Jerusalém de Ouro e de Ferro

07/05/2013 | Cultura e Esporte

A canção Jerusalém de Ouro foi cantada pela primeira vez no Festival de Música de 1967, semanas antes da Guerra dos Seis Dias. Foi o então prefeito de Jerusalém, Teddy Kollek, que pediu a Nomi Shemer para que escrevesse uma canção especial sobre a cidade.

A canção não participou da competição no festival, e foi tocada durante a contagem dos votos. Por sugestão de sua filha, Nomi Shemer escolheu a jovem e desconhecida Shuli Natan para cantar, pois esta tinha uma voz aguda do jeito que ela gostava.

A letra da canção expressa saudades à cidade velha de Jerusalém, que desde a guerra de independência estava em mãos jordanianas. Uma estrofe diz “Como podem ter secado as cisternas // A praça do mercado está vazia // E não há quem visite o Monte do Templo // Na cidade velha”.

Apenas três semanas após o Festival de Música, começou a Guerra dos Seis Dias, durante a qual Jerusalém foi reunificada. Nomi Shemer escutou na transmissão da rádio os soldados cantando Jerusalém de Ouro no muro das lamentações, e então resolveu adicionar duas estrofes à canção. A estrofe citada acima foi atualizada para: “Voltamos para as cisternas // Para o mercado e para a praça // Um shofar chama do Monte do Templo // Na cidade velha”.

Um dos soldados que participaram da conquista de Jerusalém em 1967 foi Meir Ariel, reservista na divisão de paraquedistas. Com o fim da guerra, Ariel escreveu uma nova letra para a melodia de Jerusalém de Ouro, e a entitulou Jerusalém de Ferro. Em sua canção Meir Ariel fala sobre a dor da guerra, a falta que fazem os soldados mortos e a destruição, contrastando com a serenidade descrita na canção de Nomi Shemer. A canção exprime o alto preço que pagou a nação para conseguir realizar o sonho de ter Jerusalém unificada. Compare o refrão das duas canções: 

Jerusalém de ouro
E de bronze e de luz
Eis que para todas as suas canções
Sou um violino

Jerusalém de ferro
E de chumbo e de escuridão
Não foi a suas muralhas
Que chamamos liberdade?

A letra de Jerusalém de Ferro é bastante dura, e uma de suas estrofes diz: “O batalhão, recebendo mísseis, seguiu adiante // Todo cheio de sangue e fumaça // E veio mãe após mãe // Ao público de enlutados”. A canção foi lançada em 1967 no primeiro disco lançado por Meir Ariel, que se tornaria ele também um dos maiores músicos e letristas da língua hebraica.

Jerusalém de Ouro também recebeu críticas por ignorar o conflito entre árabes e judeus. A frase “A praça do mercado está vazia” incomodou a muitos, que diziam que Nomi Shemer não via os árabes como pessoas. O escritor Amos Oz perguntou se Shemer também escreveria que a praça Piccadilly de Londres está vazia. Em resposta, Shemer disse: “isso me causa um enorme raiva. É como se alguém tivesse saudades de sua amada e ele vai a seu psiquiatra, Amos Oz, e então o psiquiatra lhe diz ‘não se preocupe, ela não está sozinha na cama’. Um mundo vazio de judeus, é para mim um planeta morto, e a Terra de Israel que está vazia de judeus é para mim deserta e vazia.”

Jerusalém de Ouro é uma das canções em hebraico mais conhecidas pelo mundo, e já foi eleita diversas vezes em Israel como ‘a canção nacional’, a canção do cinquentenário, ou outros títulos. Há aqueles que até sugeriram que se tornasse o novo hino de Israel. A canção já aparece em livros de reza judaicos, e em minha opinião está bem estabelecida para entrar no cânone judaico.

 

Letra e melodia

Nomi Shemer faz algumas referências às escrituras e à literatura judaica em geral. A frase do refrão “Eis que eu sou para todas as suas canções um violino” é uma modificação do verso “eu sou um violino para suas canções”, da poesia “Tzion halo tishali”, do grande poeta Yehuda haLevi, que viveu na Espanha nos séculos XI e XII. A frase “se eu me esquecer de ti, Jerusalém” é um famoso versículo do Salmo 137. Há também uma referência ao primeiro versículo do capítulo 1 do Livro das Lamentações, com o uso da palavra ‘eicha’ no começo da quarta estrofre, e com o verso “a cidade que está solitária”, na segunda estrofe.

