Israel erra quando escolhe guerra

14/08/2014 | Conflito

Não me considero um pacifista por não ver a paz como um fim. Acredito que a paz seja um componente fundamental para os processos sociais, que culminariam nos fins nos quais acredito. Minha opinião é a de que, sim, há guerras justificáveis. Comparto da visão de Clausewitz (foto), no entanto, de que a guerra é a continuação da política por outros meios. As guerras são acontecimentos políticos, e devem ser entendidas desta forma. Eu diria, então, que em determinados casos, quando a guerra não é evitada, temos o sinal de um fracasso político. E é exatamente este o meu tema neste artigo.

Carl von Clausewitz
Carl von Clausewitz

Não sou um especialista em estratégias militares, estou longe disso. Para falar a verdade, não sou um especialista em nada. Mas gostaria de questionar estes mesmos especialistas, e serei obrigado a me contradizer, mas prometo resolver esta confusão no final. Apesar do entendimento de que a guerra é um acontecimento político, acredito que os militares não são especialistas em política. Na realidade, a política israelense é contaminada por doutrinas militares, e isto é nocivo demais para a sociedade. É verdade que alguns dos maiores estadistas da história do país foram militares de alta patente. Aliás, praticamente todos os Primeiros Ministros de Israel, ao longo destes 66 anos, se não foram generais do exército, ao menos antes de ingressarem na política, ou serviram o exército como oficiais combatentes, ou ao menos foram encarregados de pastas do alto escalão do Ministério da Defesa. Mas não só na política este pensamento interfere: a sociedade israelense é muito influenciada por esta cultura militarista. Há uma expressão em hebraico que diz: “O povo constrói o exército que constrói o povo” (עם בונה צבא בונה עם). E isso explica um pouco a mentalidade da sociedade.

Minha visão é a de que Israel constrói permanentemente um círculo vicioso, que resulta no (praticamente) inevitável uso da força de tanto em tanto tempo. Não busco aqui discutir os grupos terroristas, para quem a violência e a guerra são as únicas estratégias, algo intrínseco à sua moral[ref]Para quem ainda duvida, assista a reportagem feita pela TV Record em português sobre o Hamas aqui.[/ref]. Todos os governos israelenses, distintamente do Hamas, dizem querer paz, mas constroem há anos, junto a grupos como o próprio Hamas, uma situação bélica da qual não conseguem sair.

É praticamente um consenso entre os judeus israelenses[ref]Aproximadamente 77% da população. Não tenho informação para analisar a postura dos árabes-israelenses, e tampouco me proponho a isso. Teria que escrever outro artigo.[/ref] que a Operação Margem de Proteção foi uma “guerra justa”. A prova disto foi uma pesquisa realizada pelo Instituto Israelense de Democracia, uma das mais prestigiadas instituições do país: em 20 de julho, 95% dos judeus israelenses apoiavam a operação, e apenas 4% julgavam que Israel utilizou força em excesso[ref]http://en.idi.org.il/about-idi/news-and-updates/july-2014-peace-index/.[/ref]. A julgar pelas raras vozes pedindo o fim da operação mesmo após o cessar-fogo temporário, as opiniões não parecem ter mudado. O povo parece convicto de que a ação era necessária. Quando falamos de 95%, tenham em conta que nos referimos a homens e mulheres, direitistas e esquerdistas, religiosos e laicos. 95% são quase todos. (Curioso notar que a opinião pública no resto do mundo não compactua com esta visão.) É natural que, quando 65% da população escuta quase que diariamente (se não mais) sirenes anunciando que foguetes foram disparados na sua direção, ou que dezenas de túneis foram construídos, boa parte deles com o objetivo único de realizar atentados terroristas contra a população civil que habita o sul do país[ref]Além dos foguetes e túneis, três atentados terroristas foram realizados na região metropolitana de Jerusalém: um a facadas, outro a tiros, e o terceiro com um trator que derrubou um ônibus e causou uma morte, fora a do terrorista[/ref], esta cobre do governo uma atitude. Esta mesma população está disposta a arriscar as vidas de seus familiares nesta operação[ref]Mais de 80 mil reservistas foram convocados, e somaram-se aos mais de 176 mil que estão na ativa. Somados, chegam a mais de 3% da sociedade israelense.[/ref]. Escutei de pessoas das mais variadas filiações políticas e religiosas, classes sociais, gêneros e idades: esta guerra é necessária. Eu consigo perfeitamente compreender este pensamento. Não posso, contudo, estar de acordo.

