Israel te espera

05/08/2016 | Sionismo; Sociedade

De repente, parece que virou uma grande moda sair do Brasil ou, ao menos tentar fazê-lo. Ou é, pelo menos, um alívio cogitar essa possibilidade. Acho que isso acontece pelo fato de sermos, hoje, um mundo meio que sem fronteiras (pelo menos até o Donald Trump assumir). Talvez pela crise do país, talvez pela desesperança nacional ou, ao contrário, a esperança de que tudo possa ser melhor desde que seja bem longe de onde estamos no momento. Nem que para isso tenhamos que ser, que horror!, estrangeiros. Aliens. Imigrantes.

(Se você ainda não chegou a Israel, deve ler os próximos parágrafos. Se já for um olê, pule para o item “aqui e agora”.)

Todos já devem estar sabendo dos números recordes de olim brasileiros chegando por aqui. Eles foram duplicando de ano a ano e, de cerca de 170 em 2012 (ano em que eu e minha filha chegamos), 2016 há de fechar em mais de mil. Mil! Nesses dias, quem faz parte do grupo do Facebook “Olim do Brasil” viu o pessoal da ONG Beit Brasil transmitir imagem de quase 20 brasileiros desembarcando do mesmo voo no amado Aeroporto Ben Gurion.

Pois bem. Quero contar foi a minha vivência e como imagino que esteja sendo a desses recém-chegados.

Preparação: depois de um mês de correria absurda entre desmontar a casa, vender o carro (quando há), resolver pendências burocráticas do Brasil e outras de Israel, no esforço de não deixar nada para trás (já sabendo que algo sempre será esquecido), se despedir de familiares e amigos (normalmente a parte mais dura), você embarcou num vôo da TAM com conexão na Europa. Lá, pegou o vôo da El Al para Tel Aviv. El Al! Tel Aviv! O coração bate forte só de ver na refeição a bordo um pote de hummus acompanhado de uma pita. A adrenalina é tanta que dá um otimismo quase incontrolável.

O avião pousou: nessa hora, você não cabia em si. Ainda mais se o piloto caprichou na aterrissagem e os passageiros começaram a assobiar e bater palmas. Nervoso, você tentou encontrar o sem fim de malas de mão, malinhas, sacolas e outros trecos (será que levou seu ferro de passar roupa 110V?) que você conseguiu carregar para dentro do avião. Ficou ali de pé no corredor para descer, mesmo que o avião não tivesse ainda nem estacionado ainda, só pensando se devia fazer a cena clássica de beijar o chão ao descer da escada. Acabou não o fazendo porque: 1) tá calor e o chão tá quente; 2) tá frio e o chão tá frio ou molhado; 3) o micro-ônibus que o levaria para o terminal estava quase lotado e você temeu ficar parado ali, perdido no meio da pista, nem mais brasileiro nem ainda israelense; 4) cem mil israelenses descendo do avião o atropelaram para entrar logo no micro-ônibus.

Sem beijar o chão, talvez tenha conseguido escapar de seu primeiro mico como ole chadash (novo imigrante), mas você sabe intimamente que virão outros.

Malas: é tanta mala que você teve medo de esquecer alguma na esteira rolante. Atualmente, só se pode embarcar com duas, eu sei, mas muita gente paga por bagagem extra (eu fiz isso e cheguei aqui com oito malas grandes + duas de mão + dois travesseiros, e éramos só duas pessoas). Você passou as últimas duas semanas só quebrando a cabeça e fazendo contas para entender o que valeria a pena trazer com você – e já tem certeza de que a sua decisão não foi lá a melhor. O que provavelmente é verdade. Antes da passagem pela área de passaportes em Tel Aviv, um representante da Agência Judaica apareceu com uma plaquinha e te levou para uma salinha muito pouco confiável e sem janela. Ali, um funcionário expediu na hora a sua Teudat Zeut (carteira de identidade). Pior: apesar das fotos 3×4 que você foi orientado a fazer, e que se preparou para fazer caprichando no penteado e no perfume, você terá que tirar outra ali, na hora, depois de 30 horas de viagem. Está descabelado, ansioso, insone, mas vai sorrir, porque parece estar chegando ao fim de um longo processo. Essa cara de tonto vai estampar sua nova identidade. A sua identidade israelense. E esse é o ápice desse momento em que você imaginou ter chegado ao fim de um longo processo. Não, meu caro: ele apenas começou.

