A manifestação

28/07/2014 | Conflito; Política; Sociedade

Sábado foi um dia feliz. Desde que começou a operação os dias não têm sido fáceis. Mesmo estando do lado mais seguro, em Tel Aviv, com Domo de Ferro e abrigos, é uma sensação de angústia constante. E acompanhando as notícias, o número absurdo de mortes, e a falta de luz no fim do túnel me dá vontade de chorar todos os dias.

Uma sensação de impotência muito ruim. Não existe outro assunto. No trabalho, em casa, com os amigos, nas redes sociais, tudo, tudo é a guerra (em hebraico todos falamos guerra, e não operação). Cada um tem uma opinião, os nervos estão à flor da pele, e às vezes a sensação é de uma solidão profunda. Mas nesse sábado não foi.

Várias organizações da esquerda israelense organizaram uma grande manifestação em conjunto na Praça Rabin exigindo cessar fogo imediato e uma solução política. Quando vi o evento no Facebook, no início da semana, imediatamente marquei sim. Vi que estavam arrecadando fundos para a organização e doei o que pude. Convidei os amigos que sei que compartilham da mesma opinião.

Cartaz do partido árabe-judeu Hadash: Judeus e árabes se recusam a ser inimigos.
Cartaz do partido árabe-judeu Hadash: Judeus e árabes se recusam a ser inimigos.

No sábado de tarde fui encontrar com uma amiga israelense que está morando fora do país, o plano era botar o papo em dia e ir para a manifestação. Foi então que começaram os rumores de que a polícia tinha cancelado a autorização, por questões de segurança. Além da ameaça de foguetes, nas últimas manifestações da esquerda um grupo pequeno, mas violento, de direitistas radicais, atacaram os manifestantes. A paranoia nesse momento é horrível. Ir? Não ir? É seguro? Cada uma começou a ligar para amigos e checar na internet. Os organizadores divulgaram que a manifestação estava de pé, e que havia sim autorização da polícia. E lá fomos nós para a praça.

O evento foi organizado pelos grupos  Combatentes pela paz, Forum das Famílias Enlutadas, Quebrando o Silêncio, além de militantes de partidos de esquerda como Meretz, Hadash e Da’am. No palco os participantes se alternavam com discursos.   Dividiram o microfone um representante árabe e um judeu dos Combatentes pela Paz, ambos pedindo coexistência e diálogo. Dov Chanin (Hadash), o único parlamentar discursar, fez severas críticas ao Primeiro Ministro Bibi Netanyahu, citando trechos de uma coluna de Yossi Sarid no jornal Haaretz, na qual afimava que Netanyahu tinha mais medo da paz do que da guerra.

Entre acadêmicos, pacifistas e vítimas do conflito, lembranças da proposta de paz da Liga Árabe e pedidos pelo fim da operação, dois discursos chamaram a atenção: o da representante – cujo nome infelizmente não me recordo – do grupo Outra Voz, de moradores de kibutzim e comunidades próximas à fronteira com Gaza, formado por israelenses e palestinos. A ativista afirmava que preocupava-se tanto consigo e seus familiares quando escutava a sirene, quanto com seus amigos palestinos quando escutava as explosões, e que os habitantes do sul não podem ser usados de pretexto para mais guerra, pois são eles os que mais sofrem.

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Folha de azeite, um dos símbolos da paz na região.

Outro discurso impactante foi o de Ben Kfir, um dos representante do Forum das Famílias Enlutadas. Judeu observante [ref] Veja o no vídeo da propaganda do grupo o primeiro participante que aparece [/ref] , com uma pronúncia hebraica peculiar, o pai que perdeu uma filha no conflito afirmava concordar com Netanyahu ao dizer que o terrorismo deve ser derrotado, mas que esta vitória não se dará através da guerra, mas terá êxito quando os palestinos adquirirem direitos sociais e saírem da linha da pobreza. Em comum entre todos os discursos – muito aplaudidos, por sinal – era o fato de todos eles apontarem a solução de dois Estados como única alternativa real para o conflito.