Assisti a diversos especialistas militares na televisão, e cada vez que os escutava, mais me convencia de que eles estão errados. Posso analisar esta guerra sob um ponto de vista moral e pragmático. Parte disso já fiz em um artigo, escrito em meados de julho. Pretendo complementá-lo, agora.

Levi Eshkol
Levi Eshkol

Israel não busca soluções não militares ao lidar com os palestinos. Tal qual a percepção de Washington Luís, ex-presidente brasileiro nos anos 1920, sobre a questão social (um caso de polícia), o entendimento dos mais distintos governos israelenses sobre os palestinos parece ser semelhante: uma questão militar. É compreensível que nos primeiros anos do Estado, os árabes palestinos fossem vistos como inimigos, a partir de uma perspectiva generalizante. Não só os palestinos, aliás, que de 1949 a 1967 estiveram sob controle egípcio ou jordaniano: os árabes cidadãos de Israel viveram sob um regime militar até 1964, quando o Primeiro Ministro Levi Eshkol (foto) decidiu remover esta política que existiu ininterruptamente durante o período no qual David Ben-Gurion chefiou o Estado. Por incrível que pareça, esta marca histórica não é a mais significativa para justificar o meu ponto.

A instabilidade pós-Guerra de 1948 resultou numa forte tensão entre Israel e suas fronteiras, sobretudo naquelas onde habitavam palestinos. Desde 1949, os refugiados palestinos cruzaram as fronteiras quase que diariamente para buscar seus pertences abandonados em suas casas, onde já viviam israelenses desde o fim da guerra. As Forças de Defesa de Israel (FDI) deixaram de fazer vista grossa a e esta “invasão” a partir do momento em que a entrada dos palestinos resultou em violência. Aos poucos, sobretudo após a subida de Gamal A. Nasser ao poder no Egito, alguns palestinos foram incentivados a realizar atentados terroristas contra israelenses, evocando a resistência palestina. Neste momento, Ben-Gurion e o exército israelense adotaram uma política conhecida como Doutrina da Retaliação[ref]Para quem lê hebraico, clique aqui para ter acesso à uma longa lista de atividades de represália das FDI, no próprio site dos paraquedistas[/ref] [ref]Para quem lê inglês, recomendo a obra de Benny Morris (1993) Israel’s Border Wars, 1949 – 1956. Arab Infiltration, Israeli Retaliation, and the Countdown to the Suez War. Oxford University Press.[/ref] (פעולות תגמול), que basicamente consistia em revidar qualquer movimento hostil ao território e à população israelenses. Melhor que eu, o ex-Primeiro Ministro Ben-Gurion definiu o que era esta doutrina:

“Não temos poder para garantir que as linhas de tubulação de água não serão explodidas, ou que as árvores não serão derrubadas. Nós não temos o poder de impedir que os assassinatos de jardineiros, ou de famílias inteiras enquanto dormem, mas temos o poder de definir um preço elevado para o nosso sangue, um preço que seria muito alto para as comunidades árabes, os exércitos árabes e os governos árabes para suportar”.[ref]Tradução minha. Retirado do wikipedia, a partir da citação da obra:  ALLON, Yigal (1970) Shield of David. The Story of Israel’s Armed Forces. Weidenfield and Nicolson. SBN 297 00133 7. Page 235. Allon attributes a identical quote to Moshe Dayan, Israel’s Chief of Staff.[/ref]Naquele momento, não havia problema em classificar estes atos como casos de vingança[ref]Interessante notar que a destruição da casa do terrorista era uma medida tomada naquela época, que segue em curso até os dias de hoje[/ref] (como o fez de forma crítica o ministro Moshe Sharett). Um leitor mais atento, encontrará citações de Ariel Sharon (então um importante coronel das FDI) ou de Moshe Dayan realçando esta mirada.

