Israel está se tornando “inasbarável”?

06/06/2013 | Conflito

HaSBaRá é um substantivo hebraico derivado do verbo LehaSBiR (explicar, esclarecer) e pode ser traduzido como “esclarecimento”, ou até mesmo “propaganda” – Leia mais sobre a estrutura da língua hebraica neste post do Yair. Trata-se do esforço concentrado para manter a boa imagem de Israel perante a opinião pública internacional. Mais recentemente, adotou-se o termo “Diplomacia Pública”.

Na primeira semana de março, a agência das Nações Unidas responsável pelo bem-estar dos refugiados palestinos[ref]Os palestinos são o único povo no mundo que tem sua própria agência de refugiados, um “luxo” de que nenhuma tribo africana em meio à guerra civil dispõe, por exemplo.[/ref] cancelou a Maratona de Gaza em função da proibição da participação feminina anunciada pelo Hamas[ref]http://oglobo.globo.com/blogs/pulso/posts/2013/03/06/mulheres-sao-proibidas-de-correr-maratona-em-gaza-cancelada-488744.asp[/ref].

Todas as páginas de internet e todos os perfis de redes sociais dedicados à hasbará se apressaram em divulgar mais esta falha de direitos humanos do regime fundamentalista que controla a Faixa de Gaza.

Naquela mesma semana, entravam em operação as primeiras linhas de ônibus segregadas nos territórios palestinos ocupados, sob autorização do Ministério dos Transportes e com operação efetiva garantida pela polícia[ref]http://oglobo.globo.com/mundo/israel-lanca-linhas-de-onibus-exclusivas-para-palestinos-7736935 [/ref].

Nenhum perfil ou site se esforçou para explicar as necessidades de Israel implantar esta medida.

Há décadas, um esforço conjunto entre as organizações judaicas e sionistas da Diáspora, a Agência Judaica e o Governo de Israel cuida da hasbará, na tentativa de explicar aos olhos do mundo o que ocorre entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo. Acredita-se que opiniões como “Israel é um braço do colonialismo no Oriente Médio” ou “Sionismo é racismo” são, majoritariamente, frutos de desconhecimento misturado com uma compreensível simpatia pela causa palestina[ref]Principalmente na América do Sul, onde a identificação com os palestinos se dá no âmbito de “povo subdesenvolvido, explorado”.[/ref], com uma pitada de má intenção dos formadores de opinião.

Muitas vezes, esta visão está correta. A maioria esmagadora das pessoas não sabe, por exemplo, que, mais de uma vez, a comunidade internacional propôs-se a dividir estas terras e, enquanto o movimento sionista aceitou os termos ofertados, a liderança árabe os rechaçou. E foi no esforço por esclarecer este tipo de imprecisões históricas que muito material foi produzido e divulgado a título de hasbará.

Entretanto, à medida com que Israel vai perdendo completamente a mão – e a cabeça – na bastante longa administração militar da vida de quatro milhões de palestinos, já pouco importa se os governantes árabes desperdiçaram oportunidades em 1937, 1947 e 1967[ref]Comissão Peel, Plano das Nações Unidas para a Partilha da Palestina, Os Três “Nãos” de Kartum.[/ref]. Nós também já jogamos fora algumas chances de simplesmente nos livrarmos deste problema. E já não conseguimos mais conduzir a ocupação da maneira ética e moral com a qual nos orgulhamos de descrever nosso exército.

Sendo assim, queremos que o mundo pare de nos condenar por 45 anos de opressão baseados em explicações ridículas de que “Israel é o único país do Oriente Médio onde as mulheres árabes têm seus direitos humanos assegurados” ou “nós desenvolvemos a tecnologia das mensagens instantâneas na internet”.

Ainda mais abaixo na ladeira, já nem tentamos mais afirmar nossas qualidades, como no caso da maratona cancelada, por exemplo. Me irritou profundamente a cara-de-pau com que tentou-se divulgar o massacre na Síria, sobre o qual as mesmas pessoas jamais haviam se posicionado, e jamais se posicionaram novamente, enquanto Israel bombardeava a Faixa de Gaza, em novembro último.

Não faltavam justificativas razoáveis para aquela operação, mas desviar o foco simplesmente virou um hábito.

Enfim, as organizações, sites e perfis de hasbará têm adotado um discurso que flutua entre o ingênuo e o maniqueísta: apresentar o Estado de Israel como desenvolvido, ético e bom, em oposição aos seus vizinhos islâmicos, medievais, imorais e maus.

Ingênuo ao acreditarem que esses discursos ainda surtam qualquer efeito sobre as mentes bem informadas do século XXI, que acessam qualquer tipo de informação, no meio da rua, ao toque de um dedo em seus telefones celulares.