No cartaz feito à mão: Amor grátis agora!
No cartaz feito à mão: Amor grátis agora!

Havia árabes e judeus, famílias com crianças, velhos e jovens com cartazes feitos à mão, velas em memória dos soldados e civis mortos, e até batucada. Encontrei amigos de outras cidades, que vieram especialmente para isso, conhecidos de outras manifestações, alguns brasileiros e até meu antigo chefe. Segundo os organizadores 7000 compareceram – segundo a polícia 3000 – e cantávamos juntos “o povo exige cessar fogo” e “em Gaza e Sderot as crianças querem viver”.

Infelizmente ainda não chegamos no cessar fogo. O Hamas continua mandando foguetes e Israel continua com a operação por ar e por terra. Mas vi que não estou sozinha, me lembrei que tem mais gente que, apesar do medo dos foguetes, da violência dos radicais, teve coragem de sair de casa e protestar, pedir o fim da violência.

Na saída da manifestação havia um grupo protestando contra, com cartazes racistas e muitas bandeiras de Israel. Um casal passou por mim gritando “Tem que foder com todos os esquerdistas!”, enrolados numa bandeira de Israel gigante. No final, alguns extremistas de direita resolveram partir para agressão física contra os manifestantes. Segundo os jornais 4 foram presos.

A direita têm, nos últimos anos, se apropriado de símbolos israelenses, a bandeira, o hino, como se só eles fossem os verdadeiros patriotas e amassem o Estado. Mas sábado, mesmo com o final não tão agradável,  eu tive vontade de dizer: Am Israel Chai.[ref] O povo de Israel vive[/ref]

 

 

Colaborou João K. Miragaya

 

Comentários    ( 33 )

33 comentários para “A manifestação”

  • Mario S Nusbaum

    28/07/2014 at 20:22

    ” exigindo cessar fogo imediato e uma solução política. ” OK Mila, mas qual?
    Que ela envolve dois estados é óbvio, isso só começará a ser possível quando algo semelhante a tudo o que você contou acontecer TAMBÉM do outro lado.
    Quando um palestino em Gaza discursar, fizer severas críticas ao Khaled Meshaal e não ser assassinado. Quando se ouvir nos territórios palestinos “o povo exige cessar fogo” e “em Gaza e Sderot as crianças querem viver”.
    Quando os palestinos que atacarem os que estiverem fazendo tudo isso forem presos.
    Quanto tempo você acha que sobreviveria alguém gritando o povo exige o fim dos foguetes sobre Israel em Gaza?

  • Marcelo Starec

    28/07/2014 at 21:29

    Oi Miriam,
    Acho que consigo entender o que você sente, mas pense se isso não tem muito de “wishfull thinking”, também. Eu adoraria acreditar que existiria uma fórmula simples para se chegar a paz, mas infelizmente eu não vejo nenhuma e ficaria muito feliz se você conseguisse me demonstrar que eu estou errado!…O único caminho viável, no meu entender, é deixarmos claro para os nossos vizinhos e para o mundo que sim temos o direito de existir em paz e que não toleraremos a intolerância – seja via mísseis, homens bomba, terroristas se infiltrando por tuneis e por aí vai. Uma vez que isso seja devidamente compreendido e assimilado pelo outro lado, aí sim poderá haver um caminho para o sonho da grande maioria do nosso povo – uma paz justa e verdadeira!…
    Abraço,
    Marcelo.

  • Marcelo Starec

    28/07/2014 at 21:31

    Mila, desculpe-me por digitar o seu nome incorreto. Abs!

  • Alex Strum

    28/07/2014 at 21:53

    Mila, seu post é a primeira lufada de esperança no meio desta tragédia toda.
    Não sou ideológicamente nem de esquerda nem de direita. Sou contra os assentamentos mas não abro mão da segurança. Sou a favor de dois estados para dois povos.
    Gostaria de saber se você e todos os integrantes dos grupos pacifistas estão dispostos a aceitar as reivindicações dos palestinos e correr o risco de homens-bomba. Voces acham que este risco não existe ou simplesmente acham que vale a pena correr o risco??
    Entendo que a direita ideológica de Israel, defensores da Grande Israel, é uma minoria, mas em função dos riscos de segurança, boa parte da população que não é de direita, está sendo de direita.
    Isto é ou não verdade??? A resposta a esta pergunta é muito importante para situar a opinião da população e não apenas do governo.
    De resto faço as mesmas perguntas do Mario.
    Parabéns pelo seu idealismo.

