Lições da Guerra

15/07/2014 | Conflito; Sociedade

Certa manhã, me espanto com a cena matutina: dois de meus vizinhos me disseram bom dia. E com sorriso. E com amabilidade. E não se dirigiram a mim exclusivamente para reclamar de alguma calamidade que eu tenha cometido, como acariciar gatos na entrada do prédio e, assim, “convidá-los” a ficar, segundo a visão de uma psicóloga de plantão do segundo andar. E de onde vem toda essa amabilidade?

Da guerra.

A corrida aos bunkers, que em Raanana se repetiu três vezes até agora e perde feio para as cidades do Sul, que alardeia seus cidadãos a correr para o abrigo dezenas de vezes por dia, tem provocado esse fenômeno de extrema simpatia entre israelenses. Não digo isso baseada apenas na minha impressão de imigrante – até mesmo meu namorado, israelense da gema, se espanta com a incrível onda de doçura que, nesses tempos tensos, se espalha pela população.

Essa semana foi aberta, por aqui, com sirene no meio da tarde. Estava com minha família no shopping da suburbana Raanana. De repente, ouvimos vozes no alto-falante, o balconista da loja onde estávamos recolhe os produtos que estávamos analisando sobre o balcão, e sussurra: agora vamos para o abrigo, aval bli lachatz, bli lachatz (mas sem estresse, sem estresse). Confesso que abri um sorriso ao ver o moço – que até o momento nos tratava com respostas monossilábicas como geralmente faz uma boa parcela da população israelense, que nasceu com estoque zerado de paciência – nos sugerir algo com delicadeza e ainda aconselhando-nos calma. Ficamos sob as escadas de emergência por uns 10 minutos. Minha mãe em silêncio, minhas sobrinhas abraçando a prima mais velha, todos os demais conversando animadamente ou consultando seus smartphones. Ouvimos um bum-bum ao longe. Pensei no post do Facebook que dizia “antes bum-bum ao longe (som do escudo antiaéreo) do que um pum bem pertinho (bomba acertando algum alvo)”. Saímos ilesos e, incrível!, não fomos atropelados pela multidão impaciente, como aconteceria normalmente em qualquer, qualquer outra situação.

Guerra é uma experiência muito didática, e ensina os israelenses a fazer fila.

Para mim, inocente que acredita que tudo sempre acaba bem, a parte mais difícil dessa guerra é lidar com tudo o que envolve o mundo das notícias. Em primeiro lugar, a preocupação manifestada pelos amigos. Adoro vê-los atentos ao meu mundo, mas fico sempre achando que não importa a resposta que dê, a mídia sensacionalista e parcial fará um trabalho melhor que o meu. Então me sinto sempre um tanto ridícula dizendo a verdade – estamos bem, protegidos e bem instruídos. Assim, comecei a dar respostas mais informativas – a sirene tem tocado, mas o escudo cumpre com excelência seu papel. Pelo tom das mensagens, de forma geral, vejo que não tem jeito: moro num país opressor, provocador e que se distrai matando criancinhas palestinas. Mas entendo. Mídia, essa vilã poderosa, pinta o cenário com as cores que quer.

E a guerra mostra que, mesmo em casos de autodefesa, não sabemos explicar ao mundo o que de fato acontece aqui.

Outro aspecto da notícia, e esse sim me assusta, são os boatos. Cumprem bem sua função, pois percebo, pelo Facebook e pelo Whatsapp, como eles nos desestabilizam. Vira e mexe, circulam as correntes que chegam até mim sem que eu peça. Tento não dar atenção até que se confirme, mas há como? Eu viajaria ontem para Jerusalém com minha família. Daí, sou avisada que justamente na hora em que estaríamos na estrada, Israel faria uma grande ofensiva em Gaza, com possível repercussão. Cancelamos. Meia hora depois, soube que era boato. Mas quem tem coração para voltar atrás e ir para Jerusalém? Eu não tive. Minha família volta para o Brasil sem ter cumprido o desejo de fazer repeteco na cidade sagrada e vamos jantar no concorrido Porto de Tel Aviv, em restaurantes às moscas e com os olhos voltados para o céu.

