Israel: tudo ou nada

Perspectiva. Tudo, no fim das contas, é uma questão de perspectiva. Peguei-me pensando nisso depois que uma boa parte da minha família veio passear pela Terra Santa durante duas semanas. Nas poucas oportunidades em que estive com eles (fizeram um daqueles tours corridos pelos muitos cantos do país), quis saber o que estavam achando daqui. Cada um respondeu uma coisa, abordou de uma forma diferente, mas ninguém disse o que eu queria ouvir, nada menos que um “você escolheu um paraíso para viver” (mesmo que nem eu acredite nisso – utopia não é meu forte). Sou exagerada, isso não tem conserto. Mas percebi que se trata apenas de perspectivas além de, claro, detalhes que em uma visita rápida não podem ser enxergados. E Deus está nos detalhes, como diz o refrão, e é o conjunto deles que tece nossas vidas.

A partir daí, fiquei batendo boca comigo mesma sobre o tema para concluir que não é possível sonhar com uma única perspectiva desse país, porque ele é, afinal, tudo e nada. “Paisinho” do tamanho de um ovo, mas com dicotomias tão profundas, ângulos tão distintos, culturas tão distintas e emoções tão contrastantes que nem em um transe coletivo mais de duas pessoais poderiam ter a mesma opinião a seu respeito dele, ou quase a mesma (exceção para o caso daqueles que odeiam Israel mesmo sem saber o porquê – e o ódio pode ser, sim, unânime). Ou uma opinião algo parecida com a outra. Isso aqui é de fato uma loucura, ao menos a partir da minha perspectiva.

Israel é um Estado laico e democrático. Eleições diretas, parlamento e infinitos partidos políticos representando a miscelânea de comunidades locais (judias laicas, judias ortodoxas, cristãs, drusas, muçulmanas etc.) estão aí para comprovar isso. Israel é um Estado teocrático, e os ônibus parados no Shabat e as intransigentes leis que regem o casamento e o divórcio comprovam isso.

Israel é um caldeirão de culturas. A mistura das populações muçulmanas e judaicas de cidades como Haifa (a terceira maior do país) comprovam isso. Israel é uma heterogênea massaroca de populações quase sempre à beira do colapso. Atentados e confrontos, infelizmente mais constantes toda vez em que se fala de negociação entre israelenses e palestinos (o que acontece nesse exato instante), comprovam isso.

Israel é um país que defende, em suas leis básicas, a liberdade religiosa. A cidade velha de Jerusalém, com sua (quase) pacífica mistura de vizinhanças cristã, armênia, judia e muçulmana comprova isso. Israel vive uma profunda dicotomia religiosa, na qual a própria religião judaica é usada como cabo de guerra entre laicos e religiosos, e o impenetrável bairro ultraortodoxo de Mea Shearim, em Jerusalém, e o discurso inflamado de judeus laicos contra a influência religiosa na política e na sociedade locais demonstram isso.

Israel é um país de primeiro mundo, incrivelmente urbanizado e verde, que permite o acesso da população à saúde e à educação públicas. Basta um passeio pelo centro do país para tirar a prova disso. Israel vive uma histórica defasagem habitacional, os salários são incompatíveis com o alto custo de vida e, entre os países desenvolvidos, é o que apresenta a maior porcentagem de população vivendo abaixo da linha da pobreza. As pesquisas, tanto nacionais como internacionais, comprovam isso. 

Israel está no deserto do Neguev e na paisagem verde do Golan, no calor dos infernos do verão e no frio dos árticos do inverno, na montanha nevada do Hermon e na maior depressão da Terra, no Mar Morto. Está no pepino com tomate, no kebab com tehina, e também no morango com chantili, no salmão com aceto balsâmico. Israel está em todo lugar e, por isso, não tem como estar em um único e ser visto como tal.

Por fim, a constatação mais estarrecedora: não há como gostar mais ou menos daqui. Ama-se ou odeia-se. A nós, loucos habitantes dessa terra paradoxal, resta sonhar com o dia em que ele seja mais amado do que odiado, por nós mesmos e pelo resto do mundo.

 

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