Microcosmo: Mahary Vasihoun

Esse é o primeiro post da série microcosmo. Em cada post entrevistarei algum israelense, conversaremos sobre sua história de vida, sobre sociedade israelense, identidade, etc. A sociedade de israel é muito diversa e rica, e nenhum texto a respeito pode exprimir a complexidade envolvida. Por isso, a série microcosmo oferecerá ao leitor um contato mais ‘íntimo’ com alguns israelenses, de diferentes backgrounds, opiniões e visões de mundo.

Mahary faz doutorado em física comigo na Universidade Ben-Gurion do Negev, em Beer Sheva. Compartilhamos a mesma sala, juntamente com outros 3, e passamos boa parte do nosso dia juntos, estudando, conversando, e brincando de irritar um ao outro. Leia abaixo a entrevista que tivemos em Dezembro passado. Os outros 3 da nossa sala também tem histórias bem interessantes, e pretendo postar entrevistas com eles em breve. Boa Leitura!

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Nome completo?
Mahary  Vasihoun.
Em que ano você nasceu?
1983.
Onde?
Nasci na Etiópia
Na cidade ou no campo?
Numa vila remota, eu nem lembro o nome.
Você fez alia [imigração a israel]…
Em 1987.
Pai, mãe, quantos filhos naquela época?
Pai, mãe, e tenho outros 8 irmãos.
Que fizeram aliá juntos?
Não. Meus dois irmãos mais velhos fizeram alia em 1984.
Ah, antes?
Sim, bem antes.
Quantos anos eles tinham?
Mais ou menos 12 ou 13.
E com quem eles vieram? Fizeram aliá sem os pais?
É complicado, porque esses dois irmãos são de um casamento anterior.
De parte do pai ou da mãe?
Do pai. Todos os outros 6 são da mesma mãe.
Nasceram mais irmãos em Israel?
Uma irmã, ela é tzabarit [israelense nata].
Então você tinha 4 anos?
Sim.
Você lembra da Etiópia?
Não.
Nenhum flash de memória?
Não. O único flash que eu tenho é do banho gelado que me deram logo quando cheguei em Israel.
E vocês foram pra onde em Israel?
Pra Arad, para um centro de absorção.
E vocês ficaram?
Sim, Arad é uma cidade quieta, simpática, então os meus pais decidiram ficar.
Tinham opções?
Eu não acho que no começo eles lhes deram opção, mas depois de alguns anos que você está lá você pode dizer “esse lugar não está legal, vou me mudar para onde tenho parentes”.
Vocês tem parentes em outras cidades?
Tenho parentes por toda parte, é uma família gigante.
Quantas pessoas tem na família?
O meu pai tem uns 11 ou 12 irmãos. Todos aqui em Israel, alguns já morreram. E cada um tem a sua família.
E do lado da sua mãe?
A família da minha mãe é menor…
Somente quantos? Só uns 6?
Não, eles são realmente menores. Eles são… 5 irmãos, contando minha mãe.
Você saiu de Arad só quando foi estudar na universidade?
Sim. Só me mudei nessa época.
Você fez exército? O que fez?
No exército estive numa divisão que se chama Nassa, que significa “Experimentos e controle de qualidade”. Nós fazíamos experimentos em armas e munições novas, que são recebidos para uso militar, e nós fazíamos experimentos que determinavam critérios de qualidade, e em que circunstâncias pode-se usar a arma.
Como você chegou nessa divisão? Você já era nerd nesse época?
Sim… [risos]. Eu fiz faculdade [de física] com 18 anos.
Ah! eles te pagaram a graduação!
Sim, sim, eu era atudaí [soldado que estuda antes do serviço militar].
E você estudou aqui em Ben-Gurion [Beer Sheva]?
Sim.
E depois você assinou contrato pra ficar mais tempo no exército?
Não, não assinei, saí depois do keva [serviço ‘fixo’, adicional aos 3 anos obrigatórios], não fiquei mais tempo.
O que os seus irmãos e irmãs fazem da vida? Eles estão em Arad?
Não, tenho uma irmã em Ashkelon, um irmão em Beer Sheva, e todo o resto em Arad. Tenho um irmão que está no exército, duas irmãs são casadas e são donas de casa, tenho um irmão que é engenheiro eletrônico e está procurando trabalho, e o resto são mais novos e estão começando os estudos.
Você é dos mais velhos?
Não, sou do meio, sanduiche.
Você os encontra de vez em quando?
Nós fazemos encontros familiares uma vez por mês.
E toda a tribo vem? Quantos vem no total? Uns 30?
Não 30! Vem todos os irmãos (menos a de Ashkelon que às vezes não pode), e junto vêm esposas, maridos, etc. Às vezes somos muitos.

