornalistas eram boêmios. Em resumo, a época era romântica, não só o jornalismo. Chag Sameach.

    • Raul Gottlieb

      11/12/2015 at 15:51

      Nelson,

      Hoje também os jornalistas sérios resolvem as questões antes da polícia e da justiça. Veja a corrupção no Brasil. Uma grande parte da imprensa fala sobre ela há muito tempo, bem antes da justiça e da polícia atuarem.

      Os jornalistas de hoje seriam abstêmios frequentadores de palestras eruditas e jogadores de bridge? Creio que eles são tão pândegos do que os de outrora,

      O que eu penso que existe é uma saudosismo injustificável, mas muito compreensível. do passado que não vivemos. Sempre achamos que “antes era melhor”. Mas não vivemos estes antes.

      O melhor lugar do mundo é aqui e agora, Nelson. Enquanto estamos vivos.

      Abraço, Raul

    • Nelson Burd

      11/12/2015 at 18:00

      O saudosismo, neste caso, vem muito de quem viveu aquele tempo. Concordo contigo na questão de viver o presente. Abraço.

  • Rita Burd

    11/12/2015 at 13:03

    Nelson, através de ti, convivi com o muito amado Nahum. Um guri, cabeça jovem, espirituoso, querido e muito carinhoso.
    Visitar o Nahum era um passeio mais do que agradável, inesquecível.
    O grande, imenso amor do Nahum pela esposa, me comovia. Era lindo.
    Conheci o Iossi, filho, também. Quando fui apresentada ao filho do Nahum, enchi de abraços e carinhos. Não podia. Ele é diretor de uma importante Ieshivá. Fiquei encabulada. Contei para o Nahum, que disse, não te preocupes, somos brasileiros e expansivos.
    Iossi, quando eu voltar ä Israel, e não mais encontrar o Nahum, vou te abraçar novamente, o teu pai, tenho certeza que vai compreender.

  • Raul Gottlieb

    11/12/2015 at 15:56

    Exemplo de jornalista romântico dos dias de hoje: um texto do árabe Khaled Abu Thoame:

    http://www.gatestoneinstitute.org/7028/palestinians-failed-leadership

  • Rita Burd

    11/12/2015 at 17:29

    Raul,
    Shabath shalom ve Chag Hanukah Sameach

    Sou do jornalismo daquela época. Época em que os jornalistas viviam juntos, trabalhavam juntos, trocavam idéias, era uma verdadeira irmandade.
    Eu fazia cobertura da Moda.
    Nunca deixei de ajudar e cooperar com quem trabalhava nas outras empresas. Éramos colegas, o nosso objetivo era que os leitores recebessem a melhor informação.
    Quando uma de nós se destacava em alguma matéria especial, os primeiros elogios e reconhecimento vinham das jornalistas, colegas das outras empresas.
    O mundo da imprensa cresceu, mudou, a concorrencia se tornou um fato, assim como a convivencia e as amizades se diluiram.

    • Nelson Burd

      11/12/2015 at 17:58

      Verdade. Bons tempos.

    • Raul Gottlieb

      12/12/2015 at 13:21

      Olá Rita, tudo de bom para você também.

      Eu olho para a geração dos nossos filhos e vejo algo muito diferente. Vejo pessoas maravilhosas que se dedicam, por exemplo, a conduzir, apenas movidos por ideologia, um projeto de super valor como o da Conexão Israel. Vejo um grupo de amigos que se apóiam incondicionalmente no complicadíssimo passo da imigração e da construção de carreiras sem contar com o benefício do networking da família e do período escolar. E que fazem tudo isto com um sorriso imenso e com muita pouca reclamação.

      A concorrência já existia nos anos 50-60-70 e continuará a existir enquanto o sol insistir em não esfriar. Nos anos 50-60-70, tal como hoje, existiam jornalistas fdp e jornalistas maravilhosos. Pense um pouco e você vai conseguir listar alguns safados daquela época.

      O romantismo já existia nos anos 60 e continua a existir hoje. Acho-lo hoje é apenas uma questão de querer dirigir o olhar.

      Os bons tempos são hoje, Nelson. Você não pode ser saudoso de um período que não viveu. Isto não faz o menor sentido para mim.

      Mas claro que toda esta conversa não tem nada a ver com o Nahum. Ele foi uma das pessoas maravilhosas de seu tempo e como tal conviveu com outras pessoas maravilhosas e também com um bom número de gente horrorosa.

      Shabat Shalom,
      Raul

  • Marcelo Starec

    12/12/2015 at 22:35

    Oi Nelson,

    Parabéns!…Um excelente artigo, com tantas informações interessantes…E tenho que concordar integralmente com o Raul, no sentido de que hoje também existem muitos jornalistas (com esse nome ou com nome similar – como blogueiros etc…) que fazem um trabalho com ideal – limpo e bonito…E é certo, o Conexão é um exemplo disso…Posso não concordar com tudo o que é aqui colocado, mas qualquer um pode facilmente notar que é uma revista feita com ideal, com o objetivo de dar a melhor informação possível ao leitor. E acredito também que sim, a nostalgia é uma característica do ser humano que, por motivos até mesmo biológicos, literalmente, tende a apagar da memória as coisas ruins e somente se lembrar das boas…

    Abraço,

    Marcelo.

  • eva sonnenreich

    14/12/2015 at 09:37

    Conhecemos Nahum,

    Homem de fibra, nao tinha medo de falar o que pensava. Agia. Foi um amigo de sempre, e sera lembrado para sempre.
    Obrigado Nelson
    Markin Tuder

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