Margem de interpretação

17/07/2014 | Conflito
Infográfico - Conexão Israel
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A leitura objetiva dos fatos deve ser o ponto de partida de qualquer análise contundente dos recentes acontecimentos em Israel. Essa leitura impede que “discursos” enviesados e interpretações convenientes interfiram no entendimento da situação. Como pode-se observar no infográfico feito pelo Conexão Israel, os ataques de Gaza começaram como resposta à detenção de centenas de membros do Hamas suspeitos de envolvimento no sequestro e morte dos três jovens judeus. A operação militar israelense ‘Margem de Proteção’ é resultado direto desses ataques.

É importante entender que o objetivo da atual operação militar não é estabelecer uma paz duradoura. Esse é o objetivo das negociações que o governo israelense erroneamente se recusa a retomar. Segundo a liderança político-militar de Israel, a operação ‘Margem de Proteção’ possui dois objetivos. O primeiro é mostrar ao Hamas que não vale a pena atacar Israel – Benny Gantz, Benjamin Netanyahu e Moshe Yalon definiram esse objetivo como a “restauração do poder de dissuasão”. O segundo é restabelecer a relativa segurança e tranquilidade do país no curto prazo. Podemos discordar, criticar e analisar esses objetivos, mas não negá-los.

Concordo com aqueles que alegam que as operações militares realizadas por Israel não promovem a total normalização da vida do israelense no longo prazo. Estrategicamente, acredito que para obter estabilidade, o governo israelense deve fortalecer os moderados, pôr fim as construções nos territórios ocupados e retomar as negociações de paz com Mahmoud Abbas. No entanto, a percepção de que o acordo político é o melhor caminho para estabilidade no longo prazo não significa que Israel deva abster-se de reagir militarmente aos ataques de Gaza no curto prazo. Há a necessidade urgente de reação e as estatísticas apontam que as operações militares realizadas por Israel reduzem significativamente o número de mísseis lançados nos anos que seguem. Deve-se entender que o fato de não haver uma plano político de paz não significa que Israel deva permanecer passivo aos mísseis lançados em direção à sua população. Essa é a incoerência daqueles que utilizam os erros do governo israelense no plano estratégico-político para deslegitimizar a operação militar contra os ataques de grupos terroristas. A ingenuidade ou o idealismo não lhes permite perceber que os processos de curto e longo prazo, apesar de relacionados, devem ser implementados paralelamente.

Outra importante incoerência está em concordar com a operação militar e, concomitantemente, considerar inadmissível a morte de civis palestinos. Infelizmente, essas duas posturas são incompatíveis. Por diversos fatores que incluem o uso de escudo humano pelo Hamas e imprecisões israelenses, sabe-se que operações militares em Gaza implicam na morte de civis. Sabe-se que não há [e nunca houve] um meio termo: ou se está a favor de uma operação com morte de civis ou se opõe a qualquer operação. Essa é a dura realidade. Esse é o dilema moral com o qual nos defrontamos. Se há oposição, deve haver coerência na retórica utilizada. A oposição à operação militar requer uma solução alternativa aos ataques de Gaza no curto prazo e, considerando as partes envolvidas no conflito, não enxergo nenhuma alternativa sustentável. A recusa do Hamas a aceitar o cessar-fogo apenas endossa essa visão.

Se há apoio à operação militar, a pergunta central torna-se quantas vítimas civis são necessárias para preservar a legitimidade moral da operação? Uma, duas, vinte, cem, mil? Uma resposta a essa pergunta é necessária para que argumentos não se tornem vagos e inconsistentes. Além disso, para que qualquer opinião acerca da operação militar israelense ganhe coerência, aspectos morais devem ser considerados. Coloco em forma de pergunta: com qual das opções abaixo você se identifica?

1) Uma operação militar se torna imoral quando o primeiro civil morre. Nesse caso, não haveria operação militar e uma solução alternativa deveria ser proposta para interromper os ataques no curto prazo.