    • Mario S Nusbaum

      29/07/2014 at 00:40

      “Gostaria de saber se você e todos os integrantes dos grupos pacifistas estão dispostos a aceitar as reivindicações dos palestinos e correr o risco de homens-bomba. Voces acham que este risco não existe ou simplesmente acham que vale a pena correr o risco??” Acho que é muito pior ainda Alex. Nunca ouvi ou vi uma liderança palestina abrir mão do surreal “direito de retorno”, que não é direito e nem muito menos retorno. Lembro do Abbas dizendo que poderia fazer isso e desmentindo menos de 24 horas depois.
      Atender as reivindicações dos palestinos pode trazer os homens-bomba ou não, mas com certeza absoluta significa o fim de Israel.
      A tempo: também sou contra os assentamentos, mas entendo perfeitamente porque eles continuam se expandindo.

  • Raul Gottlieb

    28/07/2014 at 22:54

    Querida Mila

    Será que alguém realmente acredita que a vitória (derrota do terrorismo) chegará quando “quando os palestinos adquirirem direitos sociais e saírem da linha da pobreza”?

    A violência não é produzida pela pobreza, nem por direitos sociais (seja lá o que isto quer dizer – ou melhor que direitos são estes e que obrigações eles impõem, visto que o direito de um é sempre a obrigação do outro) e sim por valores pelo qual a pessoa (ou grupo) escolhe se pautar.

    Existem ricos violentos e existem pobres violentos. O que gera a violência é a escolha individual. E qualquer um que observe um pouquinho do mundo à sua volta percebe isto.

    Quanto à passeata eu acho que ela é igual ao cara que estava procurando alguma coisa debaixo do poste à noite. Passou um amigo e quis ajudar: “o que você está procurando?”, perguntou o amigo. “A chave do meu carro”, respondeu ele. Ao que o amigo perguntou de novo: “E onde você a perdeu?”. “Lá no meio do mato, mas lá está muito escuro para procurar”.

    Pedir por solução política em Tel Aviv é fácil, porém inócuo. Quem tem que pedir por solução política são as vítimas do Hamas, o povo que ele controla.

    Abraço,
    Raul

    • Mario S Nusbaum

      29/07/2014 at 00:46

      Perfeita a comparação com o cara da chave Raul! Aqui no Brasil vivemos algo que lembra um pouco a tese, completamente furada, dos “direitos sociais e pobreza”.
      Quadrilhas organizadas ocupam propriedades públicas e privadas, destroem e saqueiam tudo o que tem vontade e vivem falando em “direitos”.
      Não sei quantos de vocês ficaram sabendo, mas uma delas invadiu a sede de uma companhia telefônica para EXIGIR melhor sinal de celular!
      Aqui pelo menos ainda não estão assassinando ninguém e nem lançando foguetes.

    • Raul Gottlieb

      29/07/2014 at 17:44

      Sim, Mario,

      É o movimento dos TSSDC – trabalhadores (todos se dizem trabalhadores, mesmo os vagabundos) sem sinal decente de celular. Eu poderia fazer parte deste movimento, mas como sou da elite branca não serei aceito nele.

      Mas você se engana quanto a não estarem lançando foguetes. Lançaram sim e mataram um cinegrafista.

