Os seculares, a mídia e os ultra-ortodoxos em Israel

Em um dos mais citados experimentos nas Ciências Sociais, Tversky e Kahneman (T&K) pedem para um grupo de estudantes responder ao seguinte problema:

 Imagine que os Estados Unidos estão se preparando para uma epidemia de gripe que é esperada matar 600 pessoas. Dois programas alternativos para combater a epidemia são propostos. Admita que as estimativas cientificas para as conseqüências de cada um dos programas são:

 Se o Programa A for adotado, 200 pessoas serão salvas.

Se o Programa B for adotado, há uma probabilidade de 1/3 de que 600 pessoas serão salvas e uma probabilidade de 2/3 de que nenhuma pessoa será salva.

 Qual programa você seria a favor?

 Tversky e Kahneman constataram que 72% dos respondentes escolheram o Programa A e apenas 28% optaram pelo Programa B. Diante desses números os autores decidiram realizar um novo experimento em que a situação é a mesma, mas os programas propostos aparecem da seguinte forma:

 Se o Programa C for adotado, 400 pessoas morrerão.

Se o Programa D for adotado, há uma possibilidade de 1/3 de que ninguém morra e uma probabilidade de 2/3 de que 600 pessoas morram.

 Qual programa você optaria?

Nesse segundo experimento apenas 22% dos respondentes optaram pelo Programa C e 78% escolheram o Programa D. Como você pôde observar (pôde?), os programas A e C são análogos, ou seja, não há nenhuma alteração com respeito ao conteúdo das propostas (para uma expectativa de 600 mortes, no Programa A 200 pessoas são salvas e no Programa C 400 pessoas morrem); o mesmo ocorre em B e D – o conteúdo é absolutamente idêntico. Se A-C e B-D são pares análogos, o que explica a variação de 50% nas escolhas?

Tversky e Kahneman oferecem uma elegante explicação para essa ruptura com o paradigma racionalista. Os autores argumentam que colocar as propostas em condição de ganho (experimento 1 – “200 pessoas serão salvas”) e em condição de perda (experimento 2 – “400 pessoas morrerão”) altera completamente a nossa percepção e, consequentemente, nossa escolha. Em outras palavras, uma mera alteração na forma pela qual a informação é exposta determina os processos de tomada de decisão e o de formação de opinião. De fato, como T&K demonstram, não é o conteúdo em si que nos condiciona a optar por uma ou outra proposta, mas a forma pela qual esse conteúdo se apresenta; a este fenômeno denomina-se “o efeito framing”, algo próximo de “enquadramento” em português.

Matt Evans, professor de Ciência Política na Penn State University, afirma que, ao enquadrar uma informação, a mídia acaba por enquadrar a própria realidade, produzindo, assim, uma sensação de entendimento comum entre aqueles que se expõem a ela. O efeito framing possui essa capacidade de estabelecer uma experiência compartilhada dentre aqueles que se expõem ao mesmo enquadramento; uma espécie de sensação de identidade cultural entre membros de grupos que estão suscetíveis a sua influência. De fato, para poder estabelecer comunicação a mídia necessita de símbolos e de uma linguagem comum com seu interlocutor e esse processo termina por criar uma perspectiva da realidade compartilhada por interlocutores; ou seja, os efeitos da mídia ultrapassam o campo da comunicação e atingem toda a esfera social. Dessa forma, o efeito framing levanta questões fundamentais sobre como a mídia, nossa principal fonte de informação, enquadra diferentes assuntos, constrói narrativas, exclui perspectivas, define protagonistas e antagonistas, enfatiza aspectos e marginaliza outros, ameniza conflitos, enaltece a necessidade de guerras e nos condiciona a tomar decisões baseadas na forma pela qual informações são veiculadas. No contexto israelense uma das mais relevantes perguntas é qual é o papel da mídia no embate entre seculares e ortodoxos?

