Microcosmos: Eitan Rothstein (parte 1)

04/07/2013 | Sionismo; Sociedade

Segunda entrevista da sério Microcosmos. Entrevistei Eitan Rothstein, outro colega meu de faculdade (o primeiro foi o Mahary, leia aqui). Conversamos sobre exército, religião e conflitos na sociedade. Esta primeira parte da entrevista tratará sobre a grande influência que o exército tem na vida do jovem israelense, e sua influência na sociedade como um todo.

Nome, idade…

Eitan Aharon Rothstein, daqui a pouco faço 34 anos, nasci em Israel, em Herzlia. Moro hoje em Tel Aviv, que é perto de Herzlia. Estou em estágios finais do doutorado em física na Universidade Ben-Gurion, em Beer Sheva. Para padrões israelenses é considerado longe, mas fica a uma hora e dez de trem, e eu viajo duas ou três vezes por semana. No passado, morei cinco anos em Beer Sheva.

eitan1

Me conta um pouco sobre a sua experiência no exército.

Terminei o ensino médio em Junho de 1997 e em Novembro me alistei no exército. Tinha um pouco mais de 18 anos. Estive no exército por três anos, na divisão de tanques. Inicialmente fui motorista de tanque, e mais tarde fiz um curso para ser comandante de tanque. Aprendi todos os trabalhos que se faz num tanque: dirigir (já sabia), atirar com o canhão, abastecer mísseis, e tem um que fica com a cabeça de fora olhando, que é o comandante. Mas no final das contas quando acabou o curso não fui comandante, fiz um trabalho administrativo.

Por quê?

Porque é nisso que me puseram.

Você queria ser combatente?

No princípio sim, mas conforme o tempo passava eu fui mudando de opinião.

E depois dos três anos?

Eu fui liberado, mas até hoje faço serviço de reserva.

Antes de falarmos sobre a reserva, como você resume esses três anos?

Quando eu me alistei eu tinha muita motivação de ser combatente e de contribuir com o país. Meu pai teve uma carreira militar, então cresci numa casa com tradição militar. Ele lutou nas principais guerras de Israel, e uma vez por ano tem cerimônias para lembrar os soldados mortos da divisão dele, muitos dos quais ele conheceu e era amigo. Então eu me alistei com motivação de contribuir com o país, e originalmente eu queria ser oficial. Conforme o tempo passava no exército, minha opinião a respeito foi mudando.

O que aconteceu?

Se eu fosse resumir, eu diria que eu cresci.

Apenas crianças podem querer isso?

Não apenas, mas uma criança de 18 anos normalmente tem opiniões mais extremas, isso é em todo lugar do mundo. É tudo preto e branco, com pouco cinza no meio. Eu tinha muita motivação e energia, mas em algum momento durante o curso de comandantes eu já me dei conta que não queria mais ser oficial. E durante o meu trabalho administrativo depois do curso, entendi que minhas opiniões políticas estavam mudando. Te ensinam a ser combatente, que na nossa sociedade se considera como uma grande contribuição ao seu entorno, o combatente é o herói israelense, e tudo mais. É muita adrenalina treinar atirar com a arma e com o tanque, mas de repente te cai a ficha de que estão te ensinando na verdade a matar uma outra pessoa. Isso foi uma certa crise para mim. Então minha motivação caiu neste sentido. Eu ainda acho que eu fiz um serviço militar que contribuiu, mas se eu pudesse começar novamente o serviço, eu o faria diferente. Se eu pudesse voltar no tempo eu escolheria outra coisa, algo não combatente. Então como eu resumo esses três anos? Três anos é muito mais que necessário, vamos começar por aí. Tive boas experiências, é óbvio, são afinal de contas três anos. De fora parece mais difícil, que tomam três anos da sua vida, mas é mais fácil porque todos os seus amigos e a sociedade fazem junto com você. Mas como você queira olhar para isso, ainda são três anos.

