Israel – Noruega 40 graus

Em papos sobre Israel e sua economia, é impossível ignorar sua vibrante indústria de tecnologia. As mídias fazem parecer que por aqui as coisas estão bem. Somos brasileiros e infelizmente nosso exemplo de país faz Israel parecer país um desenvolvido sem glamour , uma Noruega 40 graus.

O país é de fato membro da OECD (“The Organisation for Economic Co-operation and Development”), organização que reúne as economias mais desenvolvidas do mundo. No entanto, é tido como um aspirante. Israel continua em 2015 entre os países mais desiguais do mundo ocidental. Apesar das melhoras que teve nos últimos anos, é um país onde os 10% mais ricos detém 35,6% da riqueza, enquanto os 10% mais pobres levam apenas 1,7% (dados da pesquisa OECD de 2013).

Não é necessário ir muito longe para entender que o país deve lidar com vários desafios sociais e econômicos. Para quem passe por cidades israelenses de norte a sul, poderá ver cidades com perfis muito diferentes e é fácil diferenciar onde as dificuldades econômicas levam a um ciclo de pobreza. Israel está entre os países com o pior coeficiente de GINI (que mede a desigualdade) entre os países da OECD.

 

foto2
Cidade beduína de Rahat

 

Um dos símbolos da desigualdade israelense é a cidade de Rahat. Cidade estabelecida nos anos 70, foi a primeira designada à população beduína. Costuma ser parte de discursos de ministros israelenses, mas é de fato um símbolo de pobreza. Rahat, que deveria ser um símbolo de inclusão social, se tornou uma grande panela de pressão.

As disparidades em Israel estão também reveladas no artigo “Como é a vida em sua região?: Medindo o Bem-Estar regional e local para elaboração de políticas” (2014). Apesar de algumas regiões do país estarem entre top 20% em algumas das dimensões analisadas, o país tem as maiores disparidades locais entre os países da OECD, se comparadas as regiões locais quanto a medidas de acesso a trabalho, serviços e segurança. As regiões israelenses com alta performance estão bem acima da média da OECD para quade todos os indicadores de bem-estar. Nas regiões com baixa performance, o índice de renda é um terço da média do OECD. A verdade é que em Tel Aviv, onde moro, parece crescente o número de moradores de ruas e pedintes. Estou sozinho nessa percepção?

Uma senhora cata lixo em Israel. Esta imagem já é considerada normal por aqui
Uma senhora cata lixo em Israel. Esta imagem já é considerada normal por aqui

Por outro lado, os israelenses estão mais satisfeitos com suas vidas que a média dos países da OECD. Quando perguntados para dar uma nota de de 0 a 10 à sua “satisfação geral”, israelenses deram nota 7,6. A média da OECD é 6,6. Outro dado interessante para quem vive no país: a expectativa de vida é de 82 anos, acima da média de 80 anos dos países da OECD.

Israel é um país especial quanto à sua construção demográfica e às vezes parece demasiado complicado lidar com tantas tradições. Os principais desafios da economia estão ligados às suas minorias e periferias, onde o desenvolvimento deve ser construído com base no diálogo entre pessoas de background muito diferentes. Os resultados na desigualdade podem ser vistos com o tempo, brasileiros as conhecem bem. São os futuros das crianças os que estão mais ameaçados quando o acesso a bem-estar lhes são negados. O ciclo da falta de oportunidades pode ter impacto enorme em um país já dividido pela religião e o nacionalismo. E então, quem vem primeiro, é o ovo ou a galinha?

 

Algumas fontes e recomendações:

http://mondoweiss.net/2015/01/symbol-israeli-inequalityhttp://www.haaretz.com/news/israel/1.657611https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_income_equality#OECD_countries

http://mondoweiss.net/2015/01/symbol-israeli-inequalityhttp://www.haaretz.com/news/israel/1.657611https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_income_equality#OECD_countries

https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_income_equality

http://money.cnn.com/2015/05/21/news/economy/worst-inequality-countries-oecd/

http://www.haaretz.com/news/israel/1.657611

http://www.oecd.org/israel/OECD-SocietyAtaGlance2014-Highlights-Israel.pdf

http://www.oecdbetterlifeindex.org/countries/israel/

http://www.oecd.org/economy/israel-economic-forecast-summary.htm

http://www.oecd.org/israel/publicationsdocuments/reports/

http://www.oecd.org/israel/publicationsdocuments/reports/

 

Artigos relacionados

Ver mais artigos

Comentários    ( 3 )

3 comentários para “Israel – Noruega 40 graus”

  • Marcelo Starec

    10/08/2015 at 05:39

    Oi David,

    Interessante o texto. Eu não sei o quanto esses indicadores todos conseguem, realmente, medir com exatidão o nível de vida e as perspectivas da população. É fato que Israel se tornou nas últimas décadas um país menos igualitário, mas também é fato que está muito mais rico, algo incomparável ao que o País era até os anos 70 / 80. Só para te dar um exemplo, eu me lembro perfeitamente, a muito tempo atrás, de ter assistido a uma palestra sobre a economia de Israel e tanto o que se trazia de dados era ruim (dívida elevadíssima, baixa produtividade etc…) e uma perspectiva extremamente otimista – um dia no futuro conseguir atingir o nível de renda da Grécia ou Espanha (da época, claro, muito inferiores aos de hoje) – Atualmente, Israel tem uma distribuição de renda pior, mas é um País que enriqueceu muito e tem uma produtividade também muito elevada, fazendo parecer piada as perspectivas mais otimistas dos anos 70/80, que foram superadas com folga…Por fim, os serviços básicos – saúde e educação, ainda são muito bons, tal como eram – e se não são todos quase iguais, pelo menos o básico está garantido e só para terminar, a pobreza já existia nos anos 70/80…Não é uma coisa nova, embora com certeza piorou, mas em termos relativos!….

    Abraço,

    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    10/08/2015 at 22:21

    Gabriel,

    Há alguma estatistica que calcule o índice GINI de Israel sem incluir os que se colocam voluntariamente à margem do mercado de trabalho, tais como os ultra ortodoxos que dão tempo integral nas yeshivot e as famílias que não permitem que as mulheres estudem?

    Abraço,
    Raul

  • Raul Gottlieb

    12/08/2015 at 01:04

    Uma coisa engraçada sobre os supostos malefícios da desigualdade é que o Haiti tem um índice GINI muito maior do que o da Nova Zelândia.

    Mas isto não indica que a vida no Haiti seja melhor do que na Nova Zelândia. Muito pelo contrário. Muito pelo contrário MESMO!

    Suspeito que o Haiti passe meses (anos?) sem admitir um único imigrante. Já na NZ há um balcão no aeroporto de Auckland para receber os imigrantes.

    Ou seja, a igualdade não garante qualidade de vida nem dignidade bem coisa nenhuma.

    Para que continuar batendo nesta tecla?

Você é humano? *