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26/05/2017 | Conflito; Política

Donald Trump recebe Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, na Casa Branca. Contatos cordiais. Discursos afinados. A bússola aponta para cúpula de paz, mediada pelos Estados Unidos.

Bibi Netanyahu é visitado por Trump, em Jerusalém. O líder norteamericano traz esposa, filha e genro. Torna-se o primeiro presidente a “rezar” no Muro das Lamentações, durante o exercício do mandato. Outra vez, o tema de um acordo definitivo, ao Oriente Médio, entra na pauta.

A carga exercida por Washington anima a oposição israelense, sempre mais próxima ao diálogo com os palestinos. Isaac Herzog, trabalhista, afirmou que “trata-se de mais uma chance vital”.

Eu, mesmo torcendo por um final feliz, sou cético. O motivo está em exemplos passados, quando tudo começa bem, mas termina mal.

Em 1988, a Organização para Libertação da Palestina (OLP) reconheceu a existência do Estado de Israel, dentro das linhas de 1967. A partir daí, ainda no governo de Yitzhak Shamir (1988-92), começaram conversas, de bastidores, sobre os Acordos de Oslo. Este processo deu fim à Primeira Intifada, movimento popular, sem ligação com as lideranças árabes da época.

Salvo período curto de atentados isolados, entre 1995 e 1997, que ajudou a eleger Netanyahu em 1996, viveu-se um oásis de esperança entre 1993 e 2000. Aperto de mãos entre Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, nos Estados Unidos. Paz com a Jordânia, ano seguinte. Juventude israelense vislumbrando geração “paz e amor”, depois de 60 anos de conflitos.

No entanto, havia arestas a aparar. A questão dos refugiados palestinos, por exemplo, ganhava várias interpretações e soluções, de acordo com a ocasião. Na parte territorial, Jerusalém seria divisível ou indivisível?

Importante ressaltar que durante os sete anos, entre o cumprimento de Rabin e Arafat até Camp David, existiram pontos que os dois lados deviam realizar. Assinaram compromissos. Nenhum dos dois fez tudo o que tinha firmado. Mesmo assim, “chegaram aos finalmentes” para alcançar a sonhada paz, o fim da confusão e a concretização de uma nova era.

A esquerda israelense, que estava no governo e cantava “Give Peace a Chance”, de John Lennon, foi atropelada, não anotou a placa do caminhão, nem entendeu o ocorrido. Avisos de árabe-parlantes, alertando para as duas caras de Arafat, não foram suficientes. Não existia volta. Já estavam em Camp David, para fechar o acordo. O premiê Ehud Barak ofereceu 100% de Gaza, mais de 90% da Cisjordânia e metade da Cidade Velha de Jerusalém.

O líder palestino costumava dizer em inglês “my friend, my brother, the peace”. Na sua língua natal, o discurso era ainda dos tempos da OLP terrorista.

O jogo político inclui blefe de poquer. Israel precisava arriscar. Bill Clinton bancou Camp David e Taba. Arafat, por sua vez, a Segunda Intifada.
Até 2005, foram anos sangrentos. Atentados a bomba em várias cidades. Clima pacífico mudou, como se trocassem a chave do chuveiro elétrico, de verão para inverno.

Bush sucedeu a Clinton. Sharon, a Barak. Gestos de boa vontade, como a saída unilateral da Faixa de Gaza, em vez de promover a paz, foram usados como propaganda por terroristas, vide Hezbollah e Hamas.

A vitória do Kadima, em 2006, retomava a esperança. Ano passado, Abbas revelou ao canal 10, de Israel: “Em 2008, Ehud Olmert abriu um mapa na minha frente. Anotou pontos. Quis fechar a questão naquela hora. Eu simplesmente neguei”.

O entrevistador se desesperou. “Mas, como assim?”.

O presidente da Autoridade Palestina explicou o inexplicável e deixou passar a oportunidade, da mesma forma que em 1937 (Comissão Peel), 1947 (Partilha na ONU) e 2000 (Camp David). A realidade nos conta que, na hora da verdade, eles disseram não. E poderão dizer de novo.

A AP já é praticamente um Estado, segundo as Nações Unidas. Gaza é um “Hamastão”. O xis do problema, segundo o premiê Netanyahu, seria “virar para seu povo e dizer que o conflito acabou, Israel não será destruído e cada um tem sua terra”.

Este choque de consciência fez Arafat andar para trás e retomar o terrorismo, na minha opinião. Abbas já é um pouco diferente. Não possui dois discursos, em línguas distintas. Portanto, é mais confiável.

Bibi, por entrevistas em anos anteriores, abre mão de 96% da Cisjordânia (Judéia e Samária), mas exige ponto de observação no Vale do Jordão e reconhecimento palestino “de que Israel é o Estado Judeu”. O outro lado, mesmo negando na hora h, sempre deseja retomar o papo, de onde pararam.

Donald Trump, com seu reality show “O Aprendiz”, já comprovou várias vezes. Quem quer, consegue. Quando há obstinação, chega-se lá. Que estes líderes entendam os anseios dos povos. Que a paz não seja demitida.

Foto da capa: Arquivo Conexão Israel.

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