A marcha contra o exército

Foto de capa: “Esta é a Torá, e ela não será substituida”

Entre 300 e 600 mil pessoas[ref]A grande diferença numérica me dá a sensação de que a mídia israelense, para todos os lados, manipula informações para fins políticos.[/ref] tomaram as ruas de Jerusalém neste domingo (2 de março), em um protesto contra a nova lei a ser votada, que reformula o alistamento militar obrigatório. Parte do princípio de Shivion BeNetel (igualdade entre os pesos), que norteou a campanha do partido Yesh Atid (do ministro da Economia Yair Lapid), o alistamento militar de determinados grupos que compõem a sociedade israelense, mas por alguma razão estão isentos de tal obrigação, passou a ser uma questão-chave. Lapid e seu partido, através de uma bem sucedida estratégia política, conseguiram deixar de fora da coalizão governista os dois partidos que historicamente defendem as causas ultra-ortodoxas: Yahadut HaTora e Shas. Não obstante, conseguiu unir forças dentro da Knesset, trazendo parte da coalizão e da oposição para aprovar seu primeiro projeto: o alistamento militar obrigatório[ref]Ou o “sherut leumi”, espécie de trabalho social para desenvolver o país, para os que se negarem a alistar-se ao exército por qualquer razão que seja.[/ref] a todos os cidadãos israelenses. O público haredi (ultra-ortodoxo) da sociedade israelense imediatamente se manifestou de forma contrária. Sem tanta força na Knesset, no entanto, o projeto de lei foi avançando até o momento que sua aprovação aparenta ser questão de tempo. No dia 02, então, grande parte da população foi às ruas manifestar-se contra esta lei. E eu, sem querer querendo, estava lá. E contarei esta história não como um jornalista (que não sou) que estava cobrindo a marcha, mas como um habitante laico da região metropolitana de Jerusalém, que caiu de pára-quedas neste ato.

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Vivo em uma cidadezinha chamada Mevasseret Tzion, a 9km de Jerusalém, onde trabalho. No sábado à noite me foi avisado que a Estrada 1 (que liga Jerusalém a Tel-Aviv, única via de acesso à Mevasseret de transporte público) seria fechada desde as 12h por tempo indeterminado, devido à manifestação “dos haredim”. Apesar de defender o direito às manifestações, me indignei. Vivo em Israel há quase cinco anos e esta foi a segunda vez que vi uma manifestação desta proporção ocorrer em um grande centro urbano durante a semana. Para levar mais de 50 pessoas às ruas, os organizadores de qualquer manifestação devem necessariamente pedir permissão à polícia, que deve concordar com a data proposta,com o percurso e com a hora do evento. Em geral, as grandes manifestações são marcadas para o sábado à noite, pois já não é mais Shabat e não atrapalha ninguém que deseja locomover-se pela cidade. Sem entrar no mérito se esta lei é correta ou não, me indignou o fato de justamente as duas únicas vezes que vi manifestações durante a semana, terem sido por pautas religiosas ortodoxas. Estranho, não? Como não tinha escolha, fui trabalhar pensando em adiantar tudo o que eu pudesse, pois dificilmente sairia do trabalho antes das 20h, e meu horário de entrada aos domingos é às 8h. O caminho para o trabalho me deu uma sensação de guerra civil: centenas de policiais nas ruas; pessoas (não haredim em sua totalidade) esbravejando contra a manifestação; cavaletes amontoados para serem usados mais tarde; e ônibus e mais ônibus lotados de haredim chegando das mais diversas cidades (especialmente de Bnei Brak e Beit Shemesh, seus atuais redutos fora Jerusalém). O bairro onde eu trabalho não é próximo da rodoviária, onde se realizaria o protesto, o que diminuia a sensação de tensão. Às 17h20, após verificar que a Estrada 1 estava aberta para a saída de transporte público, decidi telefonar para a Egged (companhia de ônibus) para saber se as linhas que ligavam Jerusalém à Mevasseret estavam operando normalmente. Me foi informado que sim, mas com um percurso ligeiramente diferente. Decidi, então, sair do trabalho e ir para casa a esta hora.2014-03-02 18.21.20