2) Uma operação militar se torna imoral quando o número de vítimas civis se sobrepõe aos benefícios que a operação trará. Nesse caso, torna-se necessária a definição do número de vitimas civis aceitável relativo aos benefícios da operação.

3) Uma operação militar se torna imoral quando ela visa a morte de civis do outro lado. Nesse caso, torna-se necessário investigar a intenção e a capacidade das partes de impedir a morte de civis.

4) Uma operação militar se torna imoral quando o poder militar das partes envolvidas é desproporcional. Nesse caso, não haveria operação militar e voltaríamos as mesmas questões colocadas anteriormente.

É difícil encontrarmos conforto moral no meio de uma guerra ou operação militar. O conceito de ‘guerra justa’ é quase paradoxal. Ainda assim, se estamos dispostos a criticar as posturas de nossos representantes, temos que realizar o difícil exercício de pensamento que é imaginarmos o que falaríamos em uma reunião de gabinete. “E você, Bruno? O que você acha que deve ser feito?” Bom, eis a minha resposta. No caso da operação militar ‘Margem de Proteção’, eu acredito que a posição mais razoável seja a (2) descrita acima. Entendo a necessidade de uma reação israelense diante dos ataques massivos à sua população. Estou disposto a compactuar com uma operação militar que põe em risco a vida de civis palestinos para diminuir a possibilidade de vítimas israelenses – é o preço moral que pago. Não me julguem mal. Prefiro assumir essa postura do que me opor a operação militar. A oposição significaria, na prática, compactuar com os ataques de Gaza e com possíveis vítimas israelenses. Nos dois casos haveria sangue em minhas mãos. Ainda assim, a operação militar deve ter limites. Considerando os efeitos devastadores e ineficazes das incursões por terra em Gaza realizadas em operações anteriores, acredito que recorrer a essa medida seja imoral e improdutiva. Considerando que o Hamas não aceitou a trégua proposta pelo governo egípcio e aceita por Israel, acredito que a operação militar deva continuar por ataques aéreos pontuais. Julgo um ataque aéreo pontual todo aquele em que há aviso prévio para evacuação do local e quando o alvo é peça importante na estrutura terrorista – tão importante a ponto de valer a morte de um número limitado de civis. Se as informações sobre o alvo são imprecisas, ou seja, se não há certeza sobre a sua presença no local e/ou acredita-se que ele é apenas “mais um” dentro da organização terrorista, o ataque aéreo não deve ser executado.

A operação militar é um meio que considero legítimo e moral quando o seu objetivo é a auto-defesa e ela se mostra eficiente na restauração da tranquilidade no curto prazo. Ela se torna imoral quando não é seguida por um plano político de paz e quando a morte de civis torna-se arbitrária em relação aos objetivos da operação. Concordo que o governo israelense tem utilizado a retórica da ‘auto-defesa’ para perpetuar a ocupação e fortalecer a doutrina do “não há parceiro para a paz”. Sou crítico a essa postura e espero que ela não nos conduza a mais uma operação militar no futuro. Ainda assim, entendo que se Israel estiver sob ataque, não há nenhuma solução alternativa à ação militar no curto prazo. Com todo o pesar, essa é a realidade. E é ela quem nos dá margem à interpretação.

Comentários    ( 22 )

22 comentários para “Margem de interpretação”

  • Raul Gottlieb

    17/07/2014 at 12:30

    Muito bom, Bruno. Eu também voto na alternativa (2).

    Tirando a parte sobre o suposto equívoco israelense em não se engajar em negociações com o Abbas e a confusão entre os assentamentos e o assalto dos Palestinos, eu concordo com tudo o mais.

    Parabéns pela análise!

    • Bruno Lima

      17/07/2014 at 13:05

      Obrigado pelo comentário, Raul.
      Pelo visto concordamos com a reação militar israelense no curto prazo, mas discordamos em relação ao plano político no longo prazo. Faz parte do debate.
      Grande abraço.

