Machané Yehuda e o imigrante brasileiro

Shuk-Shock Surrealisrael.com

Um dos locais mais agitados da moderna Jerusalém é o seu mercado municipal de frutas e verduras, o Shuk Machané Yehuda (que significa, ao pé da letra, “Mercado Acampamento de Judá”).

O tal mercado é uma atração pela variedade que oferece e pelos seus restaurantes que cozinham com produtos frescos todos os dias, além de ficar próximo do famoso bairro de Nachlaot,  aonde há belas ruelas para passear em caminho ao mais religioso bairro de Lev HaYir, o coração da cidade.

Na primeira vez que estive no mercado, aos meus 19 anos de idade, não pude deixar de reparar em diversas coisas curiosas para um brasileiro que até então, somente havia idealizado Israel. Comecei vendo propaganda de rabinos e etiquetas adesivas nas ruas com mensagens religiosas do judaismo – manifestação da propaganda religiosa que não acontecia (até então pelo menos) na diáspora. Uma surpresa começar a entender que a religião que no Brasil era tradição e cultura, em Israel se transformava em política e disputa por neshamot (almas).

Don't worry, be Breslev! Não se preocupe, seja Breslev! (rabino Breslev) e
Shuk-Shok – Machané Yehuda – surrealisrael.com

Outra coisa que me impressionou foi a quantidade de frutas secas. Nunca tinha visto tanta fruta seca e castanhas, tanta comida feita para durar até mesmo em época de vacas magras. Parece que as antigas rotas comercias que passavam por aqui durante toda a história deixaram a sua marca. Uma quantidade sem fim de iguarias de todos os lados do mundo, trazidas desde antes da criação deste país, e subsequentemente por imigrantes judeus que vêm para Israel com seus gostos, receitas e inovações locais. Quem diria, frutas secas…

Shuk-Shok no Shuk Machane Yehuda em Jerusalém
Frutas secas – Shuk Machané Yehuda – surrealisrael.com

Não foi muito difícil de identificar o primeiro Arss, como são chamadas aqui as pessoas que se comportam como criminosos. É um tipo de caráter de toda a região, comum entre árabes e judeus, entre árabes judeus e judeus árabes – uma pessoa gritona e extremamente cheia de si mesma – ao ponto de não poder enxergar o próximo. Pessoas que estão torcendo para você “acender o pavio” deles, para que ele possa te “dar uma lição” – que na maioria das vezes é verbal. (Mas que pode também ser violenta, principalmente entre os mais jovens.)

Shuk-Shok Mercado Machane Yehuda em Jerusalém
Light my Fire “Arss”! – Shuk Machané Yehuda – surrealisrael.com

Naturalmente avistei um monte de alface, de tomate, pepinos e azeitonas, monte de morangos, monte de banana, de melancia e melão… Todas aquelas frutas e verduras, conservas e especiarias, tudo aquilo com seus respectivos nomes em Hebraico. O tomate, agvaniá. O pepino, melafefon. A azeitona, zeitim. Cada uma ganhando um novo som, uma nova sensação.
Alface – chássa, manjericão – basilikum, morango – tutim, melancia – avatiach, melão – melon e banana – banana continua sendo banana.

Shuk-Shouk - Mercado Machané Yehuda em Jerusalém
Alface-Chássa – Shuk Machané Yehuda – surrealisrael.com

Foi quando me deparei com outra palavra em hebraico que escutei durante toda a minha vida: Tzedaká (caridade, justiça social). No meio do mercado, deitado com a sua kipá na cabeça, um homem de negro pedindo esmola. Com seu chapéu dado volta, como se estivéssemos em algum povoado da Europa Oriental. No começo foi um choque grande, um “shock no shuk”, mas com os anos vivendo em Jerusalém, comecei a me acostumar a ver judeus vivendo na miséria, a ver essas mesmas figuras todos os dias e semanas pela cidade – esta cidade cheia de homens justos e também de homens que estão para tirar proveito desses justos. Ying Yiang.

Caridade no Mercado Machané Yehuda em Jerusalém
Tzedaká – Shuk Machané Yehuda – surrealisrael.com

* A palavra Machané nas imagens está escrita como Machné (com כ ao invés de ח) propositalmente. Tanto pela sonoridade, para dar destaque a forma como o espaço é carinhosamente conhecido e chamado – Machné, ao invés de Machané. Também pelo sentido, já que Machné significa denominador, um denominador comum (machné meshutaf) entre o povo de Judá – Machné Yehuda. Além disso, a letra ח (chet) que representa a vida, quando caída tem a forma de כ (kaf) que significa palma (da mão) e auto-realização – e o shuk me faz lembrar como podemos tomar controle sobre as nossas vidas com a palma das nossas mãos (nossas ações).

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Comentários    ( )

One Response to “Machané Yehuda e o imigrante brasileiro”

  • Gisele

    28/05/2013 at 23:10

    O Shuk é um lugar encantador, eu adoro!
    Mas é cenário para olhares distintos, que dependem do lugar que ocupam. O certo é que alguém que pode ligar este cenário à consciencia (ou descoberta)de que o controle (eu chamaria de rumo) da vida está na palma das mãos, já é um grande retorno desse lugar prá você. Belo olhar!

Você é humano? *