A Jerusalém do meio

28/05/2014 | Cultura e Esporte, Sionismo.

Por que Jerusalém é sempre duas, a de cima e a de baixo?
E eu quero viver na Jerusalém do meio
Sem bater a cabeça em cima e sem machucar as minhas pernas em baixo.
E por que Jerusalém se diz no plural como mãos e pernas,
Eu quero viver apenas em uma Jerusalém
Porque eu sou apenas um e não dois.

Em 1967 a cidade de Jerusalém foi reunificada, durante a Guerra dos Seis Dias. Por dezenove anos, desde a independência de Israel, a cidade estava partida em dois, o Oeste com Israel, e o Leste com a Jordânia, incluindo a cidade velha, com o Monte do Templo e seu Muro Ocidental.

A poesia acima é de Yehuda Amichai, sobre quem já escrevi a respeito. Ele aponta que a palavra Yerushalaim (Jerusalém) tem o sufixo “aim” que se dá em hebraico ao “plural de dois”, assim como mãos (yadaim) e pernas (raglaim). Amichai vivia em Jerusalém e sua cidade é muito presente em sua poesia. Trago a vocês diversas de suas poesias, onde Amichai mostra que mesmo não estando mais dividida, Jerusalém é múltipla e certamente plural.

Jerusalém e o mar

Deus construiu Jerusalém como um marinheiro velho
Que fez um navio pequeno dentro de uma garrafa
Para que? Ora, um navio no mar é melhor
E navega. E uma cidade no grande céu e a mais bonita de todas.

ponte

Em muitas de suas poesias, Yehuda Amichai compara Jerusalém a um navio. Incidentalmente, a abreviação de Jerusalém em hebraico é Yam, ou seja, mar (ירושלים = י-ם). Mais uma para vocês:

Jerusalém cidade portuária

Jerusalém é uma cidade portuária à beira da eternidade
O monte do templo é um grande navio, um barco de prazeres
Magnífico. Das janelinhas de seu muro ocidental santos olham
Alegres, viajantes. Chassídicos acenam do pier
Adeus, gritam viva, até mais ver. Ele
Sempre chega, sempre parte. E as cercas e os piers
E os policiais e as bandeiras e os mastros altos de igrejas
E mesquitas e chaminés de sinagogas e os botes
De louvor e ondas de montanhas. Um som de shofar soa: mais
Um [navio] parte. Marinheiros de Yom Kipur em uniformes brancos
Sobem entre escadas e cordas de preces testadas
E em negociação e os portões e as cúpulas de ouro:
Jerusalém é a Veneza de Deus.

Amichai faz bastante uso da tradição judaica em suas poesias. Os marinheiros em uniformes brancos são as pessoas que se vestem de branco em Yom Kipur, que é anunciado por um toque de shofar, ou o chifre do carneiro. Em Israel, todos vestem branco em Yom Kipur, nada de terno escuro ou vestidos de festa! As preces do Machzor, já testadas e experimentadas por centenas de anos, ajudam nas negociações com Deus, neste dia do perdão.

Jerusalém de cima e de baixo

Jerusalém é um carrossel que gira e gira
Da cidade velha, passando por todos os bairros, e de volta à cidade velha.
E é impossível descer dela. E quem pula dela arrisca sua vida.
E quem desce dela no final dos giros deve pagar novamente
Para subir nela, aos giros que não tem fim.
E em vez de elefantes e cavalos coloridos para se cavalgar
Tem religiões que sobem e descem e também giram
Em seus eixos ao som de melodias lubrificantes das casas de oração.
Jerusalém é uma gangorra: às vezes eu desco
Para dentro das gerações que já foram e às vezes eu subo ao céu, e então
Eu grito como uma criança grita, cujas pernas balançam lá no alto,
Eu quero descer, papai, eu quero descer,
Papai, me tira.
E todos os santos sobem assim ao céu
E eles são como uma criança que grita, papai, eu quero ficar em cima,
Papai, não me tira, nosso pai nosso rei,
Nos deixe em cima, nosso pai nosso rei!