      Abraço, Raul

    • Mario S Nusbaum

      30/07/2014 at 01:09

      “Mas você se engana quanto a não estarem lançando foguetes. Lançaram sim e mataram um cinegrafista.”
      Verdade, tinha esquecido.
      um abraço

  • Renata

    28/07/2014 at 23:06

    Mila
    Sua posição (e a dos manifestantes nakikar Rabin) é um pouco ingênua e utópica… Como podemos chegar a um cessar fogo, enquanto o lado militante (Hamas, Jihad etc) continua atirando? Como podemos falar em 2 estados para 2 povos quando a realidade é que os Palestinos não vêem essa solução como uma possibilidade permanente (ou são contra 2 estados ou defendem a solução intermediária de 2 estados até que possam se armar para conquistar a totalidade do território).
    Eu almejo pela paz, mas não concordo em baixar as armas e nos deixar atacar sem resposta.
    E que D´s nos proteja a todos

  • João

    29/07/2014 at 01:40

    Olá,
    Sempre fico espantado por nunca ver ninguém falando da possibilidade de Israel retirar dos territórios ocupados. De parar a expansão dos colonatos. De recuar e parar de expropriar território na Cisjordânia. De parar o bloqueio a Gaza.
    Isto está fora de questão? Não é sequer uma hipótese a considerar?
    Só haverá paz se os árabes pararem de resistir à ocupação e se submeterem ao invasor?

    Obrigado e boa sorte

    João

    • Mario S Nusbaum

      29/07/2014 at 15:35

      “Sempre fico espantado por nunca ver ninguém falando da possibilidade de Israel retirar dos territórios ocupados. De parar a expansão dos colonatos. De recuar e parar de expropriar território na Cisjordânia. De parar o bloqueio a Gaza.
      Isto está fora de questão? Não é sequer uma hipótese a considerar?
      Só haverá paz se os árabes pararem de resistir à ocupação e se submeterem ao invasor?”

      E eu João sempre fico espantado por nunca ver ninguém falando de que Israel JÁ ofereceu se retirar dos territórios ocupados, duas vezes. De que antes dos colonatos Israel viva sendo atacado. De que mesmo antes da ocupação da Cisjordânia não havia paz. De que antes da ocupação de Gaza. não havia paz.

      “Isto está fora de questão? Não é sequer uma hipótese a considerar?”
      Acho que respondi acima. Já foi considerado e proposto, várias vezes. As suas perguntas deveriam ter sido dirigidas às lideranças palestinas. Estas sim NUNCA consideraram aceitar um acordo prevendo dois Estados, um judeu e outro palestino,

      Só haverá paz se os árabes aceitarem a existência de Israel. Diga-se a bem da verdade que cada vez mais aceitam, SÓ QUE, infelizmente não particularmente os palestinos, nem muito menos suas lideranças.

      Um conselho João, tente olhar para o outro lado de vez em quando.

    • João

      29/07/2014 at 22:15

      Caro Mario, recomedar-lhe-ia o mesmo. Esse exercício elevado de olhar pelo lado do outro.
      Deixo aqui um texto que achei hoje, de Gustavo Chacra, sobre o assunto.
      Interessante pela capacidade de síntese de aspectos fundamentais desta questão:

      1. Os árabes não aceitaram a criação de um Estado judaico em 1947 na ONU? Verdade. Mas, em 2011, a Palestina buscou reconhecimento como país não membro na Assembleia Geral da ONU dentro das fronteiras pré-1967 (Cisjordânia. Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental). Todos os países árabes, e a maior parte das nações do Mundo […]
      1. Os árabes não aceitaram a criação de um Estado judaico em 1947 na ONU?
      Verdade. Mas, em 2011, a Palestina buscou reconhecimento como país não membro na Assembleia Geral da ONU dentro das fronteiras pré-1967 (Cisjordânia. Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental). Todos os países árabes, e a maior parte das nações do Mundo votaram a favor, indiretamente reconhecendo Israel no restante do território. Israel votou contra com o argumento de que as fronteiras devem ser negociadas em um acordo bilateral
      2. A Palestina não reconhece Israel?
      Mentira. A OLP (Organização Para a Libertação da Palestina) reconhece desde os anos 1990 com os acordos de Oslo. E Israel reconhece o direito a um Estado palestino desde a mesma data. O Hamas não integra a OLP
      3. Mas o Hamas prega a destruição de Israel?
      Verdade. Está na carta de fundação do grupo. Mas líderes da organização já indicaram que aceitam a Palestina apenas dentro das fronteiras de 1967. Além disso, o Hamas, meses atrás, aceitou apoiar um governo tecnocrático que reconhece a existência de Israel. Mas dois pontos devem ser levados em conta – o Hamas tem um histórico de traição, como vimos ao apoiar rebeldes na Síria contra Bashar al Assad, que os defendeu por anos. E o Hamas, hoje, não tem condição de destruir nem um quarteirão de Israel. Para completar, há membros do governo israelense que não aceitam o direito de a Palestina existir
      4. Os países árabes não reconhecem Israel?
      Em termos. Todos os países da Liga Árabe ofereceram, em 2002, estabelecer relações diplomáticas com Israel caso o país voltasse para as fronteiras de 1967, reconhecidas pela ONU. Israel não aceitou e prefere negociar com a Autoridade Palestina (Avigdor Lieberman, chanceler de Israel, porém, acha boa a opção de negociar com a Liga Árabe). A proposta ainda está na mesa e tem o apoio dos EUA. Vale lembrar que Egito e Jordânia têm relações diplomáticas com Israel e o Qatar e Omã, entre outros, possuem relações comerciais. No caso egípcio, hoje o regime do Cairo talvez seja o maior aliado de Israel no mundo. Mais até do que os EUA. A Arábia Saudita seria outro importante aliado na questão iraniana
      5. E o Irã, a Turquia (que não são árabes) e o Hezbollah, reconhecem Israel?
      A Turquia, sim. Inclusive, é um histórico aliado militar israelense. Mas, no atual governo de Erdogan, adotou uma postura radical a favor dos palestinos, inclusive do Hamas, deteriorando as relações dos dois países, embora sem rompimento de relações diplomáticas. O Irã era próximo de Israel até a queda do xá, em 1979. Mas depois virou o maior inimigo. Até pouco tempo atrás, o regime de Teerã era o maior patrocinador do Hamas. Quando o Hamas traiu Assad na Síria, o Irã se distanciou, embora mantenha uma proximidade com o braço militar. O Hezbollah também rompeu com o braço político do Hamas, mas voltou a se aproximar do braço militar, conhecido como Brigadas Qassam. Mas o Irã e o Hezbollah tomam cuidado para não irritar Assad no apoio ao Hamas
      6. A Palestina não reconhece Israel como Estado judaico?
      Verdade, nos últimos anos. Mas Arafat reconheceu. Abbas, de fato, não reconhece. Vale frisar que Netanyahu, neste seu segundo mandato (não no primeiro), é a primeira liderança israelense a fazer esta exigência em negociações com os palestinos. Até 2009, Israel não fazia esta reivindicação. Bastava reconhecer Israel como Israel. Os palestinos argumentam que esta é uma questão doméstica israelense e levam em conta os árabes cristãos e muçulmanos cidadãos de Israel que não concordam na maioria das vezes com o caráter judaico do Estado
      7. Arafat rejeitou uma ótima proposta de Israel em 2000?
      Verdade e mais de uma de vez. Deve ser criticado por isso e hoje poderia haver paz na região. Mas Netanyahu rejeitou, por questões domésticas e um mal entendido no processo de negociação, uma proposta ainda melhor para Israel neste ano, em 2014, na qual o presidente palestino aceitava uma Palestina desmilitarizada e com tropas americanas na Cisjordânia por anos e com a transição da segurança para tropas da OTAN comandadas pelos EUA. Segundo os EUA, Israel foi responsável pelo fracasso nas negociações ao não libertar a quarta leva de prisioneiros palestinos e anunciar a construção de mais casas em assentamentos (Israel retruca dizendo que estas casas seriam em assentamentos que ficarão no lado israelense em um acordo final)
      8. Palestinos são fanáticos radicais islâmicos?
      Mentira. Há palestinos fanáticos e radicais islâmicos, como os membros do Hamas. Mas a maior parte dos palestinos é muçulmana sunita, sem ser religiosa. Yasser Arafat, por exemplo, era casado com uma cristã e batizou a filha. Aliás, há palestinos cristãos e estes sempre estiveram na vanguarda do movimento palestino. A prefeita de Ramallah, capital da Autoridade Palestina, é cristã. A de Belém, também é mulher e cristã. George Habash, um dos maiores líderes históricos palestino, era cristão. Edward Said, maior intelectual palestino, era cristão. Hanan Ashrawi, também histórica líder palestina e uma das maiores críticas de Israel, é cristã. Todos os líderes religiosos cristãos da Terra Santa se identificam como palestinos. Normalmente, eles reclamam da ocupação israelense, que recentemente incorporou terras de famílias cristãs tradicionais de Beit Jala e Belém, na Cisjordânia. Em Gaza, por outro lado, houve crescimento na perseguição a cristãos. Como curiosidade, praticamente não existem xiitas palestinos

