Microcosmos: Nomi Drachinsky

13/11/2013 | Sociedade

Mais uma entrevista da série Microcosmos. Nomi e eu nos conhecemos em uma aula da Universidade Hebraica de Jerusalém, quando ela terminava seu mestrado e eu estava no meu  primeiro ano. Conversamos um pouco e ela me disse que era professora de hebraico e que estava aprendendo português. Resolvemos fazer um intercâmbio de idiomas, hebraico-português. Nos encontrávamos para fazer os deveres de casa juntas, e acabamos ficando amigas. A amizade perdura agora virtualmente, já que ela se mudou para a Espanha. Aqui ela fala do idioma, de feminismo e da escolha de morar fora de Israel.

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Nome, idade, onde nasceu…

Meu nome é Nomi, tenho 33 anos e nasci na Rússia, então União Soviética. Meus pais foram refuseniks [judeus soviéticos cuja autorização para emigrar era negada] durante anos. Meu pai era professor de hebraico e minha mãe fundou um jardim de infância judaico ilegal. Em 1985, após repetidas recusas, buscas domiciliares e todo tipo de humilhações, meus pais receberam permissão para fazer Aliá. Quando eu tinha quatro anos fomos para Israel. Minha irmã já nasceu aqui. No início vivemos em um centro de absorção [de novos imigrantes] em Mevasseret Zion, e, em seguida, em Jerusalém. Até a minha mudança a Madrid eu não saí de Jerusalém, exceto por três anos, quando minha mãe trabalhava na Rússia e eu e minha irmã vivíamos lá com ela. Meu pai era originalmente da Geórgia e minha mãe nasceu na Lituânia, mas é a história da União Soviética e, a história de Israel também. Agora que estou em Madrid vejo pessoas com raízes mais homogêneas e às vezes é difícil para eles compreender a complexidade das minhas raízes. Mesmo em Israel nem sempre souberam como me classificar . Se eu sou russa, sou ashkenaziá? Por um lado eu acho que não, por outro sim, claro!. A resposta é, como sempre, complexa. Além disso meu pai é georgiano [judeus da Geórgia são sefaradim], na Geórgia tem duas sinagogas, uma ashkenaziá e outra georginana. Na georgiana há uma foto do meu bisavô, então o que eu sou?

Você é/era militante do Hadash? Por quê?

Não, eu nunca fui ativa no partido. Eu fui ativa em diversas organizações, a Coalizão de Mulheres pela Paz (um grupo de feministas que falavam russo) e a associação denominada “Mudança” de estudantes universitários que viviam em bairros desfavorecidos e criavam vários projetos no bairro. Nessa organização coordenei um Centro de Aprendizagem para se receber o diploma do Ensino Médio e o Banco de Tempo. Política partidária eu deixo para as pessoas mais preparadas do que eu. E também nunca encontrei um partido que eu pudesse apoiar cem por cento. Eu sempre voto Hadash porque este é o único partido que tem cooperação entre judeus e árabes. Mesmo nos outros partidos que tem participantes árabes, só o Hadash coloca essa cooperação como parte da natureza do partido. Eu tenho críticas ao partido, mas mesmo assim eu sempre votei  neles, porque eu nunca encontrei alternativa, certamente não entre os partidos que passem a porcentagem mínima para poderem ser eleitos à Knesset.

Como se tornou professora de hebraico? Há quantos anos você é professora?.

Eu sou professora de hebraico há 10 anos. Eu me tornei professora no meu segundo ano de universidade, quando vi um anúncio de um curso de ensino de hebraico. Eu estava procurando alguma coisa para fazer no verão, algo que me ocupasse. Eu estudava história da América Latina e sociologia. Foi amor à primeira vista e, no final do curso, eu sabia que isso era o que eu queria fazer. Ao longo dos anos isso foi a minha âncora: os estudantes, o ensino, a língua, a interação. Agora em Madrid eu também vou continuar a ensinar hebraico

Nomi em sala de aula
Nomi em sala de aula

Quantas idiomas você fala?

Eu falo russo como língua materna e hebraico como língua paterna. Eu adoro dizer isso dessa maneira. Até hoje eu falo com minha mãe em russo e com meu pai em hebraico. Falo também espanhol e inglês. Eu aprendi árabe por muitos anos, de formas diferentes. Eu entendo e consigo construir frases simples, mas não mais do que isso. Este ano eu aprendi português e me apaixonei pelo idioma, espero continuar a estudar em Madrid.

