Microcosmos: Eitan Rothstein (parte 2)

Esta é a segunda parte da entrevista que tive com Eitan Rothstein. Na primeira parte conversamos sobre o exército e suas influências na sociedade israelense. Desta vez são dois os assuntos: sua identidade judaica e os atritos étnicos na sociedade israelense.


eitan.rothstein

Vamos falar da sua identidade judaica.

Eu faço uma separação entre o povo judeu e a religião judaica. Eu venho de uma família nada religiosa. Posso dizer até mesmo uma família ateia, o que é muito comum na cultura ashkenazit em Israel. A maior parte dos ashkenazim são ou religiosos/ortodoxos ou são laicos. Existem teorias que explicam por que isso acontece, mas essa é a realidade. Todo esse negócio de tradicionalistas é comum na cultura dos judeus sefaradim e mizrachim, e não na cultura ashkenazit. Eu não tenho uma crença religiosa, mas eu sou sim parte do povo judeu. Eu sou parte do povo judeu que esteve no exílio, do povo judeu que voltou para “a terra” [Israel]. Isso é algo que caracteriza bastante a minha identidade, eu celebro tradições do povo judeu, como Pessach, Rosh Hashana, as grandes festas. Eu sou parte do povo judeu, que fala a língua dos judeus. Os meus ancestrais eram parentes dos teus ancestrais (na verdade o meu avô vem da mesma cidade que o seu avô nasceu, o que é bastante incomum). Mas nós dois temos alguma relação, ambos pertencemos ao mesmo povo. Pelo fato do povo ter sido perseguido, isso também acabou por nos unir bastante. Então, quando eu falo de judaísmo, eu faço uma distinção entre a religião judaica e o povo judeu. Eu não concordo e não me relaciono com a religião judaica. Aqui em Israel tem um grande problema de pessoas que uma boa parte da população é guiada não pelo que é melhor para todos em geral, mas por uma interpretação pessoal de um determinado rabino, e eles vão atrás dele de olhos fechados, e disso eu discordo, eu não aceito. Mas eu sou sim parte do povo judeu.

[pequeno glossário importante: Ashkenazi se refere aos judeus da Europa central e oriental, seu feminino é ashkenazit / ashkenaziá e seu plural é ashkenazim. Sefaradi e Mizrachi se referem aos judeus do Mediterrâneo e países islâmicos, como Irã, Turquia, Iraque, etc.]

E você se identifica como judeu, sem restrições? Você não se sente menos judeu que outro judeu.

Eu não penso sobre isso nesses termos. Não existem níveis, não é uma competição.

Você pode ser um judeu completo e abrir mão da religião?

Eu não sei, agora você está discutindo terminologia. Eu sou parte do povo judeu. Eu não sei se eu me chamaria de ‘judeu completo’. Não tem dúvida que eu não cumpro nenhuma lei da kashrut, ou de guardar o Shabat, nenhuma relação com a religião judaica, eu não acredito em Deus, mas querendo ou não, eu sou parte do povo judeu. Isso é independente de fé. Os meus ancestrais foram perseguidos no holocausto, fugiram para Israel, e eu sou parte do povo judeu.

Você diria que a continuidade do povo faz parte de suas preocupações? Você mora em Israel, então a maior parte das garotas que você encontra são judias. Mas digamos que você morasse na Inglaterra, você acha que seria importante sair com judias?

Eu namorei com uma não judia por um período quando não estava em Israel.

Isso não é uma preocupação?

De forma alguma.

Se você encontrasse uma menina não judia…

Isso não é uma preocupação, mas eu sim gostaria que os meus filhos falassem hebraico, que eles tenham uma certa medida de israelidade. Eu não acho que eu poderia imigrar a outro país, casar com uma mulher, digamos, no Brasil, e que eu tenha filhos que são brasileiros para todos os efeitos, e que não tivessem relação alguma com Israel.

Então se eu estou entendendo, você está trocando a identidade judaica pela identidade israelense? É correto isso?

Sim.

Você tem uma conexão mais forte à identidade israelense que à identidade judaica.

Sim. Também se criou em mim uma resistência com tudo o que se fez com a religião judaica, eu vejo todos as manifestações dos ortodoxos em Jerusalém, não é que eu sinto algum tipo de conexão, ou que eu queira ser parte disso, ou apoiá-los, muito pelo contrário. Eu sinto que eu quero me desconectar deles.