Mas principalmente maniqueístas, ao não aceitarem qualquer opinião contrária. Ao taxarem de antissionista qualquer pessoa que faça uma crítica a qualquer política do Estado de Israel, ao tentarem deslegitimar discursos 100% sionistas, porque almejam a melhora do país através de críticas construtivas.

stephen hawking punkUm perfeito exemplo ocorreu no início de maio, quando o renomado cientista britânico Stephen Hawking juntou-se ao boicote acadêmico de Israel e cancelou sua participação na Conferência Presidencial que ocorrerá neste verão. Considero o boicote praticamente inútil diante de seu objetivo declarado – privar Israel de participação no mundo acadêmico internacional até que se resolva a questão da ocupação – e, acima de tudo, covarde, uma vez que ninguém está boicotando os Estados Unidos ou a China, por exemplo, em protesto às suas atitudes no Afeganistão, ou no Tibete, apenas nosso pequeno país. Mesmo assim, fui exposto às mais bizarras piadas relativas à grave doença de Hawking e ao chip utilizado no equipamento que lhe permite comunicar-se, supostamente desenvolvido em Israel.

Então, lhes pergunto: Que Hasbará é essa que faz piada com uma doença tão triste? Que Hasbará é essa que faz piada com uma doença que limita uma das maiores mentes de nosso tempo? Que Hasbará é essa, tão intolerante com a discordância?

Mas a verdade é que poderíamos fechar as portas de todas estas instituições, cancelar suas contas de Twitter e páginas de Facebook. Pois não somos incompreendidos. Não é a hasbará que está sendo mal feita. São as posturas oficiais do país que simplesmente fugiram de qualquer justificativa.

Não há melhor hasbará do que fazer o que é certo.

Foto de capa:

http://1.bp.blogspot.com/-KkgIs5NB8Ss/UKn94uQuzGI/AAAAAAAAFoQ/5iuHYbk4w2M/s1600/carmen.jpg

Comentários    ( 32 )

32 comentários para “Israel está se tornando “inasbarável”?”

  • Mario Silvio

    06/06/2013 at 15:41

    Claudio,
    Após ler este artigo reli suas opiniões no anterior e por mais que me esforce não tenho a mínima idéia sobre onde você quer chegar. Gostaria de acreditar que você não é um daqueles judeus “imparciais” que vivem buscando motivos para atacar Israel.

    ATENÇÃO: claro que Israel não é perfeito, longe disso. Pode e DEVE ser criticado, mas no conflito com os palestinos está moral e legalmente muito acima.
    Se uma visita sua casa e uma jogar um papel no chão e outra espancar o seu filho e roubar uma TV, você diria simplesmente que as duas erraram? Claro que as duas erraram, mas…….

    Passemos ao texto propriamente dito.

    “Trata-se do esforço concentrado para manter a boa imagem de Israel perante a opinião pública internacional.”
    Entendeu? Não se trata de um jornal que este sim tem a obrigação de reportar notícias que não vão de encontro a sua ideologia (poucos agem assim, mas não vem ao caso aqui).

    “são, majoritariamente, frutos de desconhecimento misturado com uma compreensível simpatia pela causa palestina 4, com uma pitada de má intenção dos formadores de opinião.”
    Compreensível pode até ser, mas profundamente injusta. Uma pitada? Tem certeza? Na minha opinião está mais para uma montanha.

    ” já pouco importa se os governantes árabes desperdiçaram oportunidades em 1937, 1947 e 1967 ”
    E em 2000, e em 2001.

    continua….

  • Mario Silvio

    06/06/2013 at 15:50

    “explicações ridículas de que “Israel é o único país do Oriente Médio onde as mulheres árabes têm seus direitos humanos assegurados”
    Por que ridícula?

    “e jamais se posicionaram novamente, enquanto Israel bombardeava a Faixa de Gaza, em novembro último.”
    Se não me engano em resposta a foguetes lançados sobre população civil

    “Mas principalmente maniqueístas, ao não aceitarem qualquer opinião contrária. Ao taxarem de antissionista qualquer pessoa que faça uma crítica a qualquer política do Estado de Israel”
    Existem esses claro, mas a grande maioria aceita sim críticas, desde que não gratuitas, mentirosas e
    só contra Israel. Aceito quem é contra x ou y, mas se for contra Israel por praticar x ou y e não for contra outros países fazerem exatamente a mesma coisa, em mais de 99% dos casos é anti-semita.

    ” Que Hasbará é essa que faz piada com uma doença tão triste? Que Hasbará é essa que faz piada com uma doença que limita uma das maiores mentes de nosso tempo? Que Hasbará é essa, tão intolerante com a discordância?
    Mas a verdade é que poderíamos fechar as portas de todas estas instituições, cancelar suas contas de Twitter e páginas de Facebook. Pois não somos incompreendidos. Não é a hasbará que está sendo mal feita. São as posturas oficiais do país que simplesmente fugiram de qualquer justificativa.”