  • Michel

    17/07/2014 at 16:49

    parabéns nobru. concordo contigo
    abs

  • Leo Zonenschein

    17/07/2014 at 23:27

    Nobru,
    Muito boa linha de pensamento.
    Muitas vezes os teóricos esboçam conclusões lindas, mas inaplicáveis a essa realidade do conflito.
    Seu texto é um choque de realidade necessário.
    Por sinal parabéns a todos pelo conteúdo do conexão. Tem sido muito útil por aqui.
    fiquem todos vcs bem por ai.
    abs

    • Bruno Lima

      19/07/2014 at 14:50

      Leo, obrigado pelo comentário e elogio.
      É um grande prazer poder trazer informações e análises para vocês.
      Sobre o realismo do texto, acredito que ele nos dê um pouco de equilibrio nessa onda de idealismo que nos acompanha.
      Grande abraço.

  • Felipe

    17/07/2014 at 23:31

    Nobru.

    Gostei do seu texto e te digo que fico entre a opção 2 ou 3, ainda preciso um pouco mais tempo para ter uma escolha mais compatível com o que penso.

    Com relação a sua escolha (nº2) pergunto: Como você fez/faz ou faria o cálculo com relação ao número de civis mortos que justificaria uma operação militar? Com relação ao benefício da operação me pareceu claro que seria o fim dos lançamentos de foguetes em solo Israelense, lembrando que aqui apenas estamos tratando do benefício à curto prazo.

    Penso que se um número de civis mortos é estipulado, pode ser que este número chegue e uma resolução para o conflito (à curto prazo) ainda não tenha sido definida. Desta forma você não atingiu seus objetivos e sua investida apenas gerou o número mágico de civis mortos e sem nenhum efeito benéfico.

    Um abraço

    • Bruno Lima

      22/07/2014 at 01:17

      Linskão,
      Obrigado pelo comentário.

      O objetivo inicial da operação, definido pela liderança político-militar israelense, era acabar com lançamento de mísseis. Esse objetivo ainda não foi alcançado.
      Com o decorrer da operação, foi definido mais um objetivo: neutralizar a estrutura subterrânea construída pelo Hamas para penetração em território israelense. Esse objetivo também não foi totalmente alcançado.

      Considero que os dois objetivos são legítimos e a morte de um número limitado de civis não é suficiente para romper com essa legitimidade.

      A minha tentativa no texto é estabelecer uma análise mais pragmática e menos idealista da situação. Como explico em respostas dadas a outros comentários, esse número é um exercício de pensamento que considero importante para a moralidade da operação. Não há como obter esse número, assim como não é possível calcularmos o número de vítimas israelenses caso não houvesse o iron dome. Ainda assim, são números que exercem influência na análise da operação, principalmente na questão de proporcionalidade.
      Por exemplo, tentemos fazer um cálculo de proporção ofensiva. Imaginemos que os ataques do Hamas por mísseis e/ou infiltrações provocariam a morte de cerca de 300 civis israelenses. Israel teria, portanto, o direito de neutralizar esses ataques, evitando a morte de civis, mas sabendo que 300 vítimas palestinas não tirariam a legitimidade da operação. Essa operação seria considerada moralmente proporcional. Esse é o exercício que proponho. A minha crítica ao idealismo é se contradizer em suas criticas a morte de civis e a operação como um todo.

      É isso, querido. Nos vemos em breve.
      Abração.

    • Felipe

      23/07/2014 at 19:57

      Break

      Acho que com a ofensiva o objetivo imediato que é acabar com os túneis e destruir a capacidade do Hamas em lançar mísseis em Israel será atingido cedo ou tarde e custe o que custar. Como bem sabemos as Israel faz trocas de prisioneiros para ter seus soldados ou qualquer cidadão vivo ou morto de volta. E a troca não é justa. 1 judeu corresponde a um número que chega a ser 100, 500, 1000 terroristas (depende da negociação).

      Levando um pouco por essa lógica se Israel conseguiu interceptar os mísseis que matariam 300 israelenses posso considerar então que israel teria um possível direito de realizar ofensivas até chegar a 300.000 vítimas palestinas o que pelo cálculo também não tiraria a legitimidade da operação. Posso chamar isso de proporcionalidade? Se meu cálculo estiver correto acho que sim.

