Maldito o navio que os trouxe

Ninguém gosta de imigrantes, nem mesmo um país formado por imigrantes. “Maldito o navio que os trouxe!”. Este é o esquete mais famoso do lendário grupo Lul (galinheiro), e é estrelado por Arik Einstein e Uri Zohar. Os dois representam as ondas de imigração a Israel das mais variadas origens, e como os veteranos no país se sentem superiores àqueles que recém chegaram. Assistam abaixo.

Depois que o vídeo começar, cliquem no botão CC para mostrar as legendas em português.

A crítica bem humorada é relevante para Israel dos dias de hoje, e certamente também para muitos outros países.

Se você quer saber um pouco mais sobre o video, leia as explicações abaixo, onde as referências vêm com o segundo em que aparecem no vídeo.

00:07 — O vídeo começa com os árabes sendo mostrados como os primeiros a habitar a região.

00:10 — A melodia de fundo é “A Internacional“, hino socialista, deixando claro qual é a ideologia dos imigrantes judeus russos que acabaram de chegar. Grisha é apelido do nome russo Gregory.

00:15 — Vodca e Pulka, para representar a cultura russa. Pulka é um trenó puxado por cachorros.
pulka

00:24 — A canção se chama “Po BeEretz Chemdat Avot” (aqui na terra querida dos patriarcas), e é um clássico do folclore sionista. A letra diz:

Aqui na terra querida dos patriarcas
Todos os desejos se realizarão*
Aqui viveremos e aqui criaremos
Uma vida brilhante e uma vida de liberdade
Aqui o espírito divino estará imbuído
Aqui também florescerá a língua da Torá.
Arem [a terra]
Cantem
Fiquem felizes
Os brotos das flores já se abriram.
Arem [a terra]
Cantem
Fiquem felizes
Ainda virão as sementes
פֹּה בְּאֶרֶץ חֶמְדַּת אָבוֹת
תִּתְגַּשֵּׁמְנָה כָּל הַתִּקְווֹת,
פֹּה נִחְיֶה וּפֹה נִצֹּר,
חַיֵּי זֹהַר חַיֵּי דְּרוֹר,
פֹּה תְּהֵא הַשְּׁכִינָה שׁוֹרָה,
פֹּה תִּפְרַח גַּם שְׂפַת הַתּוֹרָה.
.נִירוּ נִיר, נִיר, נִיר,
שִׁירוּ שִׁיר, שִׁיר, שִׁיר,
גִּילוּ גִּיל, גִּיל, גִּיל,
כְּבָר הֵנֵצּוּ נִצָּנִים.
נִירוּ נִיר, נִיר, נִיר,
שִׁירוּ שִׁיר, שִׁיר, שִׁיר,
גִּילוּ גִּיל, גִּיל, גִּיל,
עוֹד יָבוֹאוּ זֵרְעוֹנִים.

 

*O segundo verso é na verdade “todas as esperanças se realizarão”, mas eu achei que fica esquisito em português.

Os últimos a chegar, os georgianos, cantarão esta canção novamente, e será a música de fundo bem no final do video, quando estão todos olhando para a praia e reclamando.

01:05 — Os próximos a chegar são os poloneses. Vladek (na verdade Władek) é apelido de Władysław, e Mietek é apelido de Mieczysław.

01:15 — Ambos declamam o primeiro verso de Pan Tadeusz, o poema épico de Adam Mickiewicz, que diz:
“Ó Lituânia, pátria minha! Tu és como saúde, quanto valor é preciso te dar, somente saberá quem te perdeu.” [Litwo! Ojczyzno moja! ty jesteś jak zdrowie]
A Lituânia a qual se faz referência deve ser entendida como uma região geográfica, muito maior que o Estado-Nação moderno de mesmo nome. Polônia e Lituânia eram parte da “República das Duas Nações” entre os séculos 16 e 18. Portanto, não é de se estranhar que o poema polonês mais famoso comece com a palavra “Lituânia”.
Mickiewicz escreveu o poema enquanto estava exilado em Paris, durante a ocupação russa de sua terra natal. Assim, é um poema de exílio (alô Gonçalves!), e se trocarmos “Lituânia” por “Israel”, poderemos entender melhor o que sentem os judeus poloneses depois de séculos longe se sua terra ancestral.

01:28 — O russo imita o jeito de falar dos poloneses, cheio de SH (sz) e TSH (cz). A primeira palavra que diz é jeszcze, “ainda” em polonês.