Há uns dois anos, lembro que você me apresentou uma música do Rafi Perski, que se chama Quantas Vezes, e lá tem uns versos que dizem “e então te tomaram os anos mais bonitos, e eis que você tem 21 anos, e eu queira gritar tão forte, queria gritar para que todo o mundo escutasse.” Você se sente assim?

Tem gente que faz o serviço militar como se fosse um trabalho, que voltam todo dia para casa. No meu primeiro ano, eu voltava apenas nos finais de semana, a cada duas ou três semanas. Isso te desconecta completamente da sociedade. Você volta a cada duas ou três semanas, cansado, então você dorme bastante e no final te sobram 24 horas para ver amigos e família, que tem saudades de você. Ter novas experiências, conhecer novas pessoas, isso quase não acontece, a sua vida civil está em um estado de espera. Se você sai com uma menina, e você a vê três vezes, isso significa que vocês já estão juntos um mês e meio! Mais adiante no meu serviço militar, quando eu tive um cargo mais administrativo, aí eu voltava mais frequentemente, mas enquanto você está no exército não dá pra conhecer ninguém novo, não dá pra desenvolver nada, a sua vida está em espera. Depois que acaba o serviço de três anos, você volta à sociedade como se tivesse vindo do espaço. É como se você fosse liberado da prisão e você tem que aprender a se reintegrar à sociedade, é bem isso.

Você acha que o paralelo com alguém que foi liberado da prisão, é um paralelo correto?

Obviamente é um exagero, mas no que diz respeito à readaptação, acho que sim.

Você acha que tomaram de você os seus anos mais bonitos?

Sim

Mas isso são palavras que eu disse agora. Você as diria você mesmo?

Você está repetindo uma frase que eu te disse há bastante tempo atrás! Sim, eu tive boas experiências no exército, isso ajudou a desenvolver qualidades em mim como ser humano. Tem um cara da faculdade que veio de fora de Israel, o Vadim, ele disse que uma das coisas boas de Israel é o exército. A qualidade das pessoas, a personalidade das pessoas é por causa do exército, e isso é uma coisa boa. Eu concordo com ele nesse aspecto, tudo o que ele disse é verdade, mas são três anos! Sim, eu tenho características que se desenvolveram por causa do exército, e isso contribuiu à minha personalidade, e não sei que Eitan eu seria se não fosse isso, mas foram três anos!

Depois do exército você já é então uma pessoa grande, e você tem que decidir o que você quer da vida. Isso normalmente vem com uma época de adaptação, de viajar.

eitan2

Você viajou?

Sim, por quase dois anos. Trabalhei seis meses no exterior, então trabalhei mais seis meses em Israel, depois viajei por oito meses, aí trabalhei mais alguns meses no exterior…

Por que tudo isso?

Eu sabia que eu queria estudar na universidade, e senti que queria provar um pouco do mundo. Eu preciso explicar algo. Existe em Israel uma cultura de se viajar depois do exército. Isso já passou a ser algo cultural e aceito, que alguém que acaba o exército trabalha por alguns meses, junta dinheiro e vai viajar por seis meses, um ano. Com esse dinheiro dá pra passear na Ásia ou na América do Sul. Isso é muito muito comum. Eu acho isso bastante legal, e faz bastante bem. Passear pelo mundo te desenvolve como pessoa, que você vê coisas por ângulos diferentes daqueles do país onde você cresceu. Você aprende a olhar as coisas de fora, a conhecer outras culturas, a olhar para a sua própria cultura com esses olhos.

Você acha que isso é consequência de um serviço militar prolongado?

Isso não é completamente desconectado do serviço militar. Acho que isso é um fenômeno grande dos últimos 15 anos. Alguém que cresce em Israel já sabe o que será quando tiver entre 18 e 21 anos, e com 21 anos todos seus conhecidos viajam. Não dá pra ignorar a relação com o exército. Eu acho que isso é uma libertação depois do serviço militar, que você pode fazer coisas por si só com liberdade, que não havia durante o serviço.