      Contudo este é um pensamento um tanto radical da minha parte (para não dizer genocida). Mas se propormos exercícios com números e tentá-los relacionar com moralidade corremos o risco de fazer outras análises para chegarmos a outras proporcionalidades, e que olhando apenas os números estão corretas.

      Concordo com sua crítica ao idealismo, a operação tem que ser feita e atingir seu objetivo. Apenas discordo de calcular o número de vítimas para chegar a este objetivo.
      Sendo assim meu voto é na 3 e as outras opções seriam inviáveis

      Abraços meu querido! Nos vemos certamente

  • Marcelo Starec

    18/07/2014 at 06:40

    Oi Bruno,

    Muito bom o seu artigo! É realmente uma análise franca e sincera da situação que Israel está atravessando. Uma pequena e talvez insignificante observação: O Hamas já vinha a muito tempo atacando e provocando Israel com o lançamento constante de mísseis contra o Sul do País, assim entendo que houve uma pequena falha nessa ordem cronológica dos fatos, talvez por considerar não o lançamento de mísseis contra Israel, mas o aumento da intensidade deste como uma resposta, aí perfeito. No mais, concordo que a defesa contra esses ataques visando civis israelenses não elide a busca pela paz. Ao contrário, entendo que um principio básico para se chegar a paz é justamente não tolerar ataques terroristas de qualquer tipo, contra o território e os cidadãos israelenses. É esse respeito que, consolidado, propicia um ambiente para a paz que, concordando contigo, deve ser um objetivo estratégico de Israel e estar sempre entre as metas a se conquistar.
    Abraço,
    Marcelo.

    • Bruno Lima

      20/07/2014 at 16:45

      Olá Marcelo.

      Obrigado pelo comentário e pelo elogio.
      Sua observação não é insignificante, mas ela se refere ao processo de longo prazo tratado no texto. A única forma de evitarmos novos ataques de Gaza no futuro é o processo político. Somente a retomada das negociações e o congelamento das construções nos territórios ocupados podem regularizar a relação com os palestinos no longo prazo.
      Israel deve recorrer à operações militares sempre que a ameaça se intensificar.

      Abraço.

  • Dudu Tolmasquim

    18/07/2014 at 06:45

    Nobru, muito bom o texto!

    Lendo o texto me surgiu uma reflexão.
    Será que Israel precisava prender centenas de integrantes do Hamas para procurar o culpado dos sequestros? Isso é inevitável? Não sou nenhum especialista, mas me parece um pouco de exagero.

    Não que o Hamas tenha razão em querer matar civis em resposta a isso. Mas é uma atitude bem imaginável, se tratando que o Hamas já jogou mísseis muitas vezes em Israel. Não dá impressão de que Israel começou? Talvez não tivesse acontecendo a guerra agora se o número de presos tivesse sido menor.

    Mesmo assim eu sou a favor de uma resposta de Israel (número 2). Mas acho que, se o governo de Israel por um acaso concordasse com essa argumentação, o discurso deixaria de ser: vamos garantir a segurança a curto prazo e mostrar que não vale a pena o Hamas atacar Israel. E passaria a ser: vamos garantir a segurança a curto prazo para consertar a besteira que fizemos.

    Na prática não faz muita diferença, mas é uma questão moral.

    Abraço!

    • Bruno Lima

      20/07/2014 at 16:25

      Olá Dudu,

      Obrigado pelo comentário e pelo elogio.
      É difícil apontar um único acontecimento como disparador da atual operação militar. É ainda mais difícil fazer análises de como poderia ter sido “se …”. O que posso afirmar é que diante dos acontecimentos, a reação israelense é legítima e moral. Não só pela quantidade de mísseis lançados em direção à sua população, pela recusa do Hamas a aceitar o cessar-fogo e pelo rompimento por parte do Hamas com a trégua que permitia a entrada de ajuda humanitária em Gaza. A legitimidade da operação militar tornou-se ainda mais evidente no momento em que o exército israelense encontrou uma ampla estrutura subterrânea que dava acesso ao território israelense. Esses túneis demoram meses (alguns deles até anos) para serem construídos e demonstram que o Hamas se preparava para realizar atos terroristas em massa em Israel.