“Nosso pai” e “nosso rei” são duas das dezenas de formas possíveis de se referir em hebraico a Deus, e é também o nome de uma importante reza de Rosh Hashana e Yom Kipur, “Avinu Malkenu”. Outra poesia de Jerusalém recheada de símbolos judaicos:

Em Jerusalém tudo é símbolo, até mesmo dois amantes
Serão um símbolo, como o leão, como a cúpula de outro, como os portões.
Às vezes eles amam sobre um simbolismo suave demais
E às vezes os símbolos são duros como pedra e afiados como tesouras.
Portanto eles amam sobre um colchão de 613 molas
Como o número de preceitos, preceitos que ele faça e não faça
Que ela faça e não faça, e isto é bom para o amor
E aos prazeres. E eles falam com vozes de sinos
E com lamentos do muezin, e ao lado de sua cama há sapatos vazios
Como na entrada de uma mesquita. E na mezuzá de sua casa está escrito:
“Amem com todo o coração e toda a alma”.

Emblem_of_Jerusalem-04

O leão é o símbolo da cidade de Jerusalém, e aparece em seu brasão de armas. Já os 613 preceitos do judaismo, enumerados por Maimônides, estão divididos em 365 preceitos negativos do tipo “não fazer algo”, correspondendo aos dias do ano solar (mas não aos dias do ano judaico!), e 248 preceitos positivos do tipo “deve-se fazer algo”, conforme o número de ossos e principais órgãos do corpo humano, mencionados pelo Talmud. Muezin é a pessoa que canta do alto do minarete de uma mesquita, chamando os fiéis muçulmanos a rezar, e mezuzá é o que os judeus colocam no batente de suas portas, lembrando a saída do Egito. Dentro dela há um pergaminho com a reza “Shma Israel”, cujo segundo verso diz “Amem o Senhor, seu Deus, com todo seu coração, com toda a sua alma, com toda a sua força” (Deuteronômio 6:5).

Turistas

Eles fazem aqui visitas de pêsames,
Sentam em Yad Vashem, ficam sérios ao lado do Muro das Lamentações
E riem atrás das pesadas cortinas dos quartos de hotel,

Tiram foto com mortos famosos no túmulo de Raquel
E no túmulo de Herzl e na colina da munição,
Choram pelos jovens valentes
E desejam obstinadamente nossas jovens
E penduram suas cuecas e calcinhas
Para uma secagem rápida
Em uma banheira azul e fria

Certa vez estava sentado em umas escadas ao lado do portão da fortaleza de David, e coloquei meus dois cestos a meu lado. Estava lá um grupo de turistas em volta do guia e eu lhes estava servindo de ponto de referência. “Estão vendo este homem com as cestas? Um pouco à direita de sua cabeça tem um arco da época romana. Um pouco à direita de sua cabeça”. Mas ele se move, ele se move! Pensei a mim mesmo: a redenção virá apenas quando eles disserem: Estão vendo ali o arco da época romana? Tanto faz. Mas do lado dele, um pouco à esquerda e abaixo dele, está sentado um homem que comprou frutas e verduras para sua casa.”

Pepelzinho no muro? Check!
Pepelzinho no muro? Check!

Yehuda Amichai contrasta a Jerusalém de cima, a que os turistas buscam, cheia de espiritualidade e com todo o peso da História em seus ombros, com a Jerusalém de baixo, a da vida quotidiana e simples. Os turistas, que normalmente passam ali dois ou três dias, acabam riscando os itens de seu checklist. Yad Vashem? Check! Muro? Check! Foto ao túmulo de Rabin? Check!

Ecologia de Jerusalém

O ar sobre Jerusalém está saturado de preces e sonhos
Como o ar sobre cidades de indústria pesada,
É difícil respirar.

E de tempos em tempos chega uma entrega nova de História
E as casas e as torres são seus materiais de embrulho,
Que depois são jogados e amontoados em pilhas.

E às vezes veem velas em vez de pessoas,
Então silêncio,
E às vezes vem pessoas em vez de velas
E então barulho.

E dentro de jardins fechados, entre arbustos de jasmim
Todos perfumados, consulados estrangeiros,
Como noivas ruins que foram rejeitadas
Espreitam à sua hora.