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Eu vou escrever sobre sociedade israelense. Deixa eu te perguntar algo. No seu dia a dia, você pensa na sua origem etíope? Isso é um fator presente no seu quotidiano? Ou está no fundo e não se pensa muito a respeio?
Isso está no dia a dia, não da pra ignorar.
Em que sentido?
Você vê todos os brancos… Digamos, aqui na física, eu não consigo não pensar sobre isso, estou cercado por todos os russos e não dá pra não pensar que sou o único etíope. Você se sente diferente, exceção, e às vezes até mesmo só.
Hoje em dia, que você já é grande, você sente alguma forma de discriminação, de qualquer tipo?
Eu senti discriminação toda a minha vida.
Até hoje em dia?
Sim, também hoje isso existe. Isso está aqui por todas as partes.
Você tem exemplos?
Vou te dar dois exemplos. Quando eu comecei a graduação, cheguei no primeiro curso, de física, primeiro dia de aula. Então o professor dá uma olhada geral em toda a sala e pára em mim. Ele olha, levanta a sobrancelha…
Que você talvez tivesse errado de curso?
Sim, algo do tipo “o que você está fazendo aqui?” Esse é o olhar. Sem dizer nada, mas não precisa adivinhar o que ele está pensando, você vê isso. Uma outra história é de quando eu estava no exército, eu estava procurando uma outra coisa pra fazer, diferente do que fiz nos primeiros 3 anos. Então quando fui fazer entrevista, estava sentado um cara ashkenazi, típico ashkenazi. E quando eu entrei vi nele aquele olhar. Então ele me fez perguntas pra saber o que eu sei, e no fim da entrevista ele diz “parabéns, você respondeu bem”, te dá tipo um elogio…
Sim, ele não esperava que você soubesse.
Exato. Do jeito que ele disse, ele não esperava realmente que eu soubesse responder tudo, e você vem e deixa ele zonzo.
E esse é o tipo de coisa que você encontra, que você chega no lugar e você é um peixe fora d’água? Tem também coisas verbais?
Não, eu acho que aqui em Israel o racismo é na maior parte das vezes é dissimulado. Não é como as notícias da tv que o motorista de ônibus diz “você não vai subir porque é etíope”. Com coisas assim eu sei lidar muito bem. Eu até prefiro esse tipo de racismo, que me digam na cara. Mas aqui é disfarçado.
Há algum tempo você me disse que gostava de loiras. Se você trouxesse uma loira ao encontro familiar…?
Minha mãe é uma pessoa muito aberta, ela já está em Israel há vinte e tantos anos, ela se dá com mulheres marroquinas no trabalho, ela é totalmente israelense. Pra ela, quem quer que eu traga, tá tudo bem.
E os seus irmãos? Os que já são casados, são casados com etíopes?
Os três mais velhos sim, mas tenho um que daqui a pouco vai casar com uma menina de origem da Índia. Então seria tudo bem [se trouxesse uma loira ao encontro], minha mãe não ficaria brava.
Há muito tempo eu te perguntei isso… É verdade que não se vê muitos etíopes aqui na universidade, eu não tenho dados agora, mas eu suponho que não tem tantos etíopes que estudaram na universidade. Isso é uma suposição razoável?
Sim, sim. Não faz muito tempo eu li um artigo que dizia que só tem 13 doutorandos em todo o país.
Você é um deles?
Eu não sei se eles me contaram.
Como dá pra verificar como eles sabem?
Não sei, mas também não me interessa.
De toda forma é um número muito pequeno.
Quando a sua família chegou em Israel, ela tinha algum dinheiro?