      Sobre a sua última colocação, acredito que ambos estão corretos: mostrar que não vale a pena o hamas atacar Israel e consertar besteiras que foram feitas no passado. O primeiro se refere aos objetivos de curto prazo e o segundo ao processo de longo prazo. Como coloco no texto, a moralidade da reação israelense será medida, dentre outros fatores, pela postura política de Israel no pós-operação militar.

      Grande abraço.

  • Paulinho

    18/07/2014 at 21:29

    Nobru, acho impossível ser 100% coerente o tempo todo e sei que minha análise do conflito (e da operação) vai falhar em alguns pontos. Não sei se a minha resposta se encaixa nas suas 4 opções. Nem acho que a sua resposta se encaixa nela, ou então faltou definir o número de mortos limites para a operação. Discordo muito desta parte do seu texto. Existe um número limite? É assim que se mede a legitimidade da operação? Essa quantificação das vidas não te soa imoral?
    Infelizmente o conflito força muita gente a olhar para o que está acontecendo “aqui e agora”, mas eu acho importante não deixar a atenção ser capturada apenas para isso. Me entristece, envergonha e revolta este governo que não acredita num acordo. Como ele pode continuar? É um governo que sabe como atuar e elaborar “operações” como ninguém, mas não quer acordo nenhum. Se observarmos os últimos 6 anos, este conflito chega a ser previsível e parece premeditado pelo governo de Israel e pelo Hamas. Não acho que a discussão pode ser tão pragmática assim.
    Abraço,
    Paulinho

    • Bruno Lima

      19/07/2014 at 14:48

      Paulinho, obrigado pelo comentário.

      Concordo que atingir 100% de coerência seja impossível, mas isso não nos impede de tentar. Em geral, prefiro pecar por excesso de pragmatismo do que pela ausência dele. O erro do idealismo é se sustentar em ideias abstratas que, na prática, se mostram incompatíveis e, muitas vezes, contraditórias. Algumas observações importantes sobre o seu comentário:

      1) Sobre a questão do número de vítimas. Em nenhum momento eu argumento que é o número de vítimas que dá legitimidade à operação militar. O que dá legitimidade a operação é uma organização terrorista não aceitar um cessar-fogo, atirar milhares de misseis em direção ao território israelense sem discriminar soldados de civis, construir tuneis para promover atentados, etc. O meu argumento é baseado na ideia de que o número de vítimas civis não deslegitimiza, necessariamente, a operação militar. Nesse ponto, você parece inverter a análise do texto.

      A ideia central do artigo é mostrar que por mais aversos nós sejamos à morte de civis, no momento em que concordamos com uma operação militar em Gaza, concordamos por implicação com a morte de civis. Essa é a dura realidade. Esse é o dilema moral que temos que solucionar. O problema é que idealismo se abstém de lidar com essa questão e termina por criar inconsistências em sua argumentação. O idealismo discorda da operação militar israelense, mas não oferece soluções alternativas para os ataques de Gaza no curto prazo. Paradoxalmente, tratando-se da urgência em conter os ataques do Hamas e da Jihad Islâmica, o idealismo acaba por justificar e legitimizar a morte de israelenses enquanto condena a morte de palestinos. Essa postura me parece incoerente por princípio.

      Além disso, o “exercício de pensamento” que realizo é uma tentativa de chegar a um número de vítimas aceitável em cada ofensiva de forma a não transformar a operação militar, como um todo, em um ato imoral. O meu ponto é que se Israel é criticado pela morte de civis palestinos, entendo que temos, portanto, duas opções: (1) se opor a operação e legitimizar os ataques do Hamas e possíveis vítimas israelenses no curto prazo; ou (2) estar a favor e encontrar um limite para o número de vítimas civis aceitável para manter a legitimidae da operação. Eu fico com a opção dois e você? Perceba, no entanto, que esse é um exercício de pensamento. Ele serve para nos dar padrão de análise e referência moral. Ele não é um cálculo real.