O hebraico é um idioma vivo, e constantemente passa por atualizações e novos reconhecimentos do uso no dia a dia. Me lembro de você falando da palavra Roshá[ref]Leia mais sobre isso no texto do Yair Mau[/ref]  na época das eleições. Você me disse que a igualdade passa pela língua. Fale mais sobre isso…

Você me pergunta sobre o hebraico, e eu concordo com tudo isso. O hebraico é uma língua viva, dinâmica, que muda o tempo todo. Como uma pessoa com forte consciência política eu acho que a língua modifica a realidade e devemos prestar atenção a toda palavra que nos sai da boca. Devemos ter consciência da influência que nossa fala tem para fora e para dentro, e se existe injustiça ou iniquidade, ou uma realidade problemática, é possível começar a mudar apenas falando a respeito e prestando atenção como se fala a respeito do assunto. Assim, por exemplo, o seu entendimento muda se você diz “imigrante ilegal”, ou “imigrante em busca de trabalho”, se você diz “marido” ou “companheiro de relacionamento” [porque marido – baal – tem conotação de propriedade], se você diz “árabe israelense” ou “palestino cidadão israelense”, se você diz “guerra de liberação”, ou “guerra de 1948”. Um dos exemplos mais claros neste respeito é a esfera feminista. Em hebraico tudo se divide em masculino e feminino, todo substantivo e toda conjugação de todo verbo em todos os tempos verbais. Feministas e “feministos” às vezes escrevem propositadamente se dirigindo às mulheres, para desafiar a língua, desafiar o nosso pensamento e para mudar. Certa vez mandei um email para um grupo de pessoas que trabalhavam comigo, eram 20 mulheres e apenas um homem. Escrevi o email em linguagem feminina e o homem se ofendeu. Por que nós não nos ofendemos sempre que se dirigem apenas aos homens? Tendo dito isso, a palavra “rosha” [cabeça em hebraico] me parece ridícula, a palavra cabeça é uma palavra cujo gênero é masculino [em hebraico], não exite cabeça masculina e cabeça feminina. Isso soa engraçado e quase que torna a coisa ridícula pelo próprio fato da mudança. A igualdade entre homens e mulheres passa também pela língua, não há dúvida. Por exemplo, existe “jardineira” do jardim de infância e “jardineiro” que trabalha num jardim. A Academia [de Língua Hebraica] ainda não aprovou a palavra “jardineiro” como alguém que trabalha num jardim de infância. Um dos professores da universidade disse que deve-se dizer “jardineira”, e caso seja homem, “mestre”. A mudança aqui é muito mais importante do que o caso de “rosha”, pois existe uma palavra e se recusam em usa-la, e a profissão continua a ser feminina. Tenho amigas que dizem que elas não tem problema em dizer “meu marido” [meu dono], porque para elas a palavra não carrega um significado de propriedade. Está bem, mas no momento em que elas dizem “companheiro de relacionamento” e não “marido” elas desafiam os ouvidos de quem escuta e ele se pergunta por que elas escolheram essa palavra, e logo cria-se um diálogo, que no final das contas traz a mudança.

O hebraico é um idioma machista então? E a sociedade israelense?

Eu não acho que o hebraico é um idioma mais machista do que outros. Antes de mais nada, há muitas línguas em que há uma divisão entre masculino e feminino, e o padrão é o masculino. Em hebraico, talvez seja mais gritante, eu não tenho certeza e só posso comparar com as línguas que conheço. Além disso, na minha opinião, não é a língua, mas uso dela que é importante. 

Sobre a sociedade, acredito que sim, é machista, mas também outras sociedades que conheço, a russa, a espanhola , a palestina, cada uma de sua maneira também o é. E o que é a sociedade? Não há uma única coisa que seja a “sociedade israelense”. Talvez a minha resposta seja que andamos um longo caminho neste mundo machista onde vivemos, mas ainda há muito trabalho a se fazer.

O que sim contribui é o militarismo da sociedade israelense, que cria um estado de glorificação do soldado, o homem, “herói”. [em hebraico a palavra herói tem a mesma raiz da palavra homem]. O uso de gíria militar na vida cotidiana e da facilidade com que vemos uniformes militares e armas na rua como algo natural é alarmante, e cria um ambiente que, obviamente, não é feminista. Ambiente conflituoso e sem diálogo não é um ambiente feminista.

E por que a decisão de sair de Israel? Foi fácil? Você pensa em voltar no futuro?

Madrid… Decidimos, eu e meu companheiro, nos mudar para Madrid e esta semana pudemos realizar isto. Eu trabalharei aqui como professora de hebraico e isso me deixa feliz. Ele é espanhol e viveu por muitos anos fora do país, queria estar mais perto de sua família e amigos e viver no seu ambiente natural, e eu concordei e queria a mudança. Se, no futuro, a gente quiser outra mudança faremos isso com o acordo dos dois. Eu não acho que eu deixei Israel, é difícil para mim pensar em conceitos como aliá [imigração a Israel mas também subida em hebraico] ou yeridá [em hebraico descida, utilizada como o oposto da aliá], é anacrônico para mim. Isso se relaciona com o que eu disse antes, sobre o que é óbvio na linguagem. O mundo é pequeno, e na era da Internet é ainda menor. Uma semana atrás, eu estava sentada no meu apartamento em Katamon Haiashaná [bairro de Jerusalém] e, olhe, agora estou no meu apartamento em Madrid. O mundo é  pequeno. Atualmente moro em Madrid e veremos o que está por vir.

