Lembrar para nao esquecer

27/04/2010 | Conflito, Cultura e Esporte.

[Publicado originalmente no dia 27/04/2010]

A expressao “banalidade do mal“, foi adotada pela filósofa alemã Hannah Arendt após acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, criminoso nazista, encarregado de levar a cabo o extermínio em massa dos judeus durante o holocausto.

Ao ser apresentado ao tribunal, Eichmann surpreendeu os presentes por não aparentar em nada o monstro sádico que demonstrava ser com suas ações. Era um sujeito franzino, de personalidade submissa, que afirmava ter apenas cumprido suas ordens com zelo e eficiência. A avaliação psiquiátrica a que havia sido submetido também não havia detectado nele problemas mentais. Escreveu Arendt: “muitos individuos na Alemanha Nazista não eram nem perversos nem sádicos, eram assustadoramente normais. Essa normalidade é muito mais aterradora do que todas as atrocidades juntas”.

No ultimo mes, em Israel e na diaspora, cumprimos mais uma vez o dever de exercitar a lembranca do Holocausto. Lembrar, para nao esquecer.

Os judeus lembram a tentiva de sua aniquilacao. Os sobreviventes da 2ª Guerra cumpriram e cumprem, com louvor, a tarefa de lembrar o mundo que o Holocausto nao foi um problema exclusivamente nosso. O massacre foi um crime contra a humanidade. O nosso povo viu a destruicao de familias inteiras. Mas a tragedia – reitero – e’ humana.

Israel, por outro lado, aproveita este dia para lembrar os judeus, e o resto do mundo, que a banalizacao do mal continua viva. Age, no entanto, de maneira distinta. Invariavelmente, este pensamento contribuiu por manter viva a voz que clama pelo nosso desaparecimento. Senao vejamos:

Os antissemitas da decada de 40 transformaram os crimes contra o individuo em condutas triviais. Matava-se um judeu como quem ia a padaria. Esta e’ a banalidade que descrevi acima.

Os antissemitas da nossa decada possuem mais desenvoltura. Transformaram os crimes contra o individuo em uma conduta relativa. Esta e’ a banalidade do mundo contemporaneo. Facilmente identificamos este tipo de pessoa.

Apressam-se a condenar o Estado Judeu pelo tratamento dado – dentro de uma democracia – a minoria arabe. Quando Israel reage a alguma acao terrorista contra os seus habitantes e’ momento de protesto nas embaixadas ao redor do mundo. Ha um interesse apaixonado em ensinar Israel como tratar seus cidadaos.

Estas mesmas pessoas nao possuem a mesma rapidez para a reprovacao ao apedrejamento de mulheres nas teocracia islamicas, ou porque adulteras, ou porque vestidas de forma inadequada. Nem uma palavra de consolo as mulheres que desejam escolher seus maridos, as que desejam emancipar-se profissionalmente. Quando um homossexual e’ condenado por sua homossexualidade em Dubai, quando a liberdade de expressao e’ cassada em Gaza, quando ha assassinatos de adversarios politicos no Ira, e’ momento de se comemorar a diversidade cultural. Afinal de contas – dizem – devemos respeitar a soberania dos Estados, e nao podemos ensinar um governo a tratar seus governados…

Certamente, o nosso mal, nao e’ menos mal porque existem coisas piores.

A nossa maior diferenca – e esse e’ o ponto crucial de toda discussao – e’ que em Israel a possibilidade de mundanca existe dentro do proprio pais. Permitimos o acesso a justica a todas as minorias que se sintam prejudicadas. Quanto ao outro lado, onde a critica e’ inexistente, nao ha possibilidade de mudanca. As pessoas que se sentem prejudicadas e que exigem uma mudanca de postura de seu governo possuem um acesso apenas: o cemiterio.

Não podemos permitir que as falhas de Israel sejam comparadas com um sistema que transformou o ataque a liberdade pessoal e a dignidade do ser humano numa forma de realizar uma utopia supostamente divina e humanista. As injusticas nao sao comparáveis.

Apenas a titulo de curiosidade: o codigo penal iraniano proclama hoje – 2010 – o seguinte:artigo 116: “Pedras usadas em apedrejamentos nao devem ser grandes, a ponto de matar a [mulher] adultera no principio de sua punicao, nem pequena a ponto de nao nao causar dor [a condenada]“. Pois e’: hoje no Ira, apedrejar uma mulher ate’ a morte nao e’ contra lei… Ilegal e’ usar a pedra errada.

Quando a Franca ou Italia, condenam o uso da burca em seus paises, trata-se de um insulto a diversidade. Quando uma estrangeira e’ obrigada a cobrir seus ombros na Libia, sob pena de punicao a chicotadas, trata-se de um respeito a um costume milenar. E’ isso que significa pluralidade de opinioes?

A critica a Israel (e a ausencia dela as teocracias islamicas) possui uma formulacao curiosa: No’s, porque democraticos, somos obrigados, pelos nossos principios a respeitar a todos – ate’ mesmo aqueles que querem nos destruir. Eles, porque tiranias, nao estao obrigados, por principio a respeitar ninguem.

A relativizacao do que e’ certo e do que e’ errado, ja ocorreu uma vez, nao faz muito tempo. E nosso povo conhece muito bem as consequencias desta relativizacao.

Lembremos para nao esquecer.

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