Meu Brasil “Raananil”

18/04/2016 | Política; Sionismo; Sociedade

Não se zanguem, não se exaltem: chamo Raanana de subúrbio porque, aos olhos de alguém chegada de São Paulo (como eu), a cidade é um “suburbs”, no sentido inglês da palavras. Suas ruazinhas desertas à noite, suas calçadas floridas, o bando de criancinhas rodando por aí em suas bikes durante as manhãs, tudo isso remete a essa ideia. Agora, além de suburbana, me parece que Raanana está subitamente se transformando no quintal brasileiro em Israel. Eu, com meus poucos anos por aqui, senti isso claramente a partir deste último – e repare que, ao chegar, deparei com uma então pequeníssima comunidade formada por famílias que se contavam em duas mãos. Ouvi recentemente de uma brasileira que está há mais de 20 anos que nunca imaginou ver um grupo tão grande de brazucas concentrado aqui. Pois assim é – não estou falhando em minha impressão.

Em março, pela primeira vez alguns brasileiros coordenaram a produção do primeiro Cabalat Shabat[ref]Cabalat Shabat: cerimônia religiosa de “recebimento” do Shabat.[/ref], seguido de um jantar, 100% brazuca da história de Raanana. O rabino que conduziu a reza, e depois os agradecimentos e discursos, estava estupefato: “Quando me propuseram a ideia, achei que não haveria gente suficiente para isso – e faltou lugar”, disse, obviamente feliz (é o único rabino que fala português por aqui). Encerraram as inscrições para o evento com 240 participantes. Houve lista de espera, que não foi atendida.

Uma das duas sinagogas do Chabad da cidade já perceberam o potencial desse público, e estão “correndo por fora”. Em Purim, houve como sempre vários horários de leitura da Meguilat Esther. Um, no entanto, foi claramente dedicado aos brasileiros (com direito a mensagem no whatsapp e tudo o mais), que por sua vez combinaram de aparecer vestidos com camisetas da seleção de futebol. Espera-se repetir o sucesso em Pessach, com um seder exclusivo para o público brasileiro. Não duvido nada que o rabino dessa sinagoga – um cara carismático e que tem tudo a ver com os brazucas – já esteja tentando imaginar como fará para aprender logo o português. Pelo menos a oferta de professor não faltará.

Segundo as estatísticas da Agência Judaica, a primeira cidade escolhida dos olim brasileiros é Jerusalém e a segunda é Tel Aviv. Isso é como dizer que imigrantes recém-chegados ao Brasil preferem se instalar no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Óbvio dos óbvios. O que parece difícil de entender é que a terceira cidade mais procurada seja Raanana, ou seja, algo como São José dos Campos ou Santa Rita do Passa-Quatro. Assim, porque será que toda essa brava gente brasileira vem parar por aqui? Será que é por causa do “verde-bandeira-brasileira” da logomarca da cidade?

Raanana está a 15 quilômetros de Tel Aviv, o que significa pelo menos uma hora e quinze de viagem de ônibus ou de carro. Não tem praia nem montanha. O custo de vida é alto, cada vez mais. Não tem uma grande oferta de empregos nem boa disponibilidade de imóveis para aluguel ou compra. Não tem vista bonita. Tem, sim, um centro de absorção com ulpan – muito embora o valor do aluguel de um apartamento nessa espécie de “Cohab” governamental seja o mais alto do país e tenha uma longa lista de espera. Mais do que isso: a ONG Beit Brasil, que apoia os olim[ref]Olim: imigrantes judeus que imigram para Israel.[/ref] brasileiros, divulgou recentemente que centro de absorção (merkaz klitá) de Raanana está lotado até dezembro. A cidade tem boas escolas, ótima qualidade de vida, bom gerenciamento municipal, uma população que quase não parece israelense, para quem considera que isso seja uma vantagem (predominam europeus, sulafricanos e americanos). E tem brasileiros, alguns deles operando como voluntários que se esforçam em apoiar os recém-chegados, sejam coordenados pela ONG Beit Brasil (cujo diretor vive aqui em Raanana), seja atuando espontaneamente. Assim, fico com a hipótese de que o maior charme da suburbana Raanana seja esse: os brazucas daqui.

A atração funciona. Um familiar traz o outro, um amigo chama o outro, a comunidade vai ganhando expressão. O chato é que essa mamata de cair em um local que te oferece uma “rede de proteção” inicial (o conforto de contar com a solidariedade de outros imigrantes, de ouvir a própria lingua, de matricular seus filhos em escolas onde outras crianças brasileiras já estudam etc.) tem um preço que, ô droga, está ficando cada vez mais alto. E no momento em que a lua-de-mel com a aliá passa e a ajuda do governo acaba, cai-se na real (ou no shekel) e fica chato, e às vezes inviável, ter que lidar com um dos custos de vida mais altos de Israel. No entanto, deixar a cidade significa quase começar tudo de novo: a readaptação dos filhos em uma nova escola, o novo descobrimento de onde fica o quê e por aí vai. Quase uma segunda aliá que, por vezes, parece mais complicada do que a volta ao Brasil.