01:32 — Gefilte fish com açúcar. É assim que se come na Polônia, gefilte fish doce. Mais para o leste (Lituânia, Rússia) o gefilte fish é salgado. Aliás, segundo o linguista Marvin Herzog, a mesma linha geográfica que divide os dois dialetos do yidish (Poylish/Galitzianer versus Litvak) também divide o gosto culinário com respeito a este peixe recheado.

01:37 — Cólera. Xingamento multi-uso em yidish para referir-se a alguém com qualquer tipo de atributo ruim. Pronuncia-se cholera, com ênfase na sílaba do meio. Palavra deriva da doença “cólera” (כוֹלֶרָה), ou do hebraico choli-ra (חֳלִירַע = חולי+רע = doença ruim).

01:39 — A frase em árabe “maldito o navio que os trouxe” é repetida ao longo do video pelos imigrantes de todas as origens, justamente para mostrar que os recém chegados adotam os costumes e jeitos dos veteranos no país para ganhar legitimidade. Tentem falar: “In’al din babur ili jabhun.”

In’al (ينعل) é uma corruptela de Il’an (يلعن), que significa maldito. Din significa em árabe “religião”, fazendo de In’al Dinak o xingamento “maldita [seja] a sua religião”. Não necessariamente se está xingando a religião do outro, um amigo libanês diz isso a seu irmão quando está bravo, e não pensa em nada relacionado a religião, do mesmo jeito que ninguém pensa em ferro quando diz “vai se ferrar”. Babur é navio no dialeto árabe-marroquino. Enfim, a frase não é exatamente bem estruturada, mas pode-se entender a ideia.

01:43 — Agora são os imigrantes iemenitas que chegam. A caricatura mostra que são muito religiosos, e a mulher (que não fala uma palavra) está grávida. A roupa listrada é típica da cultura, conforme vemos em várias fotos de judeus iemenitas do começo do século 20.

02:37 — Os imigrantes poloneses citam algumas comidas iemenitas. Schug (סחוג) é um molho picante, aquele que o vendedor de falafel oferece para colocar quando pergunta “charif?” (picante?). Falafel (פלאפל) é uma bolinha frita feita de grão de bico (o personagem polonês diz Palafel, mostrando a pouca intimidade com a culinária iemenita). Chilbe (חילבה) é um molho feito da planta de mesmo nome (feno-grego, em português), muitas vezes usado como “dip” (não é o molho que é colocado no pão, mas sim o pão é colocado dentro do molho).

02:41 — Novamente cholera, o xingamento multiuso. Desta vez o traduzi como “porcaria”, por se referir às comidas citadas acima.

02:45 — Os alemães chegam, um deles vestido de tirolês, o outro com um paletó (leia abaixo) e calça ridícula. Trazem consigo o rádio, símbolo da cultura, e não param de falar dos professores e doutores que vem consigo. A cara de decepção do tirolês em ver a terra prometida é impagável.

Navio "Medinat HaYehudim" (o Estado dos Judeus), de 1947
Navio “Medinat HaYehudim” (o Estado dos Judeus), de 1947

03:43 — Yeke Potz é como o iemenita xinga os alemães. Yeke é o apelido dos judeus alemães, vem do alemão “Jacke”, que significa “jaqueta”, ou a parte de cima do terno. Potz significa bobo, idiota, em yidish. Yeke Potz era um xingamento bastante comum para se referir aos alemães que imigraram a Israel na “Quinta Aliá”, durante os anos 1930.

03:50 — A música de fundo é a Marselhesa, hino francês, indicando que os recém chegados são franceses. Mais tarde no video, os alemães os chamam de marroquinos. Afinal de contas, são o quê? Ambos. A cultura francesa era bastante difundida no norte da África, e muitas famílias judias até falavam francês em casa. Nos anos 1950, com a expulsão dos judeus do Marrocos e outros países do Magrebe, muitos foram morar na França, para depois imigrarem a Israel. A dupla francesa/marroquina mostra também a diferença cultural entre gerações, o neto é um francês moderno, e o avô veste roupas de tempos passados.