Seu companheiro não é judeu. Isso foi uma questão pra você ou pra sua família? Ou para os seus amigos?

Sobre o parceiro não- judeu, não tenho nada a dizer sobre isso, eu estava aberta para isso assim como para um parceiro  judeu. É simplesmente quem eu conheci e quis estar com. Não era uma questão para mim nem para minha família. E também não para os meus amigos. Tenho algumas amigas religiosas e uma delas me disse uma vez que, por um lado fica triste que eu não tenho um parceiro judeu, e por outro ela vê o quanto estou feliz com a minha escolha, de modo que ela fica feliz por mim. Recebi críticas de pessoas menos próximas a mim, como a esteticista que me chamou de assimilada por exemplo, ou estudantes que se interessaram em saber porque eu falo espanhol e quando descobriram que eu tenho um parceiro espanhol imediatamente tentaram descobrir se ele era judeu ou não. Algumas pessoas me disseram, quando perceberam que ele não é judeu: “Não se preocupe, seus filhos vão ser judeus”. Tem tanta coisa escondida nessa frase que sempre me diverte . Eu acho que são eles que precisam acalmar a si mesmos e não a mim. Não sou eu quem está preocupada.

Obrigada pela entrevista!

De nada! Foi um prazer falar sobre tudo isso e organizar meu pensamento. É bom descobrir que eu tenho ideas claras sobre determinadas coisas.

 

Para quem se interessa pelo Idioma o curso de hebraico na Espanha tem uma página no Facebook que a cada dia explica palavras novas: Ulpan Hebreo Sefarad

Fotos: arquivo pessoal

Comentários    ( 10 )

10 comentários para “Microcosmos: Nomi Drachinsky”

  • Raul Gottlieb

    16/11/2013 at 13:29

    Cara Mila,

    A questão da fala politicamente correta é uma das coisas bizarras dos dias de hoje. Querem chamar “marido/esposa” de “companheiro/companheira”? Tudo bem, vamos em frente. Mas neste caso seria bom também pensar em como expressar o conceito original de “companheiro/companheira”, não é mesmo? Senão fica meio confuso.

    Corre o risco de alguém apresentar um amigo dizendo que ele é o seu companheiro (de viagem) e a outra pessoa pensar que está falando com um casal gay.

    Uma vez Marina (minha atual companheira pelos últimos 40 anos) e eu estávamos numa cidadezinha muito linda na Nova Zelândia e fomos a um pequeno restaurante, que resultou muito bom! Conversamos com o dono/cozinheiro que quando soube que éramos brasileiros ficou todo emocionado e disse: “my partner is Brazilian!”. Nós ficamos sem saber se era o sócio do restaurante, se era o companheiro gay, se era a esposa, sei lá. Combinamos de voltar na noite seguinte, quando ele ia preparar um prato especial, com tons brasileiros, para nós e chamar o “partner” para nos conhecer. Daí, na noite seguinte, lá estava a esposa dele, uma mulata baiana muito simpática e tivemos uma ótima noite – o fulano cozinhava bem demais! Mas ficamos o dia inteiro especulando sem saber bem o que esperar da noite. Nada de grave, é claro, apenas engraçado.

    No entanto esta preocupação excessiva com as palavras que não ofendem me parece uma bobagem. É muito mais importante não ofender nos atos do que usar palavras supostamente não ofensivas. A pessoa pode chamar o marido de baal e ter um relacionamento muito bom, como pode chamar o marido de parceiro e ser muito desrespeitosa.

    A meu ver, esta preocupação do politicamente correto esconde frequentemente um pensamento íntimo incorreto. Eu desconfio muito desta preocupação, pois acho que ela coloca a ênfase no aspecto periférico e muitas vezes (não todas, é claro) isto é feito para esconder o central.

    Acho que as coisas tem que ser chamadas pelos seus nomes devidos e não por sofismas. Fica mais claro, mais direto, é mais sincero.

    A maior parte dos imigrantes ilegais está em busca de trabalho, mas nem todo imigrante em busca de trabalho é ilegal. Então porque não falar corretamente? Fulano é um imigrante ilegal em busca de trabalho. Tem que qualificar direito para poder se dar a entender. Omitir o “ilegal” porque parece ofensivo não muda a situação, apenas confunde o interlocutor.

