Morte dos Primogênitos

09/04/2017 | Religião e Judaísmo

Nós éramos escravos no Egito, construindo pirâmides e outras coisas. Então nós decidimos sair, não queríamos mais ser escravos. Nós queríamos voltar para nossa terra ancestral. Eles disseram que não, então Deus começou a lançar pragas neles. E pra ter certeza que eles não dissessem “sim”, ele endureceu o coração do faraó, então ele continuou dizendo “não”. E depois que ele disse muitas vezes “não, não, não, não…”, e todo tipo de coisas ruins aconteceram com eles, nós escapamos mesmo assim. E Deus partiu as águas para nós e quando os exército egípcio veio atrás de nós, ele fez com que todos se afogassem. Então ficamos muitos anos no deserto, recebemos os 10 mandamentos, e chegamos em Israel.

Assim é que Etgar Keret, meu autor israelense favorito, resumiria a história da saída do Egito a seu filho pequeno. Em um podcast à revista judaica-americana Tablet, ele conta que sempre teve empatia pelos egípcios.

Quando eu era pequeno, eu imaginava as pragas no ponto de vista de uma família egípcia. Eu não imaginava pelo ponto de vista de Deus ou de um judeu. Piolhos, feridas na pele, e granizo em cima de mim, uau! É duro ser um egípcio antigo!

Isso me faz lembrar o que já escutei Amos Oz dizer sobre o trabalho do autor, que é empatizar com outras pessoas, imaginar outras vidas e colocar-se em seu lugar. Etgar Keret não apenas é capaz de empatizar com os egípcios, como também tem críticas literárias à história do êxodo assim como a conhecemos.

Se você olhar para a história, as pragas não mudaram em nada. Basicamente, nós podíamos ter simplesmente fugido. Deus teria aberto as águas e depois faria com que os egípcios todos se afogassem. Não precisávamos das pragas, elas não eram necessárias para o roteiro!

Mesmo desde criança, eu sempre achei que o faraó era uma figura trágica, é muito difícil ficar contra o faraó. Os egípcios levam a pior na maior parte dos casos. É verdade, nós fomos escravos, e construímos as pirâmides, eles não nos deixavam sermos unidos, eles fizeram todo tipo de coisa ruim. Tem histórias que, conforme você as lê, você cada vez mais odeia o vilão, mas aqui, desde o começo, eles apenas sofrem, e sofrem, e sofrem… e então eles se afogam.

Eu imagino Deus encontrando o produtor do filme e dizendo-lhe: “Que tal três pragas? Pra que você precisa de dez? No final eles não vão concordar de qualquer jeito! Que tal você escolher as três melhores pragas e nós jogamos apenas estas?” E Deus diz: “Não! Eu sou Deus, eu posso fazer o que eu quiser! Você está demitido!”

Se fosse por mim, o faraó não precisaria de sequer uma praga. Apenas uma ameaça de uma praga bastaria!

Eu traduzi do hebraico o conto de Etgar Keret, “A Morte dos Primogênitos”, no qual ele nos oferece a oportunidade de nos colocarmos no lugar dos egípcios, para variar. Aproveitem!

Morte dos Primogênitos

Conto de Etgar Keret, do livro Tzinorot

No fim de Junho, após a praga dos sapos, começou um grande êxodo do vale. Aqueles que tinham possibilidade, decidiram deixar alguém que cuidasse de seus bens, tomar sua família e começar uma jornada longa para a Núbia e então aguardar até que passasse a ira do deus hebreu, e deixasse de mandar suas pragas. Em uma das manhãs, papai levou Abdu e eu para a estrada principal, e juntos observamos quietos a fila de carroças que se afastava. Papai já estava por ir quando Abdu juntou coragem para fazer a pergunta que eu receava perguntar.

“Papai, porque nós não vamos com eles? Pois somos das famílias mais ricas do vale, por que não deixas alguém para olhar nossos campos e viajamos com eles?”

Papai olhou para Abdu, um sorriso suave espalhado por seus lábios, “Por que temos que fugir, Abdu? Também tu temes o deus hebreu?”

“Eu não temo nenhum homem, ou deus,” respondeu Abdu com raiva, “põe diante de mim qualquer oponente, e o golpearei com minha espada! Mas as pragas que são jogadas sobre nós caem do céu e não tenho nenhuma pista do inimigo que eu possa atacar. Por que não nos juntamos aos viajantes a Núbia? Pois se não há um inimigo armado diante de nós, nossa permanência aqui não ajuda de forma alguma o faraó.”

“Disseste uma verdade, de fato é astuto e cruel o deus dos hebreus, ele mesmo não pode ser visto, mas sua praga é terrível.” Disse papai, seu sorriso desbotando um pouco, “mas tu tens de entender, um juramento me prende a esta terra e não me permite mandar minha família à Núbia.”

“Um juramento?”, surpreendeu-se Abdu, “que juramento?”

“Um juramento que fiz há muitos anos, antes do teu nascimento,” disse papai, seu sorriso suave pairava em seus lábios. Ele dobrou sua túnica e sentou-se sobre a terra do campo com as pernas cruzadas, “venham, sentem-se comigo,” disse e bateu sobre a terra, “e contarei a vocês sua história.” Abdu sentou-se do lado direito de papai, e eu do seu lado esquerdo. Papai levantou por um momento terra do chão, despedaçou-a entre suas mãos e começou a contar.

