O mundo animal dos imigrantes

27/01/2016 | Sionismo; Sociedade

Os ataques contra a comunidade judaica da França nos últimos dois anos deram um impulso sem precedentes à imigração de franceses para Israel. Somando números de 2014 e 2015, 14,5 mil deles fizeram as malas, viajaram cinco horinhas de avião e orgulhosamente agregaram a nacionalidade israelense à europeia (7 mil em 2014 e 7,9 mil em 2015).

O fato vem sendo comemorado efusivamente pela pela agência judaica[ref]Agência Judaica: organização responsável pela imigração judaica (aliá).[/ref] e pela mídia, claro, que se esbalda com fotos de lindas famílias francesinhas desembarcando de voos lotados delas. No dia 28 de julho de 2015, virou assunto de capa de jornais e de abertura de noticiários na TV a chegada, em um único dia, de 200 franceses, mais da metade deles crianças. Um sonho lindo, de fato, ainda mais se pensarmos que levou o ano inteiro de 2015 para que, em número recorde, 486 cidadãos tupiniquins se tornassem israelenses.

Mas um sonho que agora está com jeito de “voo de galinha” (imagem que adoro).

Nessa semana, exibindo uma leve maré de pessimismo, vi várias matérias a respeito das dificuldades pelas quais passa essa doce comunidade de imigrantes “croisssant” ou “boeing”, como foram apelidados pelo fato de muitos chefes de família terem decidido manter seus negócios na França para viverem ali durante a semana, passando apenas o fim de semana com mulher e filhos por aqui.

Os personagens de uma recente reportagem do Jerusalem Post, de uma família que adotou como lar a minha suburbana Raanana, deram a si mesmos mais um ano de janela antes de assumirem que a experiência não deu certo e que talvez seja hora de voltar para Paris. Como é muito comum acontecer, as duas filhas adolescentes estão cada vez mais adaptadas, enquanto que os pais tropeçam nos entraves seculares do país: reconhecimento de diploma, burocracia, dificuldades com o idioma.

De fato, eita linguinha do cão, viu?

Por outro lado, uma pesquisa recente divulgou que 43% dos franceses já pensou ou está pensando em aliá. E assim entendo que os números de imigrantes, tudo indica, não haverão de ceder[ref]http://www.jpost.com/Diaspora/Poll-43-percent-of-French-Jews-interested-in-aliya-442119[/ref], apesar de haver informação clara e disponível a respeito das dificuldades desse movimento. Elas, aliás, não são novas: já nas primeiras aliot[ref]Aliot, plural de aliá: imigração judaica a Israel.[/ref], dos anos 1890, milhares de judeus chegavam para alguns anos depois desistir, pendurar a chuteira, cair fora. A diferença é que essas agruras diziam respeito à natureza indomável desse país (na questão do clima, sempre extremo, e da terra, metade desértica, outra metade pantanosa), à pobreza e à epidemia crônica de malária. E, claro, à oposição árabe.

Hoje há ar-condicionado em todo lugar, o serviço de meteorologia funciona bem a ponto de nos avisar (com boa margem de acerto) se na semana que vem haverá tempestade de areia ou de granizo, sufá (tormenta) ou outras coisinhas do gênero. Já não há malária. Mas há pobreza e a oposição árabe agora se chama, pros mais íntimos, intifada das facas. Somam-se a eles outros elementos que em imigrações anteriores não eram tão importantes, mas que agora são vitais, quase todos  passando pela questão da recolocação profissional. Para o milhão e meio de russos que chegaram na década de 1990, esse aspecto teve que ser superado na marra, já que não havia para onde voltar. Médico esfregando chão de hospital e violinista servindo falafel entrou na cena israelense. Mas para muitos franceses, ulalá!, esse cenário não funciona. E digo isso sem nenhum, absolutamente nenhum julgamento.

Mesmo em Israel, imigrante é imigrante, essa criatura que não sabe se expressar apropriadamente e que leva anos até entender onde está – coisas, por vezes, podem não chegar a acontecer. Esse não é o quadro apenas para os franceses. É o cotidiano de todos os imigrantes. Varia apenas a reação de cada um e o tempo em que ela possa acontecer. Há estudos sobre isso que afirmam que os primeiros seis meses em Israel são de lua-de-mel. Durante esse período, o governo oferece ajuda financeira e de moradia, o que permite que todo mundo possa voltar a ser estudante profissional (o imigrante tem direito a cursos intensivos gratuitos de hebraico com aulas de 5 horas, 5 vezes por semana, durante 5 meses). Depois desse período, vida real. Essa ajuda acaba, o cidadão vai pro mercado de trabalho e começa a entender que cinco meses de estudo de hebraico ajudam, mas não resolvem nada.

