Muro para lamentações

Bibi é um dos melhores cozinheiros que eu conheço. Sua especialidade é cozinhar gente afoita em água fria. Ainda no seu mandato passado, o governo aprovou um importante plano para o controle e administração do Muro das Lamentações. Conforme votado, o plano iria diametralmente contra os seus importantes aliados ortodoxos, mas era essencial para conseguir o apoio da comunidade reformista nos EUA.

Ia portanto nosso Master Chef, cozinhando os reformistas de um lado—prometendo sem nunca cumprir, e os ortodoxos de outro—sendo completamente leniente com a lei que seu próprio governo criara.

A lei aqui em questão regulamentaria uma área em frente ao muro para que homens e mulheres rezassem juntos, de acordo com a corrente reformista do judaísmo, a mais popular entre judeus norte-americanos. Hoje, toda a área em frente ao muro é controlada pelo rabinato. Toda atividade ali deve respeitar os rigores e as leis de acordo com os preceitos ultra-ortodoxos. Homens e mulheres separados, festividades controladas (nada de Bat-Mitzvah, ou qualquer outra moda desses últimos 300 anos).

O que significa que mulheres rabinas das comunidades reformistas e liberais não podem ler a Torá, nem vestir Talit ou Tefilin no mais sagrado lugar para o judaísmo.

Em uma cerimônia que já se tornou clássica, centenas e até milhares de judeus reformistas e de correntes não-ortodoxas vão ao Muro para celebrar cada início do mês judaico, incluindo aqui homens e mulheres—entre elas algumas rabinas. Tentam contrabandear rolos da Torá para dentro da área das mulheres, às vezes com mais, outras com menos sucesso—o que é proibido pelos ortodoxos. (Leia aqui em mais detalhes uma matéria sobre este tema, do Yair, e este outro aqui do Marcelo)

A fim de resolver esta questão, sob pressão de vários lobbies judaicos não-ortodoxos americanos, o governo de Netanyahu aprovou uma lei que regulamentaria um espaço específico para que judeus reformistas e outras correntes liberais pudessem realizar cerimônias de acordo com seus preceitos, sem o controle do rabinato ou outra organização ultra-ortodoxa.

Os ultra-ortodoxos de Israel não gostaram da ideia. Como Bibi tem a parte dos seu corpo mais sensível firmemente agarrado pelas mãos dos partidos ortodoxos—a coalizão—ele ficou a enrolar todo mundo e nunca chegou a implementar a lei.

Por fim, dia 24/06, o gabinete votou por cancelar o processo e retornar a administração do Muro e da praça adjacente sob o completo controle do Rabinato (leia-se: ultra-ortodoxos). Continua, portanto, sendo ilegal para uma mulher ler a Torá no Muro das Lamentações, o lugar mais sagrado do judaísmo.

Ilegal significa que a polícia pode intervir neste caso?

Sim e, embora já tenha acontecido, a polícia costuma interceder apenas no caso de violência, o que tem se repetido com bastante frequência.

Em Israel uma mulher judia pode ser presa por “rezar do jeito errado”.

Como Bibi não queria relacionar seu nome com o fato da “única democracia do Oriente Médio” não ter liberdade religiosa justamente para judeus, acabou cedendo ao lobby reformista. Mas nem seu fabuloso poder de cozinhar todo mundo por longos períodos de tempo o salvou: a lei caiu, foi cancelada pelo gabinete e a coisa ficou feia.

Quão feia?

Feia a ponto do Conselho Administrativo da Sochnut HaYehudit (Agência Judaica para Israel) ter decidido cancelar um jantar festivo esta noite com o primeiro-ministro. Um dos membros do conselho, Rabino Rick Jacobs, presidente da União do Judaísmo Reformista, disse que as reuniões não poderiam continuar “como se nada tivesse acontecido”. Ele explicou que cancelar o plano para construir uma seção igualitária no Muro Ocidental e a aprovação do Projeto de Conversão* dos ministros foram o culminar de uma séria crise entre o governo israelense e a diáspora judaica.

* Embora para a sociedade civil em Israel a conversão ao judaísmo nas comunidades judaicas da diáspora é quase sempre aceita, para tudo que é relacionado com a Rabanut (casamentos, enterros, divórcios, dentre outros), apenas a conversão ortodoxa conta. Isso tem humilhado milhares de imigrantes, alguns inclusive do Brasil, que consideram-se judeus, mas tiveram sua conversão “apenas” Conservadora. Algumas pessoas têm o judaísmo de suas famílias questionados, já que são filhos de convertidos. Este projeto visa mudar a forma como a Rabanut encara a conversão feita fora de Israel.

A presidente do Departamento de Atividades para a Diáspora da Organização Sionista Mundial, Gusti Yeoshua-Braverman, publicou uma nota, na qual acusa o governo de mover-se de forma “cínica”, dividindo o povo e desviando o país da concepção sionista de Theodor Herzl.

Nunca antes na história, a Agência Judaica, a Organização Sionista Mundial e o Movimento Reformista haviam se voltado contra o governo.

A briga pelo poder em Israel, em que a religião é usada como ferramenta política, não é nova. Mas o envolvimento dos judeus da diáspora é. A resposta provavelmente também será inédita.