      É certamente difícil realizar o calculo de vítimas civis de forma objetiva, mas considerando a importância dada as estatísticas, percebe-se a necessidade de construirmos, ao menos, estimativas. Por exemplo, uma análise objetiva da operação leva em consideração que x terroristas foram mortos, y soldados feridos, z civis foram vítimas. Sabemos que x, y e z são números relevantes para nossa análise moral da operação militar. Por isso os considero relevantes no julgamento de cada ofensiva realizada por Israel. Obviamente, o Hamas e a Jihad Islâmica não fazem essa análise moral do número de civis, mas essa é outra discussão.
      Como o texto explica, esse número não é absoluto. Pelo contrário, ele é relativo ao objetivo de cada ofensiva. O texto tenta elaborar uma fórmula sustentável e levanta questões morais relacionadas a essa fórmula.

      2) Você diz “Infelizmente o conflito força muita gente a olhar para o que está acontecendo “aqui e agora”, mas eu acho importante não deixar a atenção ser capturada apenas para isso.” Concordo. Por isso o artigo deixa claro que os processos de curto e longo prazo, apesar de relacionados, devem ser implementados paralelamente. O texto aborda bem esse ponto.

      Espero ter esclarecido alguns pontos.
      Grande abraço.

  • Leonardo Bueno

    19/07/2014 at 04:33

    Olá, Nobru.

    Boa análise! Gosto das comparações de curto e longo prazo. Acho importante diferenciá-los.

    Só tem um aspecto do texto que me deixou confuso. Como se calculam os custos e benefícios? Neste ponto lhe faço a mesma crítica que você usou ao criticar o texto do João quando disse: “João, não há nada mais vago do que “ocupar a lacuna deixada pelo Hamas, sobretudo fortalecendo os moderados””. Não seria vago um “cálculo de custos e benefícios” que determinasse um limite moral?
    Não sei bem o que você quis dizer com isso, mas minha interpretação é de que devemos entender a opção 2 de maneira não tão direta e objetiva (como se fosse possível fazer esse cálculo de maneira fria). Mas acredito que de maneira abstrata é exatamente isso que qualquer agente político faz. Resta saber se o governo atual faz isso visando a paz no longo prazo ou seu próprio interesse de poder. Em outras palavras, o “cálculo” é voltado para qual interesse?
    De todo jeito acho que ficaria com algo entre a 2 e a 3, se você me permitir um meio termo, hahaha.

    • Bruno Lima

      19/07/2014 at 23:04

      Olá Leo,

      Obrigado pelo comentário e pelo elogio.

      Ao comparar as duas colocações você as tirou de contexto. Ao ser perguntado sobre o que Israel deveria fazer diante dos ataques de Gaza, o João respondeu que “deveria ocupar a lacuna deixada pelo Hamas, sobretudo fortalecendo os moderados”. A minha crítica a essa colocação é clara – ela constitui uma resposta de longo prazo enquanto a pergunta se refere a atitudes a serem tomadas no curto prazo.

      A ideia de “cálculo de custos e benefícios” se refere ao estabelecimento de critérios que determinem o limite moral da ação militar. Ou seja, o que tornaria a operação militar ilegítima. Esse é o ponto central do texto, que eu abordo segundo a teoria moral utilitária. Essa teoria julga a moralidade de uma ação em relação aos benefícios gerais e particulares. Por exemplo, a morte de um terrorista que tem o potencial de matar 100 pessoas vale a morte de 5 civis? Qual seria a sua resposta? Sei que é difícil de responder a essa pergunta, mas ela tem que ser feita para que suas críticas e análises ganhem consistência. Criticar a morte de x civis palestinos é mais fáci que encontrar a razão moral para essa crítica. Essa é uma análise prática do processo de tomada de decisão que toca na moralidade e na legitimidade da operação como um todo.

