Israel-EUA: muito além do lobby

23/05/2014 | Política

Ainda que se possa afirmar que o “lobby judaico” desempenhe papel influente no processo de tomada de decisões nos Estados Unidos, ele foi apenas um entre muitos fatores que contribuíram para a aproximação do país com Israel, entre 1957 e 1966. Outras forças, como a recomendação interna do corpo técnico permanente do governo, assim como fatores econômicos (a necessidade de estabilizar o Oriente Médio, por sua posição central na produção de petróleo) e a realidade da Guerra Fria também foram decisivos.

Primeiramente, em vista da crescente importância do Oriente Médio como produtor de petróleo, em substituição à recém-sovietizada Europa Oriental, os EUA precisavam garantir a estabilidade da região para extração e exportação da matéria prima. Enquanto alguns países – como o Egito e a Síria – se tornavam mais revisionistas em função das mudanças de poder ocorridas desde a década de 1950, havia uma crescente necessidade de construir e fortalecer um bloco de nações conservadoras, cujos governos fossem confiáveis. O Estado de Israel era visto como um entre esses países, junto com a Arábia Saudita, a Jordânia e o Irã.

Adicionalmente, havia a necessidade de limitar o desenvolvimento do programa nuclear israelense. Uma vez que o programa vinha sendo realizado com apoio do principal aliado israelense à época – a França – os EUA precisaram “comprar” seu lugar como parceiro militar de Israel para evitar uma corrida nuclear na região. Ainda que não tenha sido possível cancelar o programa nuclear israelense como um todo, as negociações acerca de seu desenvolvimento e de seu controle externo levaram a importantes acordos de venda de armas que aproximaram os dois países.

Tendo em vista a batalha entre os EUA e a União Soviética para ser o principal parceiro do Egito, Israel conseguiu usar seu programa nuclear como barganha. Esta política permitiu ao país ser considerado um aliado tão importante quanto o Egito, a maior e mais desenvolvida nação árabe à época, com dezenas de milhões de habitantes.

Outro aspecto importante era que, em contradição com as recomendações dos funcionários dos departamentos de Estado e Defesa cuja nomeação era política, o corpo permanente de analistas técnicos do governo americano recomendava ao presidente apoiar Israel. Não sendo dependentes de favores políticos e resultados eleitorais, estes funcionários públicos preocupavam-se menos em evitar incomodar os países árabes e estavam mais inclinados a apoiar Israel, um dos poucos Estados criados após a II Guerra Mundial que mantinham-se democráticos e apresentavam bons resultados econômicos. Os corpos técnicos do Departamento de Estado e do Pentágono consideravam Israel um bom exemplo, merecedor de apoio.

Finalmente, o poder do “lobby judaico” não pode ser descartado. Ainda que a relação com os presidentes John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson pudesse ser classificada apenas como morna, sempre haviam importantes deputados e senadores para levar a causa israelense ao centro das discussões e aprovar legislações que a apoiassem. E quando os dois presidentes democratas – pelos quais a esmagadora maioria do eleitorado judaico americano havia votado – enfrentavam a oposição popular à Guerra do Vietnã, apoiar Israel também era visto como uma forma de garantir simpatia entre sua base eleitoral.

Pode-se concluir, então, que o “lobby judaico” foi acompanhado por uma série de outros fatores em seus esforços para aproximar os Estados Unidos e Israel. Mas, muito além de seus votos e sua influência, o governo americano optou por fortalecer sua relação com o Estado de Israel também em função de suas prioridades de economia e política externa, até que se chegou ao ponto em que era possível afirmar que “há duas coisas intocáveis no Oriente Médio: petróleo e Israel”.

Tradução da resposta à questão “É possível afirmar que o lobby judaico desempenhou papel central na aproximação entre os Estados Unidos e Israel entre os anos 1957-1966?”, em prova do curso Israel e os sistemas regional e internacional.

Comentários    ( 12 )

12 Responses to “Israel-EUA: muito além do lobby”

  • Mario S Nusbaum

    23/05/2014 at 17:40

    Excelente artigo Claudio. Um aspecto sobre o qual eu nunca havia pensado é “a necessidade de limitar o desenvolvimento do programa nuclear israelense”

    • Claudio Daylac

      23/05/2014 at 17:47

      Pois é, Mario. Mas numa época em que o Oriente Médio era livre de bombas nucleares, a melhor estratégia era tentar mantê-lo desta maneira…

  • Marcelo Starec

    23/05/2014 at 21:03

    Oi Claudio,

    Bom artigo! Acho que Israel tornou-se um aliado muito importante para os Estados Unidos e o mundo ocidental por ter características distintas dos demais países da região. Uma democracia real e efetiva, cultura ocidental (em termos, principalmente, dos valores chave do País), sendo assim um País confiável, quando comparado a qualquer outro do oriente médio, também por não estar sujeito a golpes de Estado, revoluções radicais islâmicas e por aí vai.

    Abraço,
    Marcelo.

    • Claudio Daylac

      25/05/2014 at 01:33

      Olá, Marcelo.

      A academia considera que os EUA têm uma política externa realista, pragmática (vulga realpolitik), que seria um explicação mais condizente com o teor do meu artigo.

      A sua visão segue uma linha mais liberal, que acredito estar em sintonia com os argumentos apresentados pelo meu companheiro-de-ConexãoIsrael.org João em seu comentário aqui abaixo.

      Acho que uma série de fatores influenciam, uma relação tão estreita não pode ser explicada por uma única razão.

      Todos estamos corretos, por algum ângulo.

      Um abraço.

