A manifestação

28/07/2014 | Conflito, Política, Sociedade.

Sábado foi um dia feliz. Desde que começou a operação os dias não têm sido fáceis. Mesmo estando do lado mais seguro, em Tel Aviv, com Domo de Ferro e abrigos, é uma sensação de angústia constante. E acompanhando as notícias, o número absurdo de mortes, e a falta de luz no fim do túnel me dá vontade de chorar todos os dias.

Uma sensação de impotência muito ruim. Não existe outro assunto. No trabalho, em casa, com os amigos, nas redes sociais, tudo, tudo é a guerra (em hebraico todos falamos guerra, e não operação). Cada um tem uma opinião, os nervos estão à flor da pele, e às vezes a sensação é de uma solidão profunda. Mas nesse sábado não foi.

Várias organizações da esquerda israelense organizaram uma grande manifestação em conjunto na Praça Rabin exigindo cessar fogo imediato e uma solução política. Quando vi o evento no Facebook, no início da semana, imediatamente marquei sim. Vi que estavam arrecadando fundos para a organização e doei o que pude. Convidei os amigos que sei que compartilham da mesma opinião.

Cartaz do partido árabe-judeu Hadash: Judeus e árabes se recusam a ser inimigos.
Cartaz do partido árabe-judeu Hadash: Judeus e árabes se recusam a ser inimigos.

No sábado de tarde fui encontrar com uma amiga israelense que está morando fora do país, o plano era botar o papo em dia e ir para a manifestação. Foi então que começaram os rumores de que a polícia tinha cancelado a autorização, por questões de segurança. Além da ameaça de foguetes, nas últimas manifestações da esquerda um grupo pequeno, mas violento, de direitistas radicais, atacaram os manifestantes. A paranoia nesse momento é horrível. Ir? Não ir? É seguro? Cada uma começou a ligar para amigos e checar na internet. Os organizadores divulgaram que a manifestação estava de pé, e que havia sim autorização da polícia. E lá fomos nós para a praça.

O evento foi organizado pelos grupos  Combatentes pela paz, Forum das Famílias Enlutadas, Quebrando o Silêncio, além de militantes de partidos de esquerda como Meretz, Hadash e Da’am. No palco os participantes se alternavam com discursos.   Dividiram o microfone um representante árabe e um judeu dos Combatentes pela Paz, ambos pedindo coexistência e diálogo. Dov Chanin (Hadash), o único parlamentar discursar, fez severas críticas ao Primeiro Ministro Bibi Netanyahu, citando trechos de uma coluna de Yossi Sarid no jornal Haaretz, na qual afimava que Netanyahu tinha mais medo da paz do que da guerra.

Entre acadêmicos, pacifistas e vítimas do conflito, lembranças da proposta de paz da Liga Árabe e pedidos pelo fim da operação, dois discursos chamaram a atenção: o da representante – cujo nome infelizmente não me recordo – do grupo Outra Voz, de moradores de kibutzim e comunidades próximas à fronteira com Gaza, formado por israelenses e palestinos. A ativista afirmava que preocupava-se tanto consigo e seus familiares quando escutava a sirene, quanto com seus amigos palestinos quando escutava as explosões, e que os habitantes do sul não podem ser usados de pretexto para mais guerra, pois são eles os que mais sofrem.

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Folha de azeite, um dos símbolos da paz na região.

Outro discurso impactante foi o de Ben Kfir, um dos representante do Forum das Famílias Enlutadas. Judeu observante [ref] Veja o no vídeo da propaganda do grupo o primeiro participante que aparece [/ref] , com uma pronúncia hebraica peculiar, o pai que perdeu uma filha no conflito afirmava concordar com Netanyahu ao dizer que o terrorismo deve ser derrotado, mas que esta vitória não se dará através da guerra, mas terá êxito quando os palestinos adquirirem direitos sociais e saírem da linha da pobreza. Em comum entre todos os discursos – muito aplaudidos, por sinal – era o fato de todos eles apontarem a solução de dois Estados como única alternativa real para o conflito.

No cartaz feito à mão: Amor grátis agora!
No cartaz feito à mão: Amor grátis agora!

Havia árabes e judeus, famílias com crianças, velhos e jovens com cartazes feitos à mão, velas em memória dos soldados e civis mortos, e até batucada. Encontrei amigos de outras cidades, que vieram especialmente para isso, conhecidos de outras manifestações, alguns brasileiros e até meu antigo chefe. Segundo os organizadores 7000 compareceram – segundo a polícia 3000 – e cantávamos juntos “o povo exige cessar fogo” e “em Gaza e Sderot as crianças querem viver”.

Infelizmente ainda não chegamos no cessar fogo. O Hamas continua mandando foguetes e Israel continua com a operação por ar e por terra. Mas vi que não estou sozinha, me lembrei que tem mais gente que, apesar do medo dos foguetes, da violência dos radicais, teve coragem de sair de casa e protestar, pedir o fim da violência.

Na saída da manifestação havia um grupo protestando contra, com cartazes racistas e muitas bandeiras de Israel. Um casal passou por mim gritando “Tem que foder com todos os esquerdistas!”, enrolados numa bandeira de Israel gigante. No final, alguns extremistas de direita resolveram partir para agressão física contra os manifestantes. Segundo os jornais 4 foram presos.

A direita têm, nos últimos anos, se apropriado de símbolos israelenses, a bandeira, o hino, como se só eles fossem os verdadeiros patriotas e amassem o Estado. Mas sábado, mesmo com o final não tão agradável,  eu tive vontade de dizer: Am Israel Chai.[ref] O povo de Israel vive[/ref]

 

 

Colaborou João K. Miragaya

 

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