Você os vê como seus irmãos?

[5 segundos de silêncio…]

Boa pergunta… boa pergunta…

Ok, essa é a tua resposta…

Não é uma pergunta óbvia de se responder!

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O tema agora é ‘adatiut’ (עדתיות), que é difícil de traduzir ao português. A palavra deriva de ‘edá’ (עדה), que pode ser traduzida como comunidade, ou grupo étnico. Adatiut significa as relações entre comunidades que vieram de diferentes países e de diferentes culturas. Pra não repetir toda a explicação acima, traduzirei adatiut como etnicidade, por falta de melhor palavra.

Quero falar agora de etnicidade. Me conta sobre a sua família.

Eu sou da comunidade ashkenazit. Os meus avós paternos imigraram a Israel da Alemanha, antes do holocausto, nos anos 30. O nome do meu avô era Adolf, todos o chamavam de Dolo. Quando eles chegaram em Israel eles trocaram os nomes para nomes hebraicos, e ele ficou sendo Aharon, que é o meu nome do meio, porque ele faleceu antes que eu nascesse, e ficou a homenagem. Quando ele nasceu, Adolf era um nome mais respeituoso do que hoje em dia… A minha avó se chamava Frida. O meu avô imigrou a Israel não porque ele sentia que algo ruim fosse acontecer, mas porque era engenheiro elétrico e recebeu uma proposta de emprego. Ele participou da fundação da companhia elétrica daqui. Eu não acho que ele teria vindo se não fosse a proposta. Do lado materno, meu avô veio da Letônia e imigrou para cá com 16 anos, e minha avó nasceu aqui, mas a família era originalmente da Rússia. A família dela era uma das famílias tradicionais de Israel, fundaram a cidade de Chedera, participaram do grupo Nili, enfim, eles aparecem nos livros de História sobre as primeiras décadas do assentamento judaico aqui.

Qual é o sobrenome deles?

Schneerson.

Schneerson? Como o rabino de Lubavitch??

Sim, tem um parentesco bem distante…

[ambos rimos por 20 segundos, tendo-se em vista a parte da entrevista sobre a identidade judaica.]

Você tem algum comentário sobre a etnicidade aqui em Israel?

A etnicidade tem um papel importante na sociedade, não é algo que se pode ignorar. É algo que caracteriza a sociedade israelense, Israel é um país jovem com pessoas que vieram de todas as partes do mundo, e cada um veio com a sua língua, seu sotaque, sua comida, seus costumes, etc. E isso caracteriza a sociedade israelense, pelo bem e pelo mal, essa diversidade. Isso era mais visível na geração dos meus pais e dos meus avós, porque hoje em dia muitas pessoas tem ascendência misturada, é uma salada só.

Mas ainda hoje isso tem um papel?

Sim, mas antigamente havia uma separação socio-econômica entre as diferentes etnias, e ainda hoje em dia existe uma diferença, o salário médio de uma determinada comunidade é mais alto do que de outra…

Dá algum exemplo.

Nunca houve um primeiro-ministro em Israel que não fosse ashkenazi. Shaul Mofaz foi o primeiro chefe do estado-maior que não era ashkenazi. Agora vão trocar os rostos das cédulas do shekel, e escolheram colocar poetas do século XX, e houve uma grande cobertura na imprensa “por que todos os poetas são ashkenazim”? E a resposta da comissão que escolheu os rostos foi “não existem poetas sefaradim do século XX que sejam significativos”. Eu mesmo não conheço, eu sou um cara que gosto de poesia… Tem também a série de televisão Amud HaEsh, que conta a história antes da fundação do Estado, e criticaram o criador da série, “por que os sefaradim não apareceram?” Ele respondeu “porque não há quem citar!” Os judeus que vieram para cá vieram de países com mais educação, mas ‘iluminados’, o meu avô veio para a Terra de Israel como engenheiro elétrico, e nos países orientais não haviam profissões como estas. Vieram de uma outra realidade, de outro mundo, e houve um grande choque entre as culturas na época dos meus avós e também dos meus pais. Hoje em dia isso é menos relevante. As diferentes etnias tem a mesma educação, e as diferenças não são tão grandes como foram antigamente. A minha sobrinha é um oitavo daqui, outro oitavo de outro lugar, e isso engloba o mundo inteiro. Isso já não tem importância hoje.