A manifestação estava marcada para as 16h. Eu sabia que parte grande do caminho até o ponto de ônibus deveria ser feita a pé, e que eu me encontraria com os manifestantes em algum momento. Isto, confesso, me animava naquele momento. Nunca havia visto uma manifestação do público ortodoxo de perto. O que será que eles cantam? Como é o clima? As mulheres participam? Se sim, de que forma? Há crianças? Há violência? Estas e outras perguntas me motivavam a ir de encontro com eles, fotografá-los, conversar com manifestantes, etc. Por muitas vezes viverem isolados, há muito pouca chance de estabelecer um contato com este grupo social, e eu teria uma oportunidade de ouro.

Israel - Conexaoisrael - manifestação ortodoxa5

A cidade estava encoberta por uma neblina impressionante. As ruas do centro estavam vazias. Saltei no shuk (mercado central), aproveitei a rara oportunidade de poder caminhar por lá sem a sensação de superlotação, e comprei carne em uma das poucas lojas abertas (um açougue, no caso). Quando cruzei o shuk, a sensação foi impressionante: centenas de milhares de pessoas vestidas de preto, um mar de haredim ocupando o horizonte da cidade. Nunca havia ido a uma manifestação com tantas pessoas, isto porque parte delas já estavam se dirigindo às suas casas. Minha maior surpresa foi o fato de as mulheres serem ampla maioria. Como não cheguei ontem a Israel, suspeitei do que via. Os homens deveriam estar concentrados em outro lugar, em ruas paralelas ou na muvuca que se aglomerava na praça. Pedi para algumas pessoas abrirem seus cartazes, mostrarem suas bandeiras e comecei a fotografá-los. Eles prontamente atendiam ao pedido. O clima era de alegria: a maioria das pessoas sorriam, cantavam e pareciam estar alegres. Muitas crianças estavam presentes ali.

Quando me deparei com agrande aglomeração a minha frente, percebi que não chegaria ao meu destino por este caminho. Entrei por uma rua paralela e minha suspeita se confirmou: somente homens. 99,99% deles vestidos de preto, usando chapeus e longas barbas. Algumas poucas crianças. E alguns poucos não-haredim (alguns ortodoxos e quase nenhum laico, incluindo os jornalistas que cobriam a passeata). Decidi aproveitar melhor minha experiência e aprofundá-la: por que não passar-me por reporter e conversar com eles? Foi o que comecei a (tentar) fazer. A grande maioria deles não quis me responder, nem informalmente. Um judeu secular como eu é suspeito demais. Alguns desconversavam. Outros me olhavam feio, amedrontando-me. Um homem me disse que havia gente mais apropriada para me responder do que ele.

"Estudiosos da Torá, nos orgulhamos de vocês"
“Estudiosos da Torá, nos orgulhamos de vocês”

Resolvi mudar de de estratégia: aproveitei-me do meu sotaque e perguntar, como um ole chadash (novo imigrante) que recém-chegou em Israel, o que estava acontecendo. Deu certo! Minha primeira conversa (curta), foi com um soldado haredi. Ele me disse que estava protestando devido às más condições dos religiosos no exército: afirmava não haver comida kasher, não respeitarem suas diferenças e etc. Eu, que servi o exército, sou totalmente cético quanto a isso, mas nã0 o questionei. Julguei por bem não fazê-lo naquele momento. Ao ser perguntados sobre “Qual o objetivo da manifestação” todos me davam a mesma resposta: “não é uma manifestação, é uma reza”. Alguns explicavam que a reza era para agradecer que a absurda lei de alistar estudantes da Tora não passaria pela Knesset. Outros me devolviam a pergunta: “Você é judeu? Já rezou alguma vez? Não te ajudou?” Quando eu começava a colocar política no meio (“Você acha que os parlamentares se sensibilizarão e não aprovarão a lei?”), suas respostas e seus olhares passavam a ser hostis, e eu rapidamente mudava de assunto. Apesar de (até então) não ter visto nenhum ato de violência (e um dos jovens ter frizado isto: “Não te orgulha uma manifestação como esta, só com judeus, e com todos alegres, dançando e sem violência?”), confesso que tinha medo. Tinha medo de que eles se sentissem provocados. Lá eu era uma minoria absoluta, questionando os manifestantes (por mais que de forma educada). Não sei como eles reagem a alguém que força uma abertura a questionamentos. Por isso, parei.