E a porca torce o rabo.

Gosto muito da postura de uma das diretoras do Beit Brasil, ONG criada há cerca de dois anos e que apoia a integração dos imigrantes brasileiros por aqui. Acompanho suas mensagens na página do Facebook direcionada a eles, em que ela afirma, em português mas com a firmeza israelense, que tem que ser macho para vencer a aliá. É preciso se desprender, se reinventar, engolir sapo, entender que está se embarcando em uma nova vida, com novos personagens, outros desafios (muitas vezes infinitamente maiores do que aqueles que enfrentados no país de origem). Expressões como “começar do zero” aparecem direto nessas mensagens.

Em resumo, quem não tem cão precisa começar a caçar com gato. Bicho que, aliás, não falta por aqui.

No entanto, todos esses avisos, que são até recebidos antes do embarque para cá, não fazem o efeito devido porque o sonho supera tudo. Israel, terra do leite e do mel, os espera com um pacote de benefícios e confere aos imigrantes – enquanto ainda não chegaram – esse importantíssimo papel de ingressar na contagem demográfica do país. O que ninguém sabe é que, uma vez aqui, vira meio cada um por si.

Fiz um comentário sobre isso em minha página do Facebook e uma amiga querida jornalista escreveu que “só a segunda geração vai colher resultados do esforço da primeira”. Concordo. A questão é que isso nem sempre parece suportável para todos.

E porque escrevo tudo isso? Não para desestimular ninguém, longe de mim. Talvez seja minha tentativa polyana de dizer para aqueles que estão pensando em fazer daqui o seu lar que o sonho é possível sim, mas certamente não com a sequência de eventos que trazemos gravada em nossa cabeça. Tenho toda a certeza de que a preparação para esse passo é muito mais importante do que o passo em si. Trazer na manga uma possibilidade alternativa e suportável de sustento é fundamental. Entender que o que se vai encontrar será invariavelmente diferente do que se imaginava. Que o orgulho vai ter que ser deixado na aduana brasileira e que o novo passaporte vai definir que, se você não lutar feito um soldado da IDF, as chances de você acabar tomando o voo de volta serão enormes. Que se você não adotar a mentalidade “faça você mesmo” e se tornar um israelense ao menos fora de casa não terá nem ao menos casa para manter. E tem que vir inteiro, sem usar o boeing francês e sem se permitir expressar a falta que o croissant te faz.

E sem botar os burros na frente da carroça: prepare-se e venha. Não o inverso.

Foto de capa de Rodrigo Uriartt. Seu Flickr é https://www.flickr.com/photos/ruriak/.

Comentários    ( 12 )

12 Responses to “O mundo animal dos imigrantes”

  • Ronan

    27/01/2016 at 14:55

    Prezada Miriam, acompanho sempre e com muito interesse o Conexão,acho os artigos atuais e cheio de conteudo.
    Vale ressaltar que dos muitos que ja li, ligados ao tema ALIAH, este escrito por Voçe mostra de forma cristalina as dificuldades que o imigrante enfrenta em Israel, sem dourar a pilula e ou chegar ao extremo do alarmismo.Concordo em genero e numero, vamos sim , desapegados e preparados para um novo começo e Israel. Sem pensar no boeing, frances,ingles brasileiro……….Sds

    Ronan – Manaus

    • Miriam Sanger

      27/01/2016 at 18:42

      Bóra lá! Ou bóra aqui 🙂
      Obrigada pela mensagem simpática.
      Miriam

  • Mario S Nusbaum

    27/01/2016 at 16:11

    Achei louvável você publicar este artigo (muito bem escrito por sinal) Miriam, mas tenho a impressão de que não vai convencer muita gente.
    Os ancestrais de de milhões de brasileiros, eu inclusive, enfrentaram desafios muito maiores do que os que fazem aliá hoje e venceram. O “segredo” está numa frase do seu texto: “já que não havia para onde voltar”

    • Miriam Sanger

      27/01/2016 at 18:45

      Oi, Mario.
      É por aí mesmo. Mesmo porque, atualmente, há muito pouca aliá ideológica — ela é mais motivada por motivos financeiros e pela busca de qualidade de vida.
      Quero esclarecer, no entanto, que não estou tentando convencer ninguém não. Só me deu vontade de escrever esse artigo por conta do que ando lendo sobre os franceses, e que certamente reflete a situação de imigrantes de outros países.
      Abraço e obrigada pela mensagem!
      Miriam