Ônibus: te botaram em um taxi ou num ônibus e te levaram para onde você definiu previamente que iria. Pode ser merkaz klitá (centro de absorção), pode ser uma casa já te esperando. Ou a casa da tia, o kibutz, etc. etc. O fuso horário acabou com você, mas a adrenalina está tão a mil que você quase não percebeu o seu cansaço. Talvez estivesse te esperando, na tua porta, um ole vatik (imigrante veterano) voluntário. Talvez não. Vocês trocaram umas palavras na amada lingua portuguesa e você até teve a impressão de que a língua não será, afinal, um problema. Talvez ele tenha te trazido uma compra inicial de supermercado, talvez até uma primeira refeição. Mas ele logo se foi, te deixando um número de telefone para você ligar se precisar – mas você não tem telefone ainda. E só terá depois que fizer cartão de crédito, condição para que você possa ter um celular.

Enfim, você chegou. Está em Israel. Virou israelense.

Aqui e agora

Aqui começa o que eu quero contar, porque tudo o que falei até agora é a experiência mais banal pela qual eu e todo mundo que chegou por aqui nos últimos anos viveu.

Você agora aterrou em um novo lugar. Não um lugar qualquer, mas em um país do outro lado do (seu ex-) mundo. Pra começar, agora vive no hemisfério norte, e vai sentir a diferença da estação climática trocada, sem contar com o clima extremo (depoimento básico: eu cheguei no dia 19 de julho, sabe o que é isso? Fazia 35 graus às 3h da manhã, e tive que subir minhas 10 malas por um andar do merkaz klitá sozinha, porque não havia uma viva alma por perto). Sentirá o longuíssimo fuso de seis horas para frente (que viram quatro no horário de verão). Está no Oriente Médio, aquele lugar para onde todo o mundo olha com permanente atenção e um tanto de medo, por sua volatilidade e seu alto poder explosivo – se bem que a Europa anda nos superando nesse sentido. Mais do que isso, está em Israel. Umbigo do mundo. O centro do universo. O local em que a civilização nasceu, em que Jesus morreu, aquela coisa toda e também nada disso – depende da sua crença. E você, vocêzinho, no meio disso tudo.

É hora de dizer: fazer desse canto do mundo o melhor ou o pior lugar para se viver dependerá de você. É com a sua cabeça virada do avesso que você vai definir se aqui é o gan éden ou o guehinom (paraíso ou inferno). E é bem isso mesmo, sem intermediários: em Israel, tudo é muito intenso, sem meias apostas.

Se você houvesse se decidido por adotar o Canadá e não se contentasse, talvez pudesse passar a sonhar em descer um pulinho e parar nos Estados Unidos: sem entrar em questões burocráticas, é pertinho, a língua é a mesma, a porta da geladeira não abre pro lado inverso. Se tivesse optado por viver na Itália e não estivesse satisfeito, poderia passar a cogitar viver na Holanda ou na Alemanha: é tudo por ali, europeu é europeu, pega um trem e tá lá no mesmo dia. Mas se você quiser “fugir” de Israel, não há vizinho para onde escapar. Com o hebraico que aprendeu não irá fazer mais nada em nenhum lugar do mundo, a não ser dar show nas rezas da sinagoga. Aprender a digerir bem altas quantidades de humus sem morrer ou não ter um infarto toda vez que um motorista pentelho te assusta com buzinadas fora de hora não te ajudará a se estabelecer em outro local. Em resumo, Israel não será currículo para nenhum outro lugar e, saindo daqui, sua próxima parada será muito provavelmente o Brasil.

Essa é a intensidade da coisa no meu ponto de vista que, ressalto, é somente meu. E estou falando do ole chadash mais comum do momento, ou seja, aquele que chega já em idade adulta (depois dos 25/30 anos), com família em formação ou em diferentes fases. Claro que há muitas exceções: o estudante da Universidade Technion (Haifa), o executivo do Google ou da HP, a moça recém-casada com um israelense que volta pra casa da família. Que fique claro que não estou falando deles, mas de você, que está lendo esse texto, aliás.