    • Mario S Nusbaum

      30/07/2014 at 01:15

      Gostei muito do texto do Guga João, tanto que postei vários comentários sobre ele, se tiver interesse, dê uma lida.
      Concordo com quase tudo o que ele disse. Sobre o ponto mais importante, a aceitação de Israel por parte dos palestinos, tenho certeza de que você entende que TODOS precisam aceitar. É inconcebível Israel aceitar um Estado Palestino e ter que continuar a combater hamases, jihads-qualquer-coisa, etc
      Você não acha razoável exigir que eles cheguem a um acordo antes de propor um com Israel?
      Sim, em todas as democracias do mundo existem desacordos, em Israel muito mais do que na maioria, mas não matam os opositores.

    • Raul Gottlieb

      29/07/2014 at 17:50

      João, vamos por partes:

      a) Retirada dos territórios – já fizemos e não adiantou – veja Gaza e veja que antes de 1967 não havia de onde se retirar.

      b) Parar o “colonato” – mesma resposta acima.

      c) Parar de expropriar os territórios palestinos – idem idem.

      d) Bloqueio de Gaza – pela lei internacional e por razões óbvias um país tem o direito de impor bloqueio ao território de um país que declara guerra contra ele. E isto faz todo o sentido. Levantar o bloqueio deve ser o primeiro passo depois da paz, nunca antes.

      O que você sugere é dar um cheque em branco para os Palestinos na esperança que eles o usem de forma sábia e comedida. Não vejo mais de uma pequena minoria de israelenses dispostos a assinar este cheque. E, a meu ver, com toda a razão.

      Abraço, Raul

  • Luisa Koatz

    29/07/2014 at 01:57

    Mila,
    Vou dizer pra você o que eu disse pro João – “Obrigado pelas informações”. Ficamos menos ignorantes com as matérias de vocês.
    Num passado bem recente, quando gritávamos abaixo a ditadura, também as pessoas diziam que era utópico. Tudo é utópico até virar realidade!
    Lemos muitos absurdos de ambos os lados nos jornais, nas redes e como é bom saber que há pressão para que as coisas mudem! Só mudam assim.
    Beijos

    • Mila Chaseliov

      29/07/2014 at 10:06

      Oi Luisa,
      de nada, isso é o que a gente tenta fazer aqui, e ainda temos um longo caminho.
      Beijos.

    • Mario S Nusbaum

      29/07/2014 at 15:39

      “Num passado bem recente, quando gritávamos abaixo a ditadura, também as pessoas diziam que era utópico. Tudo é utópico até virar realidade!”
      Situação muito diferente não acha Luisa? Acho curioso o comportamento de vocês, agem como se tudo dependesse de Israel! Sintomático a Mila só responder a você, não acha?

      ” isso é o que a gente tenta fazer aqui, e ainda temos um longo caminho.”
      Concordo com tentar fazer e que o caminho é longo e é exatamente por isso que sugiro começar a procurar a chave onde ela foi perdida (leia o post do Raul).