David Ben-Gurion
David Ben-Gurion

É compreensível (não necessariamente justificável) que naquele momento as FDI se vissem obrigadas a demonstrar força. O país estava em formação, o orçamento do governo era limitadíssimo (Israel era um país pobre), dezenas de milhares de imigrantes chegavam todos os anos e todos os países fronteiriços (e outros um pouco mais distantes) eram inimigos. Antes de 1967, Israel não era uma potência militar na região, apesar da heróica vitória na guerra de 1948. Havia uma preocupação real, tanto do governo quanto do exército, em relação à possível destruição do novo Estado recém-criado, caso houvesse uma guerra com os países vizinhos. Esta doutrina surgiu neste contexto: mostrar força, por mais que custe vidas. Que os inimigos não pensem que seus ataques serão em vão. Que não ousem atacar Israel, pois perderão em dobro. Que os cidadãos israelenses possam sentir-se mais seguros, pois alguém responderá quando houver a possibilidade de ataque a suas cidades.

Onde eu pretendo chegar, o leitor deve estar se perguntando? É evidente que as FDI de hoje, temidas, poderosas e superequipadas, não necessitam destas atividades. Elas podem agir de forma mais ética que o terrorista, e buscar atingir somente os responsáveis pelas ações (embora isto quase nunca seja possível). O ponto fundamental, no entanto, não é sobre as práticas militares, mas sim sobre a forma como a política do governo se mescla com as ações militares. Israel de hoje, mesmo após alcançar tratados de paz com alguns países muçulmanos (algo impensável nos anos 1950/60), segue buscando soluções militares visando a “segurança dos seus cidadãos”. crêem que a destruição da casa do terrorista, ou o ataque à estrutura militar do Hamas, possa realmente solucionar a raiz de nossos problemas e trazer segurança aos cidadãos israelenses. Este pensamento é tão errado, que impressiona que tanta gente acredite nisso.

Confesso que me causa náuseas escutar discursos do Primeiro Ministro Biniamin Netanyahu, dos ministros Avigdor Liebermann ou Naftali Bennet, afirmando que o Hamas recebe um golpe forte, ou que é necessário seguir com a operação para garantir a segurança dos cidadãos israelenses, e outras coisas mais. Apesar do apelo popular, estes sujeitos não são militares, e são votados para usar a cabeça, não a força. Não me impressiona nem me incomoda que um porta-voz das FDI[ref]Ou o próprio Ministro da Defesa, Moshe Ya’alon, ex-Chefe das Forças Armadas, que foi criado nesse meio toda a vida. É importante lembrar, no entanto, que o tão criticado pela falta de experiência militar Amir Peretz, quando era Ministro da Defesa, foi o responsável por liberar a verba para o projeto do tão elogiado Domo de Ferro. Peretz foi prefeito da cidade de Sderot, na fronteira com Gaza, famosa pelos ataques de foguetes desde 2002. Não é curioso que a arma mais valiosa do país foi desenvolvida justamente quando um civil executou funções ligadas à defesa?[/ref] justifique seus feitos militares: isso é o exército. Não me impressionou tanto que um general da reserva tenha dito em canal aberto de TV, que a morte acidental de quatro crianças na praia em Gaza seja um evento muito mais midiático do que trágico. Militares são treinados para resolver os problemas desta forma: usando a força. Políticos são eleitos para comandar o país, não só o exército. Se observarmos que em menos de seis anos estamos na terceira operação em Gaza, com a triste constatação de que os terroristas têm cada vez mais armas, são cada vez mais fortes e cada vez nos dão mais trabalho, chego à conclusão de que os políticos israelenses não sabem agir no seu próprio campo, e recorrem ao exército equivocadamente.

Túnel descoberto na Faixa de Gaza
Túnel descoberto na Faixa de Gaza

Alego que Israel, mesmo sem querer, provoca situações nas quais as ações terroristas contra si serão consequência óbvia (não disse legítima) de um grupo como o Hamas. Em julho de 2014, com mais de 50 túneis construídos, mais de 9 mil foguetes nas mãos de terroristas, e um bloqueio em Gaza que põe o governo do Hamas em uma situação de desespero, era de se esperar que o governo se visse obrigado a uma ação militar. Mas eu gostaria de lembrá-lo, caro leitor, que esta é a terceira ação militar em seis anos. Ou seja, o que fizeram os governos Netanyahu neste período? Respondo: criaram um ambiente de guerra.