  • Paula

    27/01/2016 at 19:11

    Concordo que a aliah nao eh um mar de rosas e que as vezes as pessoas vem e nao entendem que para dar certo deve-se arregaçar as mangas e dar a cara a tapa. Mas devo dizer que o tom ironico do texto eh quase agressivo e por que nao dizer preconceituoso. Julgar meios e motivos de alguem fazer aliah nao faz mais sentido nos dias de hoje

    • Miriam Sanger

      28/01/2016 at 10:34

      Olá, Paula.
      Na sua opinião, fui agressiva e preconceituosa. Na minha, você apenas não entendeu o texto.
      Obrigada pela mensagem.
      Miriam

  • Haim Dorin

    28/01/2016 at 11:58

    Prezada Miriam, concordo plenamente com o que está escrito na nota.
    Sem dúvida, o primeiro passo de preparação ( + ideologia , que não é uma má palavra ) é o mais importante. O OLE “que não tem lugar para onde voltar”, sem dúvida, e, paradoxalmente, mais propensos a permanecer no país. Acho que deixar o orgulho, sucesso e posição social em nossos países de origem antes de embarcar no avião, sem dúvida, não só permite que nos sintamos em nossa própria casa e sei que fizemos o passo certo, mas também nos fazem sentir “feito” e não esperar para a segunda geração desfrute do nosso “investimento”,
    Abraços !

    • Miriam Sanger

      30/01/2016 at 20:08

      Obrigada pela mensagem simpática, Haim.
      É isso aí!
      Abraço,
      Miriam

  • Raul Gottlieb

    31/01/2016 at 13:02

    Oi Miriam,

    Qualquer imigração é muito complicada. Pode ser para Israel, para os USA, para o Canadá, Austrália ou Alemanha.

    Tenho amigos que imigraram por motivos diversos para cada um destes lugares (como se sabe o PT é o maior impulsionador de imigração que o Brasil jamais teve). Alguns voltaram e outros não. Mas todos sofreram para se adaptar.

    Claro que quem imigra por ideologia tem mais tolerância para passar o primeiro e mais complicado período. Quem imigra por razões econômicas ou políticas fica muito mais suscetível a voltar ou a procurar outro local.

    Nada disso é uma grande novidade. Mas é importante dizer que Israel faz um papel muito bom na questão da imigração. Principalmente quando se mede a quantidade percentual de imigrantes versus a população do país.

    As diversas levas chegam e são absorvidas. Com maiores e menores dificuldades, mas todas as diversas levas acabam sendo absorvidas. Até os etíopes que vem de um meio cultural MUITO diferente do ocidental estão se integrando.

    A imigração é mais um ponto onde Israel tira uma das melhores notas no contexto mundial.

    Abraço,
    Raul

    • Miriam Sanger

      07/02/2016 at 18:13

      Olá, Raul.
      Como disse minha amiga jornalista, a primeira geração paga o pato e a segunda colhe os frutos. Mesmo assim, a gente se diverte :).
      Abraço e obrigada pela mensagem,
      Miriam

  • Marcelo Starec

    07/02/2016 at 17:46

    Oi Miriam,

    Belo texto!…Gostei…Quero aqui não somente concordar com tudo isso como também afirmar que: 1) Ninguém deve imigrar para resolver os seus “probleminhas pessoais”…Eles viajam contigo, na mala!…rs….e 2) Não se deve buscar Israel simplesmente para “fugir de uma crise econômica”…A adaptação e todas as barreiras não são simples de enfrentar…É ótimo poder estar nesse maravilhoso país, mas se você não pensa assim, não venha “simplesmente” porque em Israel o salário mínimo é maior etc. etc. etc…Venha eventualmente também por isso, mas o motivo principal tem de ser uma identificação com o país, de algum modo…Entendo que assim se vence as dificuldades, pois estar em Israel já é algo bom por si só…Outros fatores (como crise, dificuldades etc…) servem tão somente como uma pequena “ajuda”, digamos assim, mas não devem ser o único motivo para essa mudança….

    Abraços,

    Marcelo.

    • Miriam Sanger

      07/02/2016 at 18:12

      Marcelo, olá.
      Obrigada pela mensagem carinhosa.
      Um abraço,
      Miriam

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