A Morte e a morte de Erez

03/11/2016 | Sociedade

Domingo de manhã, ao sair de casa, vi esse aviso, porcamente grudado na porta do meu edifício. Informa a respeito do falecimento de Erez T.

É comum ver este tipo de cartaz, grudado meio de qualquer jeito pelas paredes e postes nas ruas de Israel, anunciando o falecimento ou a cerimônia em memória de alguém. É coisa organizada pela família, às vezes amigos, às vezes lugar de trabalho. Diz, de forma soberbamente breve quem era o morto, quem são seus familiares, e onde será guardado o luto.

São todos exatamente assim neste formato. Fonte quadrada e pesada, bordas grossas e pouca margem. Design duro, pesado, tétrico, sucinto e feio.

Demorou uns segundos para eu me dar conta quem era Erez T. Eu não sabia seu nome completo, mas suspeitava que era meu vizinho do segundo andar.

Eu mal o conheci. Cumprimentava quando cruzava na rua com meu melhor vago-aceno-de-cabeça de curitibano. Ele também, mal respondia, e provavelmente nem me olhava. Nunca vou ficar sabendo se olhava, porque tinha cada olho virado para um lado.

Ele era religioso e vestia-se todos os dias da mesma maneira: calça preta e camisa branca. Veio nos receber na porta do nosso apartamento quando nos mudamos. Fez questão de dizer e repetir com seu difícil hebraico de língua presa, que era dono de uma pequena vendinha na esquina, transformando as boas vindas em reclame. Em três anos, nunca comprei lá. Em parte, por não precisar. Em parte, porque Erez T. me deixava desconfortável. A pequena propaganda do seu negócio, logo na nossa chegada, foi o de menos.

Erez tinha mais de dois metros de altura e era relativamente obeso. Usava botas ortopédicas gigantescas e se movia com extrema dificuldade, mesmo não sendo velho. Era fácil saber quando chegava no prédio pelas pisadas fortes e barulhentas nas escadarias. A Preta, no começo, ainda latia ao ouvi-lo. Depois, como nós, se acostumou.
Mas nunca se acostumou com os escândalos. Escândalos histéricos e relativamente frequentes: Erez gritava enlouquecidamente para a senhora religiosa que era a síndica, logo na frente da minha porta. Era porque a luz da entrada estava queimada e, por isso, não viu o pequeno desnível na porta e, por isso caiu e desabou sobre o braço e, por isso, o braço estava machucado e, por isso, iria cobrar o seguro contra danos do prédio, e ia processar todo mundo. Não estava brincando: daquela vez (porque não tinha sido a primeira) chamou uma ambulância que, com o endereço errado, veio parar na minha porta. Eu sei de todos esses detalhes porque, não só fui eu quem tentou levantar ele do chão quando praticamente se jogou, fazendo um formidável barulho, como também ouvi todo o resto da conversa que descrevi, que terminou com Erez subindo para seu apartamento, ainda gritando na sua dicção ininteligível, e a vizinha da frente avisando com um gesto que aquele cara era completamente louco. Só daí a Preta se acalmou. E eu.

Passei hoje na frente do seu pequeno mercadinho de bairro. Seguia completamente zoneado, como sempre. Mas agora estava fechado, com um cartaz igual ao da porta do meu prédio grudado nas grades, informando que Erez T. havia falecido. “É com grande tristeza e pesar que informamos o falecimento de nosso querido filho, irmão e tio EREZ T., abençoada seja sua memória. O enterro será hoje, na hora tal e tal, no cemitério tal. Será guardada shivá (luto) no endereço tal e tal.”

Artigos relacionados

Ver mais artigos

Comentários    ( 0 )

Comments are closed.