Liberdade, segurança e o teatro do terror

22/07/2016 | Conflito; Política

Acaso existiria uma contradição entre o nosso compromisso com defesa da democracia e a nossa responsabilidade com a segurança do Estado? A preocupação com a segurança nacional obriga necessariamente  a erosão dos princípios da democracia liberal?

A primeira pergunta nos questiona acerca de um possível conflito entre a visão de mundo dos que defendem o Estado daqueles que defendem um viés liberal-democrático. Portanto, quanto mais “nacionalista” um indivíduo é, menos compromisso com os valores democráticos ele terá e vice-versa: quanto mais um indivíduo está comprometido com a democracia e liberalismo, menos importância ele atribui a valores nacionais.

A segunda pergunta trata de um elemento muito particular da questão anterior: haveria um conflito entre as preocupações com a segurança nacional e a preocupação com as liberdades individuais e os direitos humanos. Em outras palavras, quanto mais um indivíduo se identifica com a defesa da segurança nacional, mais ênfase ele teria em sua disposição de sacrificar as liberdades individuais, e vice-versa.

Neste último ano observamos um aumento preocupante de ataques terroristas perpetrados por organizações extremistas islâmicas fora de Israel, em especial na Europa. A luta contra o terror, que objetiva e reivindica justamente a aniquilação da democracia e liberdades individuais, é certamente importante e extremamente justa. Entretanto, novamente, e mais do que nunca, as duas perguntas introdutórias estão novamente colocadas sobre a mesa. No combate ao terror, como é possível equilíbrar a necessidade de segurança nacional e a manutenção dos valores democráticos e do devido processo legal?

Em palestra proferida em Jerusalém, nos idos de 1987, o famoso juiz da suprema corte dos EUA, William Rennan afirmou:

“É muito provável que seja Israel, e não os Estados Unidos, que traga esperança na construção de uma jurisprudência que possa proteger liberdades civis contra as exigências de segurança nacional. Pois é Israel que tem enfrentado ameaças reais e graves para a sua segurança…e parece destinado a continuar a enfrentar tais ameaças no futuro próximo. O desafio em estabelecer liberdades civis dentro de um contexto de ameaças à segurança, ao mesmo tempo que é difícil, promete construir baluartes da liberdade que possam suportar os medos e o frenesi de súbito perigo – baluartes que contribuirão para garantir que uma nação lutando por sua sobrevivência não sacrifique aqueles valores nacionais que fazem a luta valer a pena… as nações do mundo, confrontados com ameaças súbitas para a sua própria segurança, observarão a experiência de Israel em lidar com as permanentes crises em sua segurança, e poderão muito bem encontrar o conhecimento necessário para preservar as liberdades civis sem prejuízo para a sua segurança” (William J. Brennan, The American Experience: Free Speech and National Security, SPEECH AND NATIONAL SECURITY 10, 18-19 (Shimon. Shetreet ed . , 1991) 

De fato, alguns acreditam que o confronto de Israel com o terrorismo é uma história de sucesso e um modelo a ser ensinado ao mundo. Não há dúvidas de que a experiência nos é abundante. Não há dúvidas sobre a quantidade de vezes que juízes em Israel foram obrigados a definir “quando” e “como” deveríamos reduzir liberdades individuais para garantir um estado democrático-liberal.

Não sei se o juiz da suprema corte americana está satisfeito com os resultado que Israel obteve desde 1987 até os nossos dias. Ao longo dos últimos anos a nossa expertise construiu metodologias como a destruição de casas da família de terroristas, deportações, postos de controle, prisões administrativas, tortura, assassinatos seletivos, a ampliação da jurisdição dos tribunais militares… Apenas alguns exemplos de respostas que encontramos para a necessidade da defesa de nosso país.

Isto necessariamente indica que para que possamos nos defender do terror, ao longo destes anos fomos obrigados a gerir dentro da nossa sociedade, indivíduos que destroem casas de familiares de terroristas apenas por sua correlação sanguínea, homens que de dia praticam tortura e de noite jantam relaxados com a sua família e juízes que para cumprir a lei, devem sentenciar longas penas privativas de liberdade para crianças  que arremessaram pedras contra soldados. São estes indivíduos – de fato – que ajudam a garantir a nossa sobrevivência. Não há como fugir desta constatação. Palmas para eles?

