Jerusalém Oriental — Parte 2: Educação

23/05/2013 | Conflito; Sociedade

Mais uma parte da tradução livre do artigo “Uma cidade para todos nós” (עיר לכולנו), de Nir Hasson, publicado no encarte de final-de-semana do jornal HaAretz de 28.12.2012. O primeiro post está aqui. Futuramente, traduzirei as demais partes do artigo.

Três meses após Israel capturar Jerusalém Oriental na Guerra dos Seis Dias, começou o novo ano letivo. O governo, que no momento já havia oficialmente anexado o lado oriental da cidade, tratou de implementar o currículo israelense nas escolas públicas. Entretanto, os professores, os pais e os diretores recusaram-se categoricamente a aceitá-lo. Foi declarada uma greve que se tornou o símbolo da luta dos árabes de Jerusalém Oriental contra as tentativas israelenses de normalizar a ocupação. A greve persistiu por dois anos inteiros, até que Israel finalmente cedeu e permitiu que as escolas árabes de Jerusalém continuassem lecionando segundo o currículo jordaniano. Posteriormente, segundo os protocolos dos Acordos de Oslo, este currículo foi substituído pelo currículo oficial da Autoridade Palestina.

Os palestinos enxergaram aquela vitória como um marco em sua resistência contra o impulso de anexação de Israel. Entretanto, o triunfo já mostra as marcas do tempo. Atualmente, um crescente número de pais querem que seus filhos obtenham um certificado da bagrut[ref]Exames que avaliam o conhecimento dos alunos do Ensino Médio sobre os conteúdos básicos do currículo obrigatório. Podem ser comparados ao Enem.[/ref] israelense, e mais e mais alunos do Ensino Médio frequentam escolas que os preparam para a inserção no mundo acadêmico israelense. No momento, existem três escolas em Jerusalém Oriental focadas na bagrut israelense, enquanto que outras lançam programas especiais com o mesmo objetivo.

Uma escola em Sur Baher, por exemplo, lançou seu programa para a bagrut israelense no ano passado. A escola esperava que cerca de quinze alunos se inscreveriam, mas cem se matricularam – e o número tende a crescer nos próximos anos.

De acordo com dados do Ministério da Educação, o número de estudantes de Ensino Médio em Jerusalém Oriental que prestaram os exames da bagrut israelense subiu de 5.240 em 2008 para 6.022 em 2011. Outros 400 participaram dos exames fora de suas escolas. A Universidade Hebraica de Jerusalém e outras faculdades na cidade e no resto do país relatam um aumento no número de estudantes árabes de Jerusalém Oriental. Por exemplo, 63 estudantes árabes estão participando da mechinhá[ref]A mechiná tem por principal objetivo a equivalência de currículos para estudantes oriundos de sistemas de ensino considerados “incompatíveis” com o currículo israelense. É o caso dos estudantes sul-americanos, por exemplo, e também dos palestinos.[/ref]este ano, em comparação com 39 no ano passado. Outras instituições acadêmicas populares entre os moradores de Jerusalém Oriental são a Faculdade de Educação David Yellin e a Faculdade Hadassah, ambas em Jerusalém, e a Faculdade Acadêmica de Educação Al-Qasemi, na Galiléia.

Natural de Yafo, Amal Ayub é o fundador e diretor da Promise, uma escola no bairro palestino de Bait Hanina, em Jerusalém, que adotou o currículo israelense há três anos.

“Vim para Jerusalém há 15 anos, mas o que está acontecendo agora é algo completamente novo”, ele diz. “Primeiramente, há abertura. Somos uma escola mista[ref]Meninos e meninas estudam juntos.[/ref], algo que já foi tabu. Quando os pais visitam a escola, vejo em seus olhos porque não querem que seus filhos prestem os exame tawjihi[ref]A bagrut palestina.[/ref]. Eles acham que não é relevante porque, desde que a Barreira de Separação[ref]Composta 90% de cerca e 10% de muro, a Barreira de Separação foi criada para aumentar a segurança de Israel, impedindo infiltrações terroristas da Cisjordânia. Seu traçado, inteiramente em terras palestinas, varia entre trechos de grande fidelidade à Linha Verde – do Armistício de 1949 – e profundas inserções, representando a efetiva anexação de grandes blocos de assentamentos judaicos em território palestino.[/ref] foi construída, ficou mais difícil se matricular em Belém ou Bir Zeit, então eles se focam na Universidade Hebraica, em David Yellin ou na Faculdade Hadassah, e o tawjihi é inútil nestas instituições. E os eventos recentes no Egito e no resto do Mundo Árabe não os encorajam a frequentar universidades nestes países”.

Além das mudanças internas nas escolas secundárias, já existem 10 cursinhos em Jerusalém Oriental especializados em preparar estudantes para universidades e faculdades israelenses. Um dos maiores é o Instituto Anta Ma’ana (“Você está conosco”), na Rua Al-Zahara. Estudantes de todas as idades lotam a pequena sala de aula em busca de apoio para os exames da bagrut israelense e para o exame psicométrico pré-universitário obrigatório.