O conflito entre ultra-ortodoxos (charedim) e seculares (chilonim) é, sem dúvida, um dos mais marcantes na sociedade israelense. Em um dos mais brilhantes livros sobre o significado do “ser israelense” (“Being Israeli), Gershon Shafir e Yoav Peled afirmam que o conflito entre esses dois grupos tem origem em questões que envolvem o status quo.[1] De fato, muitos seculares se opõem a isenção de ultra-ortodoxos do serviço militar, criticam o governo pelo controle sobre questões pessoais (e.g., casamento e separação) concedido aos ultra-ortodoxos, lutam contra o apoio financeiro dado às Yeshivot, demandam a circulação de transporte público no shabat, exigem a regulamentação do processo de conversão ao judaísmo, clamam por igualdade de direitos entre homens e mulheres no exercício religioso, etc. Por outro lado, a comunidade ultra-ortodoxa reage afirmando a “expansão da imoralidade na sociedade secular”, com mulheres semi-nuas e jovens que circulam com tatuagens e piercings propagando a promiscuidade. Não há dúvidas de que estamos tratando de visões completamente distintas da realidade. A questão é como a mídia atua nesse conflito; ela ameniza ou evidencia as diferenças? O fato é que a mídia torna esse embate ainda mais extremista. Isso é o que podemos constatar após uma breve análise de como as informações são expostas nos tablóides israelenses.

Em uma pesquisa realizada em 1995, 88% da população judaico-israelense declarou ler jornal diariamente. Realmente, para aqueles que moram em Israel não é difícil perceber que a população adora um jornal. Em Israel, o periódico de maior circulação é o Yisrael HaYom, distribuído gratuitamente todos os dias e com um alcance de 37.4 % dentre aqueles que falam hebraico. A tabela abaixo resume o alcance dos principais jornais atualmente distribuídos no país.

Em relação ao público ultra-ortodoxo há quatro jornais de grande veiculação: Yated Ne’eman coordenado por rabinos Mitnagdim (líderes espirituais do partido Degel Hatorah), o Hamodia, associado a rabinos Chassidim da Agudat Yisrael, o Mishpacha e o B’Kihila. Veja na Tabela 3 o alcance dos tablóides que circulam na comunidade charedi.

As principais diferenças entre jornais seculares e ultra-ortodoxos são a forma pela qual cada um se refere a outra comunidade e como é feita a descrição de acontecimentos sociais. Segundo Matt Evans, os tablóides destinados a população charedi têm como responsabilidade tornar pública toda informação relevante à proteção dos valores religiosos e evitar aquela que possa afetá-los. Por exemplo, é incomum encontrarmos reportagens sobre violência urbana, esporte, entretenimento e “fofoca” em jornais ultra-ortodoxos. Da mesma forma, são cada vez mais freqüentes manchetes que enquadram criticamente o exército, a polícia e o Supremo Tribunal de Justiça; esse último, particularmente, sendo muitas vezes descrito ironicamente. Além do enquadramento negativo de instituições consideradas seculares pela comunidade ultra-ortodoxa, a aparição de mulheres é nula, mesmo daquelas que ocupam importantes cargos públicos. Um outro importante aspecto da segregação da mídia escrita charedi é a linguagem usada. Matt Evans explica que a maioria dos jornais são escritos em hebraico antigo, apresentam termos em idish e em Aramaico, tornando-os, assim, inteligíveis ao leitor chiloni.

Dentre os jornais de maior circulação na comunidade secular as diferenças entre os grupos é ainda mais acentuada. Em um artigo publicado no “Journal of Media & Religion”, Yoel Cohen afirma que a mídia secular constantemente enquadrada figuras religiosas de forma negativa. Além disso, tende a ser crítica quanto a alocação de dinheiro público à instituições religiosas, descrevendo a ação de partidos políticos religiosos como “extorsão”, “injustiça” e “manutenção da desigualdade”. Líderes religiosos também são alvos de jornais seculares. Como Cohen aponta em sua pesquisa, esses lideres são normalmente descritos como “parasitas” e estão comumente associados a escândalos de corrupção.

