Israel está se tornando “inasbarável”?

06/06/2013 | Conflito

HaSBaRá é um substantivo hebraico derivado do verbo LehaSBiR (explicar, esclarecer) e pode ser traduzido como “esclarecimento”, ou até mesmo “propaganda” – Leia mais sobre a estrutura da língua hebraica neste post do Yair. Trata-se do esforço concentrado para manter a boa imagem de Israel perante a opinião pública internacional. Mais recentemente, adotou-se o termo “Diplomacia Pública”.

Na primeira semana de março, a agência das Nações Unidas responsável pelo bem-estar dos refugiados palestinos[ref]Os palestinos são o único povo no mundo que tem sua própria agência de refugiados, um “luxo” de que nenhuma tribo africana em meio à guerra civil dispõe, por exemplo.[/ref] cancelou a Maratona de Gaza em função da proibição da participação feminina anunciada pelo Hamas[ref]http://oglobo.globo.com/blogs/pulso/posts/2013/03/06/mulheres-sao-proibidas-de-correr-maratona-em-gaza-cancelada-488744.asp[/ref].

Todas as páginas de internet e todos os perfis de redes sociais dedicados à hasbará se apressaram em divulgar mais esta falha de direitos humanos do regime fundamentalista que controla a Faixa de Gaza.

Naquela mesma semana, entravam em operação as primeiras linhas de ônibus segregadas nos territórios palestinos ocupados, sob autorização do Ministério dos Transportes e com operação efetiva garantida pela polícia[ref]http://oglobo.globo.com/mundo/israel-lanca-linhas-de-onibus-exclusivas-para-palestinos-7736935 [/ref].

Nenhum perfil ou site se esforçou para explicar as necessidades de Israel implantar esta medida.

Há décadas, um esforço conjunto entre as organizações judaicas e sionistas da Diáspora, a Agência Judaica e o Governo de Israel cuida da hasbará, na tentativa de explicar aos olhos do mundo o que ocorre entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo. Acredita-se que opiniões como “Israel é um braço do colonialismo no Oriente Médio” ou “Sionismo é racismo” são, majoritariamente, frutos de desconhecimento misturado com uma compreensível simpatia pela causa palestina[ref]Principalmente na América do Sul, onde a identificação com os palestinos se dá no âmbito de “povo subdesenvolvido, explorado”.[/ref], com uma pitada de má intenção dos formadores de opinião.

Muitas vezes, esta visão está correta. A maioria esmagadora das pessoas não sabe, por exemplo, que, mais de uma vez, a comunidade internacional propôs-se a dividir estas terras e, enquanto o movimento sionista aceitou os termos ofertados, a liderança árabe os rechaçou. E foi no esforço por esclarecer este tipo de imprecisões históricas que muito material foi produzido e divulgado a título de hasbará.

Entretanto, à medida com que Israel vai perdendo completamente a mão – e a cabeça – na bastante longa administração militar da vida de quatro milhões de palestinos, já pouco importa se os governantes árabes desperdiçaram oportunidades em 1937, 1947 e 1967[ref]Comissão Peel, Plano das Nações Unidas para a Partilha da Palestina, Os Três “Nãos” de Kartum.[/ref]. Nós também já jogamos fora algumas chances de simplesmente nos livrarmos deste problema. E já não conseguimos mais conduzir a ocupação da maneira ética e moral com a qual nos orgulhamos de descrever nosso exército.

Sendo assim, queremos que o mundo pare de nos condenar por 45 anos de opressão baseados em explicações ridículas de que “Israel é o único país do Oriente Médio onde as mulheres árabes têm seus direitos humanos assegurados” ou “nós desenvolvemos a tecnologia das mensagens instantâneas na internet”.

Ainda mais abaixo na ladeira, já nem tentamos mais afirmar nossas qualidades, como no caso da maratona cancelada, por exemplo. Me irritou profundamente a cara-de-pau com que tentou-se divulgar o massacre na Síria, sobre o qual as mesmas pessoas jamais haviam se posicionado, e jamais se posicionaram novamente, enquanto Israel bombardeava a Faixa de Gaza, em novembro último.