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Filmei. Fotografei pessoas, inúmeros cartazes e panfletos. Assisti a um judeu secular roubar e correr com um cartaz do qual não gostou, e ser perseguido e rodeado por haredim. Se apanhou eu não sei, saí de perto. Mas fotografei o cartaz (foto abaixo). Vi cartazes bem humorados. Vi inúmeros grupos de chassídicos dançando. Vi tantos haredim, tantos cartazes com mensagens similares, que cansei. Decidi ir para casa. Ao chegar no ponto de ônibus, no entanto, a rua estava bloqueada. Telefonei para a Egged novamente, e fui informado que há uma hora não saem ônibus para Mevasseret. Me irritei. Após caminhar por 40 minutos, tinha que caminhar outros 40, até a saída da cidade, parada obrigatória das duas linhas pelas quais eu deveria viajar. Ao esperar no sinal, a mishteret hagvul (Guarda da Fronteira) estava se desdobrando para evitar atropelamentos e acidentes neste ponto de ônibus, fundamental para quem quer sair da cidade. Muitos manifestantes, já dirigindo-se às suas casas, desrespeitavam as autoridades sem pudor, com crianças, inclusive. E um senhor de aproximadamente 70 anos ofendia incessantemente a um policial, chamando-o de árabe sujo, e recomendando que ele fosse para Gaza pois aqui não precisaríamos dele. O policial o repreendeu, mas ele não parou. Eu mordi a língua e não disse nada. E depois me peguei pensando: “trata mal os árabes, os manda para Gaza e não quer servir ao exército… o que seria de nós se todos fossem como ele?”.

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“Assim começou a Shoá (Holocausto)”

Peguei meu ônibus, após grande tumulto, e fui para casa. Saí com a percepção de que os haredim são o grupo mais coeso da sociedade israelense. Saí também pensando que deveríamos dialogar mais, pois minha última impressão não foi a melhor, e quando não nos conhecemos, tendemos a generalizar nossos preconceitos. Espero que um dia eles nos dêem espaço, em uma conversação aberta, sem pré-exigências.

Comentários    ( 20 )

20 comentários para “A marcha contra o exército”

  • Raul Gottlieb

    05/03/2014 at 17:45

    João,

    Muito interessante a tua descrição da manifestação dos haredim. Não me espanta muito eles reunirem centenas de milhares de pessoas, pois na comunidade ultra ortodoxa a adesão às ordens dos líderes é total. Não há espaço para manifestações pessoais e não há alternativa de dissidência sem expulsão. Além disso eles não trabalham, estão livres a qualquer hora para fazer o que o chefe mandar.

    Mas fico cismado com o resultado prático desta manifestação. Eles ganham o apoio de alguém fora de sua comunidade com esta demonstração? Existe alguma simpatia entre os laicos quanto a pretensão dos ortodoxos de não servir ao exército?

    Creio que resposta às duas perguntas é negativa e daí vem a dúvida: para que serve esta manifestação? A quem eles querem sensibilizar?

    Você tem uma opinião sobre isto?

    Abraço, Raul

    • João K. Miragaya

      05/03/2014 at 19:58

      A adesão me impressiona, Raul. Por mais que metade dos homens haredim não trabalhem, ainda que a repressão aos dissidentes seja forte, o número é impressionante. A resposta que eu tentava arrancar deles era justamente esta: se eles acreditam ou não em um resultado prático. Há simpatia de parte do público não-ortodoxo pela causa, especialmente por parte do Likud e dos eleitores não-ortodoxos do Shas. Há também críticos de esquerda à lei (nos quais eu me incluo), que segundo eles, a quantidade de reformas que o exército deve fazer para abarcar aos haredim não é justa nem compensa: eles não se integrarão à sociedade se todas as bases de haredim forem iguais a Bnei Brak.