Com que idade você começou a universidade?

Não tenho certeza se 23 ou 24, acho que 24.

Eu me formei com 22 anos, e tenho amigos que se formaram com 22 ou 23 no Brasil, nesta faixa. O que te passa na cabeça quando você escuta isso? Você tem orgulho da oportunidade que teve de esperar e começar mais tarde, ou você tem inveja de que um garoto de 22 anos já tenha título universitário? Como você se relaciona a isso?

Não é preto e branco, tem vantagens e desvantagens. Existe vantagens em se ter a liberdade de estudar mais jovem, mas aqui em Israel se começa a estudar com 22 ou 23 anos, e você não é exceção. Se eu começasse a universidade aos 24 anos no Brasil eu seria bastante exceção. Eu queria estudar na Inglaterra, não em Israel. Fui aceito em algumas universidades e fui pra lá olhar como era. Eu vou então para os dormitórios da universidade de Manchester, por exemplo, e penso “são todos crianças de 18 ou 19 anos anos, eu nunca vou me adaptar!”. E não é só isso, aqui um garoto de 19 anos depois de um ano de exército, é mais maduro que o inglês médio de 19 anos.

Sim, um garoto de 19 anos que anda com fuzil no ombro o dia inteiro…

É como uma criança cujos pais se separam, e tem que amadurecer mais rápido porque tem que lidar com isso. Uma criança que passou coisas difíceis na vida, ou que são mais pesadas emocionalmente tem que amadurecer antes. Um garoto de 18 anos que passa pela tironut [treinamento inicial no exército] amadurece um pouco mais. Então eu vou pra Inglaterra e vejo garotos de 19 anos com mentalidade de 16 e penso “eu não vou sobreviver aqui!”. Eu acho que eu comecei a estudar com uma idade mais avançada, que eu sabia melhor o que eu queria e estava melhor preparado para as dificuldades dos estudos. Eu acho que os estudantes universitários israelenses se comportam de maneira mais madura, não é como o ano seguinte do 12o ano [último ano de escola].

Eu concordo totalmente. Pela minha experiência no Brasil é assim mesmo. Quando cheguei aqui eu me surpreendi como os estudantes levam a sério os estudos.

Conta agora um pouco o que é serviço de reserva.

O objetivo do serviço regular é que tenha uma boa massa de soldados no exército que possam cuidar dos problemas, e também preparar soldados para que no futuro eles possam ser chamados em caso de necessidade. O serviço de reserva tem como objetivo fazer alguns treinamentos periódicos para manter esse nível de aptidão, e também de vez em quando fazer operações que ajudem a distribuir melhor o fardo do serviço regular.

Você é chamado?

Sim, me chamam algumas vezes por ano. Às vezes um dia aqui, outros dois dias ali. Acaba saindo umas duas ou três semanas no total, por ano.

Como você se relaciona com isso? É algo chato que precisa ser feito…?

A minha opinião é que é algo que precisa ser feito. Tenho uma posição política bastante de esquerda, então às vezes eu fico em conflito comigo mesmo, se é realmente necessário fazer isso. Mas eu sinto que é minha obrigação como cidadão fazer isso. É como pagar impostos por todo tipo de motivos, e você não quer, mas precisa faze-lo, e alguns dias por ano me chamam e eu vou. Eu pertenço a uma unidade do exército, lá tenho amigos, conheço os oficiais, e é algo muito mais pessoal do que deu a entender na frase anterior. No final não sou eu frente ao grande exército, sou eu frente ao Moshik, ou o comandante do batalhão Zohar, que eu conheço pessoalmente e me pedem para eu fazer algo, e quando te pedem pessoalmente para fazer algo, você tende a fazer.

Você acha que todo bom cidadão tem que fazer serviço de reserva? Tem gente que não faz, que escapa.