Na busca pelas respostas, divido com vocês o artigo do historiador israelense Yuval Noah Harari que nos apresenta de forma didática e recheado de detalhes o que é o terror, a sua forma de atuação e as possibilidades de combate efetivo contra esta ideologia:

Yuval Noah Harari: O Teatro do Terror
(Texto original – Traduzido por Marcelo Treistman)

Como o significado literal da palavra indica, o terror é uma estratégia militar que espera mudar a situação política espalhando o medo em vez de causar danos materiais. Esta estratégia é quase sempre adotada por partidos muito fracos, que são incapazes de causar danos materiais sobre seus inimigos. É claro, toda ação militar espalha o medo. Mas na guerra convencional, o medo é um subproduto de perdas materiais, e é geralmente proporcional à força que inflige tais perdas. No terrorismo, o medo é toda a história, e há uma desproporção surpreendente entre a força real dos terroristas ao medo que eles conseguem inspirar.

Não é fácil mudar a situação política através da violência. No primeiro dia da batalha do Somme, 1 de julho de 1916, 19.000 membros do exército britânico foram mortos e outros 40.000 feridos. No momento em que a batalha terminou em novembro, ambos os lados juntos tinham mais de um milhão de feridos, que incluíram 300.000 mortos. No entanto, esta carnificina inimaginável praticamente não mudou o equilíbrio político de poder na Europa. Demorou mais de dois anos e milhões de mortes adicionais para finalmente algo assim acontecer.

Em comparação com a ofensiva de Somme, o terrorismo é uma questão insignificante. A maioria dos ataques terroristas matam apenas um punhado de pessoas. Em 2002, no auge da campanha de terror palestino contra Israel, quando ônibus e restaurantes foram atingidos, o número anual chegou a 451 israelenses mortos. No mesmo ano, 542 israelenses foram mortos em acidentes de carro. Alguns ataques terroristas, como o bombardeio do voo Pan Am 103 sobre Lockerbie em 1988, mataram centenas. Os ataques de 11 de setembro estabeleceu um novo recorde, matando cerca de 3.000 pessoas. Contudo, mesmo esta é ofuscado pela guerra convencional: se você adicionar todas as pessoas mortas e feridas na Europa por ataques terroristas desde 1945 – incluindo vítimas de nacionalistas, religiosos, de esquerda e grupos de direita – ainda vai representar muitos menos baixas do que em qualquer número de batalhas obscuras da Primeiro Guerra Mundial, como a terceira batalha do Aisne (250.000 vítimas) ou o 10º batalha do Isonzo (225.000 mortes).

Como, então, os terroristas podem esperar obter tanto êxito? Na sequência de um ato de terrorismo, o inimigo continua a ter o mesmo número de soldados, tanques e navios como antes. A rede de comunicação, estradas e ferrovias do inimigo estão em grande parte intactos. Suas fábricas, portos e bases estão intocadas. No entanto, os terroristas esperam que ainda que mal tenham causados danos materiais ao inimigo, o poder, o medo e a confusão farão com que o inimigo abuse de sua força. Terroristas lutam como mestres de tai-chi: eles pretendem derrotar o rival com o próprio poder do rival. Assim acontenceu com os franceses na Argélia nos anos 1950 que não foram derrotados pelo FLN, a Frente de Libertação Nacional, mas por sua reação equivocada de terrorismo do FLN. Os desastres americanos no Iraque e no Afeganistão foram o resultado do abuso norte americano de seu imenso poder, ao contrário da Al-Qaeda que flexionava os seus minúsculos músculos.

Terroristas calculam que quando o inimigo enfurecido usa seu poder maciço contra eles, origina-se uma tempestade militar e política muito mais violenta do que os próprios terroristas poderiam criar. Durante toda tempestade, muitas coisas inesperadas acontecem. Erros são cometidos, atrocidades são cometidas, existe a oscilação da opinião pública, perguntas são formuladas, neutros mudam a sua posição e o equilíbrio de poder muda com eles. Os terroristas não podem prever qual será o resultado, mas eles têm uma chance muito melhor de pescar nessas águas turvas do que quando há calmaria no mar da política .