Se nas primeiras décadas da existência do Estado a aliá brasileira foi prioritariamente ideológica, hoje ela tem uma outra faceta. Óbvio, né? Até os anos 70 ou 80, o país era ainda a terra dos kibutzim, com pequena economia, sempre metida em encrencas. Lugarzinho atrasado e lá no fim do mundo. Nos anos 90, começou a mudar de cara. No século 21, Israel se posiciona de outra forma no mundo – seja no geral, seja no consciente e no inconsciente dos judeus interplanetários. Agora, a imigração para Israel pode ter ainda a motivação 100% sionista, mas esse tornou-se um caso mais raro. Quem chega por aqui busca qualidade de vida ou recuperação econômica. Ou ambos. Ou os três, em medidas diferentes. Se há 20 anos vir para Israel era coisa de gente idealista, hoje é uma decisão racional e mais baseada em números, resultados, expectativas.

(Preciso dizer novamente que isso é uma elocubração muito própria e que nem merecerá seu julgamento caso não concorde.)

Exatamente por isso – pela expectativa de buscar em Israel uma vida melhor em termos financeiro e de qualidade de vida – é que tem tanta gente chegando com o sonho errado. Na minha opinião, chegar sonhando já é meio passo para dar caca; por outro lado, é um direito de cada um. Que seja.

Fazer aliá pode ser um sonho para um ideólogo, mas para uma pessoa que vem com outros objetivos – o imigrante, na mais pura expressão da palavra – essa palavra tem que sair do dicionário. Viver uma vida melhor, com mais possibilidades de alavancagem no padrão de vida, pode ou não ser uma possibilidade aqui, país infinitamente mais justo e mais democrático do que o Brasil (considero-o mais democrático pelo simples fato de que educação e saúde aqui são direitos básicos cumpridos pelo Estado), mas com suas zicas e dificuldades. Um ideólogo supera dificuldades amparando-se em seus sonhos; uma pessoa com objetivos mais práticos não, pois o sonho vira desilusão.

O sonhador não sabe, e não se preocupa em saber, o que significa ser imigrante em um país. Mesmo que seja em um país que recebe de braços abertos o imigrante, como é o caso de Israel.

Você levará meses até que entenda as sinalizações ao seu redor, a não ser que tenha aprendido hebraico antes de vir. As torneiras aqui são diferentes, geralmente uma única para água quente e fria. Talvez sua pia tenha duas cubas, por ter sido construída por alguém que segue a cashrut e separa alimentos de carne e de leite, e é você quem vai limpá-la a cada refeição. Ela e provavelmente a sua casa inteira. A porta da geladeira abrirá para o outro lado. Os livros também. Quase todo mundo é baixinho e quase todo mundo é irritado (menos o meu marido – estou falando sério). Você não vai conseguir reconhecer quem é israelense e quem não é, quem manda e quem obedece – com o detalhe de que, aqui, aparentemente todo mundo manda. Você vai ouvir as broncas do salva-vidas na praia sem saber que ele está gritando exatamente com você, e receberá uma ordem que não imagina qual seja. Vai no mercado comprar detergente e voltar com limpador de vidros, ou buscar soro fisiológico na farmácia e voltar com spray para pulgas. Vai falar tudo errado e passar por idiota, e vai falar tão certo que também passará por idiota. Vai correr na estrada achando que não há pedágio, até receber a conta pelo correio. Vai ficar sem contribuir para o seguro social por pura ignorância ou vai ser excessivamente cobrado, também por pura ignorância. Vai abrir o internet banking e não entender nem onde deve colocar a senha. Não vai acompanhar promoções dos mercados: ao contrário, vai pagar mais caro por não saber discernir promoção de propaganda mal-intencionada.

Vai ser um alien e vai sofrer – a não ser que decida não fazê-lo. Caso isso aconteça, será aquele que verá seu filho ir para uma boa escola, a mesma que frequenta o filho da moça do caixa do supermercado, e isso vai parecer ótimo. Vai pagar IPTU e ter um monte de opção de shows gratuitos ao longo do verão, além de semáforos que sempre funcionam. Se sentirá seguro mesmo caminhando à noite por uma rua escura e vai poder atravessar sossegado a faixa de pedestres, permitindo também que suas crianças andem por aí de bicicleta. Vai se tornar um solidário defensor desse Estado, mesmo discordando dos políticos em gestão. Receberá um salário mínimo com o qual, mesmo que com aperto, possa chegar ao fim do mês. Mas isso você só saberá quando aceitar que seu primeiro passo profissional por aqui provavelmente será para baixo, e não para cima – obviamente há exceções, e muitas, mas o bom censo recomenda esperar menos, não mais.