Na imprensa os mizrachim sempre dizem que são discriminados.

Antigamente sem dúvida isso era o caso. Hoje eu acho que não tem mais.

Mas é verdade que em média os ashkenazim tem uma situação econômica melhor?

Sim.

E quando você viaja para as cidades pobres da periferia do país, você não encontra sequer um ashkenazi? Você concorda com isso?

Não tem com o que concordar, não é uma questão de opinião, isso é um fato.

Então como é que isso não tem um papel hoje em dia? Vou contar uma história que aconteceu com minha esposa, que é professora em Kiryat Gat. [Duas coisas importantes a saber: Kiryat Gat é uma cidade pobre na periferia do país, e minha esposa é ruiva e branquela, o esteriótipo de uma ashkenaziá]. Um dia umas alunas lhe perguntaram: Vem cá, você é o quê? –Como assim, eu sou o quê? — Você é marroquina? -Não. Iraquiana? -Não. Iemenita? -Não. Falaram todos os países de onde vieram judeus do oriente e nada. Aí minha esposa disse: Eu vou dar uma dica, eu sou Ash… E as garotas: de Ashdod? Ashkelon? Não… eu sou ashkenaziá. Sério? Mas você não parece! -É mesmo, como se parece uma ashkenaziá? Ah, eu não sei…
E você conhece minha esposa! Não dá pra errar! É verdade, em Kiryat Gat as crianças não sabem como se parece um ashkenazi!

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Mas a pergunta é: isso é resultado de discriminação que existe hoje? Essa é a questão. E eu tendo a dizer que não. Se você me perguntar por que nas cidades da periferia não tem ashkenazim, é porque antigamente sim havia discriminação, e quando imigravam pessoas de certos países, eles eram colocados em determinadas cidades. Os que vieram da Europa tinham certas profissões como engenheiros, e os que vieram dos países orientais não tinham, e também a situação financeira deles não era tão boa. Isso podia ter sido tratado de uma outra forma, mas foi assim que aconteceu. Então o que quer dizer discriminação hoje em dia? Quando você vai se inscrever na universidade, alguém olha se você é ashkenazi ou sefaradi? Claro que não!

Mas a etnicidade se traduziu quase que completamente em situação sócio-econômica!

Mas isso é consequência do que aconteceu no passado.

Você diz: não há discriminação étnica, mas sim sócio-econômico, que é na verdade a mesma coisa!

É consequencia da discriminação étnica que havia antigamente. Hoje, eu não sinto que há discriminação étnica como antigamente. Conforme o tempo passa, a tendência é apenas diminuir. Isso por causa dos casamentos entre pessoas de diferentes etnias. Os meus amigos de infância são de todo tipo de origem, e nós crescemos juntos, com a mesma cultura. O melhor amigo do meu pai é de origem iraquiana, mas as diferenças culturais da casa de cada um eram abismais! Na casa do amigo iraquiano se falava árabe, enquanto que o meu pais escutava alemão em casa! Eu não falo alemão, e alguém hoje em dia ‘de origem iraquiana’ não fala árabe. Isso põe em proporção as diferenças. A minha avó imigrou para cá e era professora de piano, e via na casa de sua vizinha marroquina uma narguila. Agora olha aqui do meu lado eu tenho uma narguila.

Vamos também falar dos etíopes. Eu também entrevistei o Mahary, e ele diz que não só existe discriminação, existe também racismo.

No que diz respeito aos etíopes, eu concordo com o Mahary. Leva tempo se assimilar na sociedade, porque a diferença cultural é grande. Nos é difícil entender como o estilo de vida deles era diferente do nosso. Famílias inteiras não conheciam a eletricidade.

Não vamos deixar de lado a cor da pele.

Claro, eles visualmente são diferentes, eles se destacam. Você pode olhar para mim e para a Sarit e saber quem é o ashkenazi e quem é o iemenita, e a sociedade já se acostumou que tem pessoas mais claras e mais escuras, mas até pouco tempo atrás não havia negros na sociedade israelense.

Você acha que no futuro isso vai passar?