O REARRANJO DAS CARTAS

O terrorismo é uma estratégia militar muito desinteressante, porque deixa todas as decisões importantes nas mãos do inimigo. Como os terroristas não podem infligir danos materiais consideráveis, todas as opções que o inimigo tinha antes de um ataque terrorista estão à sua disposição depois do ataque e livres para serem utilizadas. Exércitos normalmente tentam evitar tal situação a todo custo. Quando eles atacam, busca-se não provocar a ação do inimigo , mas, ao invés disto, reduzir o poder do inimigo para retaliar e, em particular, para eliminar suas armas e opções mais perigosas. Por exemplo, quando os japoneses atacaram a frota do Pacífico dos Estados Unidos em Pearl Harbor em dezembro de 1941, eles poderiam estar certos de uma coisa: não importa o que os norte-americanos decidam fazer, eles não serão capazes de enviar uma frota para o Sudeste Asiático em 1942.

Provocar a açao do inimigo sem eliminar qualquer de suas armas ou opções é um ato de desespero, tomada apenas quando não há outra forma de atuação. Sempre que é possível infligir danos materiais consideráveis, ninguém dirá que se trata de mero terrorismo. Teria sido loucura se, em Dezembro de 1941, os japoneses tivessem enviado torpedos em direção a um navio civil de passageiros  a fim de provocar os EUA, deixando a frota do Pacífico em Pearl Harbor intacta.

As pessoas se voltam para o terrorismo, porque eles sabem que não podem fazer a guerra, então optam em produzir um espetáculo teatral. Os terroristas não pensam como generais do exército; eles pensam como produtores de teatro. A memória pública dos ataques de 11 de setembro é uma evidência: se você perguntar às pessoas o que aconteceu em 11 de setembro de 2001, eles estarão propensos a dizer que a Al Qaeda destruiu as torres gêmeas do World Trade Center. No entanto, o ataque envolveu não apenas as torres, mas duas outras ações, em particular, um ataque bem-sucedido contra o Pentágono. Por que é que apenas algumas pessoas prestam atenção a este fato? Se a operação de onze de setembro tivesse sido uma campanha militar convencional, o ataque ao Pentágono teria recebido a maior parte da atenção. Neste ataque, a Al-Qaeda conseguiu destruir parte da sede central do inimigo, matando e ferindo altos comandantes e analistas. Por que é que a memória pública dá muito mais importância à destruição de dois edifícios civis, e a morte de corretores e contadores?

O Pentágono é um edifício relativamente plano e despretensioso, enquanto que o World Trade Center era um totem de altura, fálico, cujo colapso criou um imenso efeito audiovisual. Ninguém que viu as imagens deste colapso irá esquecê-lo. Nós intuitivamente entendemos que o terrorismo é um teatro, e, portanto, nós o julgamos pelo seu impacto emocional ao invés do material. Em retrospectiva, Osama bin Laden provavelmente teria preferido lançar o avião que atingiu o Pentágono contra um alvo mais pitoresco, como a Estátua da Liberdade. É verdade que algumas pessoas teriam sido mortas e nenhum elemento militar teria sido destruído, mas apenas pense quão poderoso este gesto teatral teria sido.

Como terroristas, aqueles que o combatem ao terrorismo também devem pensar mais como produtores de teatro e menos como generais do exército. Acima de tudo, se quisermos combater o terrorismo de forma eficaz temos de perceber que nada que os terroristas fazem podem nos derrotar. Nós somos os únicos que podemos derrotar a nós próprios, se reagimos de forma exagerada e equivocada as provocações terroristas.

Terroristas empreendem uma missão impossível: alterar o equilíbrio de poder político quando eles quase não têm capacidades militares. Para alcançar seu objetivo, eles apresentam ao estado um desafio impossível: provar que eles podem proteger todos os seus cidadãos da violência política, em qualquer lugar, a qualquer hora. Os terroristas esperam que no momento que o Estado tente cumprir esta impossível missão, ele irá alterar a ordem das cartas políticas criando a possibilidade de algo que não pode ser previsto.