Acompanho com alguma frequência os posts em páginas de grupos de brasileiros no Facebook, e agora está meio clara a onda de incentivar o “pessuba” a se direcionar a outras cidades mais baratas e que oferecem estímulos para imigrantes, saídos dos bolsos municipais. Só vejo pontos positivos nisso. Afinal, a formação de “guetos” é natural e atende à necessidade humana de, ao chegar a um lugar estranho, encontrar seu canto e sua turma, pelo menos até que tenha forças para alçar voo solo. A questão é que esse voo solo pode nunca vir a acontecer. O que é, aliás, uma pena, já que esse deveria ser o grande barato: inserir-se na comunidade local.

Uma lista de valores de imóvel em diferentes cidades de Israel foi divulgada pelo Beit Brasil e, pasmem, comprar imóvel em Raanana está, em ordem decrescente de valor, em segundo lugar da lista, antecedida apenas pela disputadíssima Tel Aviv. Segundo o post, um imóvel de 80 metros quadrados no meu suburbs adorado custa 2 milhões de shekels, o mesmo valor de Jerusalém. Em Kfar Saba, vizinha de porta, cai para 1,5 milhões. Quem topa ir para Karmiel, onde também há um centro de absorção e, por isso, muitos imigrantes, vai pagar por um apê assim em torno de 900 mil, pouco menos do que os 995 mil de Haifa, terceira maior cidade do país. Aluguel também é uma tristeza em Raanana, com o custo de 52 shekels por metro quadrado, contra 31 shekels de Karmiel ou 46 shekels de Natânia, o point da francesada. Não é mole não, ainda mais em tempos em que o real equivale ao shekel e assim, quem conta com alguma renda vinda do Brasil, sofre um bocado com a conversão. Você pode mais detalhes sobre esse tema no artigo que o Amir Szuster escreveu nesse artigo do Conexão (http://www.conexaoisrael.org/o-real-valor-do-shekel/2015-10-03/amir).

Enfim, novos tempos em Raanana. Ouve-se português por todo canto. Já temos massagistas, manicures, psicólogos, fisioterapeutas, advogados e médicos brasileiros, o que é uma incrível mão-na-roda em um momento inicial. No entanto, como essa aliá é bastante motivada pela crise financeira e pela insegurança do futuro da pátria tupiniquim, não se vê a expansão de negócios montados por essa comunidade (ao contrário do que está acontecendo com os imigrantes franceses, que multiplicam o número de bistrôs e lojinhas com dizeres em francês). Sem direito a beijinho no ombro e que tais.

Comentários    ( 8 )

8 comentários para “Meu Brasil “Raananil””

  • Michelle

    19/04/2016 at 03:00

    Excelente artigo!!!
    Só um errinho: vc cita que o Real equivale ao Dólar. Na verdade ele está equivalendo ao shekel:-)

    • Miriam Sanger

      19/04/2016 at 14:01

      Michelle,
      Obrigada pelo elogio e pela correção. Já tá arrumadinho.
      Chag Sameach!
      Miriam

  • Marcelo Starec

    20/04/2016 at 23:36

    Oi Miriam,

    Ótimo artigo!…De fato Raanana é hoje a cidade “in” dos brazucas…

    Chag Sameach !!!….

  • Sandro Maghidman

    01/06/2016 at 14:23

    Miriam, parabens pelo artigo, tao verdadeiro e escrito tao claramente.

    Seja para Raanana ou outras cidades, que venham mais brasileiros, e que venham por sionismo e em busca de oportunidades para oferecer um futuro melhor as proximas geracoes.

    Estou certo de que os brasileiros que estao por vir, contarao cada vez mais com apoio dos brasileiros que ja estao ha mais tempo por aqui.

    • Miriam Sanger

      02/06/2016 at 15:01

      Olá, Sandro.
      Obrigada pelo comentário carinhoso.
      Concordo com você, especialmente em relação ao apoio — e sei que você anda empenhado nesse tema. Kol hacavod!
      Abraço,
      Miriam

  • ex oleh

    29/07/2016 at 05:55

    Tive uma péssima experiencia em Ranana, brasileiro é um querendo sabotar a alyah do outro – invejosos, mesquinhos, fofoqueiros – o mesmo vale para os argentinos; brasuca no exterior quer te envolver nos problemas deles, com certeza! o Mercaz klita de Ranana é mesmo um gueto, parece que não estou em Israel (e não está mesmo!)
    Brasuca dá golpe, pede dinheiro emprestado e não paga.

    • Miriam Sanger

      02/08/2016 at 18:48

      Caro ex-olê,
      Pois é, cada um com suas experiências.
      Seria mais fácil pensar em algum outro argumento se eu soubesse com quem estou falando.
      Obrigada pela mensagem.
      Miriam

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