Israel e o Acordo Ocidente-Irã

06/04/2015 | Conflito, Política.

por Marcelo Kisilevski

Em Israel, as notícias sobre o acordo desta sexta-feira em Lausanne entre as potências ocidentais e o Irã foram recibidas com ceticismo, quando não com explícito desgosto.

Os três diários mais importantes estavam divididos nesta sexta-feira em suas edições especiais de Pessach. O Maariv mostrou-se a favor. O Israel Hayom – alinhado com todas as posições de Benjamin Netanyahu – se mostrou claramente contra: “O acordo com o Irã: erro histórico”, dizia sua manchete. E o Yediot Aharonot, em geral ferrenho opositor de Bibi, dividiu sua capa entre ambas as posições: “Acordo nuclear. Obama: ‘Bom acordo’; Israel: ‘Erro histórico’”.

O presidente norte-americano Barack Obama partiu em campanha pessoal para persuadir o mundo inteiro, tanto a opinião pública internacional quanto a interna, de que se trata do melhor acordo possível. Entre outros métodos de traquilização, noticiou-se nos Estados Unidos que as Forças Armadas continuam treinando, e que segue o desenvolvimento das bombas que perfuram bunkers.

O primeiro-ministro israelense Netanyahu, no entanto, apresentou-se diante das câmeras para criticar o acordo alcançado: “Todos os ministros em meu gabinete e eu somos unânimes em nosso repúdio a este acordo ruim”, sentenciou.

O analista de assuntos árabes do Canal 2 israelense, Ehud Yaari, concordou com o primeiro-ministro ao citar as palavras de Bill Clinton quando do acordo para neutralizar o programa nuclear norte-coreano, que terminaria, como é notório, com este país possuindo a bomba nuclear: “As palavras de Obama de hoje soam exatamente iguais às de Clinton na época”, comparou Yaari.

Em sua análise, o jornalista revelou nada menos que cinco desencontros entre as versões ocidental e iraniana do acordo. Para os vorta-vozes iranianos, os ocidentais simplesmente “mentem”.

O cinco desencontros sobre o acordo são:

  1. Fim das sanções ao Irã. Segundo o ocidente, concordou-se que as sanções seriam gradualmente retiradas. Para o Irã, um dia após a assinatura do acordo definitivo, marcada para 30 de junho.
  2. Período de suspensão do enriquecimento de urânio. Ocidente: 15 anos. Irã: apenas 10.
  3. Desenvolvimento de centrífugas de nova geração em Fordo. Ocidente: será completamente interrompido. Irã: continuará normalmente.
  4. Visitas-surpresa dos inspetores internacionais às instalações iranianas. Ocidente: o Irã aceitou. Irã: de maneira alguma.
  5. Destino do urânio já enriquecido, o “urânio das sete bombas”. Ocidente: a maioria será transferida para outro país, provavelmente a Rússia. Irã: permanecerá no Irã.

Neste estado de coisas, é difícil vislumbrar um caminho fácil para o acordo definitivo, e em Israel muitos estão convencidos que de tudo o que o Irã faz – concordar, discordar sobre o que foi concordado e conseguir outro adiamento – é parte de suas manobras para ganhar tempo e continuar avançando com o desenvolvimento de seu poderio nuclear. Em vista do caso norte-coreano, e dos exemplos que se acumulam de dribles iranianos, é possível compreender o nervosismo israelense.

 

Traduzido por Claudio Daylac. Leia o artigo original aqui.

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Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Israel e o Acordo Ocidente-Irã”

  • Marcelo Starec

    06/04/2015 at 17:59

    Oi Marcelo e Claudio,
    Muito interessante a análise!…Em meu entender, de fato, há motivos justos, de sobra, para Israel e os seus vizinhos árabes estarem preocupados com esse acordo. Alguns deles: 1) O Irã de fato está intimamente ligado a Grupos Terroristas no Oriente Médio e no mundo, exemplos são o Hamas, o Hezbollah, as milicias Hooti e por aí vai…2) O Regime dos Ayatollas de fato acredita em montar um novo império Persa e por fim, mas não menos importante, o Irã dos Ayatollas sempre afirmou pretender aniquilar Israel – está próximo e terá tecnologia nuclear e ainda estaria desenvolvendo um programa de mísseis balísticos, segundo consta também na mídia. Assim, a afirmação de que a questão é existencial para Israel e seus vizinhos, mas estratégica para EUA e os demais faz todo o sentido.
    Um abraço,
    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    06/04/2015 at 21:16

    O que ainda não entendi é que os EUA ganharam com esse “acordo”.

  • Raul Gottlieb

    07/04/2015 at 12:53

    Há um argumento a meu ver indefensável contra o acordo: “Estando o Irã profundamente envolvido como força agressora no Iemen, na Libia, na Síria, no Iraque, no Líbano, em Gaza (e talvez em outros lugares) descongelar bilhões em dólares de ativos iranianos vai aumentar o poder do Irã em desestabilizar o Oriente Médio. Portanto o acordo contribui para a guerra e não para a paz”.

    Discuti sobre isto com um amigo no fim de semana. Ele achou o argumento muito simplista.

    Pode até ser meio superficial, mas nem ele nem mais ninguém conseguiu me dizer que o argumento está errado e que a riqueza a ser adquirida pelo Irã vai contribuir para a criação de um Oriente Médio de paz e harmonia entre sunitas, shiitas, curdos, judeus e os demais grupos que lá habitam.

    Então o acordo é um péssimo acordo. Pelo menos na minha simplória cabeça de engenheiro que enxerga a casa no quadrante esquerdo da charge que o Yair mandou.

    Isto tudo sem falar que o mundo já parou de tentar explicar há muito tempo (muito tempo mesmo), porque cargas d’água o detentor da segunda maior reserva de combustível fóssil do mundo precisa desenvolver fontes alternativas de energia (a alegação oficial do Irá para o seu programa nuclear).

    O Obama é um perigo para o mundo. A minha atual esposa diz que não consegue entender porque ele faz o que faz e o que ele pensa. E ela tem razão nisto. Não dá para entender.

    • Mario S Nusbaum

      07/04/2015 at 15:37

      “Pode até ser meio superficial, mas nem ele nem mais ninguém conseguiu me dizer que o argumento está errado” Discuti esse péssimo acordo até a exaustão Raul. Existem vários tipos de pessoas que o defendem: anti-semitas, anti-EUA, sonhadores (do tipo paz e amor), que não fazem a mínima ideia do que o Irã vem fazendo no OM, otimistas extremados, etc

      “O Obama é um perigo para o mundo. A minha atual esposa diz que não consegue entender porque ele faz o que faz e o que ele pensa. E ela tem razão nisto. Não dá para entender.” Um grande perigo Raul e eu também nunca entendi. Em uma dessas discussões um árabe deu uma explicação que me pareceu razoável: ele quer aparecer, estar sob os holofotes, não importa o custo e as consequências.

Você é humano? *