Não.
Você tem alguma coisa a dizer sobre se os etíopes tem condições de ir estudar, ou arranjar um bom trabalho? Você disse que tem um irmão que estudou engenharia. Então na sua família acontece dos filhos irem estudar.
Não, a quantidade de estudantes universitários etíopes é razoável, pelo menos na graduação. Mas o problema é quando você já tem o diploma na mão e vai procurar trabalho. Na maior parte dos lugares quando você entrega o seu currículo, na hora que eles leem o seu nome e país de nascimento, eles nem te chamam para uma entrevista. Eles não vão admitir isso, e eu não quero dizer isso porque isso soa muito chorão de minha parte, mas isso existe. Tem muita gente de qualidade que não encontra trabalho. Eu espero que algum dia essa situação mude. Eu espero que os meus filhos não tenham que lidar com o tipo de problema que eu tive de lidar. Que seja mais fácil para eles. É ‘wishful thinking’ da minha parte, você não pode mudar toda uma sociedade.
Como é a sua família no que diz respeito ao judaismo?
Os meus pais são religiosos, meu pai reza, vai à sinagoga…
E você cresceu num ambiente assim?
Sim, mas eu não acredito nisso desde a quinta série, mais ou menos.
E eles não te obrigaram nem nada?
Sim obrigaram. Na cultura etíope, enquanto você é criança, você não tem opinião.
Até que idade é criança?
Depois do bar mitzva [13 anos] você já pode opinar. Até então, o que os seus pais decidirem, assim vai ser.
E os irmãos e irmãs?
Religiosos ‘light’.
Usam kipá?
Não. Mas acendem velas no shabat. Todos comem kasher, fora eu.
Você não leva um sanduiche não kasher pra casa dos pais.
Não, e eu também não dessacro o shabat na casa dos meus pais. Eu não ligo a tv nem no quarto.
E cigarro, você fuma no shabat?
Quando estou na casa dos meus pais eu fumo muito menos. Talvez dois cigarros. E também eu saio de casa pra não fumar na frente dos pais.
Você tem algum pensamento que gostaria de compartilhar com os nossos leitores, sobre sociedade israelense? No começo da entrevista eu não queria definir você como etíope, porque não sei como você se define…
Toda esse pessoal mais ou menos da minha idade, que nasceu na Etiópia e fez aliá jovem, ou que já nasceu aqui de pais etíopes, tem uma situação difícil que você não se sente definido. Por um lado você vem de uma cultura que se comporta diferente do resto da sociedade, por outro lado você anda com israelenses e absorve a cultura deles. E você chega num ponto onde há choques entre as duas culturas e você não sabe onde você está.
Em que casos há choques?
Aqui em Israel tem o conceito da chutzpá israelense. [cara de pau, ousadia, grosseria, tudo isso junto]. A nossa cultura é tímida, pra dentro, e que respeita muito. Isso quer dizer que se vem alguém mais velho e me diz algo, não tem chance alguma que eu seja grosseiro/ousado na cara dele. Mas aqui os israelenses não se importam, pode ser um velho que eles…
Então você tem que ligar e desligar comportamentos conforme você transita pelas diferentes populações?
Exato.
E acontece às vezes de você esquecer e em Arad talvez ser ousado com alguém mais velho?
Eu acho que isso não acontece, você tem que estar muito consciente de si mesmo, não tem jeito. Se você me perguntar o que eu sou, etíope ou israelense, estou em algum lugar no meio, mas bem indefinido.