É verdade, quando o Estado aceita o desafio de proteger os seus cidadãos contra a violência política, muitas vezes tem sucesso em esmagar os terroristas. Centenas de organizações terroristas foram eliminados ao longo das últimas décadas por vários estados. Em 2002-04, Israel provou que uma campanha de terror pode ser suprimida pela força bruta. Terroristas sabem muito bem que as chances de tal confronto não estão a seu favor. Mas considerando que eles são muito fracos, e não têm outra opção militar, eles não têm nada a perder e muito a ganhar. De vez em quando a tempestade política criada pelas campanhas antiterroristas beneficiam os terroristas, razão pela qual a aposta faz sentido. Um terrorista é semelhante a um jogador com uma mão particularmente ruim, que tenta convencer seus rivais a alterar a ordem das cartas. Ele não pode perder nada, mas ele pode ganhar tudo.

Uma pequena moeda em um grande frasco vazio

Por que o Estado concorda em alterar a ordem das cartas? Considerando que os danos materiais causados pelo terrorismo são insignificantes, os Estados poderiam, teoricamente, não fazer nada sobre isso, ou tomar medidas fortes, mas discretas, longe das câmeras e microfones. Na verdade, muitas vezes eles fazem exatamente isso. Mas de vez em quando os Estados perdem a sua paciência, e reagem muito fortemente e publicamente, jogando o jogo dos terroristas.

Por que eles são tão sensíveis às provocações terroristas? Porque a legitimidade do Estado moderno é baseado na sua promessa de manter a esfera pública livre de violência política. Um regime pode resistir a catástrofes terríveis, e até mesmo ignorá-los, desde que a sua legitimidade não esteja baseada em prevení-los. Por outro lado, um regime pode entrar em colapso devido a um problema menor se for visto comprometendo a sua legitimidade. No século 14 a peste negra matou entre um quarto e metade das populações europeias, mas nenhum rei perdeu seu trono, ou fez muito esforço para superar a praga. Ninguém naquela época achava que impedir pragas era parte do trabalho de um rei. Por outro lado, os governantes que permitiram que a heresia religiosa se espalhasse em seus domínios arriscaram perder sua coroa, e até mesmo a sua cabeça.

Hoje, um governo pode fechar os olhos aos altos níveis de violência doméstica e sexual, porque eles não prejudicam a sua legitimidade. Na França, por exemplo, mais de 1.000 casos de estupro são relatados às autoridades a cada ano, com mais milhares de casos não notificados. Estupradores e maridos abusivos, no entanto, não são percebidos como uma ameaça existencial para o Estado, porque, historicamente, o Estado não foi construido sobre a promessa de eliminar a violência sexual. Em contraste, os raros casos de terrorismo são vistos como uma ameaça mortal, porque ao longo dos últimos séculos modernos estados ocidentais têm gradualmente construído a sua legitimidade na promessa explícita de manter zerada a violência política dentro de suas fronteiras.

Durante a Idade Média, a esfera pública estava cheia de violência política. Na verdade, a capacidade de usar a violência era o bilhete de entrada para o jogo político, e quem não tivesse essa capacidade não tinha voz política. Não só numerosas famílias nobres mantinham forças armadas, assim como cidades, guildas, igrejas e mosteiros. Quando um abade morria e surgia uma disputa sobre a sucessão, as facções rivais – Monges compreensivos, homens fortes locais e vizinhos preocupados  – muitas vezes usaram a força armada para decidir a questão.

O terrorismo não tinha lugar naquele mundo. Qualquer um que não fosse forte o suficiente para causar danos materiais consideráveis, não tinha nenhuma importância. Se em 1150  alguns extremistas muçulmanos tivessem assassinado um punhado de civis em Jerusalém, exigindo que os cruzados deixassem a Terra Santa, a reação teria sido ridícularizar em vez de aterrorizar. Se você quiser ser levado a sério, você deve ter pelo menos o controle de um castelo fortificado ou dois. O terrorismo não incomodou os nossos antepassados medievais porque eles tinham problemas maiores para lidar.

