Israel vota Aécio e Palestina vota Dilma

Israel vota Aécio e Palestina vota Dilma. Era de se esperar, dado o apoio significante que o Brasil tem dado à Autoridade Palestina na Cisjordânia e ao Hamas em Gaza. O Brasil hoje brinda os acordos internos dentro do meio político palestino e do que chamam de militância. Mesmo a mídia mainstream brasileira evita a palavra terrorismo na descrição do Hamas ou de sua atuação. Em Israel, Aécio ganha com 68,6% do total de votos, perdendo na Palestina com apenas 10%; enquanto Dilma lidera a Palestina com 71,9% dos votos, levando a pior em Israel com meros 7,2%. Marina fica em segundo em Israel com 17,4%, e terceiro na Palestina com 5% dos votos.

Globo identifica grupos terroristas palestinos de militantes.
Globo identifica grupos terroristas palestinos de militantes.

Curiosamente, na Venezuela Aécio obteve 52,2% dos votos de brasileiros. Em Cuba, a candidata do PT ficou com 84% dos votos. No exterior, Dilma obteve em 2014 metade da porcentagem que recebeu no primeiro turno das eleições de 2010 (18,35% contra 36,81%), enquanto o candidato tucano levou a melhor votação desde José Serra. Já o candidato do PSDB ganhou na maioria dos países do exterior, 17 contra 7 nas Américas; na Europa 21 contra 1; na Ásia/Oceania 18 contra 2; apenas na África Marina venceu em 6, Dilma em 4 e Aécio em 2 países. Vejam abaixo os resultados em Israel e Palestina.

 

País/Candidato (%) Dilma Aécio Marina Outros Branco/Nulo TOTAL
Israel 15 (7,2%) 142 (68,6%) 36 (17,4%) 8 (3,9%) 6 (2,9%) 207 (32%)
Palestina 315 (71,9%) 44 (10%) 22 (5%) 25 (5,7%) 32 (7,4%) 438 (68%)
TOTAL 330 186 58 33 38 645
TOTAL em % 51,16% 28,88% 8,98% 5,10% 5,88% 100%

 

Seja na representação brasileira em Ramallah, ou na embaixada brasileira em Tel Aviv, nota-se números muito distoantes do resultado nacional brasileiro do primeiro turno: do total de votos apurados, Dilma Roussef obteve 37,6% (43,3 mi) contra 30,3% (34,9 mi) de Aécio Neves. Não votei e conheço poucos brasileiros amigos que foram à embaixada em Tel Aviv. Os resultados estão aí para comprovar, e em minha opinião são em parte explicados pela atual política externa brasileira na região.

 

Os brasileiros que vivem em Israel que se importaram o bastante para ir à embaixada e votar resolveram que a Dilma definitivamente não é uma opção. É verdade que em geral Dilma teria perdido em Israel, mas 7,2%… já é exagero. Para esse brasileiro e para o israelense comum, Dilma está constantemente falando bobagem sobre o que se passa no Oriente Médio. De fato a atual presidenta não tem a menor ideia do que é o islamismo radical. Os terroristas do ISIS que o digam, estão sentados esperando para negociar até agora.

 

Os brasileiros que votaram na Palestina foram ainda mais claros: 71,9% cravados em Dilma. Nada de Marina, com meros 5%. Os brasileiros que votaram em Ramallah estão satisfeitos com Dilma, e com razão. O Brasil é atualmente um grande parceiro da Autoridade Palestina.  O Itamaraty os apoia sistematicamente em suas empreitadas na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e suas instituições espalhadas pelo mundo, além da explícita posição de condenação a Israel, como no conflito do último verão.   A votação brasileira nos países também revela o abismo que separa os vizinhos israelenses e palestinos. Os lados não concordam em nada, e pouco conversam para encontrar pontos em comum. Note que este mesmo abismo revela a distância da política externa brasileira em ser protagonista na confecção de um acordo entre palestinos e israelenses. Curioso mesmo seria saber o que aconteceria de um encontro entre os brasileiros que moram dos dois lados da linha verde.

 

Tenho curiosidade de entender quais temas poderiam ser discutidos em tal encontro. Em ambos os países grande parte dos problemas são causados pela falta de diálogo. Como brasileiro, sempre senti que o governo não representa o povo, faltando diálogo entre importantes setores da sociedade e seu governo. Em Israel e na Palestina muitas pessoas já não se sentem ouvidas também. Há fortes interesses que impedem o avanço da reconciliação. Em geral, aqueles que pregam a inexistência do diálogo gostam de impor suas visões à sociedade. Em ambos os países, as dúvidas pairam sobre suas capacidades de construir ou manter suas democracias, imprescindíveis para o convívio baseado na paz e na transparência.

 

Entendo que minha análise é pouco ‘kosher’ nem ‘halal’. Ela vem de uma sensação que me tira da zona de conforto. Israelenses e palestinos são ignorantes em perceber que estão perdendo a chance de construir um futuro de mutualidade e cooperação. Ao contrário, estão cada vez mais distantes, e suas diferenças estão também refletidas na democracia brasileira.

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Comentários    ( 2 )

2 comentários para “Israel vota Aécio e Palestina vota Dilma”

  • Mario S Nusbaum

    25/10/2014 at 20:37

    O apoio do governo brasileiro à AP e ao hamas tem várias explicações: – entre uma democracia e uma ditadura, Dilma e o PT sempre se alinharão com a segunda. – o PT abriga/abrigou vários anti-semitas
    – terrorismo não é algo pelo qual a Dilma tem antipatia, muito pelo contrário
    – se os EUA liderarem uma cruzada contra o câncer, o PT se manifestará a favor da doença

  • Raul Gottlieb

    09/11/2014 at 19:40

    Olha, David, eu achei os 7,2% da Dilma em Israel um exagero. Algo em torno do zero porcento me parecia mais razoável.

    Ela se esforçou muito, em todas as oportunidades que teve, de deixar o mais claro que permitem a diplomacia e o medo de perder os poucos votos judeus que ainda têm no Brasil, que acha Israel uma aberração.

    Creio que ela ficou tão estarrecida com estes 7,2% do que ficou com a corrupção na Petrobrás, com a necessidade de aumentar os juros, a gasolina, as tarifas de energia elétrica e o aumento da quantidade de pobres e miseráveis em seu mandato.

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