O fato é que tanto jornais de ampla circulação na comunidade ultra-ortodoxa como aqueles de maior alcance entre seculares constroem e reconstroem imagens negativas do grupo oposto. A mídia israelense poderia ter como objetivo a construção da solidariedade social através do melhor entendimento da realidade vivida por diferentes grupos sociais. No entanto, ao invés de integrar, a mídia reforça as diferenças, alimentando as expectativas de seus leitores. Ao invés de assumir uma postura pacificadora, a mídia (tanto charedi quanto chiloni) fomenta a construção de estereótipos através da descrição do “outro” como inimigo. Os diferentes framings (enquadramentos) da realidade exercem, de fato, uma grande influência no conflito entre ultra-ortodoxos e seculares na sociedade israelense. Como Tversky e Kahneman constataram no experimento apresentado na introdução, não é o conteúdo que determina nossas decisões, mas a forma pela qual este se apresenta. O ponto é que enquanto cada comunidade continuar preocupada em obter informação da forma que lhe conforta, a distância e o estranhamento tenderão a aumentar. E, pelo andar da carruagem, não demoraremos a nos tornar todos “estranhos no ninho”.


[1] Acordo estabelecido em 1947 em que David Ben-Gurion, então chefe executivo da Agencia Judaica, concede à comunidade ultra-ortodoxa representada pela Agudat Israel o controle sobre o shabat,  a kashrut, as leis familiares e a educação judaico-ortodoxa. O status quo serve até hoje como base legal para justiça israelense.

Comentários    ( 7 )

7 Responses to “Os seculares, a mídia e os ultra-ortodoxos em Israel”

  • Iana Abecassis

    23/12/2013 at 18:30

    Bruno

    A relação ultra-ortodoxos x seculares é algo bem fácil de entender, até mesmo para mim que sou de uma terceira geração de judeus e vivo bem distante da “Terra Santa”, a falta de cordialidade entre esses dois grupos de pessoas, o que nem poderia ser definido dessa forma, é algo visível a todos.
    Você mesmo citou uma frase curiosa e preocupante, “os seculares estão prestes a se tornarem estranhos no ninho”, essa frase poderia ser transcrita o contrário, pois a tendência de um país é trabalhar para que a igualdade alcance todas as classes socias e religiosas que nele habitam, mas em Israel o que avança é a coragem e a busca ( e convenhamos, o recebimento também) do poder que os ultra-ortodoxos recebem, isso traz para Israel, uma imagem bem crítica, pois para nós que estamos do lado de fora, o país é adaptado para eles e consequentemente governado por eles, o que também passa para o mundo a imagem de um povo que consente com as guerras e de pessoas intolerantes em diversas questões socias, o que nós sabemos que não é a realidade, pois existem pessoas com a mentalidade bem aberta e que realmente querem viver em paz, o que eu quero passar é que ao ler a sua mensagem não posso deixar de lembrar que os ataques dos ultra-ortodoxos contra os seculares e vice-versa, no qual ao meu ver os seculares são as vítimas, atravessam os continentes e que essa é a lembrança que acaba ficando para as nações, e o mais inaceitável é saber que dentro de um país tão nobre e conhecido, há uma parte da população (os ultra’s) que são (e serão se continuarem no comando de Israel) os mais beneficiados tanto em direitos como em deveres, pois gozam mais de direitos e são os mais isentos de deveres.
    Na minha simples e humilde opinião, essa é o maior falha de Israel, não saber resolver seus próprios problemas pessoais e tentar viver um sentimento, que por enquanto ainda não é encontrado lá.

    Seu texto é excelente e cativante parabéns 🙂

    • Marcelo Treistman

      26/12/2013 at 10:29

      Prezada Iana,

      Agradecemos a visita e o comentário.

      Gostaria de tecer uma pequena correção a sua mensagem. Parece-me que você atribui aos ortodoxos/ultra-ortodoxos um controle integral sobre o governo israelense, não apenas sobre a área civil mas também em decisões militares, o que levaria o país a um belicismo teocrático/messiânico. Isto passaria ao mundo a imagem de que Israel “consente” com guerras e de ódio aos seus vizinhos.

      A sua percepção não é correta. Os ortodoxos estão organizados em blocos políticos, mas não “mandam” no país. Eles participam do processo democrático e devem – Sim ou Sim – respeitar as regras do jogo, aceitando e submetendo-se sempre as decisões de uma Suprema Corte de Justiça que baseia as suas decisões em leis promulgadas pelo homem, não reveladas pelo “divino”…

      A posição religiosa certamente influencia parte da população, como ocorre em todos os países em que é possível dar-se voz a uma corrente de pensamento ancorada em crenças e não em evidências. No Brasil, vemos a religião atuar politicamente em casos como a legislação anti-aborto, contra a pesquisa de células tronco, contra a união homossexual e nem por isso podemos dizer que os evangélicos/católicos “mandam” no país ou que são os baluartes da intolerância.

