Likud ganhous as eleições. Mas perdeu o governo. E as estribeiras.

11/05/2015 | Eleições; Opinião; Política

Eis a cena: 61 adultos brincando de Sério. Sentados em uma rodinha com cara de quem tem um três de espadas numa mão de truco, e sem rir. Se rir perde. Pode falar, pode gritar, pode soltar despautérios e até fazer discursos bombásticos. Só não pode rir. Não pode piscar também.

Pois então; É essa a nova coalizão do quarto governo de Benjamin (Bibi) Netanyahu.

Esse texto vai tentar responder a três perguntas. A primeira é: como foi que a coisa degringolou a esse ponto? A segunda: o que é que isso significa, para a política e para a sociedade em Israel. E a terceira é: e agora? O que vai acontecer?

Se você não passou os últimos meses sem internet, televisão nem jornal, deve saber que o Likud venceu as últimas eleições em Israel. Para montar um governo, no entanto, Netanyahu precisava formar uma coalizão de pelo menos 61 parlamentares. Quando a coalizão do novo governo não é concluída no período dado, a lei determina que o presidente passe a bola para o líder do segundo partido mais votado – neste caso Itzhak Herzog, do Avodá (trabalhista) – para que este tente montar uma coalizão. Ou seja: ou bem Netanyahu fechava uma coalizão, ou perdia o cargo de primeiro-ministro.

E como se monta uma coalizão? Através de acordos políticos. Troca de cargos, ministérios e comprometimento para futuras votação de leis. E, afinal de contas, afinidade ideológica.

Mas esqueçam, como esqueceu toda essa geração de políticos, sobre afinidade ideológica. Pois é aqui que começa a explicação de como é que a coisa chegou a esse ponto. No governo anterior, e até no que veio antes desse, as coalizões partidárias que formaram o governo eram completamente heterogêneas. No último governo, com a desculpa de que a corrente coalizão era inadministrável, Netanyahu decidiu por desfazer o parlamento e convocar novas eleições. Estava contando com as suas boas chances de que eleições trouxessem mais votos da direita, e portanto parlamentares mais afinados com seus projetos. (E não, eu não sei que projetos são esses. Bibi não revela. Mas há aqui a suspeita de que seu projeto seja única e simplesmente manter-se no poder. O que é curioso, porque vejo muito poucos parlamentares que compactuem com esse projeto – sejam de esquerda ou de direita. Mas divago).

Houve eleições e, para a surpresa de muitos, a direita realmente conseguiu um naco mais apreciável do mapa da Knesset. Ou, pelo menos, era o que parecia ser. Porque na verdade, e para a surpresa de outros, a direita não conseguiu assim uma vantagem tão vasta. Apesar do Likud ser o maior partido, ele simplesmente acabou tirando votos de outros partidos de direita. Ainda assim, parecia que montar uma coalizão seria simples. Pegam-se os dois partidos religiosos, Casa Judaica, Avigdor Lieberman (Israel Nossa Casa), Moshe Kahlon (Kulanu) e fechamos fácil 67 mandatos. Todos ou bem de direita, ou bem completamente indiferentes ao espectro. Todos com visões de economia não tão distantes, ou pelo menos não antagônicas. A esquerda desesperou-se, o mundo começou a arrancar os cabelos, eu comecei a listar países que aceitam imigrantes e as quatro bestas do apocalipse começaram a ferrar seus cavalos do inferno para cavalgar pelo Oriente Médio inteiro.

Mas a data final para fechar a coalizão se aproximava e apenas dois partidos haviam fechado acordo com Netanyahu. E esses que tinham, conseguiram tirar do Bibi até as calças. Arrancaram montes de dinheiro para fundo partidário, leis que, de fato, cancelavam quase tudo que havia sido conquistado na cadência anterior pelos partidos de centro. Por fim, domingo, dia 3, apenas dois dias da data final, Lieberman anunciou: não ia participar da coalizão.

Como assim? Por que?

Seu partido, o Israel Beiteynu (Israel Nossa Casa), conseguiu meros seis lugares. Mas eram seis votos de importância para o fiel da balança. Com esses seis parlamentares, Israel Beiteynu tinha pouco poder de barganha para conseguir bons ministérios e condições. Lieberman largou mão do Ministério do Exterior, chutou a bola bem longe e disse que assim, não brincava mais. Afinal, ideologia para que, não?

