Jerusalém Oriental: israelização, normalização ou adaptação?

08/05/2013 | Conflito; Política; Sociedade

Por ocasião de Yom Yerushalaim, que celebra a reunificação da cidade, começarei a publicar em forma de série esta tradução livre do artigo “Uma cidade para todos nós” (עיר לכולנו), de Nir Hasson, publicado no encarte de final-de-semana do jornal HaAretz de 28.12.2012.  Futuramente, traduzirei as demais partes do artigo.

Há um ano, pela primeira vez, a Prefeitura de Jerusalém e os Correios abriram uma agência do serviço postal no vilarejo de Isawiyah [ref]Após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, uma série de vilarejos palestinos localizados fora dos limites do antigo município jordaniano de Jerusalém Oriental foram anexados ao novo município unificado, tornando-se efetivamente bairros de Jerusalém, ainda que continuem sendo chamados de vilarejos.[/ref], localizado abaixo do Monte Scopus[ref]Har haTzofim, onde está localizado o histórico campus da Universidade Hebraica de Jerusalém.[/ref], dentro dos limites municipais da cidade. Junto à abertura desta agência – parte de um plano para melhorar os serviços postais em Jerusalém Oriental –, as ruas do vilarejo receberam nomes e as casas, números. Estes fatos ocorreram após uma solicitação à Suprema Corte, por parte dos moradores, com a ajuda da Associação pelos Direitos Civis em Israel. Mas a prefeitura não conseguia encontrar um local adequado para a agência, uma vez que a maioria das construções no vilarejo são ilegais, pairando uma incerteza sobre seu futuro.

“Visitei o vilarejo dezenas de vezes à procura de um local”, diz Itay Tsachar, assessor do prefeito Nir Barkat e diretor de projetos da prefeitura para Jerusalém Oriental. “Queríamos colocar a agência dos correios no prédio da administração comunitária[ref]Subdivisão da Prefeitura de Jerusalém, similar às Regiões Administrativas e Subprefeituras das grandes cidades brasileiras, mas com membros eleitos pela população local.[/ref], mas descobrimos que este prédio também estava condenado à demolição.” Finalmente, o local da agência foi improvisado em forma de pilotis, entre os pilares de sustentação do centro esportivo do bairro.

Entretanto, na noite anterior à inauguração festiva da nova agência, à qual o prefeito deveria comparecer, o local foi incendiado e slogans contra a normalização e a colaboração com a prefeitura foram rabiscados em suas paredes.

“Pela manhã, recebo uma ligação urgente dos moradores,” conta Tsachar. “Eles me contavam que o local foi incendiado. Quando cheguei lá, encontrei entre 20 e 30 pessoas, perambulando e xingando ‘Veja o que esse filhos-da-puta fizeram’. Lhes disse que não seria um problema, pois a estrutura era feita de ferro. ‘Está apenas um pouco chamuscado. Podemos limpar e seguir com a cerimônia”, lhes disse. Eles organizaram e limparam o local, e a agência vem funcionando perfeitamente desde então”.

Barkat compareceu naquele dia, como planejado, para inaugurar o local. Os carros de sua comitiva foram levemente apedrejados pelo caminho, mas o mukhtar[ref]Líder do vilarejo, na tradição árabe[/ref] de Isawiyah, Darwish Darwish, junto com um grupo de habitantes locais, posicionaram-se junto ao carro, para proteger o prefeito e outras autoridades.

A história da agência dos correios de Isawiyah é um microcosmo das tendências contrastantes que se desdobram em Jerusalém Oriental. Junto com a radicalização nacionalista, o amplo apoio ao Hamas e as confrontações violentas exibidas pela mídia, profundas mudanças têm ocorrido entre os residentes palestinos. Estes processos podem ser descritos como “israelização”, “normalização” ou apenas adaptação. As autoridades israelenses, lideradas pela Prefeitura de Jerusalém, estimulam e até fomentam este processo, com uma surpreendente flexibilidade burocrática ao longo do caminho.

