Margem de interpretação

17/07/2014 | Conflito
Infográfico - Conexão Israel
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A leitura objetiva dos fatos deve ser o ponto de partida de qualquer análise contundente dos recentes acontecimentos em Israel. Essa leitura impede que “discursos” enviesados e interpretações convenientes interfiram no entendimento da situação. Como pode-se observar no infográfico feito pelo Conexão Israel, os ataques de Gaza começaram como resposta à detenção de centenas de membros do Hamas suspeitos de envolvimento no sequestro e morte dos três jovens judeus. A operação militar israelense ‘Margem de Proteção’ é resultado direto desses ataques.

É importante entender que o objetivo da atual operação militar não é estabelecer uma paz duradoura. Esse é o objetivo das negociações que o governo israelense erroneamente se recusa a retomar. Segundo a liderança político-militar de Israel, a operação ‘Margem de Proteção’ possui dois objetivos. O primeiro é mostrar ao Hamas que não vale a pena atacar Israel – Benny Gantz, Benjamin Netanyahu e Moshe Yalon definiram esse objetivo como a “restauração do poder de dissuasão”. O segundo é restabelecer a relativa segurança e tranquilidade do país no curto prazo. Podemos discordar, criticar e analisar esses objetivos, mas não negá-los.

Concordo com aqueles que alegam que as operações militares realizadas por Israel não promovem a total normalização da vida do israelense no longo prazo. Estrategicamente, acredito que para obter estabilidade, o governo israelense deve fortalecer os moderados, pôr fim as construções nos territórios ocupados e retomar as negociações de paz com Mahmoud Abbas. No entanto, a percepção de que o acordo político é o melhor caminho para estabilidade no longo prazo não significa que Israel deva abster-se de reagir militarmente aos ataques de Gaza no curto prazo. Há a necessidade urgente de reação e as estatísticas apontam que as operações militares realizadas por Israel reduzem significativamente o número de mísseis lançados nos anos que seguem. Deve-se entender que o fato de não haver uma plano político de paz não significa que Israel deva permanecer passivo aos mísseis lançados em direção à sua população. Essa é a incoerência daqueles que utilizam os erros do governo israelense no plano estratégico-político para deslegitimizar a operação militar contra os ataques de grupos terroristas. A ingenuidade ou o idealismo não lhes permite perceber que os processos de curto e longo prazo, apesar de relacionados, devem ser implementados paralelamente.

Outra importante incoerência está em concordar com a operação militar e, concomitantemente, considerar inadmissível a morte de civis palestinos. Infelizmente, essas duas posturas são incompatíveis. Por diversos fatores que incluem o uso de escudo humano pelo Hamas e imprecisões israelenses, sabe-se que operações militares em Gaza implicam na morte de civis. Sabe-se que não há [e nunca houve] um meio termo: ou se está a favor de uma operação com morte de civis ou se opõe a qualquer operação. Essa é a dura realidade. Esse é o dilema moral com o qual nos defrontamos. Se há oposição, deve haver coerência na retórica utilizada. A oposição à operação militar requer uma solução alternativa aos ataques de Gaza no curto prazo e, considerando as partes envolvidas no conflito, não enxergo nenhuma alternativa sustentável. A recusa do Hamas a aceitar o cessar-fogo apenas endossa essa visão.

Se há apoio à operação militar, a pergunta central torna-se quantas vítimas civis são necessárias para preservar a legitimidade moral da operação? Uma, duas, vinte, cem, mil? Uma resposta a essa pergunta é necessária para que argumentos não se tornem vagos e inconsistentes. Além disso, para que qualquer opinião acerca da operação militar israelense ganhe coerência, aspectos morais devem ser considerados. Coloco em forma de pergunta: com qual das opções abaixo você se identifica?

1) Uma operação militar se torna imoral quando o primeiro civil morre. Nesse caso, não haveria operação militar e uma solução alternativa deveria ser proposta para interromper os ataques no curto prazo.

2) Uma operação militar se torna imoral quando o número de vítimas civis se sobrepõe aos benefícios que a operação trará. Nesse caso, torna-se necessária a definição do número de vitimas civis aceitável relativo aos benefícios da operação.

3) Uma operação militar se torna imoral quando ela visa a morte de civis do outro lado. Nesse caso, torna-se necessário investigar a intenção e a capacidade das partes de impedir a morte de civis.

4) Uma operação militar se torna imoral quando o poder militar das partes envolvidas é desproporcional. Nesse caso, não haveria operação militar e voltaríamos as mesmas questões colocadas anteriormente.