      Sobre os efeitos da manifestação, eu sou cético quanto a qualquer resposta que tenhamos por enquanto. As manifestações podem ser no plural, como esta pode ter sido um fato isolado. Elas podem tornar-se violentas na semana que vem, ou podem ganhar a adesão dos árabes (quem sabe?). Até agora a repercussão foi próxima do zero. E, sinceramente, não faço ideia de a quem eles queiram sensibilizar. É uma boa pergunta. O que você acha?

      Um abraço

    • Mario S Nusbaum

      06/03/2014 at 18:49

      “Não me espanta muito eles reunirem centenas de milhares de pessoas, pois na comunidade ultra ortodoxa a adesão às ordens dos líderes é total. Não há espaço para manifestações pessoais e não há alternativa de dissidência sem expulsão. Além disso eles não trabalham, estão livres a qualquer hora para fazer o que o chefe mandar.”
      Tive que ler de novo para ter certeza de que você não estava falando do PT!

  • Uri

    05/03/2014 at 19:52

    João,

    Apenas uma reflexão sobre as manifestações (ou as preces) dos Haredim.

    Refleti sobre o poder do Estado em obrigar uma população expressiva a fazer algo contra vontade. Digamos que o Estado Judeu obrigasse a todos a praticarem o Shabat, e em caso de quem não praticasse, cadeia! Os judeus laicos protestariam, e, ao meu ver, com razão, por mais que eu guarde o Shabat, não considero correto o Estado obrigar os seus cidadãos a respeitarem contra sua vontade.

    Entendo que há diferenças entre o caso do Shabat e do Exército, pois o Estado não obriga que parte dos cidadãos cumpram o Shabat, ao passo que o Exército é obrigatório para toda a população, exceto a alguns grupos da sociedade israelense, como os Haredim. Sei que há, em menor número, casos de judeus laicos que se opõem ao alistamento militar obrigatório em Israel e até se recusam a faze-lo, o que me faz pensar que talvez os Haredim não estariam sozinhos nessa luta.

    Por mais que não concorde com as manifestações, refleti sobre a questão abordada nela, será que o Estado pode obrigar o serviço militar? Talvez se os Haredim se colocassem no Knesset contra o alistamento obrigatório a todos os cidadãos, e não apenas ao seu público, conseguiriam barrar a lei (De fato, não sei o que os Haredim peticionam, mas penso que seja pelo status quo, e não por uma reforma no alistamento militar, em que transformaria o serviço militar em facultativo)? Pois com que direito o Estado pode obrigar seus cidadãos a fazerem algo que não querem? O princípio de Shivion BeNetel podia ser ao contrário, igualar o direito dos Haredim de escolher se querem o não se alistar com o resto da sociedade israelense.

    Abs.

    • João K. Miragaya

      05/03/2014 at 22:31

      Uri,

      Muito importante a sua reflexão. Eu, no caso, sou contra o alistamento militar obrigatório. Acho que já não estamos mais nos anos 1940/50/60, o Tzahal é demasiadamente burocratizado e os soldados sofrem com os baixos soldos. Mas acredito que, por Israel ser um Estado muito pequeno, talvez o país de fato precise de um mecanismo de coerção. É uma questão filosófica importante.

      O alistamento dos haredim é importante para que as leis nos tratem como iguais, pelo menos. A consequência positiva seria a integração deste grupo à sociedade. É importante que eles nos conheçam melhor, vejam que o mundo fora dos seus “guetos” não é tão perverso assim. Mas com todas estas condições impostas por eles, não vejo nenhum sentido na lei.