Durante a era moderna, estados centralizados reduziram gradualmente o nível de violência política no seu território, e nas últimas décadas países ocidentais conseguiram alcançar quase zero violência política. Os seus cidadãos podem lutar pelo controle das cidades, empresas, organizações e até mesmo do próprio governo, sem qualquer necessidade de força bruta. A posse de centenas de milhares de milhões de euros, centenas de milhares de soldados e centenas de navios, aviões e mísseis nucleares passam de um grupo político para outro, sem que um único tiro seja disparado. As pessoas têm rapidamente se acostumado a isso, e consideram que é o seu direito natural. Consequentemente, até mesmo atos esporádicos de violência política que matam algumas dezenas de pessoas são vistas como uma ameaça mortal para a legitimidade e até mesmo a sobrevivência do Estado. Uma pequena moeda em um grande frasco vazio pode fazer um monte de ruído.

Isto é o que faz o teatro do terrorismo tão bem sucedido. O estado criou um enorme espaço vazio da violência política. Este enorme espaço funciona como uma caixa de ressonância, amplificando o impacto de qualquer ataque armado, ainda que pequeno. Quanto menos  violência política em um determinado estado, maior será o choque público em um ato de terrorismo. Matar 17 pessoas em Paris chama muito mais atenção do que matar centenas na Nigéria ou Iraque. Paradoxalmente, então, o próprio sucesso dos estados modernos na prevenção da violência política os tornam particularmente vulneráveis ao terrorismo. Um ato de terror que teria passado despercebido em um reino medieval pode sacudir os Estados modernos com muito mais força em seu próprio núcleo.

O estado deixou claro tantas vezes que não tolerará violência política dentro de suas fronteiras que não tem alternativa senão ver qualquer ato de terrorismo como intolerável. Os cidadãos, por sua vez, acostumaram-se a nenhuma violência política, e desta forna o teatro de terror incita neles medos viscerais de anarquia, fazendo com que sintam que a ordem social está prestes a ruir. Depois de séculos de lutas sangrentas, fomos arrastados para a fora do buraco negro da violência, mas nós sentimos que o buraco negro ainda está lá, esperando pacientemente para nos engolir novamente. Alguns atrocidades horripilantes e já nos imaginamos retornando a ele.

Para amenizar estes receios, o Estado é levado a responder com seu próprio teatro de segurança. A resposta mais eficiente para o terrorismo poderia ser uma boa inteligência e ações clandestinas contra as redes de dinheiro que alimentam o terrorismo. Mas isso não é algo que os cidadãos podem assistir na televisão. Na medida em que os seus cidadãos visualizam o drama terrorista do colapso do World Trade Center, o estado se sente compelido a organizar uma reação dramatúrgica igualmente espetacular, com ainda mais fogos e fumaça. Então, ao invés de agir calmamente e de forma eficiente, ele desencadeia uma forte tempestade, que preenche os sonhos mais desejados dos terroristas.

Comentários    ( 8 )

8 Responses to “Liberdade, segurança e o teatro do terror”

  • Raul Gottlieb

    25/07/2016 at 23:37

    Oi Marcelo,

    O artigo do Harari é muito bom, mas ele não responde as tuas duas perguntas lá em cima. Aliás, eu não tenho muita clareza se existe mesmo esta contradição entre a defesa do Estado e a defesa da democracia. O que sim existe é até que ponto as leis democráticas devem/podem ser afetadas em caso de guerra. Todos os países têm leis que regulam “estado de emergência”, pois é claro que numa situação de perigo existencial alguma coisa especial tem que ser feita. Numa imperfeita analogia doméstica: você não vai levar teu filho no parque se estiver muito gripado.

    Penso que o Harari deixou de considerar mais um fator na opção pelo terror. É um fator que não nega nada do que ele disse. É algo complementar.

