Kaveret

25/08/2013 | Cultura e Esporte

Nós tivemos tantos problemas
Pensamos que não chegaríamos […]
Entre todos os planos e os caminhos
Era possível morrer […]
Mesmo assim chegamos, apesar de tudo!

Foi assim que começou o show comemorativo dos 40 anos da maior banda israelense de todos os tempos, Kaveret. A letra de “Lamrot HaKol” nunca foi tão apropriada: no dia da apresentação na Piscina do Sultão, em Jerusalém, especulava-se que alguns dos já sexagenários integrantes da banda não estariam presentes por motivos de saúde. Mesmo assim, apesar de tudo, eles vieram!

capa

Não é nenhum exagero dizer que Kaveret foi o maior fenômeno musical que Israel já conheceu, e alguns chegam a comparar o grupo com os Beatles. O núcleo da banda começou com Danny Sanderson, Gidi Gov, Alon Oleartchik, Efraim Shamir e Meir Fenigstein, que faziam parte da banda militar Nachal. Depois que saíram do exército incluíram ao elenco Itzchak Klepter e Yoni Rechter, completando sete integrantes. Em junho de 1973 o grupo começou a apresentar o show Sipurei Puggy (Histórias de Puggy), e viria a se tornar seu primeiro álbum, em novembro do mesmo ano. O show era composto por uma mistura de músicas e esquetes cômicas, em sua maior parte nonsense. O álbum vendeu 70 mil cópias em pouquíssimo tempo, algo inédito em Israel. As canções mais conhecidas do álbum são Po Kavur Hakelev (aqui está enterrado o cachorro), Yo Ya, e Shir haMakolet (canção do minimercado). Kaveret foi eleita a banda do ano de 1973, e sua canção Hamagafaim Shel Baruch (As botas de Baruch) foi escolhida como a música do ano.

Em 1974 a banda foi escolhida para representar Israel na competição Eurovision, cantando Natati La Chayai (eu lhe dei minha vida). O tecladista Yoni Rechter não pôde tocar com o grupo porque o regulamento da competição limitava a 6 o número máximo de integrantes, e acabou regendo a orquestra, que tocou um arranjo preparado pelo compositor israelense Noam Sharif. O grupo chegou em sétimo lugar, e a canção acabou sendo melhor conhecida pelo público europeu através da tradução de Joe Dassin, Le Service Militaire. Escondido no meio da letra, há um verso bastante político que diz “há suficiente ar para um país ou dois”. Neste ano Kaveret lançou seu segundo álbum, Puggy bePita (Puggy num pão sírio), que fez consideravelmente menos sucesso que o primeiro, mas ainda sim o grupo foi novamente eleito a banda do ano de 1974, e Natati La Chayai foi a música do ano.

O terceiro álbum foi lançado em 1975, e foi chamado Tzafuf baOzen (Apertado na Orelha). Até então a maior parte das canções haviam sido escritas por Danny Sanderson, mas desta vez todos os integrantes participaram da criação musical, e como consequência o disco saiu bastante diversificado. Os maiores sucessos foram Lu Lu, Hi Kol Kach Yafa (ela é tão bonita), e Goliat, que tem como herói o vilão Golias, e foi eleita a canção do ano. Kaveret conseguiu o incrível feito de ter a música do ano por três anos seguidos (1973 a 1975), e de ter sido eleita a banda do ano por quatro vezes (1973 a 1976). Nenhuma outra banda ou cantor israelense chegam perto de ter tido um reconhecimento como este.

Finalmente, em 1976 a banda decidiu se separar, devido a uma turnê fracassada nos EUA e às crescentes tensões entre os integrantes. Todos os sete são extremamente talentosos, e nem sempre conseguiam concordar em qual caminho o grupo deveria seguir, cada um puxando para o seu lado.

Show do Kaveret em 1975

O estrondo que Kaveret causou no meio dos anos 70 influenciou enormemente o desenvolvimento do incipiente rock israelense, e as reverberações continuam até hoje. Mais do que importar um estilo musical de fora, a banda criou sua própria linguagem musical, que é instantaneamente reconhecida por qualquer um que conhece algo de música israelense. Os sete integrantes foram cada um para seu caminho, e com exceção de Meir Fenigstein, todos tiveram invejáveis carreiras solo e em outras bandas.