Foi o fim do sonho de estabilidade. O último partido que faltava para assinar o acordo de coalizão era o HaBait HaYehudi (A Casa Judaica), sob a liderança de Naftali Bennett. Ele viu a sua oportunidade para arrancar de Netanyahu até o que ele não tinha. E tirou mesmo. (Ministério da Justiça, Ministério da Educação, Ministério da Agricultura, além do controle sobre Cisjordânia, e mais uma fortuna de verba partidária). Sobraram poucos lugares vagos para ministros do próprio Likud. Dois partidos que lutaram lado a lado nas eleições. Likud roubou votos do HaBait HaYehudi. Bennett acabou com a estrutura do governo. Ideologia para que, não?

E assim chegamos a um governo instável, desconfiado, brigado entre si, sem qualquer projeto em comum. (O fato de que todos eles tem como projeto manter-se no poder, não significa necessariamente que seja um projeto em comum, evidentemente).

O que nos leva à segunda pergunta: o que exatamente isso significa?

Isto significa, em primeiro lugar, que diversos parlamentares, através de acordos estes e aqueles, acabaram sendo empossados em cargos que provavelmente serão contraproducentes até mesmo para os interesses dos seus partidos. O caso mais notado e comentado é o de Ayelet Shaked (HaBait HaYehudi), que servirá como ministra da Justiça. Shaked causou bastante controvérsia com uma série de colocações – como direi? não-ortodoxas, durante o último entrave em Gaza, além de propostas de lei consideradas não menos que racistas por boa parte da população de Israel. A contraproducência da sua posição é que dado o cenário político, e dada a ferocidade da oposição (e da coalizão também), vai certamente desapontar seus eleitores. Não vai conseguir nem uma pequena parte das reformas que pretende implementar e, em política, tornar-se irrelevante é pecado mortal.

Isto significa também que, além dos acordos fisiológicos (verbas partidárias, por exemplo), muito pouca coisa vai conseguir ser aprovada por esse atual governo. Numa queda-de-braço sem fim entre os próprios membros da coalizão, não vai faltar chance de um membro torpedear as propostas de outro membro. Nem que seja só para mostrar-quem-manda-aqui. Com uma coalizão de apenas 61 membros, basta um deles se revoltar, e o governo perde sua força. Uma instabilidade desta magnitude provavelmente não poderá durar muito e há uma vibrante especulação de que neste exato momento Bibi está a fazer exatamente isso: buscando uma alternativa. Evidentemente, só existe uma alternativa: Itzhak Herzog. Mas calma lá, que a coisa é um pouco mais complicada que isso, como costuma ser na política do Oriente Médio. Durante os 50 dias que Netanyahu teve para costurar os acordos de coalizão, não se levantou o telefone nem sequer uma vez para conversar com Herzog. Ninguém tem muita certeza por que e, evidentemente, ninguém tem muita certeza do que vai acontecer agora.

O que, por sua parte nos leva à terceira e última pergunta: o que vai acontecer agora?

Há quatro maneiras deste governo agir a partir de agora. A primeira é surpreender a todos, e os membros da coalizão fazerem as pazes e se tratarem como adultos, colaborando entre si e efetivamente administrando o país, que é o que se espera deles. Quem acredita nesta hipótese também acredita em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e na inocência do movimento BDS.[ref]Boycot, Divestment and Sanctions – Movimento internacional de boicote, sanções e desinvestimento econômico, cultural e acadêmico a Israel[/ref]

Outra opção, seria uma eterna briga sem propósito, sem fim e sem solução por alguns anos, enquanto o país é mais ou menos administrado pelos burocratas técnicos que trabalham nos ministérios (e que a bem da verdade, vêm governando o país com relativo sucesso já faz algum tempo).

A terceira opção, seria a entrada do Avodá (com ou sem a Tzipi Livni) dentro do governo daqui a alguns meses.

A quarta, que seria um verdadeiro pesadelo, mas é uma possibilidade real, é que teríamos novas eleições em breve.

Por fim, uma nota para quem acredita em karma. Há rumores consistentes entre analistas e jornalistas políticos de que a ordem em que os partidos foram chamados para a mesa de negociação da coalizão veio de Sara Netanyahu. E ela, que tem ódio mortal por Bennett e Shaked, fez eles ficarem por último. Houve um tempo em que ela costumava dizer que Shaked seria ministra só sobre seu cadáver. Dizia isso do Bennett também. Não deve estar sendo fácil para o Bibi nas últimas noites. Karma is a bitch.

Comentários    ( 10 )

10 comentários para “Likud ganhous as eleições. Mas perdeu o governo. E as estribeiras.”