Esse é um aspecto fundamental: você, incrível administrador formado pela USP, aqui não é conhecido. Seus longos anos de trabalho na Odebrecht, na Vale ou na Estrela aqui não significam grande coisa, a não ser que você tenha “verbo” e fale rápido o suficiente – em hebraico ou em inglês, uma das boas vantagens daqui – para explicar o que são essas empresas na entrevista de emprego, que geralmente dura 1 minuto e 32 segundos. Vai enfrentar a concorrência de uma mão de obra muito mais qualificada do que no Brasil, ainda mais com domínio da língua e da cultura local. Você não vai entender porque na entrevista de trabalho te perguntam mais sobre sua família do que sobre sua experiência na área. Não saberá que você precisa ligar 200 vezes para a mesma pessoa para obter retorno, porque aqui a lei da resistência é a que prevalece. Terá que aprender que a vida precisa ser agarrada com as duas mãos, mesmo porque ninguém sabe o dia de amanhã – nem mesmo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, com o qual você também terá que começar a conviver (garanto que você não sentirá saudade dos políticos brasileiros mas, caso deixe Israel, também não sentirá dos políticos locais).

Enfim, caro amigo, Israel é o melhor e o pior lugar do mundo. Igualzinho ao Brasil. A pergunta é se você está preparado para ser alguém melhor ou mais batalhador ou mais persistente ou mais resistente ou mais flexível ou mais preparado do que foi até esse momento da sua vida, e passar com leveza por essa prova.

Seja qual for a sua experiência, muito boa sorte. Saiba que Israel te espera de braços abertos.

Comentários    ( 8 )

8 comentários para “Israel te espera”

  • MARCELO GHERSON EINHORN

    07/08/2016 at 07:18

    Adorei seu artigo.
    Mande seu e-mail.
    Marcelo

  • Raul Gottlieb

    07/08/2016 at 14:05

    Olá Miriam

    Muito legal compartilhar a tua experiência, que deve ter sido semelhante a de muitos. Obrigado.

    O número recorde de brasileiros que está fazendo aliá se deve ao melhor sheliach aliá que o Brasil jamais teve!

    Um sheliach que não foi enviado por Israel, mas que mesmo assim convenceu a muitos que a imigração do Brasil é o melhor caminho.

    E este sheliach fez milagres! Convenceu pessoas a imigrarem para Israel, para os USA, para a Europa, para o Canadá, para a Austrália e para a Nova Zelândia. Ele ultrapassou barreiras, ele convenceu a judeus e a não judeus.

    O nome dele é conhecido por todos. Ele se chama PT.

    E mesmo fora do poder ele continua incentivando a imigração, pois sempre há a chance dele voltar ao poder. Ou de um se seus assemelhados, tipo PSOL, Marina Silva e outros.

    Abraço,
    Raul

    • Miriam Sanger

      09/08/2016 at 18:06

      Pois é, Raul. Já ouvi até agradecimentos de entidades judaicas à Dilma, a maior shlichá de toda a história.
      Mas nada é por acaso, diz o judaísmo. Que os judeus venham, pelo motivo for.
      Abração!
      Miriam

  • Raul Gottlieb

    10/08/2016 at 11:44

    Nada é por acaso? Qual foi, então, o grande propósito da Shoá?

    • Miriam Sanger

      13/08/2016 at 20:55

      Oi, Raul.
      Vou te dizer no que eu acredito. Vemos apenas parte da história. Uma pequeníssima parte. Não tenho nem ideia de qual a resposta para a tua pergunta, nem para um milhão de outras que eu faço para mim mesma. Mas não creio no acaso. Não creio no caos. Vou te contar: é uma coisa doida ser racional e ao mesmo tempo crer nisso — mas essa é a minha praia.
      Abração!
      Miriam

  • Mario S Nusbaum

    13/08/2016 at 18:15

    Muito legal Miriam, muito meeessssmo

Você é humano? *