Israel é um país desenvolvido?

28/10/2013 | Economia, Sociedade.

Se te perguntassem desta forma: “Israel é um país desenvolvido?” O que você responderia? Esta pode ser uma questão mais difícil do que parece ser à primeira vista.

Primeiro porque esbarramos no conceito de país desenvolvido. Não existe uma unanimidade a respeito deste termo. Alguns preferem destacar aspectos econômicos, como o PIB (Produto Interno Bruto) per capita e o nível de industrialização, enquanto outros destacam fatores como o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e o Coeficiente de Gini (mede desigualdade de renda), que englobam de maneira mais ampla o conceito de bem-estar de uma população.

Para o propósito deste texto, vou utilizar uma mescla de vários índices que, em conjunto, representam aspectos que eu acredito serem importantes para mensurar o nível de desenvolvimento de um país.

Vamos tentar discutir alguns pontos com base nos índices fornecidos pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) instituição da qual Israel passou a fazer parte em 2010.

O próprio fato de ter sido aceito como país-membro tem um significado especial para a nossa análise: o país foi credenciado a fazer parte do seleto grupo de 33 países que se destacam tanto por apresentar um elevado PIB per capita, como por obter um alto IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)[i]. Ou seja, os demais países acreditam que Israel é capaz de ser sócio deste restrito clube. Mas será que eles têm razão?

Uma rápida análise dos índices pode levar a resultados enganosos. Em geral, a Start-up Nation apresenta alguns resultados surpreendentes a nível macroeconômico. Podemos identificar (Gráfico 1) que Israel tem tido um crescimento do PIB bem acima da média dos países da OCDE. Vale notar que mesmo no auge da crise mundial, a economia israelense manteve o seu crescimento.

Com respeito ao desemprego, novamente o desempenho de Israel é consideravelmente superior ao de seus colegas membros da OCDE. De acordo com a instituição, o país apresenta menores taxas de desemprego do que a média dos demais como pode ser visto abaixo. (Gráfico 2).

Além disso, Israel apresenta um elevado PIB per capita, inflação estabilizada e alta expectativa de vida. Sem contar outros muitos índices favoráveis[ii] em setores importantes como a educação superior e a inovação tecnológica.

Então está bem. Consegui responder a pergunta?

Gostaria de poder parar por aqui. Mas infelizmente, esta é apenas uma parte da história. Se observarmos outros fatores, veremos que Israel se posiciona exatamente no outro extremo em questões muito importantes para a qualidade de vida de um país. Por exemplo, os israelenses ocupam um incômodo quinto lugar (ver Gráfico 3[iii]) na medição de desigualdade de renda (com base no Coeficiente de Gini).

Em relação à pobreza, nossos resultados são ainda piores. Israel é o país com a maior taxa de pobreza entre os membros da OCDE, como pode ser visto nesta reportagem do jornal Haaretz[iv].

Se a pobreza e a desigualdade são os dois principais problemas socioeconômicos do país hoje em dia, existe ainda uma vasta coleção de índices ruins que os acompanha: preços altos de alimentos (em especial laticínios), elevado grau de congestionamento (comparando com países de tamanho e população similares)[v], exorbitantes preços de moradia e aluguel , entre outros, que colocariam Israel em uma posição muito distante do patamar de país avançado.

Ou seja, dependendo de qual conjunto de índices estamos analisando, podemos encontrar diferentes perspectivas de um mesmo lugar. Particularmente, acredito que o balanço geral é positivo. Mas assim como o Brasil apresenta diversos gargalos estruturais, Israel também deve cuidar de seus problemas básicos para seguir adiante e não retroceder. Os maiores desafios são o combate ao avanço da pobreza, a diminuição da desigualdade de renda entre os distintos setores da sociedade e a redução dos custos de vida.

Vale notar que muitos destes problemas estão diretamente relacionados à inclusão e à capacitação de trabalhadores atualmente excluídos ou marginalizados no mercado de trabalho, com destaque para os setores ultra-ortodoxo e árabe-israelense. Desta forma, a solução dos problemas está longe de restringir-se apenas à políticas econômicas. Estamos falando de mudanças sociais mais profundas que dizem respeito a questões religiosas e ideológicas.