É interessante contrastar o ar pesado e saturado da poesia com a primeira estrofe da canção Jerusalém de Ouro, de Nomi Shemer: “O ar da montanha é límpido com o vinho // E o perfume dos pinheiros // Carregado na brisa do anoitecer // Com os sons dos sinos”.

Jerusalém dos pastores

Jerusalém, lugar onde todos lembram
Que esqueceram algo ali
Mas não se lembram o que esqueceram.

E para lembrar estou eu
Visto em meu rosto o rosto de meu pai.

Está é minha cidade onde se enchem os reservatórios de meus sonhos
Como tanques de oxigênio de mergulhadores.

A santidade dela
Às vezes vira amor

E as perguntas que se fazem nestas montanhas
São as mesmas de sempre: você viu o meu rebanho?
Você viu o meu pastor?

E a porta de minha casa está aberta
Como um túmulo de onde pessoas ressuscitaram.

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Portão de Damasco

E agora outra poesia com a temática de pastoreio:

Um pastor árabe procura um carneiro no monte Sião,
E na montanha da frente eu procuro o meu filho pequeno.
Um pastor árabe e um pai judeu
Em seu insucesso temporário.
As vozes de nós dois se encontram em cima
Das piscinas do sultão no vale do meio.
Ambos não queremos que começem
O filho e o carneiro um processo
A máquina terrível do Chad Gadyá.

Mais tarde os encontramos entre os arbustos,
E nossas vozes voltaram a nós, e choraram e riram dentro.

A busca por um carneiro ou por um filho
Sempre foi
O começo de uma nova religião nestas montanhas.

A máquina terrível do Chad Gadyá é o ciclo vicioso de violência, contado na canção de mesmo nome que se canta em Pessach. Quem quiser uma leitura interessante desta canção, pode conferir Chad Gadyá da cantora Chava Alberstein.

A dura Jerusalém

Gei Ben Hinom
Gei Ben Hinom

Morávamos no Gei Ben Hinom, na terra-de-ninguém na Jerusalém dividida
Em uma casa de telhado atingido e suas paredes feridas por balas e estilhaços
Em baixo da cama colocamos uma pilha de livros no lugar da perna quebrada.
(E não me lembro se voltamos a lê-los.) E as escadas de pedra
Eram para nós como as escadas que os anjos esqueceram quando fugiram do sonho de Jacó
E as deixaram para que pudéssemos descer e subir.
E a terra-de-ninguém se diz em inglês, “terra-não-homem”,
Mas nós éramos ali um homem e uma mulher sérios em seu amor
E não sem dono. E se não morremos, nós ainda amamos.

O vale “Gei Ben Hinom” está logo do lado de fora das muralhas da cidade velha, perto da Fortaleza de David e ali passava a divisão entre a Jerusalém israelense e jordaniana. Há 3 mil anos era um lugar de sacrifícios humanos, especialmente de crianças, e o nome do vale deu origem a Gehenom, que em hebraico moderno significa inferno. Hoje, em parte do vale, há a “piscina do sultão”, lugar onde se faz shows e festivais de música.

O moinho em Yemin Moshe

Este moinho nunca moeu farinha.
Ele moeu ar sagrado e pássaros
De saudade de Bialik, ele moeu
Palavras e tempo moído, ele moeu
Chuva e até mesmo morteiros,
Mas ele nunca moeu farinha.

Agora ele nos descobriu,
E mói nossas vidas dia a dia,
Para fazer de nós a farinha da paz,
Para nos assar no pão da paz
Para as gerações que virão.

moinho
Moinho de Montefiore

Este é o famoso moinho construido no bairro de Yemin Moshe, o primeiro fora das muralhas de Jerusalém. Os pássaros de saudade são uma referência à famosa poesia de Chaim Nachman Bialik, El Hatzipor. Esta próxima poesia é da época em que Jerusalém estava ainda dividida:

Jerusalém

Sobre um teto da cidade velha,
A roupa lavada é iluminada pela última luz do dia:
Um lençol branco de uma inimiga
Uma toalha de um inimigo
Para enxugar nela o suor de seu rosto.