      Um abraço

    • Mario S Nusbaum

      06/03/2014 at 19:01

      ” Pois com que direito o Estado pode obrigar seus cidadãos a fazerem algo que não querem? ”
      Por ser Estado Uri. Eu sou radicalmente a favor do Estado mínimo, mas não consigo imaginar ele não existir, mesmo que seja com outro nome (tribo, bando, clã, gang….)
      “será que o Estado pode obrigar o serviço militar?”
      E pagar impostos? Obrigar a andar vestido? Ter que estudar? Toma vacinas? Identificar-se quando pretende sair/entrar do país? Não transitar na contra-mão? Ter carta para poder dirigir? Diploma para exercer certas profissões?
      Pode ser que eu não queira fazer nada disso, não é mesmo?

  • Clara Rachel Gandelman

    05/03/2014 at 21:32

    Muito bom o seu artigo.
    A observação de que os haredim são o grupo mais unido de Israel é impressionante.
    A ausencia de democaracia é impressionante. Ele não conseguem pensar por si. E tem esta força. É a força do fundamentalismo. E é uma pena que muitos de nós achem que não adianta concovoca-los. Já estão excluidos da sociedade. Isto é ótimo para elso e péssimo para o Estado.
    Não havia me dado conta de que você já está ai há 5 anos!
    Bjs
    Clara Rachel Gandelman

    • Uri

      07/03/2014 at 16:08

      Apenas para deixar claro, também sou a favor do Estado de Israel obrigar o serviço militar, foi apenas uma reflexão sobre os Haredim pleiteiam em suas manifestações. Mas tenho uma certa dificuldade em compreender como obrigar um grupo que não quer de jeito algum servir o exército. Caso todos os jovens Haredim se recusarem a servir, o que será feito com eles? Não estamos falando de casos isolados, e sim de uma parcela expressiva da sociedade israelense.

      Abs.

  • Marcelo Starec

    06/03/2014 at 01:57

    Oi João,

    Gostei muito do seu artigo! E também achei interessantes as reflexões posteriores, até o momento. Refleti bastante sobre a questão. Em minha opinião, o Estado democrático pode sim (e deve!), fazer coerções sobre todos os cidadãos, com base em critérios justos e dentro daquilo que é importante para todos. Assim, as pessoas que dirigem, precisam parar no sinal vermelho, os pedestres atravessar na faixa e por aí vai…Caso contrário, o que se tem é uma “anarquia” (no sentido de baderna mesmo – o que nenhuma sociedade organizada deseja!). Questões de foro intimo, como passar todo o shabbat rezando, por exemplo, é uma escolha de cada um. Algo inteiramente distinto são as necessidades do Estado, com o fim de proteger os interesses básicos de toda a sociedade e infelizmente Israel precisa de soldados! É um país pequeno, se depender do que pensa cada um, um pode achar que estudar a Torá é mais importante, outro pode achar que estudar física pode ser muito mais produtivo para o Estado do que servir e por aí vai!…Portanto, cada País tem as suas peculiaridades e é pelo extremo (serve quem quiser!) que se vê como é justo, no caso de Israel hoje, ser o Estado obrigado a fazer essa coerção, embora não seja agradável, mas se é necessário para a sobrevivência de todos, então é justo haver tal coerção, embora eu adoraria que isso não fosse necessário, mas de fato é!…

    Abraço,
    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    06/03/2014 at 18:54

    ” Há simpatia de parte do público não-ortodoxo pela causa, especialmente por parte do Likud e dos eleitores não-ortodoxos do Shas.”
    Por que João?
    “Há também críticos de esquerda à lei (nos quais eu me incluo), que segundo eles, a quantidade de reformas que o exército deve fazer para abarcar aos haredim não é justa nem compensa:”
    Também não entendi. Em primeiro lugar o “deve fazer” é relativo e segundo, como assim compensa?

    • João K. Miragaya

      07/03/2014 at 14:26

      Olá Mario.

      Não posso te responder exatamente o porquê. O Likud tem como elemento forte no seu discurso a união do povo judeu, e evita criar conflitos internos em temas religiosos. Mas não posso falar em nome deles.