    Contraditório não lhe parece? No primeiro parágrafo você critica a Hasbará, na minha opinião justa e injustamente (já explico), e no segundo diz que ela não está sendo mal feita.

    Piada com doenças não devem ser feitas, a menos que se trate de assassinos como o Arafat, mas discordo que seja intolerância com a discordância, é intolerância contra o preconceito, o que acho correto.

    Finalizo dizendo que grandes mentes podem ser grandes fdp, exemplo não faltam.

    • Claudio Daylac

      06/06/2013 at 22:55

      Mario,

      Ainda que cada frase tenha seu próprio peso e significado, todas devem ser encaradas como parte de um todo. Uma frase pinçada de meu texto, retirada de seu contexto, pode soar diferente de seu intuito original. Por exemplo “e jamais se posicionaram novamente, enquanto Israel bombardeava a Faixa de Gaza, em novembro último” faz muito mais sentido se lida junto com a frase que a segue: “Não faltavam justificativas razoáveis para aquela operação, mas desviar o foco simplesmente virou um hábito.”

      Enfim, acho que os exemplos são apenas exemplos. O objetivo do texto é questionar se o hasbará tem sido mal feita por incompetência dos que a fazem, ou porque defende uma causa “inasbarável”.

      Um grande abraço!

  • Raul Gottlieb

    06/06/2013 at 19:04

    Caro Mario

    Eu creio que entendi o texto do Cláudio. O que ele diz é que a hasbará é feita muitas vezes com argumentos descabidos. Ele cita o caso das mulheres árabes e o caso das mensagens instantâneas como exemplos.

    Eu atesto pela veracidade dos exemplos que ele citou – já vi este tipo de argumentação.

    E concordo com o Cláudio que são argumentos idiotas. Se alguém te acusa de não pagar os teus impostos, de nada adianta você falar – mas eu sou o inventor do saca rolhas inteligente!.

    A argumentação tem que centrar no assunto. Puxar temas periféricos e não conexos é tremendamente contra producente porque evidencia uma tentativa de evadir ao tema em questão. E isto é inevitavelmente visto como uma aceitação tácita de culpa.

    Ao mesmo tempo, também concordo com ele com relação ao mau gosto das piadas contra o cientista que escolheu boicotar a conferência. Eu concordo com a essência da posição – se ele quer boicotar mesmo, que se prive das criações israelenses que o ajudam. Mas devemos falar isto sem piadas de mau gosto, pois isto também enfraquece a posição de Israel.

    No entanto, eu argumento ao Cláudio que não podemos jamais pegar o particular pelo todo. Existe a hasbará incompetente e mal feita. Mas ela não é toda assim. Existem movimentos ótimos e que produziram excelentes resultados.

    Em resumo: tem muito judeu bobo por aí. Não temos o monopólio nem da virtude nem da inteligência nem da educação. Mas temos muita gente boa também! Somos apenas humanos.

    Abraço, Raul

    • Claudio Daylac

      06/06/2013 at 22:57

      Raul,

      Respondendo ao seu argumento: sim, sempre existem bons exemplos. Mas acho que hoje em dia a hasbará perdeu seu foco quando decidiu “hasbarar o inasbarável” 🙂

      Também podemos dizer que a hasbará perdeu seu foco quando decidiu tirar o foco da discussão, como você mesmo falou.

      Enfim, estou num dia de muitos trocadilhos.

      Um grande abraço!

    • Mario Silvio

      06/06/2013 at 23:34

      “Existe a hasbará incompetente e mal feita. Mas ela não é toda assim. Existem movimentos ótimos e que produziram excelentes resultados.

      Em resumo: tem muito judeu bobo por aí. Não temos o monopólio nem da virtude nem da inteligência nem da educação. Mas temos muita gente boa também! Somos apenas humanos.”

      Quanto a isso assino embaixo Raul. Agora, o que isso tem a ver com Israel ser ou não inasbarável ???? Essa é questão levantada pelo texto, a partir do título.
      Existem sim causas indefensáveis, mas isso NÃO é definido pela qualidade dos defensores.
      Esta é a minha discordância. O fato de que ALGUNS defensores de Israel usam péssimos argumentos não mostra que a causa é péssima, ruim ou ótima.

      Vou tentar esclarecer melhor: o mundo não tem mesmo que desculpar Israel por nada pelo fato de que o país é muito mais avançado tecnologicamente que os árabes, mas tem sim (se quiser ser justo, claro) pelo FATO de que propos, VÁRIAS VEZES, acordos razoáveis e nem resposta obteve.
      Se eu e você formos discutir a posse de um bem, o fato de um ser mais alto, mais gordo ou jogar futebol melhor não lhe dará razão, mas quando um, e um só, se dispõe a fazer acordo, e propõe as condições e o outro ou não responde ou propõe absurdos, esse um terá a razão, e deveria ter o apoio dos interessados em uma solução.