E no céu da cidade velha
Uma pipa.
Na ponta do fio –
Um menino.
Que não pude ver
Por causa do muro.

Hasteamos muitas bandeiras,
Hastearam muitas bandeiras,
Para que pensemos que eles são felizes.
Para que eles pensem que nós somos felizes.

Última de hoje

Quem alguma vez viu Jerusalém nua?
Nem mesmo os arqueólogos viram.
Pois ela nunca se despiu até o fim.
Sempre vestiu novas casas
Sobre as desgastadas, e as rasgadas e as quebradas.

Obrigado a todos aqueles que chegaram ao fim deste post. Se você conhece outras poesias sobre Jerusalém, deixe um seu comentário, compartilhe conosco! Todas as poesias foram traduzidas por mim, Yair, somente para fins educacionais.


Fontes:

Coleção de livros onde encontrei as poesias
Coleção de livros onde encontrei as poesias

Livro “Patuach Sagur Patuach” de 1998 – פתוח סגור פתוח
Seção “Yerushalaim Yerushalaim, lama Yerushalaim? – ירושלים ירושלים, למה ירושלים
Poesia 6: Jerusalém é um carrosel que gira e gira.
Poesia 7: Em Jerusalém tudo é símbolo, até mesmo dois amantes.
Poesia 9: Por que Jerusalém é sempre duas, a de cima e a de baixo?
Seção “Batim batim veahava achat” – בתים בתים ואהבה אחת
Poesia 4: Morávamos no Gei Ben Hinom.
link1, link2

Livro “Meachorei kol ze mistater osher gadol” de 1985 – מאחורי כל זה מסתתר אושר גדול
Capítulo “Shirei eretz tzion yerushalaim” – שירי ארץ ציון ירושלים
Poesia 19: Deus construiu Jerusalém como um marinheiro velho.
Poesia 21: Jerusalém, lugar onde todos lembram.
Poesia 28: Quem alguma vez viu Jerusalém nua? [traduzi apenas a segunda metade da poesia]
link

Livro: Poesias 1948-1962, de 1963 – שירים 1962-1948
Poesia: Sobre um teto da cidade velha.
link

Livro: “Shalva Gdola: Sheelot Utshuvot” de 1980 – שלווה גדולה: שאלות ותשובות
Poesia: Ecologia de Jerusalém.
Poesia: Turistas.
Poesia: Um pastor árabe procura um carneiro no monte Sião.
Poesia: O moinho em Yemin Moshe
link1, link2

Livro: “Achshav Beraash” de 1969 – עכשיו ברעש
Poesia 21: Jerusalém cidade portuária.
link

Eu encontrei todas as poesias na coleção “Shirei Yehuda Amichai“, de cinco volumes, a mesma da imagem acima. Ela reúne todas as suas poesias, um verdadeiro tesouro.

Imagens:
Imagem de capa: Bünting Clover Leaf Map, Wikipedia
Moinho de Montefiore: Wikipedia
Gei Ben Hinom: Wikipedia
Portão de Damasco: YNET
Papeis no Muro: Flickr de Brian Jeffery Beggerly, segundo a licença Creative Commons.
Emblema de Jerusalém: Wikipedia
Ponte: Wikipedia
Coleção de livros: amitei-bronfman.org

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “A Jerusalém do meio”

  • Marcelo Starec

    28/05/2014 at 08:10

    Oi Yair,

    Ótimo artigo! Jerusalém é, sempre foi (a mais de 3.000 anos) e sempre será uma cidade sagrada, especial, ímpar, para todo o povo judeu !!! O seu artigo me fez lembrar uma linda história da idade média, onde um judeu lutou durante muitos anos para garantir que, ao morrer, sua família o enterrasse em Jerusalém…Eu não me lembro dos detalhes pois faz muito tempo, mas era realmente bonita!

    Um abraço,
    Marcelo.

  • Rebeca Daylac

    04/06/2014 at 19:50

    Yair,
    Amei seu artigo!!!
    Lindo!!!

Você é humano? *