A Lua Cheia de Nissan

Uma das grandes belezas do sionismo para mim é como a cultura judaica transbordou as fronteiras da liturgia, da sinagoga, passando a falar, além de temas coletivos e nacionais, de temas pessoais, questões da vida. Pessach, atualmente, é relacionado com valores de liberdade, ao relembrar a saída do povo judeu da escravidão do Egito [1]. O grande Arik Einstein (leia mais sobre ele aqui, aqui e aqui) interpretou com brilhantismo a música “Me Avdut le Cherut” (Da Escravidão à Liberdade), escrita por Yankele Rotblit e composta por Itzhak Klepter e Guy Boukathi, se inspirando em temas de Pessach para falar sobre liberdade.

Diversas referências aos símbolos tradicionais de Pessach podem ser identificadas nessa música, como por exemplo:

“Basta é basta, eu disse” – Uma das músicas tradicionais de Pessach se chama “dayenu”, e vai contando progressivamente os acontecimentos da saída da escravidão, dizendo que se fosse só aquele acontecimento já teria bastado, mas ainda teve mais.

“Eu tenho que sair // O escravo em mim // Deixar para trás // Em um lugar para onde // Nunca voltarei” – Clara referência à saída da escravidão do Egito.

“Não há mais o que dizer” – Dizer, em hebraico, é “lehaguid”. A palavra “hagadá” (livro tradicional que se lê no jantar de Pessach” vem da mesma raiz, e significa literalmente “o ato de contar”.

“Da escravidão para a liberdade” – Esta frase, em hebraico, aparece em músicas tradicionais de Pessach.

“Como lua cheia em Nisan” – Nisan é o primeiro mês na contagem dos meses hebraicos. A primeira noite de Pessach acontece na lua cheia do mês de Nisan. Muitos eventos importantes no calendário judaico são celebrados na lua cheia – Purim, Pessach, Sucot, Tu Bishvat, Tu Beav. Cada um desses eventos celebra coisas bem diferentes entre si.

“Para sair a uma jornada que é toda perigos” – Referência à jornada de 40 anos dos judeus pelo deserto do Sinai.

“Que no topo de alguma montanha // Eu veja de longe // Uma promessa para amanhã” – Referência a Moisés vendo, do alto do Monte Nevô (hoje na Jordânia), a terra prometida, Israel.

 

 

 

Português
Falhou a força do sofrimento

Não pude mais carregar

Basta é basta, eu disse

Eu tenho que sair

O escravo em mim

Deixar para trás

Em um lugar para onde

Nunca voltarei
Não há mais o que dizer

Acabaram as palavras

Não há mais o que perder

A não ser os grilhões

Que coraram até sangrar

E eu ainda estou arranhado

Hoje a noite sairei

Da escravidão para a liberdade
E há algo em mim

Como lua cheia em Nisan

Que me chama para levantar-me

E repete e chama todo o tempo

Para sair a uma jornada que é toda perigos

Para uma chance pequena

A um fim imaginário, feliz e estranho
De verdade há chances

Que no topo de alguma montanha

Eu veja de longe

Uma promessa para amanhã

Que talvez não venha, mas

Mesmo que eu morra no caminho

Hoje a noite sairei

Da escravidão para a liberdade
E há algo em mim…

 

 

Tradução e transliteração por Yair Mau, no blog Shirim em Português 


A imagem de capa é uma foto tirada por mim da lua cheia de Nissan, no dia 10 de Abril de 2017 (15 de Nissan de 5777).

Notas:

[1] Na antiguidade, Pessach era um festival essencialmente agrícola, que celebrava a colheita do trigo. Que por sinal, está acontecendo essa semana em Israel.