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Quando você tiver uma família, os filhos vão crescer num ambiente israelense, ou com ênfase na cultura etíope?
Eu acho que se eu ficar em Israel, não tem jeito, eu vou cria-los como israelenses, que sejam ousados.
Eles não vão falar Tigrinya? [uma língua etíope, que o Mahary fala]
Não.
Você mesmo tem dificuldade, né?
Não, eu sei falar, não num nível, você sabe, bater papo eu consigo. Novamente, se eu ficar em Israel, eu acho que os meus filhos eu não vou criar com a cultura etíope. Talvez eu os ensine a língua, mas não a cultura, porque no final das contas eles vivem aqui e tem que se comportar como locais.
E o que você quer dizer com “se eu ficar em Israel”?
Eu tenho uma forte tendência de deixar o país, eu não quero ficar.
Por um período determinado ou para sempre?
Pra sempre.
Por que? O que te faz pensar nisso?
Eu não gosto daqui, são vários os motivos, eu não gosto da sociedade israelense, dessa cultura, desse modo de agir, dessa coisa de “deixa rolar”. A cultura israelense é de não tomar responsabilidade de algumas coisas. No exército diziam “vai dar certo, vai ficar bem”. O que é ‘vai ficar bem’? E tem outras coisas também, por isso eu quero muito muito muito mudar para outro lugar.
E você tem uma ideia de onde? América do Norte, Europa, Asia, o quê? Brasil? Você ia se integrar muito bem no Brasil.
Brasil só se eu quiser aprender capoeira. Não sei, talvez Europa, Alemanha quem sabe… Estados Unidos…
Você tem um outro exemplo do que é ruim aqui? O que te faz não se sentir bem?
Eu acho que uma outra coisa é que os judeus da Etiópia vieram pra cá porque aqui é o país dos judeus, não vão te tratar segundo a cor da sua pele. Você é judeu, e judeu é judeu, ponto. E quando eu escuto os meus pais falando de como era lá em relação a aqui… Aqui em termos materiais é melhor… De alguma forma eu me sinto decepcionado. Por eles. Que eles sonharam com uma coisa e no final olha só o que receberam aqui.
E como a decepção deles faz você querer se mudar? Você também está decepcionado?
Sim! Claro! Eu sinto a decepção deles, e isso me faz odiar esse lugar de alguma forma. Porque os trouxeram de um lugar e os jogaram, o que eles receberam quando vieram? Nada. Esse país não soube cuidar das pessoas. Eu não sei explicar bem, mas de alguma forma eu me sinto muito muito decepcionada com esse país. Por causa de tudo o que aconteceu. Quando você vê a decepção na cara de seus pais, isso provoca um desgosto por esse lugar.
Você acha que se você seguir vivendo em Israel, você vai ser uma pessoa frustrada, ou tudo bem?
Não, não vai ser uma vida frustrada, vai ser tudo bem. Eu vou ter que me esforçar mais que uma pessoa comum. A vida talvez não será ótima, mas não frustrada. Sempre dá pra encontrar coisas boas, mesmo nesse buraco [com sarcasmo e risos]. Faz um filtro depois, ok? Não vai escrever que Israel é um buraco. [risos]
Você não gostaria que leitores do Brasil leiam uma opinião assim?
Não! Nada a ver.
Pode deixar, eu não vou tirar de contexto.
Quando você fez alia você recebeu um nome em hebraico. Qual?
Asher. Mas eu não gosto dele.
Você não o usa? Quando você sim o usa?
Quando eu ligo pra uma central telefônica, eu digo Asher, não Mahary, pra me poupar do trabalho extra.
Mas esse nome está na carteira de identidade?
Não.
Então quem te deu o nome?
Eu não sei. Quando chegamos em Israel passamos por um período de absorção, e o que se faz é que vem um cara a uma família inteira e cada um lhe diz o nome, e então ele diz “você vai ser fulando, você beltrano”, etc. É como um sorteio. Não tem nenhuma relação entre o nome Asher e Mahary.
O que significa Mahary?
É tipo ‘misericórdia’.
E Vasihoun, tem significado?
Todos os nomes etíopes tem significado e histórias por trás. Mas sobre o meu avô eu não sei dizer.
Como?
Vasihoun é o nome do meu avô. É assim, o sobrenome da pessoa é o nome do avô, e assim se lembra das gerações.
Ah, então é assim na tradição etíope? Então não existe sobrenome no sentido ocidental.
Não, não.
Peraí. Toda criança tem o nome do avô? Então um pai e um filho não tem o mesmo sobrenome?
Isso.
Ah, é como na cultura judaica, eu sou Yair ben Reuven [filho do Rubens], só que com você pula 2 gerações em vez de uma.
Sim, pula 2 gerações. Assim pode-se lembrar de várias gerações para trás.
Você chegou a conhecer os seus avós?
Não, eles morreram na Etiópia antes mesmo de eu nascer. Eu não tive a experiência de ter avós como outras pessoas.
Você escutou histórias sobre a Etiópia?
Sim, o tempo todo.
Quais foram os motivos para a alia?
Os judeus estavam na Etiópia há muitos anos, e sempre tiveram o sonho de ir para Israel. Mas naquela época o disparador que causou a aliá, foi que era uma época de guerra, e você sabe, numa guerra quem é sempre que sofre…? Os judeus, não importa onde eles estão.