Vai levar mais tempo e vai ser mais difícil. Eles foram colocados todos juntos, o que dificulta sua absorção. Eles também foram colocados em cidades mais pobres. Você leva uma população que não sabem hebraico, não conhecem a sociedade ocidental, e os coloca em uma cidade com alto índice de desemprego. Naturalmente não se pode esperar que eles prosperem ali. Consequentemente você encontra altas taxas de violência e delinquência juvenil. E isso é culpa da sociedade israelense, mas do que da sociedade etíope. Vamos voltar ao assunto do qual começamos, o exército ajuda muito. Eu venho de Herzlia, uma cidade rica, chego no exército e ao meu redor tem pessoas de kibutz, russos, dos assentamentos, religiosos, e todos passam juntos algo que forma uma identidade comum a todos. O exército é realmente um melting pot [caldeirão de fusão de diferentes culturas]. Os etíopes não tiveram uma boa absorção pelas diferenças culturas e pela cor da pele. Já os russos, nos anos noventa chegaram cerca de um milhão, numa sociedade de cinco milhões. A sociedade também não soube lidar com isso. Chegaram mais médicos do que havia em todos os hospitais do país, mas você não tem como empregar a todos. Chegou uma quantidade absurda de músicos, e agora alguns deles estão tocando violino na rua. O pai do Lev era professor universitário de Matemática na União Soviética, e aqui ele é professor de matemática no ensino médio. E assim por diante. Os russos também foram colocados em cidades mais pobres, e tem bairros inteiros só deles. Eu tenho amigos do exército que chegaram aqui com 10 anos, e eles falavam russo em casa, o supermercado era todo russo, o jornal russo, tudo em russo, e com 18 anos eles tinham ainda um péssimo hebraico. E o exército é realmente um melting pot, porque estamos todos juntos, de diferentes origens.

Nós conversamos sobre exército, identidade judaica e etnicidade. Só para terminar, o que você espera do futuro?

Encontrar um trabalho que eu goste, formar uma família, viver a vida.

Você está otimista em relação aos diferentes processos que estão acontecendo agora na sociedede?

Isso é tema para outra discussão! Mas em resumo, não.

Comentários    ( 13 )

13 Responses to “Microcosmos: Eitan Rothstein (parte 2)”

  • Mario Silvio

    11/08/2013 at 21:03

    Incríveis as considerações do entrevistado sobtre o “racismo” contra os sefaradis! Eu lia e não acreditava: são quase literalmente iguais às que faço em relação ao “racismo” no Brasil!

    “Mas a pergunta é: isso é resultado de discriminação que existe hoje? Essa é a questão. E eu tendo a dizer que não. ”

    “Quando você vai se inscrever na universidade, alguém olha se você é ashkenazi ou sefaradi? Claro que não!”
    Aqui também não se olhava, mas, infelizmente, hoje olha-se e, pior, muito pior, em função de uma lei!
    Espero que Israel nunca institua cotas racistas como fez o Brasil.

    Parabéns Eitan, chega de politicamente correto, já causou problemas mais do que suficientes.

  • Mario Silvio

    11/08/2013 at 21:05

    “Vamos também falar dos etíopes. Eu também entrevistei o Mahary, e ele diz que não só existe discriminação, existe também racismo.”
    Não me lembro de ter conhecido ou ouvido falar de alguém tão ingrato quanto ele.

  • Raul Gottlieb

    12/08/2013 at 13:18

    Claro que sempre vamos poder olhar para as imperfeições, por que elas sempre vão existir. Colocar as imperfeições acima do quadro mais amplo é uma opção política. E é uma opção que me parece salutar, pois a partir dela se mantém a consciência que o mundo precisa ser melhorado por nós, sem esperar que a melhoria caia do céu (ou do governo companheiro, como almejam os esquerdistas).

    Mas é bom também olhar para o panorama global. Levantar o rosto do zoom nas imperfeições. E quando fazemos isto, Israel passa os sucessivos testes com todas as honras.

    Leva um certo tempo igualar pessoas que viviam em séculos diferentes – como os ashkenazim que viviam no século 20 e os mizrachim que viviam no século 15-17 e os etíopes que viviam no século 6-8, e Israel tem conseguido fazer esta equalização de forma brilhante.

    Alguém conhece um caso com mais sucesso?

    • Mario Silvio

      12/08/2013 at 18:40

      “Alguém conhece um caso com mais sucesso?”
      O problema é que se Israel não tira 10, é criticado, enquanto outros países são elogiados quando tiram 6 ou 7.