Exemplos desta tendência são inúmeros e incluem: aumento no número de solicitações de carteiras de identidade israelense[ref]Os palestinos residentes em Jerusalém Oriental têm direito a solicitar a cidadania israelense, ainda que a maioria prefira manter o atual status de residente permanente.[/ref]; aumento no número de estudantes que se inscrevem para os exames da bagrut israelense[ref]Exames que avaliam o conhecimento dos alunos do Ensino Médio sobre os conteúdos básicos do currículo obrigatório. Podem ser comparados ao Enem.[/ref]; maior número de residentes palestinos matriculados em instituições de ensino superior israelenses; redução da taxa de natalidade; aumento nos pedidos de autorização de construção; maior número de jovens de Jerusalém Oriental voluntários no Serviço Nacional[ref]Alternativa civil ao serviço militar – opcional entre os árabes.[/ref]; nível superior de satisfação apurado em pesquisas locais; uma revolução nos serviços de saúde; uma pesquisa indicando que palestinos de Jerusalém Oriental prefeririam permanecer sob a soberania israelense em um acordo final; entre outros.

Mas estatísticas secas mostram apenas parte da história. Há elementos não quantificáveis. Nota-se, por exemplo, a presença de palestinos no Centro de Jerusalém Ocidental, nos shopping centres, no recém-inaugurado sistema de bonde[ref]Ou trem leve.[/ref] e no centro comercial a céu aberto Mamilla, às margens das muralhas da Cidade Velha, no Portão de Yafo. Estas pessoas não são garis ou lavadores de pratos, mas consumidores e vendedores. Outro fenômeno é a crescente cooperação entre comerciantes da Cidade Velha e a prefeitura.

Todos os envolvidos no desenvolvimento de Jerusalém Oriental concordam que há uma movimentação tectônica em curso, maior que qualquer outra desde que a cidade passou às mãos israelenses em 1967. Há discordância apenas no que tange a origem desta mudança. Alguns acreditam que ela surgiu de baixo, da desesperança palestina e de seu sentimento de que um Estado próprio não se concretizará. Outros pensam que se deve ao um comportamento modificado por parte das autoridades israelenses quanto ao lado oriental da cidade, liderado pela prefeitura. Todos mencionam a Barreira de Separação[ref]Composta 90% de cerca e 10% de muro, a Barreira de Separação foi criada para aumentar a segurança de Israel, impedindo infiltrações terroristas da Cisjordânia. Seu traçado, inteiramente em terras palestinas, varia entre trechos de grande fidelidade à Linha Verde – do Armistício de 1949 – e profundas inserções, representando a efetiva anexação de grandes blocos de assentamentos judaicos em território palestino.[/ref], que repentinamente cortou os laços de Jerusalém Oriental com seu “interior natural” – as cidades e os vilarejos da Cisjordânia – como um fator que impulsionou os palestinos de Al Quds[ref]A Santa, o nome da cidade em árabe.[/ref] a virarem-se para o Ocidente, para os judeus.

O imenso projeto do bonde, que corta toda a cidade e facilita o transporte desde os bairros orientais ao Centro, também contribui para a transformação. Muitas destas mudanças ocorrem “abaixo do radar”, imperceptíveis para o público israelense, mas suas consequências podem ser dramáticas, particularmente no que toca a possibilidade de dividir Jerusalém – e o país. É muito possível que Jerusalém já tenha optado pela solução binacional.

Próxima parte

Foto de capa: http://photos.cor.org/d/1837-3/Holy+land+Show+Part+1+_20+of+94_.jpg

O artigo original pode ser lido aqui e sua versão em inglês, aqui.

Comentários    ( 7 )

7 comentários para “Jerusalém Oriental: israelização, normalização ou adaptação?”

  • Mario Silvio

    08/05/2013 at 15:09

    ” ‘Veja o que esse filhos-da-puta fizeram’.
    “Os carros de sua comitiva foram levemente apedrejados pelo caminho, mas o mukhtar 4 de Isawiyah, Darwish Darwish, junto com um grupo de habitantes locais, posicionaram-se junto ao carro, para proteger o prefeito e outras autoridades.”

    Venho dizendo há muitos anos: cabe aos palestinos erradicar os terroristas, extermina-los se for preciso.

    • Claudio Daylac

      08/05/2013 at 17:09

      Concordo contigo, Mario. Por isso mesmo, achei digna de destaque a posição do líder local de Issawiyah!

      Um abraço e obrigado por mais um comentário.

    • Mario Silvio

      08/05/2013 at 22:44

      É sempre um prazer Clauido, um abraço

  • Marcelo Treistman

    08/05/2013 at 17:50

    Claudio,

    Muito obrigado pelo texto e tradução. Leitura importante de uma estratégia política necessária para o futuro de Israel.