    • Mario Silvio

      06/06/2013 at 23:42

      Raul,

      Releia: “Não é a hasbará que está sendo mal feita. São as posturas oficiais do país que simplesmente fugiram de qualquer justificativa.”

      Ou seja, segundo o Claudio, o problema não é a hasbará, mas sim as posturas oficiais do país.

      Desculpem eu ter dividido a resposta em tantos posts.

  • Raul Gottlieb

    06/06/2013 at 19:12

    Ah sim, faltou falar da “linha de ônibus segregadas”.

    Elas não são segregadas coisa nenhuma! Qualquer um pode subir nos ônibus.

    Mas elas saem de cidades árabes, logo os passageiros serão mesmo todos árabes (visto que os judeus não moram nas cidades árabes na Cisjordânia e vice versa).

    Dizer que elas são segregadas é como dizer que o ônibus que sai as 06:30 da manhã de Niterói para o Rio discrimina passageiros de Petrópolis, visto que estes nunca o tomam.

    O problema não está nos ônibus que passaram a prestar um serviço muito bom aos Palestinos e sim na situação como um todo.

    • Claudio Daylac

      06/06/2013 at 22:49

      Raul,

      Há linhas de ônibus segregadas, sim. Mas elas não são as que os palestinos pegam.

      Com o estabelecimento das linhas que vão direto para as cidades palestinas da Cisjordânia, ficou proibido aos palestinos subirem nos ônibus que se dirigem aos assentamentos judaicos.

      Claro, isso não é para toda linha na Cisjordânia, e sim para os casos em que se criou um linhas “palestina” para a localidade vizinha.

      Um abraço.

  • João K. Miragaya

    06/06/2013 at 21:16

    Claudio, parabéns pelo seu belíssimo texto. Estou 100% de acordo com tudo o que você escreveu, e a sua retórica foi brilhante.

    Seu artigo deveria ser de leitura obrigatória na diáspora. Não pensa em traduzi-lo para o inglês?

    • Claudio Daylac

      06/06/2013 at 23:01

      João,

      Obrigado pelo elogio! Sinto que minhas palavras representam um desabafo para muitos que assistem chocados o que é dito, escrito e compartilhado “em nosso nome” por aí.

      Vou pensar em traduzí-lo ao inglês. Quem sabe no verão?!

      Um abraço saudoso.

    • Artur

      06/06/2013 at 23:50

      Te ajudo, Claudio!

      Gostei muito do texto. Não pude deixar de rir com o “saca rolha inteligente” do Raul e, acima de tudo, concordo bastante com o escrito.

      Acho importante ressaltar que o termo “esclarecer” tem sempre embutida a noção de que algo está “escuro” e precisa ficar “claro”. Ou seja, leva sempre o “não é isso que você está pensando, amor”. A prática da Hasbará tem problemas congênitos:

      – Questiona a soberania de Israel. Ora, a India ficou independente em 1948 também e nem por isso temos que ficar explicando em conversas de bar sobre como isso aconteceu.

      – Ao jogar lenha na fogueira (principalmente emotivamente), aumentamos a relevância da discussão. Não há nada que um jornalista deseje mais do que uma pilha de cartas chegando à redação. Não me assustar com o anti-semitismo disfarçado de anti-sionismo sempre me rendeu bons frutos. “Ah, acontece em Israel? E Botswana, hein? Q loucura…”

      Eu não voto em Israel, tenho pouco o que fazer em relação ao que acontece lá. Se vejo um brasileiro se lamuriando por conta de um problema há milhares de quilômetros de distância, pergunto se ele não está afim de resolver a segregação na favela da Maré, ou a usurpação de terras indígenas. É claro que uma coisa não tem a ver com a outra, mas a passividade tem a ver com todo fato político.

      Abs!

    • Mila Chaseliov

      07/06/2013 at 07:48

      Cláudio,
      Concordo com o João, traduz!
      E mais uma vez obrigada pelo texto. Espero muito que esse texto circule por aí.
      Beijo.

    • Raul Gottlieb

      07/06/2013 at 11:57

      Artur,

      Você quer dizer “a invasão da comunidade da Maré”, não é mesmo? Não há segregação ali. Moram lá os invasores que assim o decidiram sob a complacência do Estado. Se você quiser morar lá amanhã não será barrado. Igualmente uma pessoa que mora lá é completamente livre para morar em qualquer outro lugar do Brasil. Pode ter certeza disso.