Resta saber quem estará disposto a liderar reformas estruturais nestes campos. Se trata de uma missão ingrata e politicamente desgastante, mas que pode ser definitiva para o futuro do país.

Fica a pergunta: quem será o nosso “Mashiach”?

 


 

[i] Possíveis exceções a esta definição: México, Turquia e Hungria. Em relação aos demais membros, há maior consenso em relação a sua posição de pais desenvolvido.

[ii] Apenas para citar dois: Israel esta entre os 15 melhores países na qualidade de educação de nível superior; o pais também produziu mais patentes que a média dos demais países desenvolvidos do mundo nos últimos dez anos.

[iii] Fonte: http://www.emeraldinsight.com/books.htm?chapterid=17031425&show=html

[iv] http://www.haaretz.com/news/national/israel-is-the-poorest-country-in-developed-world-oecd-report-shows.premium-1.524096

[v] As informações foram retiradas dos informes publicados pelo Centro Taub. Pode ser acessado neste website: http://taubcenter.org.il/

Foto da capa: http://www.besttravelguideblog.com/188/tel-aviv-israel-in-cosmopolitan-city.html

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Comentários    ( 12 )

12 Responses to “Israel é um país desenvolvido?”

  • marcelo

    28/10/2013 at 21:23

    Acho q responderia “quase”. a educação superior tem mostrado estes bons resultados que você citou, mas e a educação básica? como se compara com países como suécia, finlandia e dinamarca? acho q país desenvolvido tem de ser socialmente desenvolvido, o welfare state, o povo tem de estar despreocupado quanto ao seu futuro e seus direitos. Fora isso, a falta de civilidade básica que agente vê numa fila pra entrar num onibus na tachaná, o que já se viu na torcida do beitar em alguns jogos contra jogadores árabes, ou como as crianças nas escolas são violentas… nao sei, algo está errado, algo está bem sub-desenvolvido…

    • Mario Silvio

      29/10/2013 at 14:50

      Marcelo,
      Você acha mesmo que welfare state é condição necessária para um país ser considerado desenvolvido?

      ” o que já se viu na torcida do beitar em alguns jogos contra jogadores árabes,”
      Se pensarmos nisso de cara temos que tirar Holanda e Inglaterra da lista.

  • Nathalia

    28/10/2013 at 21:32

    Oi Amir,
    sabes dizer se essas pesquisas incluem os mishtanenim e os palestinos da Cisjordânia?

    Abraço

  • Mario Silvio

    28/10/2013 at 22:26

    “Por exemplo, os israelenses ocupam um incômodo quinto lugar (ver Gráfico 3[iii]) na medição de desigualdade de renda (com base no Coeficiente de Gini).”
    “Em relação à pobreza, nossos resultados são ainda piores. Israel é o país com a maior taxa de pobreza entre os membros da OCDE, como pode ser visto nesta reportagem do jornal Haaretz”
    Discordo de que isso prove que Israel não é um país desenvolvido Amir. Pode ser até que não seja, mas não por estes motivos.
    O universo usado é o x da questão. Em um grupo de bilionários, alguém será sempre o mais “pobre” (e outro será o quinto), o que não quer dizer que não sejam bilionários.

    Não vou iniciar uma polêmica (a menos que alguém faça questão) sobre o tal índice de Gini, que acho MUITO overrated. Sempre achei melhor ter 1 milhão entre pessoas que tem 10 milhões do que mil entre pessoas que tem 100.

  • Fiani

    29/10/2013 at 01:37

    Excelente análise, Amir. Parabéns!

  • Ricardo Gorodovits

    29/10/2013 at 10:21

    Amir,

    Sobre a questão da pobreza e especialmente sobre distibuição de renda, você pode me indicar um site confiável com a série histórica destes indicadores em Israel? Gostaria de entender se houve uma inflexão (para pior) nos mesmos a partir da mudança de estratégia econômica definida na passagem do governo para o Likud, na segunda metade da década de 70.
    Obrigado pelo seu texto. Abraço, RIcardo

  • Amir Szuster

    29/10/2013 at 17:22

    Sergio,

    Tentei fazer uma procura sobre o tema e me deparei com estes dois arquivos, ambos com fonte OCDE:
    1)http://www.oecd.org/social/family/48442642.pdf
    2)http://www1.cbs.gov.il/www/hodaot2011n/15_11_219e.pdf (pagina 3)

    1)Relatorio interessante sobre a economia de Israel.Tem comparacoes sobre o coeficiente de Gini em diversas etapas.
    2)Tem uma serie do Coeficiente de Gini entre 1997 – 2010,
    Nao achei uma serie completa.Mas vou continuar buscando.