    Gostaria – no entanto – de apontar a minha discordância com a frase final do texto:

    “muito possível que Jerusalém já tenha optado pela solução binacional.”

    Acho que a palavra binacional está mal colocada. Jerusalem está optando pela coexistência, pelo respeito não pela “divisão” ou “multiplicação” de sua soberania.

    Creio que isto só é possível porque a soberania do local está sob a égide do governo israelense que vem determinando políticas de inserção dos palestinos na sociedade.

    É certo que ainda há muito há se fazer, mas estratégias políticas como o do prefeito Nir Barkat conseguem alimentar o meu otimismo. Israel deverá cada vez mais proporcionar o sentimento de cidadania aos arábes e minorias que vivem em nosso país.

    Como o texto indica, os palestinos de Jerusalém Oriental prefeririam permanecer sob a soberania israelense em um acordo final sobre os territórios. É claro que prefeririam… Quem em sã consciência deixaria Israel para viver na Síria, Líbano, Jordânia…? Com todos os problemas (e eles não são poucos) Israel, fornece liberdades jamais vistas ou sentidas nestes outros locais….

    Há algum tempo, lembro ter lido um artigo do comentarista de futebol Salvador Barzelai que dizia que os palestinos torcem para a seleção de futebol israelense na mesma proporção do numero de jogadores árabes que fazem parte do elenco.

    O caminho é esse: para que se sintam identificados com o país, é necessário que o país garanta a eles direitos e deveres comuns a todos os cidadãos.

    Abraços e Parabéns!

    • Claudio Daylac

      22/05/2013 at 01:56

      Marcelo,

      O termo “binacional” não significa “divisão”. Ele significa exatamente “coexistência”, ainda que não necessariamente com a conotação alegre que a palavra tomou recentemente.

      Eu vejo um perigo maior nessa questão. Vejo que “binacional” pode funcionar muito bem para Jerusalém, mas isso aqui pode ser apenas a ponta do iceberg. Conforme os palestinos encontrarem-se cada vez mais desacreditados na solução-de-dois-Estados, mais binacionais seremos.

      E aí está o ovo da serpente…

  • Raul Gottlieb

    11/05/2013 at 20:53

    Jerusalém Oriental não existe.

    Jerusalém é uma cidade apenas, uma cidade de mais de 3 mil anos de idade que foi dividida em duas partes por meros 19 anos dos seus 3 mil – entre 1948 (depois que a Jordânia invadiu parte da cidade e expulsou os judeus que lá habitavam há muitas gerações) e 1967.

    Além disso, há maioria judaica em Jerusalém desde a metade do 19 século. Muito antes do sionismo e muito antes dos Palestinos se darem conta que são Palestinos.

    Em 1967 Israel conquistou a parte que havia sido ocupada pela Jordânia e integrou de novo a cidade numa unidade. Nos 19 anos de domínio árabe da metade da cidade os locais religiosos dos judeus lhes foram interditados. A ONU protestou com um silêncio eloquente contra esta violência.

    Caso a cidade seja dividida de novo, por algum acordo que me parece insensato, um dos lados será novamente interditado aos judeus (pelo menos é isto que diz o Abbas da Fatah e da OLP). Devemos permitir isto?

    Então, falar em Jerusalém Oriental e Ocidental é uma bobagem. Temos uma cidade apenas com bairros vergonhosamente mal cuidados e outros muito bem cuidados.

    A prefeitura precisa dotar aos bairros destituídos dos mesmos recursos que os demais bairros, pois seus moradores merecem a mesma dignidade que todos os demais. E parar de falar em duas cidades onde existe apenas uma.

  • Benny Assayag

    20/05/2013 at 01:50

    Penso que Raul está correto. Jerusalém pode ser dividida em zonas, porém sem a carga ideológica de Jerusalém Leste ou Oeste. Como bem disse, a Prefeitura deve prosseguir na política de respeito à inserção e fazer que todos se sintam pertencentes à unidade em que se constitui a cidade. Penso que esse é um trabalho demorado e árduo pois há que se remar contra o mar da imprensa sensacionalista e do confronto nacionalista alimentado pelo orgulho e pelo ódio. Mas os bons frutos virão se a administração pública perseverar.

Você é humano? *