  • Rafael Stern

    11/05/2015 at 17:36

    Sensacional! Belíssimo artigo! Claro e objetivo, além de ter uma narrativa agradável!
    Quem precisa de “House of Cards” se tem a política israelense para acompanhar?

    Uma dúvida – li que uma aternativa que o Bibi estava buscando era a filiação individual de membros da knesset à coalizão, independente de seus partidos. Como funciona isso?

    • Gabriel Paciornik

      11/05/2015 at 18:26

      Muito obrigado!

      Sim, um parlamentar pode teoricamente romper com seu partido e entrar na coalizão. Mas isso é improvável. É um preço caro demais para todos. Para cada um que fizer isso, Bibi vai ter que dar um cargo alto. Além do sujeito se queimar tanto com o velho partido, como com qualquer outro partido que eventualmente venha a entrar depois.

    • Rafael Stern

      11/05/2015 at 19:25

      O que significa este rompimento com o partido? Desfiliar-se? E então ele precisaria se filiar a algum partido da coalizão?

    • Gabriel Paciornik

      11/05/2015 at 22:17

      Eu não tenho certeza. Mas na pior hipótese o parlamentar poderia simplesmente criar um partido para cisão. Ehud Barak fez isso quando se desligou do Avodá no meio do mandato.

  • Marcelo Starec

    11/05/2015 at 20:57

    Oi Gabriel,
    Muito interessante o texto…Em meu modesto entender, essa questão de coligações e ter de ceder aos partidos para formar um Governo, no caso de Israel, parece ser algo bem antigo…A cerca de 35 anos eu já ouvia essas mesmas críticas, que persistem até a presente data. Por fim, gostaria de ressaltar uma frase do artigo: “Quem acredita nesta hipótese também acredita em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e na inocência do movimento BSD. 1” (É incrível como ainda existem, no Brasil, gente ingênua que simplesmente não se dá ao trabalho de ler o que quer o movimento BSD, ou seja, claramente destruir Israel e ficam tentando justificar o injustificável !)….Recomendo a esses que, se não for por má-fé, mas por ingenuidade, que busque saber o que eles querem de fato – pois eles não escondem isso de ninguém, basta ter um pouquinho de boa vontade para buscar saber….E então reflitam e aí sim opinem!….
    Abraços,
    Marcelo.

    • Gabriel Paciornik

      11/05/2015 at 22:01

      Sim. Mas nunca (nunca mesmo) a coalizão esteve tão fraca, frágil e sem um objetivo único que não fosse a mera existência.

  • Raul Gottlieb

    12/05/2015 at 10:45

    Oi Gabriel,

    Muito bom o teu texto e a tua análise. Me parece bem abrangente e esclarecedora.

    Eu aposto na alternativa quatro. Deveremos ter eleições em breve, penso eu. Mas esta é uma aposta sem muita convicção. É realmente muito difícil saber o que vai acontecer.

    Esta fofoca com relação à Sara Netanyahu me parece ser simples BS (sem o D). Coisa de quem está pressionado para achar algo diferente para falar.

    Quando você fala em política no Oriente Médio, quer falar política em Israel, certo? Não dá para botar no mesmo saco a forma de fazer política na Síria, Iraque, Egito e Israel. De forma alguma!

    Finalmente: o correto é BDS e não BSD, como a tua nota deixa claro.

    Abraço,
    Raul

    • Gabriel Paciornik

      12/05/2015 at 10:55

      Muito obrigado!
      Sara é figurinha conhecida no nosso panteon de bizarrices. Boa parte deve ser só fofoca. Mas sabe-se que há alguma verdade nessa história sim.
      Eu coloco sim a política de Israel dentro do mundo da política do OM porque uma é influenciada pela outra e, embora não funcionem exatamente da mesma maneira, estão intimamente relacionadas.

      E obrigado pela correção. Já arrumei o texto.

  • Raul Gottlieb

    13/05/2015 at 12:31

    Ninguém é uma ilha, Gabriel. Todos sobre influência de todos.

    Mas não há a menor relação entre o jogo político em Israel e as ditaduras que o circundam. Cada uma com suas gradações, é claro.

    Sobre a Sara, qual a esposa que não conversa (e influencia) com o marido e vice versa? Mas é claro que não tenho o menor insight sobre como funciona o casal Netanyahu.

  • Mario S Nusbaum

    14/05/2015 at 22:29

    Vendo de longe, a saída me parece ser aumentar a clausula de barreira.

Você é humano? *