Houve exigência de conversão? Ou vocês foram recebidos como são?
Não. Eu não lembro porque eu era pequeno, mas depois de alguns anos da alia houve vários problemas. Os rabinos aqui de Israel não queriam aceitar a autoridade dos ‘keis’, que são os rabinos da nossa comunidade. Eles não queriam aceitar as determinações deles. Os judeus estavam na Etiópia há muito tempo, e o nosso judaismo é diferente do daqui, e não inclui um monte de ajustes introduzidos posteriormente pelos sábios.
Tem festas que não existem? Ou festas adicionais?
Chanuka não tem com certeza, pois é uma festa ‘tardia’ na história do povo.
E Purim talvez?
Não, purim eu acho que tem, porque o território do reinado acho que chegava até lá. Chanuka com certeza não tem. E todo o resto é segundo o que está no Tanach.  [bíblia judaica]
Sem talmud? Pois a divisão dos judeus da Etiópia aconteceu antes do talmud.
Sim, todos os ajustes posteriores não existem para nós.
Quando foi a divisão? Na época dos romanos, ou antes, na época do reinado de Shlomo? [Salomão]
Segundo a tradição e as histórias foi na época do reinado de Shlomo, que veio a rainha de Sabá para cá. Algo do tipo. Mas eu não sei exatamente.
Segundo a tradição de vocês, cada festa se parece bem diferente das festa do resto do povo? Pessach não é o mesmo Pessach que eu conheci na minha casa ashkenazi?
Sim, mas eu também não conheci como era o Pessach do nosso jeito. Quando nós viemos para cá, nos primeiros anos, nós não fazíamos Pessach na nossa casa como família. A Agência Judaica organizava um seder para toda a comunidade, e assim aprendemos costumes novos.
E hoje você come gefilte fish? [risos]
Não! [risos] Meu irmão às vezes brinca de experimentar essas coisas, mas os meus pais não comem isso.
Sua mãe prepara comida etíope?
Sim, mas é difícil preparar a matza como era feita na Etiópia, então comemos a matza que se vende por aí. Mas os meus pais só comem comída etíope. A farinha que eles compram não é daqui, é importada da Etiópia.
Tem alguma outra tradição diferente que você quer contar? Sei lá, vocês talvez matam um carneiro, sei lá o que vocês fazem…
Agora que você falou de matar carneiro, é verdade, a minha mãe…
Isso acontece ainda hoje?! Algumas famílias se juntam, compram um carneiro…
Sim, sim!
Sério!? Mas não se prepara o carneiro junto, cada um leva o seu pedaço para casa…
Olha só como é: se juntam algumas famílias, pessoas que ainda sabem das tradições da Etiópia, vão até um beduino, na maioria das vezes, e compram um carneiro, vaca, depende do que eles querem. Então eles fazem o abate…
Quem faz o abate? Alguém etíope ou num açougue?
Não, nós mesmo, tem alguém que faz isso, então se dividem os pedaços de carne, e então cada um prepara o seu em casa. Digamos que algumas semanas depois a carne acabou, então eles se juntam de novo e vão comprar outro animal.
Ah! Não é só nas festas, é sempre!
Não, é sempre, mas nas festas o abate é um pouco mais sério.
Então quando você vai pra casa dos seus pais em Arad, e você come carne, é de um animal que foi comprado em conjunto, é isso? Não é de um supermercado?
Não mesmo, os meus pais não compram do supermercado. Até mesmo frango a minha mãe não compra do supermercado. Ela compra um frango normal e… [sinal com as mãos de torcendo o pescoço.]
Quem mata? Alguem outro mata e limpa o frango ou em casa mesmo?
O meu pai que mata o frango.
O frango chega vivo em casa…
Sim, sim! Ele chega fazendo có có có, e então [gesto com as mãos], e aí ele pára.
Você já fez isso? Você não ficou nunca curioso?
Nunca fiz, mas eu via isso, claro.
E você tinha pena do bicho, ou tudo bem?
Não mesmo, porque você pensa no que vem depois, que vai ser gostoso de comer [risos].
Tem outros costumes diferentes que você quer contar?
Não… eu não estou acostumado a falar tanto assim
Então vamos terminar, última pergunta: quais são as suas aspirações para o futuro?
Antes de mais nada terminar esse doutorado maldito. Depois, ou sair do país e me achar um cantinho legal no exterior, senão, terminar o doutorado, fazer pós doutorado, voltar pra cá.
Você quer ser professor/pesquisador de universidade?
Sim, hoje eu acho que sim. Mas daqui um ano e meio tudo pode mudar.
Qual é o teu assunto de pesquisa?
Confinamento em um espaço-tempo curvo.
Como se chama o campo de pesquisa como um todo?
Relatividade Geral com partículas elementares.
Ok, obrigado por participar. Eu ainda não sei o que vou escrever, tudo o que você disse você concorda que eu coloque?
Eu não disse nada que eu acho que está errado, ou que não tenho segurança do que disse.
Ok. Hoje que dia é? Hoje é 18 de Dezembro de 2012, três dias antes do fim do mundo. [risos]
Sim! Eu espero que isso seja publicado antes do fim do mundo!