      A resposta para a segunda pergunta é a seguinte: não é relativo. Se um dos objetivos é integrar os ultra-ortodoxos na sociedade, trazendo uma parcela razoável da população que insiste em isolar-se, não compensa. Se outro objetivo for revogar a especialidade com a qual são tratados por lei, também não compensa, pois não faz sentido que o exército faça reformas caras e trabalhosas para que eles sejam privilegiados de outro modo.

      Por que eles podem exigir um monte de coisas do exército e eu não? Seriam as crenças religiosas dos haredim mais importantes do que as minhas convicções políticas, por exemplo? Se abrimos espaço para que eles decidam como devem servir o exército, também deveriam abrir para mim, não é mesmo?

    • Mario S Nusbaum

      07/03/2014 at 16:44

      Obrigado pela explicação João.
      “Se abrimos espaço para que eles decidam como devem servir o exército, também deveriam abrir para mim, não é mesmo?”
      Concordo.

  • Marcelo Starec

    07/03/2014 at 15:45

    Oi João,

    A questão do Mario me parece muito coerente. Na sua resposta a ele, eu realmente fiquei em dúvida quanto a algumas colocações. Até onde sei, a religião não impede ninguém de fazer o exército, mormente se for para defender Israel, muito pelo contrário! Então, eu indago se você saberia dizer qual o motivo real que os impede de se alistar?

    Abraço,
    Marcelo.

    • João K. Miragaya

      08/03/2014 at 11:15

      Marcelo,

      Nada os impede de alistarem-se. Pelo contrário, eles sãom convocados como todos os outros. A lei antiga lhes dava permissão de adiar seu alistament caso fossem estudantes de yeshivot (academias de estudos das fontes religiosas para jovens, e, ao terminarem seus estudos já eram casados, com filhos, com idade avançada de modo que recebiam a liberação por não serem interessantes ao exército. Um jovem israelense que passa dos 18 aos 26 anos fora do país tampouco serve o exército, em geral. A lei só lhes dava a vantagem de adiarem seu serviço. O statuos quo era o que lhes liberava.

      A nova lei *(já aprovada) não mudou grandes coisas: eles seguem podendo adiar seu alistamento, mas ao terminarem seus estudos, pelo menos uma proporção razoável deles será convocada. E estes haredim terão muitos benefícios: receberão salários mínimos, que em Israel são de mais ou menos R$ 2.800,00 (enquanto todo o resto dos soldados recebe soldos de entre 300 e 600 reais por mês), suas bases terão uma inspeção de kashrut (leis alimentares) especial; Mulheres não poderão sequer entrar em suas bases (o benefício, no caso, é ter suas exigências atendidas); terão uma série de regras distintas no Shabat (os poucos que permanecerem nas bases no Shabat); muitas de suas unidades serão exclusivamente compostas por haredim; etc.

      Mas se você quer saber o motivo que os impede de alistar-se fora do aspecto legal, lamento mas não posso responder por eles. Te recomento que busque os rabinos ortodoxos de sua cidade e faça este questionamento.

      Um abraço

    • Marcelo Starec

      08/03/2014 at 19:50

      Oi João,
      Muito obrigado pela explicação! Foi abrangente e agora consegui entender perfeitamente a sua resposta às colocações do Mario. Gostaria de acrescentar uma observação: A muitos anos venho fazendo essa pergunta para “haredim” em Israel e rabinos ortodoxos no Brasil. Embora eu não me sinta no direito de falar por eles, digo que as muitas respostas que já ouvi deles, ao longo dos anos, foram: 1) Que é muito mais nobre e importante estudar a Torá do que servir o exército e 2) Que o exército israelense não propicia um ambiente “suficientemente judaico”, na visão deles. Por fim, penso que por mais injusta que seja essa nova lei, acho que ela caminha no sentido correto. Isto porque a longo prazo, Israel precisa caminhar no sentido de integrar os ‘haredim” à sociedade israelense e hoje eles estão vivendo “a parte”, embora com diversos privilégios – mas esses privilégios são antigos, não foram dados agora e tampouco são fáceis de retirar. Mas acredito no caminho do lento diálogo e integração, ainda que com altos custos!