    Não vai ser pelo falar politicamente correto que vamos resolver nada. Muito mais importante que o discurso são as atitudes que se escondem por trás do discurso. Classificar alguém apenas porque ele fala “árabe israelense” e não “palestino cidadão israelense”, sem conhecer o pensamento e a atitude de quem fala me parece um erro colossal, que embute uma enorme dose de preconceito.

    Prefiro a fala sincera do que a fala que se policia para ser “correta”. Mas é só uma questão de gosto, é claro. O importante mesmo é não classificar os outros por poucas palavras.

    Um beijinho,
    Raul

  • Mario S Nusbaum

    17/11/2013 at 14:43

    Mais uma vez concordo com o Raul. Quanto mais uma palavra deixar claro o que queremos dizer, melhor, como no exemplo que ele citou, o da partner. Se o neo-zelandes tivesse dito wife, qual teria sido o problema?

    E no outro caso,
    “, o seu entendimento muda se você diz “imigrante ilegal”, ou “imigrante em busca de trabalho”, ”
    sim, muda, ainda bem, porque são duas coisas diferentes como o Raul mostrou.

    “. Certa vez mandei um email para um grupo de pessoas que trabalhavam comigo, eram 20 mulheres e apenas um homem. Escrevi o email em linguagem feminina e o homem se ofendeu. ”
    Juro que eu não me ofenderia Nomi, mas precisamos de regras:
    – quando houver os dois gêneros usa-se o feminino? OK, topo
    – usa-se o da maioria, idem
    Mas o ideal é que o maior número de pessoas entenda o máximo possível o que falamos/escrevemos.

  • Edna Scharf

    17/11/2013 at 17:16

    O que lhe desejo………seja feliz.
    Tenho 78 anos e estou estudando hebraico através de internet e com o melhor professor meu BAAL a 52 anos juntos e no Brasil,Rio de Janeiro.BJS;

  • Maria Lucia Levy Malta

    18/11/2013 at 04:55

    Nomi, gostei muito de sua entrevista, a compreendi bem porque vivo situacao muito parecida. Sou brasileira, estou há 8 anos vivendo em Espanha e tentando seguir o curso de hebreo, porque meu tempo é muito escasso. Nao vivo em Madrid e sim em Salamanca, onde faco dois doutorados. Sem embargo, de momento nao estou expressando uma opiniao, porém, colocando-me a sua disposicao, se quiseres e no que eu possa lhe ser útil. Ainda nao me vejo em condicoes de poder dialogar em hebreo, mas posso faze-lo em espanhol ou em portugues (do Brasil ou de Portugal), para tanto acredito que pode obter meu email com a equipe do Conexao Israel. Um grande abraco.

    • Mila Chaseliov

      18/11/2013 at 17:55

      Maria Lúcia,
      A Nomi pediu pra responder:
      “oi Maria Lucia, nosso Ulpan também tem a opção de estudar online, e temos alguns estudantes de Salamanca.
      Se você quiser mais informações me escreva para nomikad@gmail.com

  • Raul Gottlieb

    18/11/2013 at 10:54

    A questão do mail em linguagem feminina é engraçada:

    A convenção (notadamente machista) diz que quando o grupo é misto se usa o gênero masculino.

    Pessoas sensíveis já começaram a mudar esta convenção e usar os dois gêneros nos casos de grupos mistos.

    Mas usar apenas o feminino porque o homem é uma minoria de 5% no grupo é equivalente a usar a convenção machista que se deseja derrotar. Não é um bom caminho.

    • Mario S Nusbaum

      18/11/2013 at 14:56

      “Pessoas sensíveis já começaram a mudar esta convenção e usar os dois gêneros nos casos de grupos mistos.”
      Fica chato Raul

      “Mas usar apenas o feminino porque o homem é uma minoria de 5% no grupo é equivalente a usar a convenção machista que se deseja derrotar. Não é um bom caminho.”
      Concordo, mas who cares?

    • Mila Chaseliov

      18/11/2013 at 17:53

      Raul e Mário,
      A Nomi me pediu pra responder:

      “Obrigada pelos comentários, e percebemos que houve um erro de tradução. Eu quis dizer ao invés de trabalhador estrangeiro seria melhor usar imigrante de trabalho. A situação legal não é importante no caso, falo de uma pessoa que imigrou em busca de trabalho, independente se ele é legal ou não.”

    • Mario S Nusbaum

      18/11/2013 at 17:57

      OK, obrigado pela explicação

  • Raul Gottlieb

    20/11/2013 at 11:01

    Obrigado pela explicação, mas acho que continua problemático.A meu ver, a situação legal tem grande importância. O mundo não é sustentável sem leis.

Você é humano? *