Mulheres em Israel – Uma questão de sensibilidade…

 
Yeshayahu Leibowitz foi um filósofo e cientista judeu, famoso pelas suas opiniões diretas, e muitas vezes controversas, sobre judaísmo, ética, religião, política e sociedade Israeli. Como Judeu Ortodoxo, chocava o mundo religioso com argumentações corajosas acerca da necessidade da separação do Estado e Religião, sobre a impossibilidade da vinda do messias e sobre o direito palestino a parte do território israelense.No campo social, uma de suas maiores lutas era em prol da equidade entre os sexos.  Em uma de suas palestras, ao responder qual seria o papel correto das mulheres na sociedade afirmou:
– “A maior revolução mundial ocorreu quando a civilização deixou de ser um governo de homens para se estabelecer como um governo de humanos. O judaísmo sempre entendeu o papel da mulher como um papel equiname aos homens. Isso ocorre graças a a frase: “Macho e fêmea, Ele os Criou e os nomeou Adão”. Percebam que a frase não esta no singular, e sim no plural. O Judaísmo –  e consequentemente Israel-  não poderá sobreviver a modernidade se não incluir a mulher em seu sistema cultural”.
Até a criação de facto do Estado Judeu, as mulheres não possuíam diversos direitos em Israel. Estavam subordinadas a lei Otomana que outorgava competência única aos tribunais religiosos. Não podiam votar ou ser votadas. Não podiam ocupar um cargo de direção, nem ter homens como empregados. Não tinham direito a sua herança (que deveria ser entregue integralmente ao seu marido) não podiam estabelecer sociedades comerciais.Essa situação contrastava com os ideais sionistas que sob grande influência do socialismo e laicismo, almejava um mundo de igualdade baseada na lei civil. Apenas a título de informação o 2º congresso sionista, ocorrido em 1898 já determinava o direito ao voto a todas as mulheres, antes mesmo de qualquer parlamento europeu da época.
Após a independência de Israel, logo em 1951 a Knesset promulgou uma lei considerada revolucionária para a sua época – A “Lei de igualdade entre os sexos” que acabava com qualquer norma, regulamento ou lei (inclusive religiosa) que na esfera civil negasse direitos as mulheres pelo fato único de serem do sexo feminino.
Tivemos nossa Golda Meir como 1º Ministra, muito antes da Alemanha de Merkel, ou do Brasil de Dilma Roussef…
E então – de repente – há o retrocesso. Num processo denominado como “revolução da castidade” correntes ortodoxas judaicas do país iniciam um movimento que objetiva retroagir na história das conquistas sociais.Começou devagar.  Linhas de onibus “kasher” foram instituídas em Jerusalém. Ônibus (pagos com o dinheiro  dos impostos laicos) em que mulheres não poderiam sentar na parte posterior dos ônibus. Independente de sua linha religiosa, as mulheres eram obrigadas – e algumas vezes até forçadas – a se deslocar para a parte traseira do transporte público.Quando as críticas começaram a surgir, os defensores de tal prática argumentavam em prol da “sensibilidade religiosa” de tal corrente judaica – afinal de contas, eles não podiam “correr o risco” de tocar no cotovelo de uma jovem donzela.
Em pouco tempo, a forma de fazer propaganda em Jerusalem foi sendo transformada. Outdoors, publicações e anuncios que traziam fotos de mulheres começaram a ser vandalizados. Com o olho nos prejuízos financeiros, as agência de propaganda iniciaram um processo de “ortodoxização” de seus trabalhos. Um Exemplo claro – Em Tel Aviv, a foto de uma mulher tenta vender um novo produto de uma grande loja de roupas. Em Jerusalem a mesma foto era utilizada –  com o pequeno detalhe de que a mulher teve a sua cabeça cortada.
Israel - ConexaoIsrael - Honigman
Do lado esquerdo – Jerusalém; Do lado direito – Tel Aviv.

Quando as críticas começaram a surgir, os defensores de tal prática argumentavam em prol da “sensibilidade religiosa” de tal correntes judaica – afinal de contas, as agências de propaganda não podiam “correr o risco” de perder potenciais clientes e não viam muito problema em cortar a cabeça das mulheres em fotos e anúncios que incomodariam um consumidor potencial, além do prejuízo óbvio com as constantes vandalizações de seu trabalho.

Pouco a pouco, a questão chegou a uma das intituições mais importantes do país – O Exército. SoldadAs foram impedidas de participar de cerimônias e atos nacionais com a desculpa de que a suas vozes seriam uma tentação proibida para soldados religiosos.

Quando as críticas começaram a surgir, os defensores desse impedimento argumentavam em prol da “sensibilidade religiosa” de tal corrente judaica – afinal de contas, qual seria o problema de censurar a participação feminina nos atos nacionais, se isso era um constrangimento para uma parcela da sociedade?

A história não é linear. Não estamos caminhando sempre para frente. É preciso cuidado e atenção com grupos que sob a desculpa da “sensibilidade religiosa” demandam da sociedade um comportamento retrógrado e incompatível com a democracia.

Afinal de contas, porque apenas um grupo deve ter sua sensibilidade respeitada? Estas correntes ortodoxas praticam diversos comportamentos que – aos meus olhos – são extremamente ofensivas: ofensa ao valor da mulher como ser humano, ofensa aos ideais iluministas que criaram a idade moderna, ofensa a liberdade conquistada pelo povo judeu libertado da opressão dos grupos majoritários, ofensa aos princípios da tolerância e da coexistência.

Pouco a pouco as características de um país plural e libertário vai se perdendo em meio ao oceano de “sensibilidades”. Pouco a pouco, as nossas conquistas estão sendo apagadas e os progressos se tornando retrocessos. Pouco a pouco o século XXI pode se tornar a idade média.

Esqueceremos do congresso sionista e seus valores de igualdade? Devemos ignorar Golda Meir e o nosso orgulho nacional por uma mulher como chefe de Estado? Apagaremos a existência de Yeshayahu Leibowitz e a ortodoxia tolerante capaz de dialogar com o mundo moderno?

A resposta, é claro, depende de nossa sensibilidade….

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