O que acontece na sociedade israelense é que uma porcentagem muito pequena faz o serviço de reserva. Tem pessoas que escapam, e tem uma lei que diz que todos tem que fazer, mas o status quo é que muita gente escapa, e quando você atende ao chamado, no final do treinamento o comandante te diz obrigado por vir, e aprecia você ter participado, numa sociedade que não é óbvio que tem que vir.

Você se sente otário por carregar um fardo que outros não o carregam?

Às vezes sim, mas eu prefiro essa sensação à sensação de que outros carregam um fardo que não estou ajudando a levar. É uma sensação com a qual eu não poderia viver. É como você viver num apartamento com roomates, e todos limpam menos você. É verdade que é chato limpar, mas eu prefiro isso à sensação de que outros estão limpando por mim e eu não faço nada.


Fim da parte 1. A parte 2 trata de identidade judaica e atritos entre judeus que vieram de diferentes países.

Comentários    ( 4 )

4 Responses to “Microcosmos: Eitan Rothstein (parte 1)”

  • Gabriel

    04/07/2013 at 19:50

    Interessante Yair,

    Realmente o Eitan é um exemplo clássico da sociedade israelense de “bom filho”. Um jovem inteligente e correto que segue os passos esperados por ele dentro da sociedade “by the book”.
    Me identifiquei muito com o que ele disse sobre o serviço militar. Eu também não gostei de ter servido (ainda mais por ser brasileiro e de esquerda – paz e amor e o escambau) – mas pessoalmente não conseguiria me sentir parte desta sociedade sem ter contribuido minha parte, mesmo que pequena, para o sistema – assim como todos os outros jovens deste país.

    Os brasileiros acham que os militares israelenses são “sedentos por sangue” – isso é uma mentira. Eles refletem os seus militares (especialmente a PM, mas também a nossa dura herança militar da época de ditatura) nos nossos militares, e a verdade é que os nossos militares são melhores que os deles. São militares obrigatórios, que fazem o que fazem por necessidade do estado e para manter o país de pé frente as ameaças terroristas.

    Tomara que hajam muitos mais como o Eitan em Israel, que apesar das suas convicções, entendem o seu papel na sociedade.

    Abraço!

  • Mario Silvio

    05/07/2013 at 18:42

    “mas uma criança de 18 anos normalmente tem opiniões mais extremas, isso é em todo lugar do mundo. É tudo preto e branco, com pouco cinza no meio. ”
    Verdade, depois se aprende que a quase totalidade das coisas é cinza, mas mais tarde ainda eu sou bem mais velho que voces) aprende-se que o preto e o branco também existem.

    Gabriel,
    Não consigo acreditar que você chamou os militares brasileiros de sedentos por sangue.

    • Gabriel

      06/07/2013 at 12:36

      Oi Mario,

      Não chamei os militares brasileiros de “sedentos por sangue”, nem perto…. Escrevi que a visão de alguns brasileiros desinformados sobre o exército de israel é que de os soldados israelenses são “sedentos por sangue”. Novamente, é minha visão da visão do terceiro sobre o sujeito (no caso, os militares em geral) – não a minha visão sobre nenhum dos exércitos.

      Na minha opinião, se há algo que o exército brasileiro é, é saudosista e nostálgico. Acreditam que o Brasil era melhor sob o controle deles e dentro dos seus clubes ainda sonham com uma volta – tudo em prol do Brasil progressista. Eles acreditam ser os verdadeiros nacionalistas – e provavelmente são. Não são sedentos por sangue, assim como os militares israelenses não são.

      Mas o povo em geral, as massas, ainda tem rancor contra esses militares por vários erros que cometeram durante os anos de regime militar. Esse rancor afeta a relação desse povo com a PM aí no Brasil, por ex., mas também afeta a visão dessas pessoas sobre qualquer exército ou insitituição militar no mundo, que rapidamente é associada com a “realidade” mais próxima daquelas pessoas.

      Abraço

    • Mario Silvio

      09/07/2013 at 16:48

      Obrigado por esclarecer Gabriel, entendi e concordo.

Você é humano? *