Likud bêbado não tem dono*

19/12/2012 | Política

A lista do Likud assusta. Não há outra forma tão exata que explique a minha reação quando tomei conhecimento da mesma. Triste realidade. O fenômeno da direitização da sociedade israelense, que vê na política a sua melhor forma de expressão, se reflete não só nas últimas eleições (quando Likud, Israel Beiteynu, HaIchud HaLeumi e HaBait HaYehudi, todos estes partidos de direita, conquistaram juntos 49 das 120 cadeiras da Knesset), mas também nas internas do maior partido do país.

Cerca de 120 mil likudnikim estavam aptos a votar nas primárias do partido. Pouco mais de 71 mil compareceram às sessões de votação para eleger a ordem dos candidatos na lista interna do partido. E elegeram uma lista assustadora, que impressiona até aos mais conservadores. Os filiados ao Likud, segundo as palavras do próprio 1º Ministro e número um do partido (único que não pode votar nem tampouco fazer campanha), decidiram “voltar aos caminhos de Jabotinsky [1]”. Na verdade, o próprio Netanyahu não está familiarizado com isso, e, por mais que a lista possa agradá-lo em relação aos seus projetos colonialistas, politicamente para alguém que necessita costurar coalizões a coisa não está tão boa assim.

A lista do Likud conta com candidatos praticamente eleitos segundo as pesquisas, com atuações e propostas de lei excludentes, de deixar de cabelo em pé os republicanos mais reacionários dos EUA ou o pastor Silas Malafaia de queixo caído. Quer conhecer alguns deles?

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1. Dani Danon

Dani Danon (número 9 da lista), por exemplo, foi porta-voz manifestações contra refugiados africanos em Tel-Aviv (exigindo a sua deportação imediata, proibido pelas leis de guerra), que culminaram em um pogrom realizado por manifestantes no bairro pobre de Shchunat HaTikva. Também é responsável por um projeto de lei que visava proibir a emissão de passaportes, documento de identidade ou carteira de habilitação para quem não jurasse fidelidade ao Estado de Israel. Pelo bem da democracia, a lei não foi aprovada.

 

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2. Yariv Levin

Yariv Levin (número 17) é um dos mais ácidos críticos da Suprema Corte israelense, tendo afirmado uma vez que esta seria “dominada por uma minoria de extrema esquerda, que tenta ditar seus valores a uma sociedade que não concorda com os mesmos”. Levin lidera um grupo de parlamentares que desejam mudar a forma de indicação de juízes, passando para o poder executivo parte desta tarefa. É dele também a lei que proíbe o boicote a artigos produzidos no parque industrial de Judéia e Samária (assentamentos). Quem provar que foi prejudicado pode ser ressarcido por quem boicota.

 

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3. Miri Regev
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4. Tzipi Chotovali

Tzipi Chotovali (número 15) propõe que Israel declare soberania sobre os assentamentos em Judeia e Samária, transformando-os em parte do Estado. Miri Regev (número 21), conseguiu aprovar a lei que impede os partidos árabes Ra’am-Ta’al e Balad de indicarem determinados candidatos por serem antissionistas, mas a Suprema Corte (para o desespero de Yariv Levin) já avisou que vetará a lei por incompatibilidade com as diretrizes básicas e democráticas do Estado de Israel.

 

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5. Moshe Feiglin

Moshé Feiglin (número 23) é o mais antigo destes radicais na Knesset, e o que tem as propostas mais assustadoras. Ele afirma ser a Terra de Israel “ocupada” pelos árabes (ele se recusa a usar o termo “palestino”) há 1370 anos, e esta só terminará com o fim do “domínio” árabe sobre Jerusalém Oriental. Ele, então, criou um plano para encorajar os palestinos a emigrar para outros países árabes e buscar lá cidadania. Feiglin também comparou os Acordos de Oslo [2] (1993) e o Plano de Desconexão de Gaza [3] (2005) com as Leis de Nuremberg [4] (1935).