É difícil encontrarmos conforto moral no meio de uma guerra ou operação militar. O conceito de ‘guerra justa’ é quase paradoxal. Ainda assim, se estamos dispostos a criticar as posturas de nossos representantes, temos que realizar o difícil exercício de pensamento que é imaginarmos o que falaríamos em uma reunião de gabinete. “E você, Bruno? O que você acha que deve ser feito?” Bom, eis a minha resposta. No caso da operação militar ‘Margem de Proteção’, eu acredito que a posição mais razoável seja a (2) descrita acima. Entendo a necessidade de uma reação israelense diante dos ataques massivos à sua população. Estou disposto a compactuar com uma operação militar que põe em risco a vida de civis palestinos para diminuir a possibilidade de vítimas israelenses – é o preço moral que pago. Não me julguem mal. Prefiro assumir essa postura do que me opor a operação militar. A oposição significaria, na prática, compactuar com os ataques de Gaza e com possíveis vítimas israelenses. Nos dois casos haveria sangue em minhas mãos. Ainda assim, a operação militar deve ter limites. Considerando os efeitos devastadores e ineficazes das incursões por terra em Gaza realizadas em operações anteriores, acredito que recorrer a essa medida seja imoral e improdutiva. Considerando que o Hamas não aceitou a trégua proposta pelo governo egípcio e aceita por Israel, acredito que a operação militar deva continuar por ataques aéreos pontuais. Julgo um ataque aéreo pontual todo aquele em que há aviso prévio para evacuação do local e quando o alvo é peça importante na estrutura terrorista – tão importante a ponto de valer a morte de um número limitado de civis. Se as informações sobre o alvo são imprecisas, ou seja, se não há certeza sobre a sua presença no local e/ou acredita-se que ele é apenas “mais um” dentro da organização terrorista, o ataque aéreo não deve ser executado.

A operação militar é um meio que considero legítimo e moral quando o seu objetivo é a auto-defesa e ela se mostra eficiente na restauração da tranquilidade no curto prazo. Ela se torna imoral quando não é seguida por um plano político de paz e quando a morte de civis torna-se arbitrária em relação aos objetivos da operação. Concordo que o governo israelense tem utilizado a retórica da ‘auto-defesa’ para perpetuar a ocupação e fortalecer a doutrina do “não há parceiro para a paz”. Sou crítico a essa postura e espero que ela não nos conduza a mais uma operação militar no futuro. Ainda assim, entendo que se Israel estiver sob ataque, não há nenhuma solução alternativa à ação militar no curto prazo. Com todo o pesar, essa é a realidade. E é ela quem nos dá margem à interpretação.

Comentários    ( 22 )

22 Responses to “Margem de interpretação”

  • Paulinho

    21/07/2014 at 19:47

    Fala Nobru!
    Acho que até agora você está na retórica do pragmatismo sem ser pragmático nas análises do fato. Se a sua crítica ao idealismo é a fuga de perguntas que julguem critérios morais da operação e de propor soluções a aspectos práticos do que acontece, peço para que você analise os aspectos práticos do conflito com mais detalhes, se possível, para conhecer a sua opinião.
    Então a minha pergunta é, a partir do que você escreveu e de tudo que aconteceu até agora, qual é o real limite desta operação? Você acha que Israel ultrapassou estes limites? Você analisa este conflito como legítimo? Você acha esta operação moral com este número de mortos e com esta quantidade de túneis e bases do hamas destruídos? Porque? Você acha esta uma “guerra justa”?

    Ainda não li o texto que você recomendou mas vou ler mais tarde! Obrigado pela recomendação!
    Grande abraço

    • Bruno Lima

      22/07/2014 at 00:43

      Olá Paulinho,
      Acho que você está tentando me aprisionar em uma retórica sem analisar o conteúdo exposto. Deixo claro no texto que a atual operação militar é moral e legítima. Explico que essa legitimidade é inicialmente fruto de dois fatores: (1) os ataques massivos de Gaza; (2) a recusa do Hamas a aceitar o cessar-fogo. O primeiro fator refere-se ao direito de autodefesa israelense e o segundo à impossibilidade [imposta pelo Hamas] de uma solução diplomática. Esses dois fatores tornam a operação Margem de Proteção justa. Não há análise mais pragmática do que essa.

      Seguindo a minha análise dos fatos. Israel descobriu uma ampla estrutura subterrânea em Gaza construída pelo Hamas. Essa estrutura dá acesso ao território israelense, permitindo a infiltração de terroristas – o Hamas, inclusive, já deu provas de que faria uso dos túneis construidos. Esse seria um terceiro fator de legitimidade da operação militar. Na realidade, esse seria um fator de legitimidade à continuidade da operação por terra.

      Acho que é não é necessário elaborar muito sobre a razão desses três fatores darem legitimidade à operação – é evidente que eles demonstram a ameaça existencial que o Hamas constitui a parte da população israelense. Considerando que todo governo tem o dever moral de neutralizar ameaças desse tipo, a legitimidade da operação torna-se óbvia. Observe que a todo instante me refiro a legitimidade da operação militar (uma ação de curto prazo), o que não justiifica a postura do governo israelense em relação às negociações de paz e às construções em território ocupado (uma ação de longo prazo).

      Sobre o limite da operação. Acredito que o limite seja a completa neutralização da ameaça, mas, coerente com a opcão (2), acho que o número de civis palestinos e soldados israelenses mortos excede os benefícios que Israel obterá ao alcançar esse objetivo. Em suma, chegamos no que considero um limite.

      Ainda assim, devo admitir que caso o Hamas recuse o cessar-fogo, seguindo, portanto, com o lançamento de mísseis e com infiltrações através de túneis, a legitimidade da operação é estendida.

      Apenas repeti a análise pragmática que havia feito, talvez com mais clareza dessa vez.

      Sobre o futuro, estou escrevendo um texto sobre o quadro político que se configura e as oportunidades israelenses de retomar as negociações com o Abbas. Verás. 🙂

      Grande abraço.

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