      O Texto do Bruno indica como os meios de comunicação (ortodoxo e secular) acirram as tensões existentes entre os dois grupos. Não há vítima neste ponto específico.

    • Bruno Lima

      26/12/2013 at 13:23

      Iana,

      Obrigado pelo comentário e pela visita ao site.
      Você tem razão quando afirma que o conflito entre seculares e ultra-ortodoxos tomou proporções políticas. De fato, é essa projeção política que mantém vivo o debate sobre a separação religião-estado.
      No entanto, não acredito que os ultra-ortodoxos governem o país. Apesar do controle que possuem sobre áreas fundamentais como a conversão e o matrimônio, estou convencido de que a estrutura política israelense preserva o caráter democrático do estado. Em outras palavras, acho que Israel possui e faz uso de mecanismos que neutralizam a influência religiosa na dinâmica política.
      Apesar da ressalva, concordo que a sociedade israelense vive um conflito interno emergente, muitas vezes ofuscado pelo discurso de que há “ameaças externas” (muitas vezes verdadeiro, mas outras nem tanto). Ainda assim, como bem dito por você, esse conflito interno não significa que a sociedade tenha se tornado maniqueísta; há pessoas que entendem a complexidade da “questão judaico-religiosa” em Israel e lutam por um balanço de forças.
      Muito obrigado pelo carinho,

      Bruno.

  • Iana Abecassis

    26/12/2013 at 15:45

    Querido Marcelo
    Esta não é a minha percepção!
    E Bruno, eu entendi perfeitamente o seu texto me perdoe se eu sai um pouco do conteúdo mas infelizmente para mim, não tem como desassociar a palavra ortodoxos/ultra-ortodoxos da palavra ‘poder’ quando se fala em Israel, embora eu saiba, como disse no comentário, que eu sei que não é (ainda) eles que governam o totalmente país.
    Mas percebo que você entendeu o que eu quis dizer ao comentar seu post.

    Abraços de Manaus

    • Davi Azevedo

      21/02/2015 at 03:01

      O próprio rótulo de Ortodoxo é complexo. Pois enquadra desde “Ortodoxos Modernos” como o pessoal do Torah Umadda e os Sionistas religiosos, os Haredim não-hassídicos (Lituanos) e alguns grupos hasídicos moderados (como o Chabad-Lubavitch e o Ger) que são sionistas e ativamente políticos até grupos hassídicos radicalmente antissionistas como o Neturei Karta e o Satmar.

      Evidentemente, não se trata de uma questão teológica ou étnica, mas sim política, entre esquerda e direita, natural de democracias burguesas, visto que a população israelense tem um certo grau de maturidade política, e entende o riscos de um estado belicista. Não é à toa que o Estado israelense está “desesperado” para manter seu modelo de desenvolvimento, incentivando a aliá como nunca antes e tentando obrigar fundamentalistas a se alistarem no exército.

      Respeito muito aqueles optaram por morar em Israel, por fugirem da shoah e da repressão na Rússia, mas modelo sionista tem de ser alvo de uma profunda análise. Israel se apóia na falácia de uma etnicidade judaica, que põe europeus semitas de tradições completamente diferentes no mesmo saco, discrimina judeus árabes (mizrachim) de muçulmanos árabes (palestinos) no mesmo tempo em que se proclama um estado secular !

  • Kalanit

    14/02/2014 at 15:56

    A mim parece-me que os seculares não gostam dos privilégios dos ultra, mas ao mesmo tempo, não querem viver sem eles, pois entendem que os ortodoxos é que mantêm viva a fé judaica.

  • Daniel Israel

    11/02/2015 at 08:24

    Belo texto, Nobru.

    Leitura gostosa e estimulante, bastante ampla a sua abordagem.

    Abração,

Você é humano? *