Como? A resposta está na cara de todos nós: há duas lideranças palestinas, uma moderada, na Cisjordânia (que nos reconhece e coopera conosco), e uma radical (que não nos reconhece e nos ataca), em Gaza. Como age Netanyahu em relação primeira? Dificulta o acordo e constrói incessantemente colônias nos seus territórios. São limitados até mesmo internamente, com barreiras. Enquanto isso, em Gaza, apesar do bloqueio, a ajuda humanitária chega aos montes. Os palestinos de lá, apesar das restrições, não convivem nem com barreiras internas, nem com colônias sendo construídas: ao contrário, têm o direito de ir e vir (dentro de Gaza), e não vêem interferência no seu dia-a-dia de nenhuma força externa. O Hamas vende seu peixe muito bem: sua narrativa é a de que eles, e só eles, são a resistência, e graças a isso não há em Gaza nenhum sionista ocupador. Sempre que se assina um cessar-fogo, angariam mais liberdades. Em eventuais conflitos, as mortes lhes favorecem, pois quem aperta o gatilho das armas que matam os palestinos não são eles, por mais que Israel lhes tente passar a responsabilidade. O ódio palestino é contra as FDI, o Hamas não tem aviões, nem tanques, nem exército. Parafraseando o escritor Amos Oz, quando morrem israelenses, bom para o Hamas[ref]Leia aqui a entrevista com Amos Oz realizada no dia 5 de agosto[/ref]. Quando morrem palestinos, bom para o Hamas. Ou seja: a guerra é ruim para Israel, ruim para os palestinos, mas boa para os terroristas. Não é de se estranhar que na última pesquisa feita em 2012, o Hamas alcançasse o primeiro lugar em eventuais eleições [ref]Veja aqui[/ref].

Mas a mentalidade militar segue dominando as ações dos políticos. Parecem viciados em retaliar, mostrar força, justificar a expressão “tranquilidade será respondida com tranquilidade”. Aquele que conversa recebe em troca assentamentos. Aquele que nos ataca recebe direitos. Qual a lógica nisso? Israel premia os terroristas, e pune os moderados. O governo insiste em pormenores em negociações com os moderados, enquanto os radicais se armam. E quando os moderados se juntam aos terroristas, formam um governo de união e afirmam desejar negociar, punimos os dois. Enquanto isso a situação piora. Parece que aqui a força bruta consegue vencer a inteligência.

Comentários    ( 49 )

49 Responses to “Israel erra quando escolhe guerra”

  • Daniel Ring

    24/08/2014 at 02:55

    João, parabéns pela lucidez.
    Gostaria de rebater um ponto colocado pelo Raul Gottlieb:
    “O dia em que o jihadismo Islâmico sofrer a mesma sorte do nazismo e os seus (então ex) aderentes e simpatizantes substituírem os seus valores pelos valores ocidentais o mundo será um lugar melhor e o entendimento entre judeus e muçulmanos será mais simples de ser alcançado.”
    Essa frase traz em si toda uma linha de pensamento altamente fascista e imperialista, implicando que os valores “ocidentais” seriam os únicos valores válidos para uma sociedade. Além disso “valores ocidentais” é um conceito um pouco vago.
    De qualquer maneira concordo que seria bom que o jihadismo islamico tivesse uma mudança de valores. Da mesma forma, e acho que esse é um dos pontos do João, o sionismo também precisa de uma mudança de valores. Desde a criação do Estado de Israel, praticamente apenas a estratégia militar foi utilizada.
    Não dá pra ficar enxergando esse conflito em termos do que aconteceu no último mês. Para que não viu, o filme The Gatekeepers, mostra essa perspectiva história contada por 6 ex-chefes do Shin Bet.
    Acredito que para alcançarmos a paz e melhorarmos a imagem de Israel no mundo, o sionismo precisa se reescrever. Não acredito que os primeiros sionistas tinham o objetivo de criar um Estado aonde os Judeus pudessem ser livres em detrimento da liberdade dos Palestinos. Não acho que a intenção deles era a formação de um Estado no qual seus cidadãos tivessem direitos diferentes em função de suas origens e credos (estou falando dos privilégios outorgados a judeus ortodoxos e direitos retirados de árabes israelenses).

    • João K. Miragaya

      25/08/2014 at 12:10

      Eu penso como você, Daniel, mas discordo do uso “fascista” nesta sua categorização. Não acho que caiba nem um pouco no caso, o fascismo é uma ideologia bastante complexa, não se aplica ao que o Raul escreveu por diversos fatores.

      De resto, estou de acordo.