      E sobre a usurpação das terras indígenas, você está se referindo à invasão européia do século 16, não é mesmo? Não há usurpação de terra indígena no Brasil de hoje. Pelo menos à luz da nossa constituição. Se bem que admito que esta constituição é o fruto da invasão européia ilegítima do século 16. Mas se formos anular os efeitos desta invasão, não deveríamos também anular os efeitos da invasão indígena da América do Sul?

      Segundo o que entendi, um brasileiro só pode se lamuriar sobre o genocídio de Ruanda ou o terrorismo checheno depois do Brasil virar o Gan Eden. É isto mesmo?

      Abraço, Raul

  • Mario Silvio

    06/06/2013 at 23:39

    “Mas acho que hoje em dia a hasbará perdeu seu foco quando decidiu “hasbarar o inasbarável”

    Também podemos dizer que a hasbará perdeu seu foco quando decidiu tirar o foco da discussão, como você mesmo falou.’

    Duas coisas completamente diferentes concorda Raul?

    ” Se alguém te acusa de não pagar os teus impostos, de nada adianta você falar – mas eu sou o inventor do saca rolhas inteligente!.”
    Verdade, mas e seu mostrar que fui pagar e se recusaram a receber? Se eu me dirigi ao órgão responsável para pedir esclarecimentos e me espancaram?

    um abraço Raul, e não se esqueça: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

    • Artur Benchimol

      07/06/2013 at 17:20

      Hahaha.

      Claro que um brasileiro pode se incomodar a vontade com o que quiser, mas por conta própria! Não pra me pentelhar!

      Agora, Raul, existe uma senhora segregação (no sentido de separação) socio-econômica no Rio de Janeiro. Claro que quem mora na Maré “pode” morar onde quiser, mas se quiser morar no Leblon “não pode”. Não acho que se formos apegados à literalidade dos termos vamos conseguir dar perspectiva à típica critica raivosa e idiota à política israelense. O mesmo serve pra questão dos índios. Talvez sua perda de território não esteja prevista na legislação, mas acontece. Basta ler jornal, mas te deixo com essa carta magnífica do Henfil, de 1982:

      http://www.youtube.com/watch?v=hU8tTMxKPMo

      O princípio é mostrar que todos temos problemas, ao invés de dizer: “eu não tenho, olha aqui porque eu invadi a faixa de Gaza.”

      Alguém ficar chocado com o que acontece em Gaza (mesmo que da forma errada) é bom. É um sinal de empatia. Essa relação de “eu-estou-certo-e-você-está-errado” que gera o problema. Como bem disse o Cláudio, a hasbará deveria ser desnecessária. E talvez seja até contraproducente.

      Todos temos problemas. Todos estamos errados em alguma coisa. Vamos nos juntar nisso que temos em comum e ver o que dá pra fazer a respeito. Sair desse mundo da culpa e partir pro mundo da responsabilidade.

      Abraço!

    • Raul Gottlieb

      10/06/2013 at 00:42

      Ah, Arthur, pela tua ótica todos somos segregados o tempo todo e o mundo é uma grande prisão desde os tempos imemoriais.

      Eu também deveria me sentir segregado por não poder pegar um jatinho para visitar meu netinho todo o fim de semana? O Neymar pode pegar um jatinho para assinar um contrato e voltar no dia seguinte.

      Odiosa esta discriminação que impede os habitantes de Ipanema comprar sua mansão na Riviera Francesa! Sinto-me ultrajado!

      Fala sério, Arthur. No contexto “segregar” significa proibir alguém de fazer alguma coisa por algum impedimento racial ou cultural. Não tem nada a ver com condição econômica.

      Os índios que vivem conforme o modelo de 1500 são cada vez menos numerosos e ocupam 13% do território nacional. Menos de 1% da população vive em áreas doadas pelos brasileiros que correspondem a 13% do território. Eles não estão perdendo coisa alguma!

      Eu parei de ver o filme quando ele fala dos corretores imobiliários.Acho que no minuto 1 e alguma coisa. Já deu para deduzir a gororoba que se segue.

      Voltamos todos para as cavernas? É isto mesmo?

      Abraço, Raul

    • Artur Benchimol

      10/06/2013 at 17:45

      Eu te entendo, Raul. Mas pra mim é difícil ignorar as semelhanças entre os lugares que menciono. Em Gaza tem assassinato seletivo, no Rio a polícia executa também.

      Alguém me ensinou que o mundo nem é todo prisão, nem é todo mansão, é um misto entre os dois. 😉

      Eu sei que literalmente o uso de segregação não se aplica. A despeito se o Brasil é um paraíso ou não, o fato é que sempre há do que reclamar. E importa muito menos do que o que se pode fazer. O mesmo serve pra Israel.

