A MPB e sua permissão para minhas saudades

24/12/2017 | Cultura e Esporte

Assisti há alguns dias um show de MPB oferecido pela Embaixada do Brasil em Israel. No palco de um pequeno teatro no lindíssimo centro histórico de Yafo, músicos brasileiros de longa carreira por aqui (com exceção de um, me parece) fizeram uma incursão pelos anos 70 e 80. Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Jorge Benjor, esses nomes básicos.

Manjados. Tocados exaustivamente ao longo de 5 décadas. Slogan de movimentos de naturezas diversas. Batidos mesmo. Mas, em resumo, a melhor coisa que já se produziu na música mundial (na minha opinião).

Morri de saudade.

Pra mim, ficou estranho sentir tamanha carga de emoção. Na terceira música, já estava quase às lágrimas. Fiquei emocionada até o fim, eu e todo mundo sentado ali, entre israelenses e brazucas.

Saí do teatro reflexiva, depois de ter conseguido pegar um brigadeiro, que foi servido após o show em forminhas verdes e amarelas. Depois de mais de cinco anos lembrando das desgraceiras que me fizeram querer deixar o Brasil (não, não sou da geração da aliá ideológica, muito embora não tenha considerado nenhum outro país além desse para adotar como meu), me pego com saudade de tantas coisas: da cordialidade, da paciência e da sofreguidão brasileira, em especial a dos meus amigos; das dimensões continentais, do verde sem fim da Serra da Mantiqueira, das praias de areias branquinhas; dos bares pé-na-areia, água de coco e milho na praia (tão saudável, né?), da garrafa de litro de cerveja a 6 reais.

E da música. Porque, aqui, não há a diversidade que há no Brasil. O som é metálico, repetitivo. Grita-se demais. Gosto de um ou outro músico local, que é sempre outsider e de cujo nome não consigo me lembrar – ainda hoje, tenho uma brutal dificuldade em guardar nomes locais, que são todos curtos além da conta para serem lembrados (Ori, Oren, Roni, Roi etc. etc.). Não há balanço e não há estética. Também não compreendo a poesia, uma vez que não domino a língua nem quando não se brinca com ela, como se faz nas canções. Não compreendo as histórias e referências, pois não as conheço.

Puxa, que saudade de ouvir música brasileira.

Ela é tanta que, em minha última e terrivelmente veloz passagem por São Paulo no último mês, durante o churrasco na casa de um amigo (você, Nara), e depois de ouvir por horas os mesmos Caetano, Marisa Monte e Gilberto Gil de sempre, pedi que ele me mostrasse algo de novo e bom na MPB. “Não tem”, disse ele. Aqueles que me acompanharam ao longo dos meus muitos anos de existência continuam sendo o que há de melhor.

Pensando nisso tudo, entendi que lacrimejei de saudade no teatro em Yafo pelo motivo certo: estava ouvindo de fato o que já houve de melhor na música do planeta Terra. E preciso continuar me rendendo a estes sons, já que os atuais não ficarão marcados na história do país.

E então me lembrei que, ao decidir vir para cá, vi uma possibilidade de futuro que já não via lá. Essa mesma falta de futuro que agora vi refletida na empobrecida MPB. Talvez aquele tenha sido um chorinho de saudade do meu passado, que ficou no Brasil.

Complicadinho esse negócio de ser imigrante.

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Comentários    ( 2 )

2 comentários para “A MPB e sua permissão para minhas saudades”

  • André Zular

    24/12/2017 at 23:48

    Miriam! Que porta de entrada boa ao site a sua crônica! Me lembrou dos melhores momentos da Ruth Manus, do Estadão. Parabéns!

    Agora falando de MPB, até que apareceram algumas coisas boas ultimamente, mas o bacana aínda é descobrir os talentos ou musicas que ficaram ofuscados no meio de tantos nas décadas de 60 e 70. Aqui vão algumas de presente para você:

    Arthur Verocai – Dedicada a ela: https://youtu.be/8U9o2jQiRXw
    Flora Purim – Se fosse com você : https://youtu.be/HUsvv11N-iw
    Maria Medalha e Vinícius – Algum lugar: https://youtu.be/VT4ebrIuoHM
    Egberto Gismonti – Pêndulo: https://youtu.be/iHCZ1jjMkfQ

    Abraços e continue escrevendo. Agora vou ler mais textos teus!

    • Miriam Sanger

      25/12/2017 at 10:18

      Obrigada pelo elogio, André. Vou ouvir os sons que você indicou. Abração! Miriam

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