  • Yair Mau

    12/08/2013 at 19:55

    Raul: De forma brilhante? Não parece tão brilhante para quem se diz “oprimido”. De toda forma concordo que leva tempo, não é um processo de 1 ou 5 anos.

    Mario Silvio: A ideia das entrevistas é mostrar ao público brasileiro uma realidade de Israel que não é muito divulgada, conforme vista por israelenses de diferentes origens. A tua frase seria incabível se trocássemos Israel por Brasil, e portante é incabível do jeito que está. Você poderia dizer sobre um blog que entrevista brasileiros a seguinte frase: “O problema é que se o Brasil não tira 10, é criticado, enquanto outros países são elogiados quando tiram 6 ou 7”? Claro que não. Os próprios brasileiros tem direito de reclamar dos 10 centavos do transporte, da corrupção, da copa do mundo, e do que mais eles quiserem. O Eitan, assim como o Mahary, Evgeniy, Roi, estão reclamando do país que onde vivem, é incabível você insinuar que há algo de errado com isso, porque outros países com maiores problemas não são criticados. As críticas não foram feitas na Assembleia Geral da ONU, são criticas internas. Resolvi entrevistar israelenses porque creio que assim os meus leitores poderão receber informação não filtrada por quem está aqui.

    Os opositores de Israel só veem suas falhas, e os que apoiam Israel tendem a ignorar suas falhas. Viemos para quebrar este padrão.

    • Mario Silvio

      12/08/2013 at 21:27

      Yair, antes de mais nada: a idéia das entrevistas é excelente, gosto muito delas.
      Isto dito, acho que você não me entendeu. Minha frase refere-se ao contexto global, inclusive à ONU e foi um comentário ao que o Raul disse, não se aplica aos entrevistados, mesmo porque o Eitan NÃO criticou Israel e eu cheguei a dizer que penso como ele em relação ao Brasil.
      É mais ou menos o seguinte: Israel passa os sucessivos testes com todas as honras, mas quase nunca é reconhecido.
      Eu não ignoro as falhas israelenses e sou 100% a favor da auto-crítica.

      Já o caso do Mahary é completamente diferente, e já escrevi, até demais, sobre o que penso no próprio tópico.
      Mas já que ele foi citado, vou relembrar as duas coisas que mais me incomodaram:
      1) Ele dizer que ODEIA Israel, coisa que nunca ouvi meu pai falar da Polônia, onde sofreu problemas bem maiores do que os dele
      2) Ele demonstrar racismo, ou, na melhor das hipóteses, profunda ignorância: “Brasil só se eu quiser aprender capoeira. “

    • Yair Mau

      12/08/2013 at 22:29

      Minha opinião: Israel não passa os sucessivos testes com todas as honras. Não existe país assim. Um país assim é a Terra do Nunca. Eu quero cavar fundo e ver o que tem de bom e ruim. Tem vários exemplos honrosos, e também vários exemplos vergonhosos.

      Sobre o Mahary, gostaria de esclarecer o seguinte. A entrevista não foi por escrito, foi um bate papo. Depois o que fica no “papel” pode ser lido na fluidez que o leitor quiser, e com as ênfases que ele tiver na cabeça. Eu não dou muito peso à afirmação “de ódio” a Israel. Todos somos pessoas complexas, e carregamos dentro de nós diversas opiniões e sentimentos, muitas vezes conflitantes. Não entenda que ele odeia Israel 100% do tempo, que isto lhe é uma ideologia de vida. Eu tenho contato diário com ele, e na minha opnião ele não se sente assim sempre, embora provavelmente ele carrega um pouco de ódio consigo.
      Sobre a capoeira, a frase foi dita como piada, nós dois rimos quando ele disse isso. Ele sempre me pede pra lhe ensinar capoeira, embora eu não saiba. Foi uma piada interna, se você quiser. Ele não é daqueles que acham que no Brasil só tem carnaval e floresta. Ele pode ser ingnorante no que diz respeito ao Brasil, mas isso não é crime, eu mesmo sou ignorante de quase tudo, inclusive sobre a Etiópia, mas o Mahary não tem bronca de mim por causa disso.
      Eu propus ao Mahary que escrevesse algo, pode ser que seja postado como uma resposta aqui nos comentários, pode ser que vire um artigo independente. Hoje mesmo nós do escritório (Eitan, Mahary e outros dois que hei de apresentar em futuras entrevistas) discutimos acaloradamente sobre racismo, discriminação, etc. Isto é um assunto ‘quente’ aqui.