    Muitas vezes os grupos (e países) mais fracos escolhem o terror também para criar uma sensação de “estar fazendo alguma coisa” junto ao seu eleitorado e com esta sensação distrair os incautos. A causa deles é fraca a ponto deles não conseguirem faze-la avançar pela razão. A economia deles é fraca em virtude de uma gestão ruinosa que empobrece o povo. Então eles partem para a seleção de um inimigo externo que desvie atenção política de seu povo e resolvem atacar este inimigo externo – muito mais poderoso em virtude de uma gestão mais competente e de fundamentos nacionais mais estáveis – através do terror, pelos motivos explicados pelo Harari.

    Ou seja, o terror não é escolhido somente para fazer o poderoso rearranjar as cartas, mas também para anestesiar os coitados que sofrem sob gestões incompetentes e corruptas.

    Concorda?

    Abraço, Raul

    • Marcelo Treistman

      26/07/2016 at 02:09

      Olá Raul,

      O texto do Harari, de fato, não nos oferece uma solução perfeita para o equilibrio entre a defesa do estado e a democracia. No entanto, considero um texto fundamental e necessário porque coloca em perspectiva a busca pela proporcionalidade na legítima defesa para a agressão sofrida.

      Usando a sua analogia doméstica, uma coisa é proibir o meu filho de ir ao parque porque ele está resfriado, outra completamente diferente é proibí-lo de sair da cama. A linha é tênue e nós devemos estar sempre atentos ao “pai” que está no comando. Afinal de contas, todos os pais querem apenas proteger os seus filhos.

      Acredito que o Harari pense ser irrelevante saber se o terrorismo é uma opção para desviar problemas internos. Considerando que: a) O terrorismo existe; b) O terrismo (atualmente) não tem capacidade de causar um dano real ao estado. A pergunta que fica no ar é: até que ponto estamos sendo racionais ou emotivos em nossas escolhas para nos defender desta agressão?

      O rearranjo das cartas existe quando em um estado democrático há um crescimento do número de pessoas que acham natural “proibir os filhos resfriados de sairem de suas camas”. A preocupação com a proteção não nos dá o direito de ignorar a racionalidade e a proporcionalidade.

      Talvez não possamos encontrar a resposta perfeita para as perguntas do artigo. Que tal um clichê? O importante é que estejamos fazendo estas perguntas. O terror não tem limite. No estado democrático o limite é a pedra fundamental para a construção de uma sociedade saudável.

      Um grande abraço

  • Raul Gottlieb

    26/07/2016 at 10:09

    Oi Marcelo,

    Não me parece ser irrelevante a possibilidade do terror ser uma válvula de escape para os maus e péssimos governos. Isto porque só conseguimos resolver os problemas quando conseguimos identificar as causas que os provocam.

    O Harari diz (e eu concordo com ele) que se o mundo der menos repercussão ao terror este tenderá a diminuir, porque tudo o que ele almeja é provocar medo nas sociedades das vítimas e com uma menor repercussão este medo será menor,

    Mas é claro que as vítimas repercutirem menos o terror (e Israel faz isto ao retomar os espaços atacados pelo terror no momento seguinte ao do atentado, mostrando que a vida continua igual – compare isto ao aeroporto fechado por um mês na Bélgica) não muda nada na repercussão feita pelos agressores em suas comunidades. Então, o meu ponto a este respeito não me parece irrelevante.

    Sobre a questão das medidas de defesa antiterror se tornarem anti democráticas. eu penso que a questão é um pouco diferente da que você coloca. O que acontece é que forças naturalmente antidemocráticas (as que advogam um governo teocrático e outras) se aproveitam do terror para avançar as suas agendas originais (que existem independente do terror).

    Isto também pode parecer uma diferença sutil e irrelevante, mas pode acreditar que não é. Eu concordo integralmente contigo que é preciso estar vigilante e não permitir que estas agendas antidemocráticas avancem. Mas é preciso também entender que se não houvesse terror estas forças iriam usar qualquer outro pretexto. Apesar que, sim, o terror facilita a vida para eles.

    E, finalmente, tem ocasiões em que não é possível permitir que o filho saia da cama. Mas isto é apenas a analogia que usei, que, como todas as analogias é imperfeita.

    Abraço!