Tudo agora indica que, felizmente, haverá cessar-fogo em breve. Não é surpresa nenhuma para ninguém, pois a história se repete sempre, intocável, precisa: o Hamas passa meses lançando seus foguetes sobre a população no sul de Israel, até que toma fôlego e intensifica a chuva de mísseis; o escudo antiaéreo israelense funciona (e cada tiro dele custa 50 mil dólares a Israel), Israel arma uma ofensiva pra dar uma limpa nos estoques de armas do Hamas, o mundo grita em nossas orelhas por sermos malvados e atingirmos em cheio o escudo humano palestino – a arma da vez em Gaza. Daí eles pedem cessar-fogo, divulgam na mídia faminta fotos de mortos da guerra da Síria e a autoridade palestina não toma atitude nenhuma contra os terroristas que usam suas terras como base de operação e sua gente como uniforme de proteção.

E de novo aprendemos, com a guerra, que ela não faz nenhum sentido.

Foto de destaque: http://www.historama.com/online-resources/history-collecting-resources/architecture/israeli_box_building_entrance_tel_aviv.jpg

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “Lições da Guerra”

  • Mario S Nusbaum

    15/07/2014 at 18:04

    “E a guerra mostra que, mesmo em casos de autodefesa, não sabemos explicar ao mundo o que de fato acontece aqui.”
    Uma das maiores falhas da política israelense.

    ” Daí eles pedem cessar-fogo”
    Parece que desta vez vai ser diferente Miriam, o hamas não quer o cessar-fogo.

    “e a autoridade palestina não toma atitude nenhuma contra os terroristas que usam suas terras como base de operação e sua gente como uniforme de proteção.”
    Bingo, três vezes bingo, mil vezes bingo!!!!!!!!!! E muitos judeus, israelenses inclusive vivem dizendo que Israel deve negociar com ela.

    • Miriam

      16/07/2014 at 17:18

      Que delícia receber seus elogios.
      Abraço!
      Miriam

    • Miriam

      16/07/2014 at 17:22

      Mario, respondi pra vc o que pensava estar respondendo ao Marcelo. Mas também te agradeço os elogios.

      Diz aqui a minha bola de cristal que o Hamas vai querer, sim, um cessar-fogo. Que aconteça o quanto antes, porque vimos, nessa semana, que não adianta só israel querer. Minha impressão é que o Hamas iniciam as hostilidades já sabendo que chegarão a essa momento, o que deixa tudo isso que está acontecendo ainda mais sem sentido. Ao menos para mim.

      Abraço,
      Miriam

  • Marcelo Starec

    16/07/2014 at 07:08

    Oi Miriam,
    Mais uma vez, quero te agradecer por esse bonito artigo. Eu acho bonito, sim, apesar de toda a dor e sofrimento que todos estão passando por aí, em maior ou menor grau, causada por um grupo terrorista (Hamas), cujo objetivo declarado é “aniquilar Israel e matar os judeus” e cujas vítimas são a população civil árabe de Gaza, refém desses sanguinários, que se apoderaram daquele território e o utilizam para os seus terríveis fins, mas não para fazer nenhum bem aos civis que lá residem, mas o contrário, infelizmente. Por fim Miriam, você escreve com o “coração” e isso realmente dá um toque especial aos seus artigos, os quais eu sempre gosto de ler.
    Abraço,
    Marcelo.

  • Rebeca Daylac

    22/07/2014 at 22:33

    Miriam,
    Lindo texto.
    Gosto muito de ler seus textos que sempre me emocionam.
    Tenho rezado muito pela integridade física de todos vocês e respectivas famílias
    beijos
    Rebeca

    • Miriam

      23/07/2014 at 09:14

      Oi, Rebeca.
      Agradeço o elogio e a reza: são ambos fundamentais em tempos como esses.
      Um beijo pra você também.
      Miriam