      Pra retornar à discussão proposta pelo Cláudio, quando alguém vem me perturbar por conta do conflito árabe-israelense, tento mostrar que essa tragédia não é exclusividade daquele lugar. Minha prioridade é fugir do maniqueísmo racista que serve de pano de fundo pra muita dessa crítica. O Brasil também tem muitas tragédias (talvez nem tantas pra vc, mas tem) e nem por isso ele não tem o direito de existir. Não fico tentando justificar toda operação de Israel, como se tivesse a obrigação de estar sempre certa. Essa obrigação me parece extremamente contra-producente.

      Enfim, gostaria muito de continuar debatendo sobre o Brasil com você, mas vamos deixar pra outra oportunidade?

      Abraço!

  • Mario Silvio

    06/06/2013 at 23:43

    Sobre as linhas segregadas: quando há um clássico aqui no Brasil, os ônibus são separados por torcida. Vocês chamam isso de segregação ou de medida de segurança pública?

  • Mario Silvio

    06/06/2013 at 23:49

    “: tem muito judeu bobo por aí. Não temos o monopólio nem da virtude nem da inteligência nem da educação. Mas temos muita gente boa também! Somos apenas humanos.”
    Incontestável, e nem poderia ser diferente, mas mais de 90% das críticas a Israel são baseadas em que o país não é perfeito, em que existem judeus ruins.

    Esse é o problema, esse é o meu critério para definir anti-semitismo. Se eu criticar um país porque lá chove de vez em quando, será idiotice, mas desde que critique todos, não será preconceito.

  • Giulio Calvosa

    07/06/2013 at 00:09

    Claudio, voce termina seu texto com a frase “Não há melhor hasbará do que fazer o que é certo.” Mas então nos diga: o que é certo? O que Israel deve fazer?
    Talvez Israel devesse comportar-se como os palestinos, já que a imagem deles é tão bem vista pela mídia internacional.
    O que muitos de nós educadores, ex-educadores, formadores de opinião, etc, às vezes não nos damos conta, é que a Hasbara dificilmente sai de dentro dos nossos círculos sociais judaicos. Quando compartilhamos Hasbará – me refirindo às redes sociais – (seja um texto, artigo, imagem, video do youtube, etc) ela se propaga entre os nossos
    a) amigos e conhecidos judeus – tem interesse no tema, se identificam e muitas vezes compartilham a mesma informação (estes em sua maioria não precisam ser convencidos da mensagem que está sendo passada)
    b) amigos e conhecidos não judeus – em sua maioria, um público que não se identifica. Pode até chegar a ler um artigo ou outro sobre Israel, mas ao mesmo tempo, le sobre o desmatamento de florestas, alagamento na Alemanha, fome na Africa, etc, todos os temas com o mesmo interesse e nenhuma empatia.
    Esta ferramenta que se traduziu como “diplomacia pública” não foi criada para “encobrir” erros cometidos pelo governo israelense, mas sim para promover Israel frente às ofensivas anti-israelenses e tentativas de delegitimação do estado que começaram na imprensa nos anos 70 – tal imprensa que até hoje em dia, sempre vai dar preferencia e razao aos nosso “underdog”, o povo palestino. A grande inimiga da hasbara e, consequentemente, do govertno israelense, é esta sede da midia internacional de ter seu foco numa historia, um “conto de fadas” de um povo oprimido e refugiado sofrendo nas mãos do estado imperialista e opressor. Sem querer me prolongar, termino com 2 pontos:
    As imagens virais (memes) do Stephen Hawking não foram tentativas de hasbará, e sim uma piadinha de muito mal gosto que se espalhou pela Internet.
    Discordo de que Israel esta se tornando inasbaravel – reconheço que estamos longe da perfeição, há muito o que melhorar – Vejo que sua mentalidade critica e sua leitura inteligente diferem bem a verdadeira Hasbara de informações menos relevantes para a diplomacia pública e que servem mais como uma forma de Israel exibir alguns de seus pontos fortes frente aos seus vizinhos. Espero que algum dia eu leia um artigo seu que destaque a eficiencia da hasbara, incluindo sugestoes de como melhora-la. Forte abraço, Giulio

    • Claudio Daylac

      07/06/2013 at 15:38

      Giulio,

      Obrigado pelo comentário e por mais uma visita.

      Eu acho que Israel faz coisas corretas todos os dias. Moro aqui e sinto-me orgulhoso de forma como este país conduz a maioria de seus assuntos. Temos um sistema político incrivelmente representativo e um serviço de saúde universal e gratuito que só os israelenses não reconhecem como excepcional, para me limitar a dois exemplos. Sobre as falhas, acho que vamos melhorar. Com o tempo seremos um país melhor.

