Jerusalém Oriental — Parte final: dentro ou fora?

16/08/2013 | Conflito; Política; Sociedade

Última uma parte da tradução livre do artigo “Uma cidade para todos nós” (עיר לכולנו), de Nir Hasson, publicado no encarte de final-de-semana do jornal HaAretz de 28.12.2012. O post introdutório você lê aqui.

Ilhas de anarquia – O inegável processo, através do qual a parte oriental de Jerusalém está sendo unificada com o lado ocidental, não incorpora todos os residentes de Jerusalém Oriental. Estão incluídos principalmente os bairros mais estabelecidos e, mais especificamente, suas populações de maior poder aquisitivo. Estes processos são completamente ausentes nos bairros palestinos que ficaram do outro lado de Barreira de Separação[ref]Composta 90% de cerca e 10% de muro, a Barreira de Separação foi criada para aumentar a segurança de Israel, impedindo infiltrações terroristas da Cisjordânia. Seu traçado, inteiramente em terras palestinas, varia entre trechos de grande fidelidade à Linha Verde – do Armistício de 1949 – e profundas inserções, representando a efetiva anexação de grandes blocos de assentamentos judaicos em território palestino.[/ref]. Na verdade, a situação nestas áreas é quase o inverso.

Cerca de 70 mil palestinos, quase um terço de todos os residentes árabes de Jerusalém, vivem agora do outro lado da barreira. Seus bairros se tornaram ilhas de completa anarquia entre Israel e a Autoridade Palestina. A polícia, a prefeitura, as empresas de infraestrutura e as demais autoridades israelenses dificilmente operam nestes bairros e a Autoridade Palestina está impedida de adentrá-los sob os termos dos Acordos de Oslo. O resultado é que seus habitantes estão fadados a uma vida de dificuldades, desprovida dos mais básicos serviços e com uma conexão cada vez mais estreita com sua cidade, que os deixam do lado errado dos postos de controle.

Nos últimos anos, o prefeito Nir Barkat vem tentando transferir estes bairros para a responsabilidade da Administração Civil[ref]O irônico nome do órgão das Forças de Defesa de Israel responsável pela administração dos territórios palestinos ocupados.[/ref], que já controla a Cisjordânia. Barkat quer “ajustar a fronteira municipal à barreira de separação”. E acrescenta: “Não posso operar quando uma cerca cruza os limites da cidade. A cerca é uma barreira real em termos de suprimento de serviços”.

Redesenhar as fronteiras municipais nesta escala seria obviamente uma decisão dramática. Alguns diriam que seria a sinalização de início da desistência de Jerusalém Oriental por parte de Israel. Por enquanto, os deputados se recusam a sequer estudar a proposta de Barkat.

O Jardim do Rei – Em 2010, uma tempestade política ocorreu em função dos planos de desenvolvimento de uma área de Jerusalém Oriental conhecida como “Jardim do Rei”. Segundo o plano, apoiado pelo prefeito Barkat, uma nova área turística seria criada perto do vilarejo de Silwan, abaixo da Cidade de David. O plano depende da demolição de 22 das 88 casas construídas ilegalmente no bairro de Al-Bustan, sendo os moradores transferidos para novos edifícios em outra área do bairro.

O plano gerou condenações de todos os lados. Residentes locais erguerem uma tenda de protesto que se tornou foco de manifestações violentas por meses. Governos de todos os cantos do planeta criticaram o plano e o partido Meretz abandonou a coalizão municipal em protesto- ainda que tenha retornado após um ano.

Neste período, o prefeito e sua equipe continuaram visitando a área e discutindo com seus moradores a possibilidade de deixarem suas casas voluntariamente. Barkat afirma que muitos já aceitaram o plano, ainda que não estejam dispostos a admiti-lo publicamente. “Eu lhes trago uma oferta em que todos saem ganhando. O que ocorre em Abu Gosh aos sábados não é nada se comparado ao que pode ser feito aqui”, conta o prefeito, referindo-se às hordas de judeus israelenses que lotam o vilarejo árabe à oeste de Jerusalém – e dentro de Israel – para comer e comprar nos finais-de-semana.

O projeto valorizará seus imóveis de uma maneira que eles nem sonham”, Barak continua, “e agora eles o encaram de maneira completamente diferente. No final das contas, entenderão que é uma proposta séria e serão os primeiros a solicitarem que seja implementada”.