Onde fica o líder do Likud Biniamin Netanyahu neste jogo? Bibi (como é apelidado) já escolhera seu lado há muito tempo; além de ter sido uma das principais vozes contra os Acordos de Oslo e de ser um dos grandes entusiastas da expansão de assentamentos, o atual 1º Ministro também foi voz marcante contra Ariel Sharon quando este decidiu que Israel se retiraria de Gaza, e atacou todos os líderes de centro e centro-direita quando estiveram no poder. Netanyahu nunca foi visto como figura moderada dentro do Likud até se tornar 1º Ministro em 2009. Seu governo, apesar da coalizão conservadora, também contou com a presença do Avodá por um tempo, do Kadima (ainda que somente por 40 dias), foi marcado por dois acordos com o Hamas (de libertação do soldado sequestrado Gilad Shalit e de cessar-fogo durante a operação Pilar Defensivo. Mas, ainda assim, quando anunciou que o Likud concorreria conjuntamente com o partido Israel Beiteynu, de flagrante discurso anti-árabe (basta lembrar o lema de 2009: “sem lealdade, sem cidadania”) mostrava que aquele Bibi não mudara tanto assim.

As coisas, no entanto, não estão fáceis para ele. A vitória de Obama o atrapalha. O atual presidente americano é quem internacionalmente mais pressiona o líder israelense a cessar as construções e retomar o diálogo com Abu Mazen (líder da AP). Este último, já sem esperanças, conseguiu uma gigantesca vitória na ONU quando mudou o status da Palestina para Estado Observador, com mais de 130 votos a favor e somente 9 contrários. O mundo inteiro está ao lado de Obama e Mazen, e Bibi sabe disto. Mestre em retórica, Netanyahu precisa seguir mantendo a linha de seu governo, mas seu próprio partido o puxa para a direita.

Para complicar mais as coisas, em uma pesquisa divulgada hoje (18/dez/2012), os partidos da direita religiosa que concorrem juntos, HaBait HaYehudi-HaIchud HaLeumi (liderados pelo jovem e carismático Naftali Bennet), chegaram a 12 cadeiras, tornando-se a provável terceira maior bancada da Knesset. Os votos que o Likud-Beiteynu vêm perdendo recentemente devido às denúncias de fraude e corrupção envolvendo Avigdor Libermann (líder do Israel Beiteynu e ex-Ministro das Relações Exteriores), têm migrado para estes partidos, localizados no mapa político ainda mais à direita do que o Likud, mesmo com a nova lista. Isto para não falar do Otzmá Le’Israel, direita insatisfeita do HaIchud HaLeumi que decidiu concorrer sozinha nestas eleições e aparece muitas vezes beliscando dois ou três assentos nas pesquisas.

E, por fim, o que derruba Netanyahu, é que o tal “Corpo da Direita” não chega a 50 assentos somados (o que é muito, comparado às eleições anteriores). Isto quer dizer que Bibi precisará incluir na sua coalizão ou partidos ortodoxos, como o Shas e o Yahadut HaTorá, ou partidos de centro-esquerda, como o Yesh Atid, HaTnua ou Avoda [5]. Os dois primeiros não se entendem com a filosofia do Israel Beiteynu, que visa separar a religião do Estado. Isso fora as condições recém-impostas por Arie Dery [6] para integrar a coalizão, de se criar uma política social menos excludente e menos liberal (o que causa ojeriza em Netanyahu, grande adepto do liberalismo econômico). E os outros três teriam dificuldades de lidar com a lista do Likud-Beiteynu, mais à direita do que o costume. Como Shely Yechimovitch explicaria para os seus eleitores que participa de um governo do qual Libermann é Ministro das Relações Exteriores, Naftali Bennet Ministro da Habitação (e toma assentamento!) e na coalizão há gente como Regev, Feiglin, Danon, além dos outros mais à direita dos outros partidos?

E quem está no meio de tudo isso? O senhor Biniamin Netanyahu. Este mesmo, que incentivou o crescimento da direita, também criou um problema para si mesmo. Vai ter que se ver com o Obama. Vai ter que montar uma coalizão que agrade ao Likud. E quem no Likud quer o Shas ditando ordens? Quem no Likud que o Avodá na coalizão, se até do Barak eles reclamavam [7]? O título do texto se explica desta forma. Os eleitores do Likud resolveram perder a noção, e, tal qual votaram em uma lista louca como esta, deixaram seu líder refém dos radicais. Pois bem, Likud bêbado não tem dono. E que nós, cidadãos israelenses, tenhamos boa sorte [8].


Notas

[1] Vladimir Ze’ev Jabotinsky (1880-1940) é o criador da corrente sionista revisionista, teoria esta que visava separar fisicamente os judeus e os árabes na Palestina. Para Jabotinsky, as raças e culturas judaica e árabe não eram nem jamais seriam semelhantes, e a segurança do povo judeu seria ameaçada pelos árabes tal qual ele vivenciava na época do Mandato Britânico. Adepto da filosofia do “Grande Israel”, o teórico influenciou diversas correntes sionistas de direita, criou o movimento juvenil Betar e inspirou a criação do partido Herut, embrião do Likud.