      O meu ponto principal é que não acho que precisamos de Hasbará de nenhum tipo uma vez que nossos pontos positivos são “hasbaráveis” e “hasbarados” por si só: nossos softwares (ICQ, Waze, entre outros) são sucesso e espalham o nome do país pelo mundo, assim como nossa tecnologia de irrigação por gotejamento, que inúmeras delegações estrangeiras vêm conhecer. E nem entremos na nano-bio-tecnologia, que literalmente faz milagres, embora eu não tenha o conhecimentos para me estender sobre o assunto.

      Por outro lado, a instituições de hasbará não se focam mais em explicar nossos lados duvidosos. Bombardear Gaza é complicado. No texto, eu menciono que não faltavam razões que explicassem a operação e, se digo isso, é porque entendo e concordo com o racional por trás de uma operação como aquela – ainda que discorde da época escolhida. Mas a hasbará desistiu destas explicações difíceis. Se a capacidade de atenção do público hoje em dia é mais curta, e ninguém mais quer ler um longo texto ou assistir a mais de cinco minutos de YouTube explicando porque precisamos de uma operação em Gaza, então decidimos desviar o foco para fatos irrelevantes para o caso, como o massacre na Síria.

      Entro no seu ponto sobre a divisão do público entre os interessado e os indiferentes e te digo que talvez esta seja a própria razão pela qual não é necessário um esforço tão amplo de hasbará. Nenhum país o faz como fazemos. Será que só nós estamos certos neste caso?

      Por fim, te respondo que sim, infelizmente, vi o meme do Stephen Hawking em perfis dedicados à hasbará. Como voluntário de hasbará por mais de dez anos, me senti pessoalmente ofendido pela piada de mal gosto.

      Um abraço!

    • Raul Gottlieb

      10/06/2013 at 00:22

      Você tem certeza que os Palestinos sã proibidos de subir nos ônibus? Tem alguém dentro do ônibus impedindo eles de subir?

      Não tenho conhecimento disto e acho muito difícil de acreditar! Como esta proibição de processa? As pessoas tem que mostrar carteira de identidade antes de subir no ônibus?

      Há algum lugar onde eu possa ler sobre isto?

    • Claudio Daylac

      10/06/2013 at 15:30

      Raul,

      Eu também acho difícil acreditar! Fiquei muito abalado na semana em que as linhas entraram em circulação e, junto com o episódio da Maratona de Gaza, ocorrido na mesma semana, comecei a escrever este texto.

      Na versão em hebraico, pode-se ler que está a cargo da polícia assegurar a separação das linhas de ônibus. A notícia em inglês é um pouco mais “light”.

      Novamente: apenas nos casos em que há duas linhas disponíveis. Os destinos servidos por apenas uma linha continuam mistos.

      Hebraico: http://www.haaretz.co.il/news/politics/1.1942433
      Inglês: http://www.haaretz.com/news/national/israel-introduces-palestinian-only-bus-lines-following-complaints-from-jewish-settlers-1.506869

      Um abraço.

    • Raul Gottlieb

      10/06/2013 at 21:25

      Li a notícia do Haaretz em inglês, Cláudio. O meu hebraico não permite eu ler jornal.

      Vejo que não há confirmação oficial de que haja segregação e sim relatos extra oficiais que para mim tem muito pouca credibilidade.

    • Raul Gottlieb

      10/06/2013 at 00:31

      Sobre a questão da falha em explicar os assuntos mais delicados, eu penso diferente do Cláudio. Existem pessoas competentes que fazem isto bem feito e de forma consistente.

      O problema é que estes são ignorados pela grande mídia que se aferra à história clássica do forte contra o fraco e tem uma ótica muito distorcida.

      Israel é um país que desde a sua fundação sobre ameaça existencial diuturna. Sob este contexto ele se comporta maravilhosamente bem.

      Mas exigem que se comporte como a Bélgica com relação à França. É uma piada.

  • Marcelo Treistman

    07/06/2013 at 01:29

    Querido Mario,

    (desculpe-me a intimidade, mas já foram tantas mensagens trocadas, que já te reconheço como amigo)
    Gostaria de lhe explicar o que eu entendo do texto do Cláudio.

    Somos todos sionistas. Escolhemos Israel para nos servir de lar e escolhemos este local para construir a nossa família. Particularmente nunca me senti “indo” para Israel… A sensação sempre foi de retorno. Sempre foi… Fazemos parte de uma geração privilegiada. Após dois mil anos o nosso povo tem (mais uma vez) a possibilidade de se auto-governar “segundo os valores de respeito e paz indicados pelos profetas de Israel”. Temos a oportunidade de construirmos um Estado que seja a “luz entre as nações”. Nós, Mario, vivemos o dia a dia deste privilégio.