Não faltavam justificativas razoáveis para aquela operação, mas desviar o foco simplesmente virou um hábito.

Enfim, as organizações, sites e perfis de hasbará têm adotado um discurso que flutua entre o ingênuo e o maniqueísta: apresentar o Estado de Israel como desenvolvido, ético e bom, em oposição aos seus vizinhos islâmicos, medievais, imorais e maus.

Ingênuo ao acreditarem que esses discursos ainda surtam qualquer efeito sobre as mentes bem informadas do século XXI, que acessam qualquer tipo de informação, no meio da rua, ao toque de um dedo em seus telefones celulares.

Mas principalmente maniqueístas, ao não aceitarem qualquer opinião contrária. Ao taxarem de antissionista qualquer pessoa que faça uma crítica a qualquer política do Estado de Israel, ao tentarem deslegitimar discursos 100% sionistas, porque almejam a melhora do país através de críticas construtivas.

stephen hawking punkUm perfeito exemplo ocorreu no início de maio, quando o renomado cientista britânico Stephen Hawking juntou-se ao boicote acadêmico de Israel e cancelou sua participação na Conferência Presidencial que ocorrerá neste verão. Considero o boicote praticamente inútil diante de seu objetivo declarado – privar Israel de participação no mundo acadêmico internacional até que se resolva a questão da ocupação – e, acima de tudo, covarde, uma vez que ninguém está boicotando os Estados Unidos ou a China, por exemplo, em protesto às suas atitudes no Afeganistão, ou no Tibete, apenas nosso pequeno país. Mesmo assim, fui exposto às mais bizarras piadas relativas à grave doença de Hawking e ao chip utilizado no equipamento que lhe permite comunicar-se, supostamente desenvolvido em Israel.

Então, lhes pergunto: Que Hasbará é essa que faz piada com uma doença tão triste? Que Hasbará é essa que faz piada com uma doença que limita uma das maiores mentes de nosso tempo? Que Hasbará é essa, tão intolerante com a discordância?

Mas a verdade é que poderíamos fechar as portas de todas estas instituições, cancelar suas contas de Twitter e páginas de Facebook. Pois não somos incompreendidos. Não é a hasbará que está sendo mal feita. São as posturas oficiais do país que simplesmente fugiram de qualquer justificativa.

Não há melhor hasbará do que fazer o que é certo.

Foto de capa:

http://1.bp.blogspot.com/-KkgIs5NB8Ss/UKn94uQuzGI/AAAAAAAAFoQ/5iuHYbk4w2M/s1600/carmen.jpg

Comentários    ( 32 )

32 Responses to “Israel está se tornando “inasbarável”?”

  • Raul Gottlieb

    07/06/2013 at 11:38

    Mario e Cláudio

    Eu não considero que Israel seja “inasbarável”. De forma alguma! Não me alinho entre os que colocam todo o (ou grande parte do) peso do conflito nas costas de Israel. Não me alinho entre os que dizem que as políticas de Israel são inexplicáveis. Eu não concordo com todas elas (como não concordo integralmente nem comigo mesmo, como diria o Amos Oz), mas entendo e defendo a grande maioria deles e a direção geral de sua conduta no que diz respeito ao seu conflito existencial.

    Israel só é inasbarável quando a hasbará é inepta. Se o Cláudio quis dizer algo além disso em seu post, eu discordo dele neste particular e aí vamos cair de novo na discussão dos outros posts que focam no conflito,

    Sobre os ônibus segregados – há linhas de ônibus que não permitem a um Palestino subir? Acho que a coisa não é bem assim! Existem áreas de Israel e dos territórios fechadas aos Palestinos que não trabalham lá, mas ninguém tira um Palestino da porta de entrada de um ônibus. Ou seja, o problema não é do ônibus e sim da situação em geral.

    Abraço, Raul

  • Mario Silvio

    08/06/2013 at 18:28

    Do artigo indicado pelo Raul:

    ” Hamas, Islamic Jihad and the leftist Palestinian factions are saying, clearly and publicly: No to peace; no to negotiations; no to recognition. The difference is that they say this publicly, while Abbas and his spokespeople conceal it.”

    Alguém acha que não é assim?