[2] Acordos assinados entre o ex-1º Ministro Itzhak Rabin (1922-1995) que reconhecia a Autoridade Palestina (AP) como representante legítima do povo palestino em troca do recíproco reconhecimento do Estado de Israel. Os acordos projetavam a paz com os palestinos através da criação de dois Estados, e deram a Yasser Arafat (líder da AP) a soberania sobre parte dos territórios ocupados por Israel em 1967.

[3] Plano levado a cabo pelo ex-1º Ministro Ariel Sharon, que culminou na retirada dos colonos e do exército israelenses de Gaza.

[4] Leis criadas pelo nazismo que continham uma série de proibições aos judeus na Alemanha.

[5] O Meretz já anunciou que em nenhuma hipótese fará parte de nenhuma coalisão encabeçada pelo Likud. O Hadash se mantém sempre na oposição, e desta vez não há motivo sequer para se questionarem.

[6] Um dos líderes do Shas.

[7] O parlamentar do Likud (atual número 29) afirmou sem pudor que a lista eleita pelo Avodá era de “esquerda radical”.

[8] De propósito não cito os palestinos. Estes, que parecem acompanhar o andar da carruagem, pretendem votar no Hamas para tomar conta do poder executivo. A última pesquisa colocou Haniyeh, líder do grupo extremista com 48% dos votos contra 42% de Abu Mazen. Que Deus nos proteja dos nossos líderes e dos deles!

* O título do texto vai em homenagem aos meus amigos Diogo Eduardo, Igor Saucha, Hugo Duarte e Beno Chang. Não me lembro quem pronunciou primeiro a expressão.

 

Fotos

Capa:  http://news.walla.co.il/?w=/9/1384240

Foto 1: http://telaviv.israelnow.co.il/a43343-%D7%97-%D7%9B-%D7%93%D7%A0%D7%99-%D7%93%D7%A0%D7%95%D7%9F

Foto 2: http://www.magazin.org.il/inner.asp?page=17&article=7817

Foto 3: http://b.walla.co.il/?w=/3053/1119680/159404/5/@@/media

Foto 4: http://news.walla.co.il/?w=/2689/1832000/881946/5/@@/media

Foto 5: http://dannyorbach.com/2012/03/03/%D7%93%D7%92%D7%9C-%D7%A9%D7%97%D7%95%D7%A8-%D7%94%D7%9E%D7%A9%D7%9E%D7%A2%D7%95%D7%AA-%D7%94%D7%A0%D7%A1%D7%AA%D7%A8%D7%AA-%D7%A9%D7%9C-%D7%98%D7%91%D7%97-%D7%9B%D7%A4%D7%A8-%D7%A7%D7%90%D7%A1%D7%9D/

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Likud bêbado não tem dono*”

  • Rafael Stern

    23/12/2012 at 18:59

    Muito bom! Acho que vale lembrar que ele é, teoricamente, Ministro da Saúde. O cargo acaba caindo em cima do vice, que é ortodoxo. Não sei quem é pior, pois já ouvi alguns elogios ao vice. Mas de qualquer forma, nunca vi tantas greves no setor da saúde em Israel como nos últimos anos…..

  • João Koatz Miragaya

    24/12/2012 at 11:08

    A minha crítica neste texto nem foi à liberalização exagerada da economia… sobre isso eu posso escrever em outra ocasião, mas foi muito bem colocado, Rafa.

  • Israel - ConexaoIsrael - Atualizacao sobre caso dos sequestrados (17.06)

    17/06/2014 at 17:20

    […] mas não foi suficiente para espantar a ira de alguns parlamentares (como Avigdor Libermann e Miri Reguev), que a chamaram de terrorista e traidora. O presidente da Knesset, Rubi Levin, pediu uma Comissão […]

  • Lições do seqüestro - Conexão Israel

    22/06/2014 at 15:16

    […] dos moderados palestinos e avançar as negociações ou seguir os desejos de sua bancada, cada vez mais radical, e assumir que seu partido não defende a criação do Estado palestino. Por enquanto, o que temos […]

  • Operação Márgem de Proteção: começo, meio e possíveis fins

    25/07/2014 at 12:26

    […] como o do exterior, Avigdor Liebermann (Israel Beiteynu), e o ex-vice-ministro da defesa, Dani Danon (Likud), tocaram no assunto, mas aparentemente não foram levados a sério pelo Primeiro Ministro. […]