      Um abraço

    • Daniel Ring

      25/08/2014 at 12:35

      Justo. Só quis chamar atenção à esse ponto que acho fundamental sobre a visão que “nós” temos “deles”. Esse idéia de que a cultura ocidental é a correta e precisa ser implementada no oriente é tão perigosa quanto o ideal jihadista de que o islã tem que ser implementado no ocidente.
      Abraço!

    • Marcelo Treistman

      25/08/2014 at 18:23

      Daniel,

      Esta sua caracterização acerca dos argumentos do Raul é completamente descabida e fora do lugar.

      Quando o Raul cita “valores ocidentais” está mais do que claro que ele se refere a valores como iluminismo, democracia, direitos humanos e liberdades individuais. Afinal de contas, isto não é tão vago assim e – de fato – estes valores são objetivamente melhores que os valores muçulmanos-radicais. A não ser que você se considere um relativista cultural, e toda a estupidez que acompanha esta definição, então você também concorda com o Raul.

      Ele não diz em nenhum momento que existe um “único caminho”. Indica, com razão, que se os fundamentalistas islâmicos abandonarem os valores presentes em seus discursos e práticas e optarem pelos valores que eu citei acima (que estão intrinsicamente vinculados a “valores ocidentais”) o mundo seria um lugar melhor.

      Argumento fascista ou imperialista seria se ele desejasse impor estes valores a força. Não é possível compreender isso no comentário do Raul. O que há na verdade é uma hierarquização de valores. Ele diz que os valores ocidentais são melhores do que os valores inseridos dentro do fundamentalismo islâmico. Esse é o ponto e eu não vejo como alguém possa negá-lo.

    • Daniel Ring

      25/08/2014 at 18:48

      Marcelão,
      concordo contigo e peço desculpas ao Raul pela minha leitura equivocada do seu comentário. Realmente não deve ter sido mesmo essa a intenção.
      De qualquer maneira, reitero o ponto porque é algo que tenho visto com frequência no debate público e continuo achando problemático o uso desse termo “valores ocidentais”. E no caso de esse termo se referir ao que você disse (iluminismo, democracia, direitos humanos e liberdades individuais) acho que Israel também precisa se aproximar mais de “valores ocidentais”.
      Abs

    • Marcelo Treistman

      26/08/2014 at 10:45

      Daniel,

      Eu não vejo nenhum problema com o termo “valores ocidentais”, mas respeito a sua concepção sobre a “problemática”.

      Compreendo que o seu desejo é tornar Israel MAIS democrática, com MAIS liberdade, com MAIS preocupação em relação aos direitos humanos. Acho isso muito bonito de sua parte e
      acredito que esta é uma luta relevante para todos os países ancorados nos valores ocidentais.

      Entre os valores presentes em Israel que, na sua concepção, precisam se “aproximar mais” de valores ocidentais e os valores presentes nas sociedades regidas pelo fundamentalismo islâmico, não tenho dúvidas de que você possui plena consciência do abismo moral existente entre eles.

      Quem dera todos estes regimes islâmicos estivessem “longe” dos valores ocidentais como Israel está neste momento, segundo a sua opinião.

      Se assim o fosse, certamente o mundo estaria muito melhor.

      Abraços

    • Raul Gottlieb

      26/08/2014 at 15:44

      Daniel

      Não precisa pedir desculpas de forma alguma. Não é um pecado interpretar errado. E também não é pecado algum ser “fascista” se isto significar julgar que os valores ocidentais são melhores que os islâmicos. Muito melhores! Anos-luz melhores!

      Mas não fiquemos nos rótulos. Vamos aprofundar o assunto. Eu te sugeri uma leitura da Declaração Universal dos Direitos do Homem e uma leitura da Declaração Universal Islâmica dos Direitos do Homem.

      Na superfície elas são quase iguais, mas diferem num ponto fundamental. Na declaração islâmica a religião (eles chamam de “Lei”) é o limite para os direitos. A pessoa tem todos os direitos ocidentais, porém desde que não infrinjam as normas religiosas.

      E as normas religiosas são definidas à la bunda-lelê, pelo religioso junto ao poderoso de plantão. É completamente arbitrário.

      Isto é claramente escravizante e opressivo. Logo, é muito ruim.

      Vale a pena estudar um pouco, Daniel. Não é absolutamente verdadeiro que todos os conjuntos de valores sejam iguais. Os valores de uma ditadura servem para oprimir e isto não é nada bom. Mesmo quando o oprimido por “kotzer ruach” (Shemot 6) não entende ou aceita a opressão.