“Antes, isto era inaceitável. As pessoas comentavam – ‘Por que você estuda com os judeus?’ – mas agora estamos bloqueados e precisamos ficar em Jerusalém”, diz Abdel Gani, diretor do instituto. Eid Abu Ramila, que ensina Estados Cívicos, completa: “E então você se dá conta de que a Universidade Hebraica fica a cinco minutos de casa. Se você for estudar em Belém ou na Universidade de Al-Quds, só conseguirá emprego na Autoridade Palestina, ganhando dois mil shqalim[ref]Cerca de mil reais.[/ref] mensais. Então todos estão afluindo para Israel”.

Outro motivo para a correria para completar a bagrut – na verdade, o principal motivo, segundo a maioria dos estudantes – é o medo do tawjihi, considerado muito difícil. Entre os estudantes entrevistados, Rawan, de Beit Hanina, quer estudar psicologia na Universidade Hebraica, Aboud, também de Beit Hanina, está interessado em Comunicação e Azhar, de Ras al Amud, está na dúvida entre enfermagem e direito.

Nenhum deles enfrenta reações hostis da família ou dos amigos por terem decidido prestar os exames da bagrut israelense.

“É mais fácil integrar-se à sociedade e encontrar emprego com um certificado de bagrut de Israel”, diz Aboud.

“Estudos Cívicos é a matéria mais difícil”, acrescenta o professor Abu Ramila. “Eu ensino princípios de democracia e igualdade e eles me perguntam: ‘Onde está a igualdade?’”.

Alguns moradores palestinos têm tentado lutar contar este fenômeno, persuadindo a Autoridade Palestina a revisar os exames do tawjihi. Hatam Hawis, porta-voz do Comitê Unificado dos Pais de Jerusalém Oriental, classifica o fenômeno da israelização como “apavorante”, porque diminui a sensação de identidade palestina dos residentes. “Israel deliberadamente enfraquece as escolas da cidade, para empurrar as pessoas para a bagrut.

Parte anterior | Próxima parte

Foto de capa: http://photos.cor.org/d/1837-3/Holy+land+Show+Part+1+_20+of+94_.jpg

O artigo original pode ser lido aqui e sua versão em inglês, aqui.

Comentários    ( 7 )

7 comentários para “Jerusalém Oriental — Parte 2: Educação”

  • Paulinho

    24/05/2013 at 17:41

    Guardadas as devidas proporções, vejo alguma semelhança na situação das escolas judaicas na diáspora. Em ambos os casos a prioridade dada pelos pais e alunos cada vez mais é a carreira profissional. A educação judaica ou palestina vem em segundo plano. Parece que ou as escolas se tornam tão competitivas quanto, ou perderão seus alunos. Mas em Jerusalém, o caso curioso é que são os palestinos que se assimilam à cultura judaica.
    Abraço

  • Raul Gottlieb

    24/05/2013 at 22:02

    A liderança dos países Árabes (e dos Palestinos) devotaram enorme esforço para manter os Palestinos num estágio de eternos refugiados, não os absorvendo nos países Árabes que os abrigaram (enquanto que um Palestino que emigrar ao Brasil vira brasileiro, um Palestino em país árabe não é cidadão deste país, nem ele nem seus filhos, netos e bisnetos lá nascidos – eles tem restrição de moradia e restrição de ocupação, além de outras desvantagens).

    Este esforço foi ajudado pela ONU, com sua UNWRA, a agência que cuida dos refugiados Palestinos que considera como “refugiado” não apenas os que foram deslocados pelas guerras, mas seus descendentes sem limite de geração (isto não acontece com todos os demais refugiados do mundo – por exemplo, o filho de um refugiado da segunda guerra mundial não é refugiado).

    O texto acima prova que esta política tem sua razão de ser.

    Se deixados conviver com a sociedade que os circundam os grupos tendem a se assimilar nesta sociedade. Podem (como os judeus no Brasil, por exemplo) manter uma identidade e traços culturais próprios, podem manter laços com grupos de outros países na mesma situação, mas tornam-se fatalmente parte do país que os abriga. Até mesmo na contestada Jerusalém isto acontece, de forma voluntária e pacífica.

    E os Árabes resolveram que não querem que isto aconteça. Não querem criar Sírios de origem Palestina, assim como eu sou Brasileiro com pais europeus. Eles querem manter estas pessoas e seus descendentes como populações deslocadas para sempre – ou pelo menos até a sonhada (por eles) destruição de Israel.

    Ou seja, em nome da política Árabe de pureza étnica no Oriente Médio não hesitam em tratar de forma desumana os Palestinos.

    E quem é vilipendiado por esta politica Árabe é Israel. A desumanidade está saindo muito barata para os Árabes! Ela até mesmo gera dividendos e não ônus. Quando o assunto é Israel o mundo está mesmo de cabeça para baixo.

  • Mario Silvio

    25/05/2013 at 16:09

    Não entendi a censura ao meu post. O que há de errado em dizer que para os palestinos foi MUITO positiva está mudança? Em elogiar o fato de que as escolas são mistas?

    • Claudio Daylac

      25/05/2013 at 20:09

      Deve ter ocorrido algum erro, pois eu não recebi este comentário para autorizar.

      Não houve censura, Mario.

    • Mario Silvio

      25/05/2013 at 20:55

      Desculpe então Claudio, o post que sumiu dizia mais ou menos o seguinte:
      ““Primeiramente, há abertura. Somos uma escola mista 3, algo que já foi tabu”
      Isso é positivo e não apavorante. Ou seja, ganham os palestinos “do bem”.

      Mais uma vez desculpe.

Você é humano? *