Jerusalém Oriental — Parte 4: Saúde

27/06/2013 | Conflito, Política, Sociedade.

Mais uma parte da tradução livre do artigo “Uma cidade para todos nós” (עיר לכולנו), de Nir Hasson, publicado no encarte de final-de-semana do jornal HaAretz de 28.12.2012. O post introdutório você lê aqui. Futuramente, traduzirei as demais partes do artigo.

Não se engane: apesar do que diz o prefeito Nir Barkat, a fronteira entre as duas partes da cidade ainda é visível. As ruas na cidade oriental ainda são marcadas por buracos e fazem curvas em ângulos impensáveis. O lixo não-recolhido ainda se acumula. Sob qualquer indicador – número de latas de lixos, parques públicos, quantidade e qualidade de instalações escolares, número de postes de luz, clínicas pediátricas, investimento por morador ou por criança em idade escolar, a assim por diante – o lado oriental está em desvantagem em relação à cidade ocidental. Como estão os palestinos, se comparados aos seus vizinhos judeus.

Um estudo detalhado, realizado pelo vereador Meir Margalit, descobrir que, na melhor das hipóteses, apenas 13,68% do orçamento municipal é investido nos 36% de moradores árabes que residem em Jerusalém Oriental. Além disso, a população árabe local sofre com desemprego e pobreza profundos, e está mais sujeita à violência policial do que a população judia da cidade. Colonos judeus contratam guardas particulares para patrulharem bairros árabes e o Shin Beit[ref]Serviço de Informação que atua nas áreas controladas por Israel. Paralelo ao Mossad, no exterior.[/ref] ainda tem voz na escolha de diretores de escolas.

Mesmo assim, em uma área, o abismo entre os judeus do Oeste e seus vizinhos no Leste está quase desaparecendo: saúde pública. A última década testemunhou o que pode ser chamado de mini-revolução nesta esfera em Jerusalém. Há cerca de 15 anos, os árabes de Jerusalém Oriental estavam em profunda desvantagem no que toca os serviços de saúde, principalmente em relação aos seguros de saúde[ref]No sistema de saúde universal e obrigatório de Israel, existem quatro grande planos de saúde, que recebem verbas do governo de acordo com a quantidade e o perfil de seus assegurados e não podem recusar nenhum cliente. Todo cidadão está obrigado por lei a inscrever-se em um plano, do qual recebe uma cesta básica de serviços, podendo optar por pagar taxas adicionais por serviços extras.[/ref]. Haviam poucos postos de saúde, os médicos que existiam eram de baixa qualificação, faltavam serviços. Com a entrada em vigor da Lei Nacional da Saúde, que determina a transferência de verbas públicas aos seguros de saúde de acordo com o número de seus assegurados e a melhoria de seus índices, ninguém menos que o seguro de saúde Leumit – historicamente identificado com o Sionismo Revisionista e a direita israelense – decidiu entrar no mercado de Jerusalém Oriental. Um dos grandes motivos foi a baixa média de idade da população local.

Na mesma época, por coincidência ou não, o seguro de saúde Leumit passou por uma transformação: a histórica Estrela de David deu lugar a uma flor em seu logo. Dentro de alguns anos, uma competição feroz estava declarada entre os seguros de saúde na cidade oriental, lideradas pelos concessionários das grandes seguradoras – em sua maioria, médicos locais, mas também alguns empresários.

A competição e a privatização geraram protestos de organizações como os Médicos por Direitos Humanos e a Associação pelos Direitos Humanos de Israel. Sua preocupação era que houvesse fiscalização abaixo do padrão por parte dos seguros de saúde, e uma preferência pelo lucro em detrimento da melhoria do serviço. No final, o processo criou uma situação em que quase todo bairro dispões agora de postos de saúde com equipamentos avançados.

Após casos em que motoristas de ambulância recusaram-se a entrar em bairros árabes, alguns postos de saúde passaram a operar também este serviço. Em alguns casos, os moradores recebem transporte gratuito para os postos, upgrade gratuito para pacotes de serviços extras ou tratamento dentário grátis, para que não troquem de seguro de saúde. Os diretores dos seguros de saúde na cidade ainda se arrepiam quando se lembram que, há três anos, um único concessionário transferiu todos as suas dezenas de milhares de clientes para outro plano de saúde, que lhe oferecia condições melhores que a concorrência.

Fuad Abu Hamed, empresário e líder comunitário de Sur Baher, controla as filiais da Clalit[ref]A principal seguradora do país[/ref] em seu bairro e em Beit Safafa. Ele nos mostra com orgulho a moderna unidade de emergência, o centro radiológico e a clínica dentária. Fala de sucessos extraordinários no campo da medicina preventiva.

“Quando surgiu a necessidade de realizarmos mamografias, alcançamos 95 por cento das mulheres, um fato inédito. Isto ocorre porque eu conheço a comunidade, se uma mulher se recusa a submeter-se ao exame, conversamos com seu marido, ou sua irmã, e eu mando um carro busca-la em casa. Não desistimos”.

O Prof. Yosef Frost, diretor regional da Clalit para Jerusalém, classifica o desenvolvimento do sistema de saúde em Jerusalém Oriental nos últimos anos como um recorde internacional.

“Pegue os índices de qualidade, que são objetivos e universais, e examine a qualidade do serviço médico”, ele diz. “Há quatro anos, os índices estavam extremamente baixos, enquanto que agora estamos quase iguais à média nacional israelense. Alguns dos postos de saúde de Jerusalém Oriental lideram os índices de toda a região e poderiam facilmente estar localizados no Centro de Tel Aviv”.

Segundo Frost, os índices de qualidade da saúde em Jerusalém Oriental subiram de 74 em 2009 para 87 hoje. Esta é a mesma nota que recebem os postos de saúde de Jerusalém Ocidental, e apenas um ponto abaixo da média nacional dos postos da Clalit.

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Foto de capa: http://photos.cor.org/d/1837-3/Holy+land+Show+Part+1+_20+of+94_.jpg

O artigo original pode ser lido aqui e sua versão em inglês, aqui.

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