    Nathalia,
    Nao consegui achar uma definicao no site da OEDC. Mas acredito fortemente que os dados se referem apenas a cidadãos de Israel. Neste caso,nenhum dos dois grupos estao incluidos.

    Fiani,
    Obrigado pelo comentario.

    Mario Silvio,
    Usei como base a OCDE.Estar mal posicionado,significa estar pior entre os melhores.Evidentemente, Israel nao esta em situacao desastrosa.Sobre a questao de desigualdade de renda, admito que poderiamos ficar discutindo aqui muito tempo sobre este tema! Eu sou de uma “escola” que acredita que desigualdade economica, alem de malefica para a sociedade, prejudica o crescimento de longo prazo. Influenciado por este artigo (http://restud.oxfordjournals.org/content/60/1/35.short)

    Marcelo,
    Infelizmente, falta de civilidade eh um criterio subjetivo.

  • Amir Szuster

    29/10/2013 at 17:23

    mas de fato voce tem razao.Estes pontos sao complicados na sociedade israelense

  • Raul Gottlieb

    29/10/2013 at 22:08

    Espero que o mashiach não tente impor a igualdade de resultados – ou seja, todos tem que auferir o mesmo resultado (financeiro ou qualquer outro) por seus esforços.

    Torço para o que o mashiach tenha lido a Torá que constata o óbvio: sempre haverá uma camada mais pobre na sociedade e que é fundamental haver igualdade de direitos e deveres.

    Porque se ele tiver lido aqueles livros que defendem a igualdade de resultados e a ganância dos mais pobres sobre o patrimônio dos menos pobres, estaremos fritos!

    O índice de desigualdade econômica não mede, a meu ver, o desenvolvimento de uma sociedade. O que a sociedade tem que procurar incessantemente é: (i) manter os menos favorecidos acima da linha da dignidade (quanto mais acima melhor); (ii) manter rigorosamente a igualdade legal (direitos e deveres).

    Porque se formos medir desenvolvimento pelo GINI vamos chegar à conclusão que os índios Yanomâni são o pináculo do desenvolvimento humano. O que seria uma constatação que me deixaria muito feliz de estar na rabeira para sempre!

  • Raul Gottlieb

    29/10/2013 at 22:19

    Marcelo fala sobre a falta de civilidade (no sentido de cortesia) do Israelense. Concordo com a observação dele: o Israelense é truculento nas filas, empurra, passa à frente, fala alto, etc. Não tem a fleugma britânica, ou a rígida estética dos alemães ou a cortesia dos japoneses.

    Contudo, no meio desta falta de civilidade tem algo que me chama muito a atenção – o baixíssimo índice de homicídios no país.

    Em Israel quase todo mundo sabe usar uma arma.

    Em Israel muita gente anda armada – é difícil você ir a um lugar público sem encontrar com um menino do exército devidamente armado.

    Paradoxalmente estas duas características se combinam à falta de civilidade e desembocam numa taxa de homicídios bem baixa.

    O Brasil todo mundo se chama de irmão, todo muito é super polido, mas temos 60 mil homicídios por ano! Nem na Síria em guerra civil eles conseguem tanto.

    Porque será? Alguém arrisca uma explicação?

    • Mario Silvio

      30/10/2013 at 17:34

      Acho que as razões devem ser muitas Raul, mas sobre o baixíssimo índice de homicídios em Israel, os membros da NRA com certeza diriam que é porque todo mundo anda armado.
      No Brasil uma das razões é a impunidade quase que total.

  • Rodrigo Luffy

    30/10/2013 at 22:12

    Deu gosto de ler. Didático, além de muito bem escrito com português irreprochável…

Você é humano? *