A reunião deste ano comemora os 40 anos do lançamento de “Sipurei Puggy”, e segundo Danny Sanderson, foi o último encontro do Kaveret. O grupo, que já se reuniu brevemente em 1984, 1990 e 1998, ainda mantém sua magia, e suas canções ainda parecem frescas e atuais. Em seus quatro shows em Junho e Agosto, mais de 120 mil fãs estiveram presentes.

Nós estivemos no show do dia 20 de Junho em Jerusalém. O espetáculo fez parte do Festival Israel de Música, e havia na platéia apenas 6 mil espectadores. O público vibrou em ver que todos os sete integrantes haviam vindo, inclusive Yoni Rechter, que supostamente havia se machucado no pé no mesmo dia, e Gidi Gov, este sim ferido no ombro, usando uma tipóia e ataduras durante o show inteiro. A piada do dia era que deveríamos ver o grupo antes que eles se despedaçassem, desta vez fisicamente (despedaçar é o verbo usado em hebraico também para o desmantelamento de uma banda).

Kaveret mostrou que ainda sabe fazer rock n’ roll como nos velhos tempos, talvez até melhor. O público esteve de pé quase o tempo todo, vibrando e cantando de cor os grandes sucessos. Estavam presentes famílias inteiras, com crianças que sabiam cantar as letras melhor que seus pais. No meio do show cada integrante tocou uma canção de sua carreira solo, e Gidi Gov emocionou a todos com “Neechaz Baavir” (preso no ar). Sua esposa, a dramaturga Anat Gov, morreu em dezembro de 2012, e o refrão da canção que foi lançada em 1991 ganhou um novo significado: “No lugar onde você estava de pé, ficou apenas ar, sem oxigênio. E eu estou preso no ar, e você já não está mais”.

Certamente este foi um dos melhores shows que já fui. Em muitos momentos eu me pegava pensando “será mesmo que estou aqui, no show do Kaveret?!?”. O choque levou um tempo para passar, e nas semanas que seguiram eu não parava de cantar e murmurar as melodias que escutei.

No final do espetáculo, fotos dos integrantes do Kaveret foram projetadas nos enormes telões atrás do palco, mostrando-os jovens e cabeludos. Como última canção, como não poderia deixar de ser, tocaram a perfeita despedida, Nechmad:

Legal, legal, foi realmente legal
Estivemos, então voltamos novamente
Foi realmente legal
Cem anos, nada mudou
Continuaremos a vir, também então será
Legal


Muitos dos links levam para o meu site Shirim em Português, onde o leitor interessado poderá aprender a letra das canções.
Para quem já entende hebraico, recomendo o terceiro episódio da excelente série Sof Onat haTapuzim, que conta a história do rock israelense, produzido por Yoav Kutner. O episódio é inteiro sobre o Kaveret, com entrevistas e muitas cenas dos anos 70. Link aqui.

Fotos:
Foto de capa: kutnermusic
Álbum  Sipurei Puggy – wikipedia
Álbum Puggy bePita – wikipedia
Álbum Tzafuf baOzen – wikipedia
Yair e Liat – acervo pessoal
Ingresso do show – acervo pessoal

Comentários    ( 3 )

3 comentários para “Kaveret”

  • Sheila Tellerman

    25/08/2013 at 21:10

    Foi com muita emoção que li seu artigo sobre a Leakat Kaveret.Eu estudava no Machon Greenberg(Jerusalem) em 1973 e todos nós,assim como os israelenses amávamos o grupo e sabíamos todas as músicas de cor.
    Obviamente trouxe o disco deles pro Brasil e anos mais tarde o CD,que é o meu xodó na coleção dos meus CDs israelis.
    O show realmente deve ter sido demais…

  • Tamara

    25/08/2013 at 23:35

    Que delícia de post e que incrível deve ter sido estar presente nesse show!

  • Daniel Thomer

    05/09/2013 at 18:37

    Excelente texto, Yair. Conseguiu passar, até para quem não conhece a banda, a energia e emoção que o Kaveret representa em Israel. Queria estar nesse show aí.

    Conheci o grupo pelos meus pais, que escutavam Kaveret, em Israel, nos anos 70. E passei boa parte do meu Shnat, 30 anos depois (2008), ao som deles também.

    O Shomer do Rio tá trazendo o Danny Sanderson pro Brasil, dia 22/10, num show pelo centenário da tnuá. Ele deve passar por outras cidades brasileiras também. Certamente, vai ter um gostinho de Kaveret.

Você é humano? *