Mesmo o nome da canção, Jerusalém de Ouro, é uma referência a uma lenda sobre Rabi Akiva. Conta-se que Rabi Akiva era muito pobre, e disse a sua esposa que se pudesse lhe daria uma jóia chamada Jerusalém de Ouro.

Há uma grande controvérsia em relação à melodia da canção. Em uma carta que escreveu poucos dias antes de morrer, Nomi Shemer admitiu que quando escreveu a canção, tomou parte da melodia da canção basca Pello Joxepe, de Paco Ibañez. Shemer escreveu que usou a melodia basca sem perceber, e depois se lamentou pela melodia não ser 100% dela. “Eu considero tudo isso um lamentável acidente de trabalho”, escreveu.

Shemer conta que sua amiga, a cantora Nechama Hendel, tocou para ela a canção basca no meio dos anos 60′, e quando escreveu “Yerushalaim Shel Zahav” – “parece que aquela música se infiltrou sem que eu soubesse”. Numa entrevista ao jornal Haaretz, Paco Ibañez diz: “Quando escutei a música, disse: ‘Ei, essa música é Pello Joxepe’, mas não como se isso fosse plágio, mas sim com bastante afeição por Shemer. Essa é uma canção popular basca que minha mãe costumava cantar para mim. Se eu fiquei bravo? Não, nem um pouco, pelo contrário. Fiquei feliz que a canção ajudou em algo.”

O leitor pode encontrar a letra de Jerusalém de Ouro e a de Jerusalém de Ferro no site Shirim em Português, escrito por mim. Ali pode-se ler a letra original em hebraico, sua transliteração e tradução ao português.

Foto de capa.

Comentários    ( 4 )

4 comentários para “Jerusalém de Ouro e de Ferro”

  • Nelson

    07/05/2013 at 10:47

    Grande Yair, sempre na categoria. O Meir Ariel seria o nosso Renato Russo, veio a se tornar, pelas letras que contam historias, o cara era muito bom. Quanto a essa “obrigatoriedade”de sempre falar no conflito, isso chega a neurose. Deixa o compositor usar sua licenca poetica e nao enche o saco. Emita sua opiniao, caro Amos Oz, mas nao fique cobrando muito, ate porque a saudosa Naomi Shemer nao ficava revisando teus textos. Outra coisa: Acontece bastante do musico ser traido pelo inconsciente, ou sub-consciente, na hora de compor. Isso eh normal.

  • Rita Burd

    07/05/2013 at 14:53

    YOM YERUSHALYM É CELEBRADO POR TODOS. OUVINDO YERUSHALAYM SHEL ZAHAV, A EMOÇÃO TOMA CONTA E A IMPORTANCIA HISTÓRICA ASSUME UMA DIMENSÃO TOTAL.
    KOL HAKAVOD CONEXÃO ISRAEL, VOCES CHEGARAM PARA NUTRIR, INFORMAR E ENCHER DE EMOÇÃO A NOS, QUE ESTAMOS AQUI NO BRASIL E CONCECTADOS COM ISRAEL.

  • Mario Silvio

    07/05/2013 at 15:03

    Sensacional o site com a letras, vou virar freguês, obrigado,

  • Raul Gottlieb

    07/05/2013 at 19:35

    Todas as imagens bíblicas citadas pelo Yair e a imagem medieval (de Yehuda Halevi) são associadas à destruição do Templo, sendo algumas (inclusive a kiná de Halevi) lidas em 9 de Av.

    Assim que o canto composto por Naomi Shemer na pré reunificação de Jerusalém é um lamento pela ausência dos judeus de Jerusalém e neste contexto ver a praça vazia de judeus é uma imagem muito coerente.

    Yehuda Halevi escreveu um poema onde se declarou “acorrentado pelos árabes [da Espanha]”, mesmo estando completamente livre para ir e vir. As correntes que ele citou eram poéticas.

    Assim que concordo com o Nelson. O Amos Oz foi um tanto inconveniente ao criticar o vazio da praça do Templo no poema da Naomi Shemer. Ela quis dizer que não haviam judeus – e não haviam mesmo.

    Entre 1948 e 1967 os judeus foram proibidos de entrar em Jerusalém. Ganha um picolé de chocolate quem adivinhar quantas resoluções da ONU criticaram esta flagrante violação das sensibilidades religiosas dos judeus.

Você é humano? *