04:32 — Agora são os judeus georgianos que chegam. As jaquetas e chapéus dão uma atmosfera soviética à dupla. Eles falam “Tiukashvili, Irashvili, Zabtashvili”, sobrenomes inventados, que não deixam sombra de dúvida de onde vêm, já que “shvili” é o sufixo que significa “filho de” em georgiano. Em hebraico, Irashvili e Zabtashvili se escreve אירשווילי e זבתשווילי, respectivamente, mostrando que a primeira parte dos sobrenomes inventados vem da expressão da Torá “Eretz Zavat Chalav uDvash” (a terra que emana leite e mel).

04:44 — Menção à KGB, a agência de segurança soviética, e à NKVD, a polícia e serviço secreto. Há um jogo de palavras, já que em hebraico “não tem” se diz “Ein” ou “En”, que soa igual à primeira letra de NKVD, então literalmente o personagem georgiano diz “não tem KVD”.

05:14 — Número branco. Nos anos 1960, todos aqueles que tinham direito de comprar um carro sem impostos, como os novos imigrantes, tinham que colocar uma moldura branca em volta da placa de seus carros.
lavan

05:55 — Drek Mit Leber (דרעק מיט לעבער) significa “merda com fígado”, em yidish. O que é pior que merda? Merda com fígado! A expressão significa “absolutamente nada”.

06:10 — Menção às seguintes localidades. Al-Faluja, vila árabe onde os exércitos de Israel e do Egito se enfrentaram durante a Guerra de Independência. Baqa al-Gharbiyye (Baqa ocidental), que ficou separada da cidade irmã Baqa ash-Sharqiyya (Baqa oriental) com o estabelecimento da linha verde, no acordo de armistício no final da Guerra de Independência. Auja al-Hafir foi outro local de embate entre o exército de Israel e o egípcio, em 1948. Hoje é a vila educacional de Nitzana e a base militar Ktzi’ot, na fronteira com o Egito.

As diferentes ondas de imigração a Israel não estão todas representadas no video (são muitas), e as que sim estão, são caricaturadas. Quem quiser ler a respeito das Aliot (ondas de imigração), pode fazê-lo no artigo do Wikipedia em inglês (em português ainda é muito ruim).

O video “Maldito o navio que os trouxe” é excelente, na minha opinião, mas oferece uma visão muito cínica. Gostaria de terminar com uma outra obra de Arik Einstein sobre a imigração a Israel, o Shir Hashayara, a canção da caravana. A melodia e instrumentos são gregos, e a letra diz:

De guetos e de acampamentos chegamos
Para os pântanos e para o deserto fomos
Dos países árabes, da Rússia e da Polônia
Acendemos luz também em Dimona, também em Degania

E de todos os exílios
E com todos os problemas
Um povo se criou, e um país se fundou
E uma língua que estava dormente
Novamente começou a acordar

Aprenda a cantar a letra completa em meu blog Shirim em Português.


Agradeço a ajuda do meu avô Daniel Roth, que me ajudou a entender o polonês do vídeo, e me contou sobre a poesia Pan Tadeusz.

Imagens:
Navio Medinat HaYehudim: The Palmach photo gallery, no site pikiwiki.org.il, segundo a seguinte licença Creative Commons.
Yemenita (esquerda): Wikipedia.
Yemenita (direita): erev-rav.com.

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Maldito o navio que os trouxe”

  • Marcelo Starec

    01/09/2015 at 01:30

    Oi Yair,

    O texto e os vídeos são ótimos…Dá para rir e se emocionar ao mesmo tempo!…E é isso mesmo, temos orgulho de ser tolerantes e justos com todos os cidadãos de Israel, independente de qualquer tipo de critério e ao mesmo tempo, de ser o Estado Judeu (ou do povo judeu) e essa é uma relação de amor “inquebrável”…Entendo ser muitas vezes justo esse sentimento de que “nós israelenses construímos essa Terra para todos nós – judeus e outros”, enquanto vocês (demais judeus) nada fizeram!,,.mas em meu entender esse sentimento de separação diminuiu muito hoje em dia, o que é bom!…Os motivos são, na minha opinião, a grande melhoria do nível de vida da população de Israel (Isso comparado a algumas poucas décadas) e também ao aumento do antissemitismo – na prática, obviamente considerando a média e não casos isolados, hoje ser um israelense não é mais difícil do que ser um judeu em diversos países, talvez até mesmo na maioria destes….E é muito importante que essa relação fique cada vez melhor!!!….

    Abraço,

    Marcelo,

  • Fábio

    15/09/2015 at 19:54

    Caro Yair, excelentes o achado e iniciativa de escrever. Parabéns. Com um abraço, Fábio.