    Estamos (Israel) indo numa boa direção? Acredito que sim. Em 60 anos, mesmo com a sua existência questionada todos os dias, Israel é um país democrático. E como todo país democrático, tem falhas que deverão ser corrigidas porque – de certa forma – danificam os pilares da democracia.

    Você pode ter a convicção de que não existe paz por causa do lado arábe. Você pode ter certeza de que a ocupação de territórios existe porque não há uma contra-partida do liderança palestina. Você pode achar que não há dúvidas de que, se saíssemos da Cisjordânia, mísseis atingiriam Tel Aviv. Eu consigo encontrar o racional por trás de todos estes argumentos.

    Mas é necessário que saibamos que todas estas políticas tem um preço. Ainda que você ache, por exemplo, que não há solução para a questão dos assentamentos judaicos “por falta de um parceiro”, devemos saber o preço que estamos pagando. Não se esqueça de colocar nessa conta, o dia a dia dos check-points, o controle militar de uma imensa população civil e soldados de 18 anos que morrem para nos garantir o direito de visitar os nossos mortos mais antigos.

    Neste excelente artigo do Claudio há um alerta. Para seguirmos o rumo correto devemos revelar as nossas falhas, não omití-las ou fingir que elas não existem. A Defesa de Israel não pode significar a defesa “cega” de Israel.

    Eu espero que os textos do conexão possam lhe revelar todos os questionamentos morais existentes na construção do nosso Estado. E ainda, te lembrar de que toda convivção tem um preço. Você tem o direito de saber de quanto estamos falando para poder decidir se o valor está (ou não) justo.

    Um grande abraço.

    • Mario Silvio

      07/06/2013 at 16:47

      Não tem do que se desculpar Marcelo, fico contente em saber que você me reconhece como amigo. O sentimento é mútuo, já que converso mais com as pessoas deste site do que com a maioria dos amigos daqui de SP.

      Tenho sim convicção de que não existe paz por causa do lado arábe. A expansão dos assentamentos considero consequência da falta de um parceiro, e nem acho que se saíssemos da Cisjordânia, mísseis atingiriam Tel Aviv.
      Existe a possibilidade, mas não é certeza. O que eu disse é: parte da população é contra e SE um líder palestino conseguisse convence-la de que a retirada implicaria em um BOM acordo, ele se fortaleceria muito e provavelmente sua posição prevaleceria.

      “Mas é necessário que saibamos que todas estas políticas tem um preço. Ainda que você ache, por exemplo, que não há solução para a questão dos assentamentos judaicos “por falta de um parceiro”, devemos saber o preço que estamos pagando.”
      Sei disso, mas qual é a opção? Retirada unilateral?

      “A Defesa de Israel não pode significar a defesa “cega” de Israel.”
      De acordo. E eu já disse várias vezes: os nossos radicais não poderiam ter parceiros melhores do que as lideranças palestinas, atuais e passadas.

      “Eu espero que os textos do conexão possam lhe revelar todos os questionamentos morais existentes na construção do nosso Estado.”
      Gostaria muito. Um abraço e Shabat Shalom.

    • Mario Silvio

      07/06/2013 at 16:49

      ” Ou seja, o problema não é do ônibus e sim da situação em geral.”
      Exato, assim como existem ônibus que eu como corinthiano não posso pegar.

  • Raul Gottlieb

    07/06/2013 at 11:38

    Mario e Cláudio

    Eu não considero que Israel seja “inasbarável”. De forma alguma! Não me alinho entre os que colocam todo o (ou grande parte do) peso do conflito nas costas de Israel. Não me alinho entre os que dizem que as políticas de Israel são inexplicáveis. Eu não concordo com todas elas (como não concordo integralmente nem comigo mesmo, como diria o Amos Oz), mas entendo e defendo a grande maioria deles e a direção geral de sua conduta no que diz respeito ao seu conflito existencial.

    Israel só é inasbarável quando a hasbará é inepta. Se o Cláudio quis dizer algo além disso em seu post, eu discordo dele neste particular e aí vamos cair de novo na discussão dos outros posts que focam no conflito,

    Sobre os ônibus segregados – há linhas de ônibus que não permitem a um Palestino subir? Acho que a coisa não é bem assim! Existem áreas de Israel e dos territórios fechadas aos Palestinos que não trabalham lá, mas ninguém tira um Palestino da porta de entrada de um ônibus. Ou seja, o problema não é do ônibus e sim da situação em geral.

    Abraço, Raul

  • Mario Silvio

    08/06/2013 at 18:28

    Do artigo indicado pelo Raul:

    ” Hamas, Islamic Jihad and the leftist Palestinian factions are saying, clearly and publicly: No to peace; no to negotiations; no to recognition. The difference is that they say this publicly, while Abbas and his spokespeople conceal it.”

    Alguém acha que não é assim?

Você é humano? *