 

Comentários    ( 22 )

22 Responses to “Microcosmo: Mahary Vasihoun”

  • Mario Silvio

    28/01/2013 at 00:55

    Antes de responder quero deixar muito claro uma coisa: em nenhum momento questionei o direito dele dizer o que quer que seja, nem muito menos o de sentir. Sempre defendi a liberdade de expressão, e TAMBÉM a de crítica.
    Não neguei esse direito a ele, nem a ninguém, apenas apontei o que, na minha opinião, claro, são absurdos e contradições.

    “certamente não estou em posição de julgar o que ele sente ou deixa de sentir.”
    Concordo, mas me sinto em posição de apontar as contradições e os absurdos ditos por ele, como por exemplo o preconceito revelado em relação ao Brasil e o fato de considerar racismo um elogio,

    “Ele não disse que a “sociedade” é racista, preconceituosa, etc… ”
    Releia a entrevista Marcelo.
    “e isso me faz odiar esse lugar de alguma forma.”
    Entendi que “esse lugar” é Israel. E odiar me parece bastante pesado. Quanto ao resto, concordo em tudo, pena que o entrevistado não reconhece esses FATOS, o que é profundamente lamentável considerando que se trata de um doutorando.
    E obrigado por escrever algo que eu só não escrevi para não ser mal interpretado.
    “Mahary sempre foi livre para fazer o que quiser, até mesmo voltar para Etiópia. ”
    Claro que não vai voltar. Ele pode ser preconceituoso e um rebelde sem causa, mas não é louco.

  • Mario Silvio

    28/01/2013 at 01:07

    Mais uma coisinha: faria muito bem a ir viver na Alemanha. Garanto que vai aprender muita coisa e repensar sua opinião sobre Israel.

  • Gabriel Guzovsky

    30/01/2013 at 02:56

    O mundo está mudando, as fronteiras estão “caíndo” (passamos despercebidos por elas com nossos tubos internéticos) e há esperança de que as futuras gerações sofram menos preconceito, especialmente em uma sociedade cada vez mais heterogênea como a sociedade israelense.

    America on the making.

  • Mario Silvio

    30/01/2013 at 14:28

    “O mundo está mudando, as fronteiras estão “caíndo” (passamos despercebidos por elas com nossos tubos internéticos) e há esperança de que as futuras gerações sofram menos preconceito, especialmente em uma sociedade cada vez mais heterogênea como a sociedade israelense.”

    Concordo Gabriel, e espero que também o “preconceito” deixe de ser usado como desculpa, mas acho que este dia está muito longe.
    Aqui no Brasil por exemplo, estamos caminhando na direção oposta, com o estabelecimento das tais cotas.

    • Gabriel Guzovsky

      30/01/2013 at 14:57

      Eu entendo a sua “frustração” com esse tipo de comportamento… é verdade, essas cotas as vezes separam mais do que unem. O mesmo acontece com dias como o dia do orgulho negro, índio ou o que for… são dias que causam mais diferença do que igualdade. Se fosse feito o dia do orgulho branco iam dizer que são racistas – afinal de contas, branco não pode sentir orgulho de ser branco sem ser acusado de racista. Enfim, é uma discussão mundial que aqui também está chegando e acredito que por sermos um país menor, temos maior chance de conseguir educar os filhos destes imigrantes para que sejam parte integral da sociedade.