    Raul

    • Marcelo Treistman

      26/07/2016 at 11:24

      Raul,

      É irrelevante porque o artigo não pretende discorrer sobre as razões para o terror, mas a resposta democrática a agressão existente. Compreendo pela sua mensagem que nós dois entendemos a necessidade da adequação desta reação que deverá estar pautada na racionalidade e proporcionalidade. Este é o ponto central do artigo do Harari: devemos tomar cuidado para não permitir que agendas antidemocráticas avancem ancoradas no frenesi e medo causados pelo terrorismo que atualmente não tem capacidade para causar um dano real ao estado.

      O maior impacto causado pelo terror e a falta de proporção em nossa reação é o rearranjo político que faz com que estes atores antidemocráticos (que advogam um governo teocrático e outras) ganhem força no país.

      Grande abraço

  • Raul Gottlieb

    26/07/2016 at 14:24

    Marcelo, não percebi que o artigo do Harari apresenta soluções. Pelo que li ele se limita a explicar o fenômeno. Penso que o objetivo dele foi mais explicar (e explicou muito bem) do que propor quais as reações adequadas do Estado contra o terror. Ele diz que a reação do Estado deveria ser calma e eficiente. Mas isto é “como” e não “o que”. Qualquer coisa, inclusive um golpe antidemocrático, deve ser calmo e eficiente para ter sucesso, não é mesmo? Finalmente, claro que concordamos: os agentes antidemocráticos não podem ganhar força nunca. Nem por conta do terror, nem por conta de uma agenda religiosa, nem por conta de uma agenda supremacista, nem por conta de nenhuma outra agenda. Abraço, Raul

    • Marcelo Treistman

      26/07/2016 at 14:35

      Raul, está na parte final do texto:

      A resposta mais eficiente para o terrorismo poderia ser uma boa inteligência e ações clandestinas contra as redes de dinheiro que alimentam o terrorismo. Mas isso não é algo que os cidadãos podem assistir na televisão.

      Novamente: uma vez que nós sabemos com fatos/números/estatísticas que o terrorismo atual não tem capacidade de causar um dano real ao Estado, devemos tentar frear, a todo momento, o sentimento que nos impele a uma reação dramatúrgica igualmente espetacular, com ainda mais fogos e fumaça, proibindo “o filho resfriado de sair da cama”, quando na verdade, nós dois sabemos que trata-se de um exagero, uma punição desmedida, desproporcional, que beira a insanidade, ainda que o objetivo seja a “proteção de nosso filho”.

      Abraços

  • Raul Gottlieb

    27/07/2016 at 18:37

    Sim, Marcelo, neste parágrafo ele dá uma receita de resposta ao terror e ela combina com o que eu, dentro de minha ignorância, penso.

    Talvez o fato de ser uma única frase num texto grande tenha feito ela passar desapercebida. A análise dele me impactou mais do que a proposta de solução.

    Israel faz isto que ele recomenda com muita maestria, penso eu. Porém, penso também de vez em quando é preciso “fazer um comercial” com uma ação mais espetacular para prevenir que ideias de jerico prosperem.

    Contudo, penso também que muitas vezes estes “comerciais” são exagerados. Destruir casas de terroristas é uma coisa horrorosa. Já a reação contra os mísseis de Gaza me parecem adequadas.

    A definição dos limites é sempre a coisa mais difícil de ser feita. Mas no total, Israel se sai muito bem. Vamos ver como os países europeus, que tanto criticam as ações defensivas de Israel, vão se sair.

  • Mario S Nusbaum

    28/07/2016 at 01:13

    ” uma coisa é proibir o meu filho de ir ao parque porque ele está resfriado, outra completamente diferente é proibí-lo de sair da cama.”
    Sim, são coisas diferentes, mas basicamente porque proibi-lo de sair da cama não contribui em NADA para que seu objetivo (cuidar da saúde do seu filho) seja alcançado.
    Algumas doenças justificariam a proibição.

    Como disse o Raul, todas as democracias preveem em suas legislações leis que se aplicam em casos de ameaças graves, sejam elas guerras, terroristas ou até mesmo fenômenos naturais.

    Tratar terroristas não só dispostos, como querendo morrer, da mesma forma que criminosos “comuns” é tão absurdo como tratar um resfriado da mesma forma que uma pneumonia.