      Leia o que sugeri e depois conversamos mais.

      Abraço cordial
      Raul

    • Raul Gottlieb

      25/08/2014 at 21:03

      Oi Daniel,

      Eu não saberia rotular o meu pensamento. Não sei se ele é fascista ou imperialista ou qualquer outra coisa. O que sim sei é que:

      a) Eu acredito que cada cultura constrói os seus valores singulares e individuais e que este valores não se equivalem. Existem valores melhores que outros.

      Como uma nota à margem, noto que se os valores se equivalessem então os valores do “fascismo” e do “imperialismo” não seriam diferentes de nenhum outro conjunto de valores e como tal não poderiam ser criticados por você.

      b) Numa definição imperfeita, mas bem adequada para este espaço de discussão, os “valores ocidentais” são aqueles expressos na declaração universal dos direitos do homem.

      c) Os países islâmicos não aceitam a DUDH, pois ela não é aderente aos seus valores. Procure na internet sobre a Declaração Universal dos Direitos do Homem e sobre a Declaração Universal Islâmica dos Direitos do Homem. Comece lendo seu texto em: http://www.alhewar.com/ISLAMDECL.html. Depois se divirta com a história de como foi concebida e quem são os seus signatários. Eu acho fascinante.

      Veja em Foreword: The Universal Islamic Declaration of Human Rights is based on the Qur’an and the Sunnah

      Veja em Explanatory Notes: The term ‘Law’ denotes the Shari’ah, i.e. the totality of ordinances derived from the Qur’an and the Sunnah and any other laws that are deduced from these two sources by methods considered valid in Islamic jurisprudence.

      Então, quando a declaração islâmica fala que “Every person has the right to express his thoughts and beliefs so long as he remains within the limits prescribed by the Law”, ela está falando que todo mundo tem o direito de concordar com a Sharia, sendo, em consequência proibido pensar diferente.

      Deixando claro que a Sharia é uma lei religiosa que tem aplicações diversas conforme o capricho do religioso que detém o poder naquele lugar.

      Com certeza você saberá deduzir o que resulta deste tipo de legislação e assim sendo eu espero que a diferença entre os valores ocidentais e os valores islâmicos tenha ficado bem clara agora.

      Eu penso que os primeiros são melhores. Mas é claro que você pode colocar óculos com poderosas lentes de cor de rosa e achar que é tudo igual e que o mundo é feito apenas de paz, amor e respeito.

      Mas você estará apenas se enganando, Daniel.

      Um abraço,
      Raul

    • Mario Silvio

      28/08/2014 at 00:45

      “direitos retirados de árabes israelenses.”
      Que direitos Daniel? Pergunto porque já contestei quem diz isso dezenas de vezes. Além de contestar sempre cito os parlamentares e juízes árabes. Com toda sinceridade nunca ouvi falar nisso.

    • Mario Silvio

      28/08/2014 at 00:55

      “aderentes e simpatizantes substituírem os seus valores pelos valores ocidentais o mundo será um lugar melhor e o entendimento entre judeus e muçulmanos será mais simples de ser alcançado.” Daniel, e se a frase fosse: aderentes e simpatizantes substituírem os seus valores pelas liberdades de expressão e religião o mundo será um lugar melhor e o entendimento entre judeus e muçulmanos será mais simples de ser alcançado, você concordaria?
      Em quantos países do OM elas existem?

      “Além disso “valores ocidentais” é um conceito um pouco vago”
      Entendo por valores ocidentais aqueles propostos, por exemplo, na Bill of Rights inglesa e na Constituição Americana. Claro que não são 100% implementados em nenhuma país, mas porque fingir não saber que em alguns nenhum deles é respeitado? Não entendi.

      “direitos retirados de árabes israelenses.”
      Que direitos Daniel? Pergunto porque já contestei quem diz isso dezenas de vezes. Além de contestar sempre cito os parlamentares e juízes árabes. Com toda sinceridade nunca ouvi falar nisso.