“Sabem vocês que minhas raízes não cresceram num solo fértil. Depois que me casei com sua mãe, tive que deixá-la na casa de seu tio e sair com meu irmão mais velho para as terras distantes onde óleo negro jorra pela terra. Quatro anos se passaram com saudades e viagens de cá a lá, e nesses anos ganhei muito dinheiro com o comércio. No final desses anos voltei para o Egito. Tomei de volta sua mãe bondosa, que não deixou de me esperar, e comprei um pedaço de terra aqui no vale. No dia em que terminei de construir nossa casa, fiz dois juramentos. Um foi que nunca deixarei o vale, e o segundo – que farei tudo que puder para evitar mais uma separação, mesmo que temporária, da minha família.”

Papai provou a terra que colou em sua mão, levantou sua cabeça e olhou nos olhos de Abdu. “Já em minha juventude sabia que família é como uma planta—se a separares de suas raízes ela se degenerará. Se a cortares em pedaços, morrerá. Mas se a deixares na terra inteira, nem deus nem espírito algum poderão derrotá-la. A planta nascerá com a terra, e morrerá com ela.”

Depois dessa conversa com papai, nos sentimos fortes, e não derrotados. Soubemos o segredo de nossa força, e o guardamos com zelo. Cada uma das pragas apenas contribuiu para nos fortalecer, para nossa união. Nós tiramos os piolhos uns dos outros, cuidamos das feridas dos membros da família. Na manhã seguinte da praga do granizo, conseguimos até mesmo sorrir, quando vimos a cara assustada de Abdu, que acordara de seu profundo sono noturno, que nem mesmo as pedras de granizo que o deus hebreu nos mandou conseguiram penetrá-lo. Assim passamos nove pragas, feridos porém sem danos. E então perto do fim de Agosto chegou a morte dos primogênitos.

Acordei no meio da noite com os gritos das vizinhas, e corri para fora de casa. Todos estavam ali, menos Abdu. Samira, que morava justo na frente de nossa casa, nos explicou com gritos e choros o que aconteceu. Corremos alarmados para o quarto de Abdu. Papai entrou primeiro, eu e mamãe depois. Abdu estava estendido na cama, seus olhos fechados.

“Filho,” sussurrou papai com voz rouca e cabisbaixo. “Meu primogênito,” e pela primeira vez em minha vida vi lágrimas em seus olhos. Lágrimas começaram a aparecer também em meus olhos, e mais do que chorava por meu irmão, eu chorava pelo pesar de meu pai. No meio de suas lágrimas, papai percebeu o meu choro. Ele enxugou suas lágrimas com a manga de sua túnica e aproximou-se de mamãe e de mim. Suas mãos enormes abraçaram a mamãe e a mim. Nossos rostos se encostaram, nossas lágrimas se misturaram em um só choro.

“Cruel é o deus dos hebreus,” continuou papai a sussurrar, como se temesse perturbar o descanso de Abdu, “porém não poderá nos derrotar.” —“Talvez ele não tenha morrido?” disse mamãe, “talvez ele apenas dorme?” —“Por favor, Fátma,” sussurrou papai e a beijou delicadamente na testa, “Não nos escape para um mundo de ilusões. Muito foi dito sobre o deus dos hebreus, mas ele não usa duas medidas…”

“Ele não está morto,” gritou mamãe, “não pode ser que haja morrido pois… dorme, ele dorme.” Ela soltou-se de nosso abraço e correu para a cama de Abdu. “Levante-se, filho!” gritou e puxou sua roupa, “Levante-se!” Abdu abriu seus olhos assustado e pulou da cama. “O que aconteceu?” perguntou confuso. “Um milagre, filho,” disse mamãe e o abraçou, seus olhar em direção a papai, “aconteceu um grande milagre.” Mamãe soltou o confuso Abdu e aproximou-se de papai que olhava para o chão no canto do quarto.

“Viste?”, sussurrou, “um grande milagre nos aconteceu. Despertou-se a misericórdia do deus dos hebreus para nós, e zelou por nosso filho.” Papai levantou sua cabeça. A dor contida de antes virou uma ira contida. “O deus dos hebreus não tem por nós nenhuma misericórdia ou bondade,” disse com voz encharcada de ira. “Apenas verdade. Apenas verdade.” Seus olhos de sangue eram como duas pedras de granizo, e seu olhar lançou sobre mim um pavor maior que todas as dez pragas juntas.

“Por que zanga-te?” perguntou mamãe, “pois tens que estar contente, nosso Abdu vive…” “Ele não é teu primogênito,” interrompeu-a. Papai levantou sua mão como se fosse batê-la, mas seu punho congelou no ar. Mamãe caiu em suas pernas e explodiu em choro como se tivesse sido atingida por um golpe invisível. Assim ficamos os quatro sem nos movermos, firmes e parados em nossos lugares como o cedro antes de ser cortado. “De fato cruel é o deus dos hebreus,” disse papai, virou-se para trás e saiu do quarto.


Imagem: Death of the Pharaoh Firstborn son, Lawrence Alma-Tadema, 1872. Wikimedia
Conto original em hebraico, e uma tradução ao inglês.