      Abraço,
      Marcelo.

  • Marcelo Treistman

    07/03/2014 at 18:26

    Uri,

    Entendo que você também é contra a isenção dos ortodoxos no que tange ao serviço militar e deseja apenas inserir um ponto de discussão ao debate.

    Mas as suas considerações, se analisadas de forma abrangente, questionam a própria existência do Estado.

    Você questiona qual é a competência do Estado para obrigar os seus cidadãos a irem para o exército mesmo contra a sua vontade. Eu poderia ir mais longe. E os indivíduos que não querem pagar impostos? O Estado deve obrigá-los? E o indivíduo que não deseja respeitar uma condenação judicial? O Estado poderia utilizar a força estatal para fazer cumprir esta decisão?

    E assim podemos vislumbrar inúmeras consequências da falta de coerção estatal para uma sociedade sadia.

    O Estado, obviamente, pode criar as chamada “ações afirmativas” que isentem indivíduos de uma obrigação estabelecida. No caso dos impostos, eu posso comprreender porque o Estado exime certa parte da população ou organizações não governamentais de seu pagamento.

    Neste sentido, ao tratar de forma desigual individuos em situação desigual, o Estado objetiva eliminar as diferenças entre os membros da sociedade, garantindo a igualdade de oportunidades e tratamento.

    Entretanto Uri, quando iguais são tratados de forma desigual como no caso do seviço militar em Israel há um desequilibrio na balança da justiça. Eu entendo que uma crença pessoal ou linha religiosa não é razão suficiente para eximí-los do serviço militar tão importante ao nosso país (assim como o pagamento de impostos).

    E o laico que deseja apenas esutdar física? Ele não merece isenção do serviço militar? E o judeu humanista que apenas quer estudar torá com o seu rabino não ortodoxo? Ele não merece isenção do exército?

    Há – neste caso específico – uma situação que não é mais suportada e desejada pela sociedade israelense. E, se no fim das contas os ortodoxos não sejam efetivados no serviço militar, que no mínimo, eles ofereçam 3 anos de sua vida para um trabalho em prol da sociedade, plantando árvores nos desertos, ajudando em hospitais, limpando ruas, etc…

    É necessário igualar perante a lei aqueles que são iguais entre si e um ortodoxo não é melhor e nem pior do que qualquer cidadão.

    Obrigado pela sua participação.

  • Mario S Nusbaum

    08/03/2014 at 14:49

    “Mas tenho uma certa dificuldade em compreender como obrigar um grupo que não quer de jeito algum servir o exército. Caso todos os jovens Haredim se recusarem a servir, o que será feito com eles?”

    Nos EUA, quando havia serviço militar obrigatório iriam para a cadeia (Mohamed Ali foi). No Brasil perderiam a nacionalidade. Acho que pouca gente sabe, mas todos os anos acontecia isso com Testemunhas de Jeová. Hoje a lei permite serviço civil, mas nunca ouvi falar de ninguém que o tenha feito.

    O problema em Israel é muito diferente, exatamente por serem uma parcela expressiva da sociedade israelense.

  • Raul Gottlieb

    09/03/2014 at 21:08

    João, realmente não sei quem eles querem sensibilizar com estas manifestações. É um mistério para mim. Abraço, Raul

  • Ronan Negreiros

    10/03/2014 at 19:14

    O Estado de Israel precisa de todos seja agricultura,na tecnologia,na religião..Querer se arvorar de dono da verdade e deixar de participar da vida organica da sociedade é facil. o dificil é estar nas linhas de fronteiras, protegendo nosso bem mais precioso o ESTADO DE ISRAEL

  • Henrique Moscovich

    19/03/2014 at 03:56

    Eu comparo este privilégio dos Haredim de não servir o IDF ás várias cotas aqui no Brasil!

Você é humano? *