      Sobre as suas opções, eu não tenho que permitir nada. Se você conseguir dar coerência a relação entre as opções escolhidas e a realidade, já valeu! Essa é a grande dificuldade.
      Leia também o que escrevi pro Paulinho. Acho que complementa bem o que eu coloquei aqui.

      Grande abraço, garoto!

  • Mario S Nusbaum

    19/07/2014 at 16:31

    Não entendi porque a publicação em inglês também. Em todo caso repito o comentário que fiz lá:

    “: which of the following options would you agree with?”
    #3

    Muito bom o artigo, equilibrado e realista.

    ” the Israeli government should strengthen the Palestinian moderates, ”
    Se for possível, mas é uma tarefa gigantesca. Atualmente eles tem tanto poder quanto eu.

    “doctrine of “no partner for peace”
    Que se aplica totalmente à situação atual.

  • Paulinho

    19/07/2014 at 18:07

    Nobru, entedo sua argumentação e seu esforço em estabelecer critérios coerentes que possam delimitar o que Israel deve fazer e como deve fazer. Mas acho que estamos nesta situação a moral está sendo subjugada.

    Eu não disse em momento nenhum que era contra todo e qualquer tipo de ataque. Tanto é que não escolhi nenhuma opção das que você apresentou, visto que a opção 1 parece enquadrar este pensamento. Tampouco acredito que ser contra o ataque legitimize a morte de israelenses enquanto condena a morte de palestinos, como você disse acima. Sou contra o que está sendo feito. Acho que a cada dois tiros que Israel dá um acerta o próprio pé. Não sei exatamente como faria (concordo que Israel não pode aceitar os mísseis e ponto final), mas me oponho ao que está sendo feito, ainda mais agora com uma incursão terrestre.

    E voltando a sua avaliação, se o número não é absoluto, e sim relativo, acho que você cai no mesmo buraco que eu. Você tenta dar uma resposta mais objetiva, mas foge aos números, então qual é o limite? Acho que você tropeça na crítica que faz aos “idealistas” não por estar errado, mas por ser impossível (e absurdo!) lidar com esta situação de forma tão pragmática. Não existe um número mesmo. E no momento que você não o define, como vou saber se você concorda com o que está sendo feito ou se já passou do limite? Como tomar uma decisão sem este número? Quem o define, a opinião pública, a ONU?

    São dúvidas que me surgem lendo seu texto.

    Grande abraço e parabéns pelo trabalho do conexãoisrael!

    • Bruno Lima

      19/07/2014 at 22:39

      Paulinho,

      Obrigado pelo elogio. É muito bom trazer esse debate à vocês.
      Não concordo que a indefinição desse número possa nos conduzir ao mesmo “buraco”. Na realidade, esse número existe; nós apenas não sabemos qual é ele. O piloto que realiza um ataque áreo tem que decidir se o alvo em questão vale a morte dos civis que estão no local. Nesse processo de tomada de decisão ele considera uma série de aspectos: a importância do alvo, o número de civis, o contexto, a ordem, etc. O texto argumenta que essas ponderações, pragmáticas por natureza, estão no cerne da análise moral da operação militar. É exatamente essa análise que idealistas evitam fazer. O idealismo erra ao não explorar aspectos práticos da operação militar que são fundamentais para uma análise moral.

      Como coloquei anteriormente, israel é criticado pela morte de x civis. OK. Mas por quantos civis? Em que momento a operação militar se torna imoral? Que critérios você utiliza para fazer esse julgamento? Essas são perguntas que idealistas evitam fazer porque sabem que acabarão por legitimar a operação, algo inimaginável.Diferente de idealistas, acredito que apenas por tentarmos estabelecer critérios para realização de qualquer ação militar dentro da operação já a torna menos arbitrária e mais legítima. O meu intuito é promover um debate sobre os critérios de guerra – como são estabelecidos, sob qual princípio moral, como ganham ou perdem legitimidade, etc. Esse debate passa por um análise pragmatica do que ocorre. O conceito ‘guerra justa’ passa por esse debate.