  • Mario Silvio

    13/08/2013 at 15:36

    Seria muito interessante ele escrever um artigo Yair. Esclarecendo: eu não tenho bronca dele por não conhecer o Brasil, como você bem observou, todos nós ignoramos um monte de coisas.
    Já a ingratidão é completamente diferente, até prova em contrário continuo dizendo que nunca vi/ouvi nada parecido, mesmo tendo convivido com judeus de todo o Leste Europeu.
    O que mais chegou perto foi um primo que falou QUASE assim da Romênia.

    Em relação ao racismo em Israel, confesso que só estive aí uma vez, e foi pré-etíopes e russos. Tenho planos de voltar no ano que vem, e todo mundo me diz que eu verei um outro país.

  • Raul Gottlieb

    14/08/2013 at 00:26

    Querido Yair.

    Israel passa com honra em muitos testes sim – não vou dizer em todos por que nos esportes é medíocre, a educação das pessoas é sofrível e a corrupção na política e no Rabinato muito problemáticas. Além disso existem muitas áreas que eu não conheço para poder avaliar.

    O meu pai era químico e professor universitário. Ele aplicava avaliações com um fator. A melhor nota da turma tirava dez e as demais eram corrigidas pelo fator 10 sobre melhor-nota. Ou seja, as notas eram relativas ao melhor desempenho e não ao padrão teórico de excelência máxima.

    Sempre achei esta forma de medir desempenho muito adequada. E é ela que eu uso para dizer que Israel passa com honra nos diversos testes:

    Democracia – não há país em guerra com mais liberdades individuais.
    Segurança dos cidadãos – não há país em guerra com mais segurança.
    Economia – qual outro país de 70 anos se desenvolveu igual?
    Inovação, qualidade de ensino, integração de imigrantes, qualidade dos restaurantes (héhéhé), etc. etc.

    Israel passa (quase) todos os testes com flying colors, como dizem os americanos, se você medir ele em comparação com os melhores da turma (e se você considerar que ele está encravado no Oriente Médio aí não tem a menor graça).

    Mas é claro que se você medir contra o Gan Eden Israel está muito mal.

    No entanto esta coisa de medir com padrões utópicos é coisa de gente jovem. Eu já sou legalmente idoso e muito mais flexível que você. Assim que para mim está ótimo!!!

    Um grande abraço,
    Raul

    • Mario Silvio

      14/08/2013 at 18:38

      Perfeito Raul! Além de definir a situação você deu a explicação mais provável para a divergência de opiniões. Eu também já sou legalmente idoso, e sei que até que descubram paises em outros planetas, a comparação tem que ser com os da Terra, e é nela que Israel passa com honra em muitos testes. A largada do Usain Bolt não é perfeita, mas…….

    • Yair Mau

      14/08/2013 at 20:44

      Raul e Mario, obrigado pelas mensagens, eu sempre gosto de ter feedback.
      Tendo dito isso, lhes ofereço uma explicação alternativa sobre a divergência de opinião:
      nós moramos em Israel. Quem está de fora não percebe muita coisa. Isto não é um cala-boca, de forma alguma. Continuem lendo e opinando, é pra isso que escrevemos!
      abraço
      Yair

    • Mario Silvio

      14/08/2013 at 22:18

      “nós moramos em Israel. Quem está de fora não percebe muita coisa. ”

      Faz todo sentido do mundo, E pode ter certeza de que continuarei lendo e opinando.

      um abraço.

  • Raul Gottlieb

    14/08/2013 at 20:56

    Yair,

    a tua explicação alternativa faz algum sentido, pois vivendo aí você certamente é mais sujeito a se irritar com os problemas.

    Mas ainda assim acho que a comparação com modelos utópicos de perfeição é o principal fator. Existe algum país no mundo, além de Israel, que manteve as garantias dos cidadãos em caso de guerra? Eu não conheço. E a lista dos que as suspenderam inclui países fortemente democráticos como USA e Inglaterra.

    Abraço, Raul