    • Mario Silvio

      30/01/2013 at 17:24

      ” acredito que por sermos um país menor, temos maior chance de conseguir educar os filhos destes imigrantes para que sejam parte integral da sociedade.”

      Tomara. Estou torcendo.

  • Marisa

    08/02/2013 at 17:19

    Yair, gostei muito do artigo.

    Me lembrou de quando morei em Israel, no início da década de 80. Foi um pouco antes da imigração etíope mas no auge da imigração russa. A sensação geral dos olim chadashim russos que conheci no merkaz klita (centro de absorção) em Beer Sheva era de descontentamento. Eles queriam ir “para a America”, mas o único país que os recebia na época era Israel. Eles não tinham o menor apreço pelo país que os estava livrando da União Soviética, dando casa, ajuda financeira, ulpan. Eles tinham o sonho de sair da União Soviética, mas não necessariamente para Israel.E com certeza, não para um centro de absorção no meio do deserto.
    Hoje em dia, os que ficaram em Israel se integraram à sociedade e, provavelmente não se sentem tão diferentes do resto da sociedade.
    Seria interessante ler uma entrevista com um deles ou com quem imigrou como criança, como o Mahary.

    Sobre as opiniões do Mahary, não há o que concordar ou discordar. É o que ele sente.

    É fato que ashkenazim, sefaradim, teimanim, marokaim, etíopes e todos os judeus de diferentes lugares da diáspora tem costumes diferentes e ninguém é mais ou menos judeu por isso. Mas é uma pena que a cor da pele seja um elemento de diferenciação a ponto de fazer com que ele se sinta desconfortável.

    Parabéns pela iniciativa! Aguardo as próximas entrevistas.

  • Mario Silvio

    08/02/2013 at 21:11

    “Sobre as opiniões do Mahary, não há o que concordar ou discordar. É o que ele sente.”
    Meio perigoso isso Marisa. E quando um palestino “sente” que roubaram suas terras e que os judeus tem que ser expulsos da região? Também não o que concordar ou discordar?

  • Flavinha

    14/02/2013 at 14:34

    Mario Silvio, você, eu, todos nós podemos discordar do que o Mahary falou, mas essa sua discordância extrema te faz parecer um alienado, porque se você parar um israelense na rua ele vai concordar que há racismo no país.

  • Mario Silvio

    14/02/2013 at 19:05

    Flavinha, eu nunca disse que não existe racismo em Israel, por vários motivos. Os dois principais são:
    1) Eu não conheço o país suficientemente bem para ter opiniões firmadas sobre praticamente nada
    2) Existe racismo em TODOS os países do mundo.

    Isso posto, a minha discordância é com outra coisa: a extrema insistência DELE. Você sabia que andaram ocorrendo alguns terremotos no Brasil? Coisa de graus entre 3 e 4 na escala Richter.
    Mesmo assim eu criticaria quem insistisse em que isso caracteriza o país. Não só temos coisas muito mais perigosas com que nos preocupar como comparado com outros países o risco é praticamente zero.

    Eu achava que tinha sido claro no meu posicionamento, mas parece que me enganei.
    O que MAIS me irritou foi ele dizer que ODEIA o país. Meu pai e meus avô sofreram coisas infinitamente piores na Polônia, mas não me lembro deles dizendo que odiavam o país.
    Certa vez ouvi meu pai dizer que não tinha nenhuma simpatia nem saudade da Polônia.
    Compare as duas situações/posturas.

    Citar outras coisas seria repetir o que eu já disse, e aparentemente inútil, já que o politicamente correto impede muitos aqui de condenar os termos que ele usa.

    Enfim, posso até estar errado, mas considero ódio um sentimento muito pesado, que deve ser reservado para casos especialíssimos. Alguém lembra de algum líder dos movimentos negros americanos nos anos 60 dizendo odiar os EUA?

    Finalizando: quem odeia um país que NÃO É O DELE, deve simplesmente ir embora.