      Acredito ainda que a legitimidade da atual operação militar será medida também pelo o que ocorrerá após o seu término. Como coloco no texto, ela se tornará imoral se não for seguida por um plano político de paz. Teremos que esperar para terminarmos nossa análise.

      Recomento muito a leitura da teoria do São Tomas de Aquino sobre o conceito “guerra justa” que é base até hoje para análise do tema. Recomendo também o livro ‘Just and unjust wars” do Michael Walzer – muitos dos meus argumentos são baseados em interpretações que faço do desse livro.

      Grande abraço, querido!

  • Paulinho

    21/07/2014 at 19:47

    Fala Nobru!
    Acho que até agora você está na retórica do pragmatismo sem ser pragmático nas análises do fato. Se a sua crítica ao idealismo é a fuga de perguntas que julguem critérios morais da operação e de propor soluções a aspectos práticos do que acontece, peço para que você analise os aspectos práticos do conflito com mais detalhes, se possível, para conhecer a sua opinião.
    Então a minha pergunta é, a partir do que você escreveu e de tudo que aconteceu até agora, qual é o real limite desta operação? Você acha que Israel ultrapassou estes limites? Você analisa este conflito como legítimo? Você acha esta operação moral com este número de mortos e com esta quantidade de túneis e bases do hamas destruídos? Porque? Você acha esta uma “guerra justa”?

    Ainda não li o texto que você recomendou mas vou ler mais tarde! Obrigado pela recomendação!
    Grande abraço

    • Bruno Lima

      22/07/2014 at 00:43

      Olá Paulinho,
      Acho que você está tentando me aprisionar em uma retórica sem analisar o conteúdo exposto. Deixo claro no texto que a atual operação militar é moral e legítima. Explico que essa legitimidade é inicialmente fruto de dois fatores: (1) os ataques massivos de Gaza; (2) a recusa do Hamas a aceitar o cessar-fogo. O primeiro fator refere-se ao direito de autodefesa israelense e o segundo à impossibilidade [imposta pelo Hamas] de uma solução diplomática. Esses dois fatores tornam a operação Margem de Proteção justa. Não há análise mais pragmática do que essa.

      Seguindo a minha análise dos fatos. Israel descobriu uma ampla estrutura subterrânea em Gaza construída pelo Hamas. Essa estrutura dá acesso ao território israelense, permitindo a infiltração de terroristas – o Hamas, inclusive, já deu provas de que faria uso dos túneis construidos. Esse seria um terceiro fator de legitimidade da operação militar. Na realidade, esse seria um fator de legitimidade à continuidade da operação por terra.

      Acho que é não é necessário elaborar muito sobre a razão desses três fatores darem legitimidade à operação – é evidente que eles demonstram a ameaça existencial que o Hamas constitui a parte da população israelense. Considerando que todo governo tem o dever moral de neutralizar ameaças desse tipo, a legitimidade da operação torna-se óbvia. Observe que a todo instante me refiro a legitimidade da operação militar (uma ação de curto prazo), o que não justiifica a postura do governo israelense em relação às negociações de paz e às construções em território ocupado (uma ação de longo prazo).

      Sobre o limite da operação. Acredito que o limite seja a completa neutralização da ameaça, mas, coerente com a opcão (2), acho que o número de civis palestinos e soldados israelenses mortos excede os benefícios que Israel obterá ao alcançar esse objetivo. Em suma, chegamos no que considero um limite.

      Ainda assim, devo admitir que caso o Hamas recuse o cessar-fogo, seguindo, portanto, com o lançamento de mísseis e com infiltrações através de túneis, a legitimidade da operação é estendida.

      Apenas repeti a análise pragmática que havia feito, talvez com mais clareza dessa vez.

      Sobre o futuro, estou escrevendo um texto sobre o quadro político que se configura e as oportunidades israelenses de retomar as negociações com o Abbas. Verás. 🙂

      Grande abraço.

Você é humano? *