    • Mila Chaseliov

      29/07/2014 at 16:01

      Mario querido,
      temos quase dois anos de Conexão Israel, nos quais você participa ativamente como leitor e comentarista, o que é apreciado por todos.
      Eu não tenho a menor pretensão de te convencer com meus argumentos. Eu escrevo no site porque gosto de mostrar que Israel não é um país monolítico, muito menos a sociedade israelense. Aqui escrevo sobre meu país através dos meus olhos. Sei que você gosta de discutir nos comentários, mas eu não curto, especialmente no momento complicado que estamos vivendo.

      Abraços,
      Mila

    • Alex Strum

      29/07/2014 at 23:34

      Cara Mila,
      Visto daqui, para a maioria de nós o conflito é apenas entre Israel e o Hamas, eles atacando e nós nos defendendo.
      Você expõe um outro conflito paralelo, o dos moderados/pacifistas israelenses e palestinos contra os radicais/extremistas dos dois lados, Hamas incluído.
      Se um conflito já nos cria dilemas morais, os dois sobrepostos fica quase impossível de lidar racional e emocionalmente.
      Diante disto eu gostaria de te dizer que seu depoimento faz com que eu me sinta ainda mais orgulhoso de ser judeu.
      Um abraço e obrigado

    • Mario S Nusbaum

      30/07/2014 at 01:23

      “Eu escrevo no site porque gosto de mostrar que Israel não é um país monolítico, muito menos a sociedade israelense.”
      Sei disso Mila, e não me surpreende, Fui criado no Bom Retiro, na época um bairro judeu e sou testemunha de que dois judeus três opiniões (dai o meu gosto pela discussão).
      Para ser sincero, minha ligação com o judaísmo não tem nada de religiosa e um pouco de sionista, ela é basicamente cultural. Já fui fluente em idish, mas, por falta de prática, hoje entendo e não falo nada.
      “mas eu não curto, especialmente no momento complicado que estamos vivendo.”
      Acredite, respeito isso profundamente, estou totalmente solidário com todos vocês. Como já disse aqui, por incrível que pareça, nunca estive tão ligado com alguém em plena guerra do que agora, com vocês. Torço para que a paz (a possível) volte logo.
      Venho discutindo o conflito há muitos anos, com todos os tipos de pessoas, anti-semitas, árabes extremistas e moderados, judeus extremistas e moderados e pessoas sem ligação com nenhum dos lados ávidas por entender o problema.
      Tragicamente não consigo enxergar nenhuma solução de curto prazo, talvez nem médio.
      Shalom e tomara que eu esteja errado.

  • Luisa Koatz

    29/07/2014 at 07:37

    Mila,
    Obrigado por dividir esse momento!
    Um dia Israel foi uma utopia, não é mesmo?
    Bjs

    • Mario S Nusbaum

      29/07/2014 at 15:43

      Foi sim Luisa e essa utopia não foi atingida fingindo que o mundo é povoado por santos, nem muito menos achando que se somos perseguidos é porque fizemos algo errado.
      A VERDADE é exatamente o oposto, quando os judeus finalmente enxergaram que precisavam um país conseguiram um, e com certeza não é concordando com que acha não precisamos que irá mante-lo.

  • Mario S Nusbaum

    29/07/2014 at 15:40

    Aparentemente a esquerda israelense nunca ouviu falar no famoso episódio do Garrincha e os russos.

  • Rebeca Daylac

    29/07/2014 at 18:16

    Querida Mila,

    Compartilho com você este sentimento de “solidão profunda”.
    Desde o início desta guerra ou operação, tenho lido todos os artigos do Conexão Israel, com os quais eu aprendo (e muito), me emociono, sofro, sonho, concordo e discordo e principalmente me sinto mais próxima de todos vocês e de Israel.

    Um beijo e um abraço bem apertado
    Rebeca

  • Raul Gottlieb

    30/07/2014 at 12:44

    Acabei de ler a seguinte notícia:

    http://www.breitbart.com/Big-Peace/2014/07/29/Report-Hamas-Killed-20-Palestinian-Anti-War-Protestors-in-Gaza

    Acho que complementa bem o texto da Mila. Os nossos manifestantes recebem insultos ocasionais berrados de longe de um ou outro passante. Os de Gaza enfrentam vicissitudes um pouquinho maiores.

Você é humano? *