Jejum de Guedaliá e Itzhak Rabin

No dia 3 de Tishrei, logo após a saída do Yom Tov de Rosh Hashaná (Ano Novo Judaico), há um jejum de 12 horas em memória de Guedaliá.

Guedaliá Ben Achikam viveu em Jerusalém, no reino de Judá, na época da destruição do 1º templo, o Templo de Salomão (que aconteceu no ano 586 A.E.C). Nabucodonosor, rei da Babilônia, após destruir o Templo e levar cativa boa parte do povo judeu, nomeou Guedaliá como governador dos judeus que permaneceram vivendo na terra de Israel. Sua boa reputação e influência fez com que pessoas dispersas por diversas terras voltassem a viver nas terras de Judá. Devido a intrigas e brigas de duas facções políticas que dividiam o povo, Guedaliá foi assassinado por Ishmael ben Netaniá. Antes de receber uma visita do grupo representado por Ishmael, Guedaliá foi prevenido pelo seu chefe de segurança (Yochanan ben Kareach), que muito desconfiava das intenções dessa visita. Yochanan se ofereceu para matar Ishmael secretamente. “Não faças tal coisa, pois é falso o que dizes sobre Ishmael” – respondeu Guedaliá a Yochanan ben Kareach (Jeremias, capítulo 41, versículo 16). Ishmael foi visitar Guedaliá com um grupo de 10 homens, e foram recebidos com um banquete. Durante a refeição, atacaram e mataram Guedaliá.

Uma parte do povo judeu estava cativa na Babilônia, e a parte que ficara na terra de Israel agora se encontrava completamente desestruturada, mergulhada em profunda crise política, com ameaças ferozes de ataques dos caldeus e da Babilônia. A população judaica da terra de Israel se viu então obrigada a se refugiar no Egito, que era inimigo da Babilônia, e assim, 800 anos após o Êxodo, contrariou o mandamento da Torá que proibia os judeus a voltar a se assentar no Egito. Essa parte do povo rapidamente se assimilou e se desvinculou do judaísmo. Segundo a tradição judaica, esse foi o primeiro assassinato político da história do povo judeu, e instituiu-se um jejum para que o povo se redimisse do ocorrido, e que nunca mais acontecesse um assassinato político entre nós.

Em 1995, Itzhak Rabin, ex-primeiro ministro israelense, foi assassinado por razões políticas. Atualmente, no dia do jejum de Guedaliá, em Israel, fala-se de Rabin. Da mesma forma que Guedaliá, Rabin foi avisado pelo chefe do Shin Bet (o serviço secreto de segurança interna israelense), Carmi Guilon, de que iriam atentar contra sua vida. No dia do comício pela paz em Tel Aviv, quando foi assassinado, Rabin foi orientado a usar um colete à prova de balas. Prontamente se recusou, achando um absurdo desconfiar e precisar se proteger de judeus em plena Tel Aviv. O assassino de Rabin, Ygal Amir, um judeu religioso ortodoxo, praticante dos costumes, que muito provavelmente jejua por Guedaliá para que nunca mais aconteça um assassinato político no seio do povo judeu, foi o autor dos três disparos que tiraram a vida de Rabin.

Os três tiros não foram apenas contra Rabin, foram contra a democracia, contra o pacto nacional, contra as eleicões, contra o povo judeu. As feridas profundas que esse assassinato deixou na sociedade israelense foram um fim trágico para a inocência nacional gerada pelo sionismo, o imaginário coletivo de que todos estavam unidos por uma causa e objetivo comuns. Talvez mais trágico do que o atraso que já dura 22 anos em relação a um acordo de paz mais definitivo (que virá), esse assassinato matou a coesão na sociedade judaica, a confiança, o sentimento de irmandade, de união. Aprofundou preconceitos e distâncias, feridas que jejuns inteiros não podem curar. Desde então, já passamos por uma grande e sangrenta intifada, uma guerra no Líbano, e três guerras em Gaza. E deixou a democracia agonizante, nas mãos de políticos que não parecem fazer questão nenhuma de salvá-la. Vai dar trabalho, mas a democracia e o sionismo vão prevalecer, apesar de tentativas internas nefastas de sabotá-los.


 

Comentários    ( 2 )

2 comentários para “Jejum de Guedaliá e Itzhak Rabin”

  • ELIAS SALGADO

    24/09/2017 at 23:15

    Fala Rafa.

    Parabéns pelo brilhante artigo. Um paralelo super coerente e pertinente.

    Shaná Tová

  • Rafael Stern

    25/09/2017 at 11:17

    Olá Elias,
    Que bom que você gostou. As histórias possuem semelhanças impressionantes, o que mostra como as vezes, mesmo com símbolos fortes de lembrança, mensagens importantes caem no esquecimento… Mas estamos aí para manter a chama acesa!
    Shaná Tová Umetuká, Gmar Chatimá Tová.
    Abraços,

    Rafa

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