  • Raul Gottlieb

    24/05/2014 at 15:22

    Caro Cláudio

    Recomendo a você a leitura de “Support Any Friend” de Warren Bass. O livro analisa em profundidade a construção da aliança entre Israel e os Estados Unidos. O livro mostra que a guerra fria foi o agente central desta construção e não o lobby dos judeus americanos. Este último teve um papel, mas secundário.

    Isto faz todo o sentido do mundo, tendo em vista o interesse dos USA em garantir o petróleo dos países árabes para impulsionar a sua economia. Os USA só se viraram para Israel quando o Egito de Nasser se virou para a URSS e se afastou da Arábia Saudita, que confrontou diretamente na guerra pelo Iêmen.

    A suposição de que é o lobby judaico que construiu a aliança USA-Israel é fruto de desinformação. E esta suposição também é usada pelos antissemitas que acusam os judeus de minar os interesses da América em favor dos interesses de algo que chamam “Sionismo Global”.

    Outra leitura importante neste tema é “The Arab Lobby” de Michel Bard. Ele mostra o impacto do lobby árabe nos USA e o compara com o lobby judaico. Você vai se surpreender com os fatos lá exibidos.

    Um abraço, Raul

    • Claudio Daylac

      25/05/2014 at 01:18

      Raul,

      Eu te recomendo ler novamente o meu post. Nós estamos concordando em 100%.

      Um abraço.

  • Raul Gottlieb

    24/05/2014 at 15:25

    Relendo o comentário que acabei de postar me ocorreu que os Palestinos são mesmo como o fulano que mata os pais e depois pede clemência alegando ser órfão. Eles escolheram a URSS e depois se lamentam que os USA apoiam Israel.

    E tem gente que acredita neles…

  • João K. Miragaya

    24/05/2014 at 16:40

    Bom artigo, Claudio.

    Na minha opinião, no entanto, ficou faltando um componente cultural: os EUA possuem uma identificação não menos importante do que nenhum destes fatores com Israel. Obviamente a sua análise se refere a um período determinado, quando o status desta relação passava por um processo de mudança. Mas eu não descartaria os fatores culturais.

    Israel possui uma história democrática bem distinta de todos os outros países da região, salvo (mais ou menos) a Turquia. Desde fins da segunda GGM foi amplamente divulgado por sucessivos governos dos EUA uma luta pela expansão da democracia a nível global, e a busca de parceiros é essencial nesta caminhada. Além disto, há uma certa perspectiva de que os EUA seriam uma espécie de “Terra Prometida”, existente desde o século XVI, um conceito criado a partir do mito da Terra Santa, prometida por Deus a Abraão. A maioria protestante existente nos EUA, que tem como livro de referência o Velho Testamento (assim como os judeus), também de alguma forma se identifica com Israel e seu papel no mundo contemporâneo. A identificação com Israel, no entanto, não faz com que estes mesmos grupos se aproximem dos judeus norte-americanos, visto que o antissemitismo no país não é pequeno.

    Depois deste apêndice, parabéns pelo artigo! Muito bom.

  • Raul Gottlieb

    25/05/2014 at 16:18

    Olá Cláudio,

    Eu não disse que estávamos discordando! Muito pelo contrário. Dei duas referências bibliográficas ao teu texto e fiz uns poucos comentários sobre os livros que recomendei. Supus que os livros poderiam te interessar, visto que você se interessa pelo assunto – que também me interessa.

    Como nós conhecemos a comunidade judaica de dentro – com os seus acertos e desacertos – sempre ficamos muito impressionados com os que super estimam a nossa força, não é mesmo? Somos meros 0,2% da população do mundo!

    Abraço, Raul

  • Raul Gottlieb

    25/05/2014 at 16:36

    Olá João

    Os USA não têm nenhuma identificação cultural com o governo ditatorial islâmico da Arábia Saudita, no entanto os contatos diplomáticos entre ambos os países são profundos e longevos.

    Os USA têm uma fortíssima identificação cultural com o judaísmo, no entanto a aproximação diplomática entre os USA e Israel só aconteceu depois que Nasser se moveu resolutamente sob as asas da URSS.

    Estes dois fatos indiscutíveis me fazem pensar que a afinidade cultural não tem muito a ver com a afinidade diplomática.

    Assim, penso que você está superestimando o fator “cultura” no jogo diplomático. Mas é claro que posso estar errado.

    Outro comentário – “Velho Testamento” é uma denominação cristã para a Torá, denominação esta concebida para dar força à teoria cristã de que o “primeiro pacto” de Deus com a humanidade aconteceu apenas com os judeus, mas que com a vida de Jesus este acordo foi substituído por um pacto com toda a humanidade.

    O antissemitismo religioso nasceu desta teologia de substituição, que colocou os judeus num status equivalente ao da obsolescência (se você me permite uma imagem retirada do universo da tecnologia onde eu trabalho), com as consequências nefastas que todos conhecemos.

    Então, eu sugiro evitar o termo. Ele sempre me causa um certo desconforto.

    Um abraço!
    Raul

    • João K. Miragaya

      27/05/2014 at 06:29

      Oi Raul.

      Eu não estou colocando a questão cultural como condição sine-qua-non. Estou apenas listando mais um fator, que, como todos os outros, também deve ser analisado dentro de determinado contexto histórico e admitindo influência de outros fatores.

      Sobre o “Velho Testamento”, estou de acordo contigo. No entanto, decidi usar o termo (ao invés de Tanach) porque a meu ver facilita a leitura.

      Um abraço

  • Raul Gottlieb

    28/05/2014 at 22:01

    Facilita a leitura de uns mas causa arrepios em outros.