O advogado Ziad Kawar, que representa muitos dos moradores envolvidos, e Morad al-Sana, morador da área, negam veementemente que estejam ocorrendo negociações com a prefeitura. “Talvez uma pessoa das cem tenha assinado o acordo, mas isso não significa nada”, diz Sana.

Entretanto, o vereador Meir Margalit, do Meretz, secretário municipal para Jerusalém Oriental, que está acompanhando de perto como o episódio se desenvolve, acredita que, por trás das cortinas, as negociações já tenham alcançado uma fase avançada.

“Há crescentes indicadores de que alguns moradores já entraram em acordo, mesmo que ainda não se tenha assinado nada”, afirma Margalit.

“Digo isso com grande pesar porque politicamente este plano não deveria seguir em frente”, ele continua. “Estou convencido de que a organização Elad levará vantagem”, ele afirma, referindo-se ao controverso e ultra-nacionalista grupo que controla a Cidade de David, uma atração vizinha à área. “Mas se eu tivesse uma casa de quarenta metros quadrados sem documentação e pudesse trocá-la por uma com o dobro do tamanho e legalizada – bem, não posso lhes culpar”.

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Foto de capa: http://photos.cor.org/d/1837-3/Holy+land+Show+Part+1+_20+of+94_.jpg

O artigo original pode ser lido aqui e sua versão em inglês, aqui.

Comentários    ( 7 )

7 Responses to “Jerusalém Oriental — Parte final: dentro ou fora?”

  • Mario Silvio

    16/08/2013 at 15:34

    ““Eu lhes trago uma oferta em que todos saem ganhando. ”
    Menos, claro, os que vivem do conflito.
    “O projeto valorizará seus imóveis de uma maneira que eles nem sonham”

    “Digo isso com grande pesar porque politicamente este plano não deveria seguir em frente”,
    Por que ??????

    • Claudio Daylac

      16/08/2013 at 16:10

      Mario,

      Como o autor mostra (se não me engano) no primeiro artigo da série, a integração de Jerusalém – ainda que indubitavelmente positiva para seu moradores, árabes e judeus – representa um microcosmo do futuro do Estado de Israel e dos territórios palestinos ocupados, além de uma das questões mais duras sobre a mesa de negociações.

      Politicamente, não dividir Jerusalém pode ser o impasse definitivo para a solução-de-dois-Estados, impossibilitando a criação do Estado palestino e gerando resultado catastróficos para o futuro do Estado de Israel, como expliquei em meu artigo “Estado palestino, prioridade sionista“.

      Acredito que é nesse ponto que o Meir Margalit quis tocar.

      Um grande abraço e shabat shalom!

    • Mario Silvio

      16/08/2013 at 22:23

      Claudio,
      Como você já deve ter percebido, sou muito mais pessimista que você em relação à uma solução para o conflito. Acho que mesmo se dividirem Jerusalém, as lideranças palestinas vão achar outro “impasse definitivo”.

      Na minha opinião a questão mais dura (na verdade inaceitável) é o absurdo e surreal “direito de retorno”, do qual até hoje nenhum palestino declarou estar disposto a abrir mão.

      Shabat Shalom

  • Ricardo Arcanjo

    16/08/2013 at 18:03

    A aldeia de Eizariya faz mesmo parte da municipalidade de Jerusalém? Visitando o local e me senti no limbo (Nem Israel…Nem Autoridade Palestina)! A situação em Silwan é mesmo complicada…visitei o túnel de Ezequias na Cidade de Davi e na saída fui recebido por crianças que me lançaram pequenos objetos (De forma hostil).

    • Claudio Daylac

      16/08/2013 at 18:09

      Olá, Ricardo.

      Obrigado pela vista.

      Eu não conheço a aldeia em questão, mas olhando no Google entendi que está localizada na Cisjordânia, em área B (administração civil palestina e militar israelense).

      Um abraço.

  • Ricardo Arcanjo

    16/08/2013 at 19:53

    Claudio. Obrigado pela informação. Eizariya é a antiga Betânia (בית עניה) e um amigo israelense me falou achava que a aldeia fazia parte da municipalidade de Jerusalém (ônibus p/ o local partem do Portão de Damasco)

    • Claudio Daylac

      16/08/2013 at 20:25

      Ricardo,

      Acabei de confirmar com um amigo que trabalha com turismo: Betânia está na Cisjordânia mesmo.

      Note que, da rodoviária do Portão de Damasco, partem ônibus para os bairros orientais de Jerusalém, mas também para as cidades palestinas da Cisjordânia.

      Um abraço.