    • Daniel Ring

      01/09/2014 at 14:49

      Oi Mario,
      sobre os direitos dos árabes israelenses: existe uma diferença muito grande entre a teoria e a prática. Em teoria os direitos seriam iguais, mas, na prática, não é bem assim:
      1- O KKL (Keren Kayemet) é detentor de aprox 13% das terras de Israel. Essas terras só podem ser ocupadas por judeus.
      2- Embora 20% da população seja árabe, apenas 7% do orçamento é destinado à essa população.
      Esses são apenas dois exemplos. Tem muito mais. Se tiver paciência, pode ler o artigo a seguir, que cita vários outros: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/32619/as+leis+discriminatorias+de+israel.shtml

      Sobre a questão dos “valores ocidentais”, já respondi. Minha questão é com o termo e não com os valores em si.

      Abs!

    • Mario Silvio

      02/09/2014 at 16:15

      OI Daniel, obrigado pelas informações. Contrariando meus princípios (considero o Opera Mundi anti-semita, mentiroso e radicalmente parcial), li o artigo que você indicou. Comenta-lo implicaria em uma longa resposta, por isso vou me fixa apenas em alguns pontos.

      ” Em 2003, perto de metade de todas as famílias palestinas viviam na pobreza em comparação com cerca de uma em cada cinco famílias judias israelenses.23 Em 2010, os cidadãos palestinos constituíam um terço de todas as pessoas pobres em Israel”
      Isso acontece em TODOS os países do mundo, democráticos ou não. Exemplos: hispânicos nos EUA, lapões na escandinavia e aborígenes na Aurstrália. As razões são muitas, mas nenhuma delas tem a ver com leis.

      ” para cada estudante judeu, as escolas têm um orçamento de cerca de 1.100 dólares por ano. Para cada criança palestina, no entanto, o número era de apenas 191 dólares:”
      Essa eu não entendi. Sempre soube que as escolas são “mistas”. Estou errado? Atenção! Sempre que discuto esse assunto, penso em Israel, não nos territórios ocupados.

  • Daniel Ring

    26/08/2014 at 21:31

    Oi Raul,

    novamente peço desculpas pela minha interpretação equivocada da tua fala.
    Concordo com absolutamente tudo que você escreveu agora. Não tenho dúvida de que um regime democrático é melhor do que a lei da Sharia.
    A problemática que eu coloquei era sobre essa generalização “valores ocidentais” que, de certa forma, implica no conceito de “valores orientais”, conceito que seria ainda mais vago.
    Ao começar a pesquisar sobre essa assunto hoje encontrei o trabalho do Prof. Edward Said, que fala sobre a questão do que ele chama de “Orientalismo”. O “Orientalismo” seria a visão que o ocidente tem sobre os Árabes. Tem algumas entrevistas com o Said no Youtube e um documentário chamada “Orientalism”, além do livro com o mesmo título, que eu ainda não tive a oportunidade de ler.

    Marcelão,
    não tenho dúvida que Israel hoje está bem mais próximo de uma democracia do que os países Islãmicos. Se não fosse assim, eu não teria a menor chance de estar escrevendo esse tipo de crítica com tranquilidade na minha casa em Tel Aviv. Não tenho dúvida que há esse abismo moral mesmo.
    Só acho que nós, como cidadãos de Israel ou judeus na diáspora, temos a possibilidade de influenciar a política do governo de Israel. Por isso acho mais construtivo da minha parte criticar o governo de Israel do que o ISIS (por mais que o segundo seja muito pior que o primeiro).

    Abs!

  • Moisheleh

    28/08/2014 at 05:48

    Não posso negar que o autor tem um ponto. Como diz o ditado: “Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás”…Guevara não está errado nesse ponto. Como o autor disse, o Fatah é punido e o Hamas premiado! Discordo do autor quanto à necessidade da guerra, entretanto, penso que ao mesmo tempo em que punimos os terroristas devemos dar algo em contrapartida aos civis palestinos. Algo como um “Plano Marshal Judaico”, digo, atacarmos o Hamas, mas reconstruirmos o patrimônio civil destruído. Dar-lhes escolas e hospitais que sejam administrados por Israel, para que ofereçam instrução sem a retórica terrorista do Hamas e hospitais que não sirvam de arsenal para os mesmos. Que os palestinos vejam Israel como um estado protetor e não o destruidor de seus lares. Enquanto formos a mão que bate sem sermos a que alimenta, o Hamas será visto pelos palestinos como libertador. Devemos caçar os terroristas, mas ao mesmo tempo conquistar os corações dos civis, então o Hamas estará com os dias contados!