Na escola bilíngue, o terror falou mais alto

No último dia 29 de novembro, sábado, houve uma manifestação em Jerusalém que reuniu mais de mil pessoas contra a a polêmica Lei Nacional que foi aprovada pelo gabinete israelense e que agora vai ser à votação no parlamento, mas isso só virou notícia nos jornais do país no final do domingo [1,2].

O que ocupou a capa dos jornais, programas de rádio e televisão, do sábado à noite até o final do domingo, foi o incêndio criminoso à escola bilingue em Jerusalém. A escola da organização Yad be Yad (Hand in Hand), com mais quatro filiais pelo país, é caracterizada pela educação de coexistência. Lá estudam judeus, árabes mulçumanos e cristãos, armênios. Desde o jardim de infância até o ensino médio, as crianças aprendem hebraico e árabe e as narrativas históricas israelense e palestina. Os parentes também são envolvidos no processo educacional, e todos aprendem a se conhec er e a quebrar preconceitos.

Como mais um episódio da onda de violência e extremismo que vem tomando conta de Jerusalém nos últimos dois meses, o colégio foi invadido e uma das salas do primeiro ano do ensino fundamental, a série onde as crianças são alfabetizadas, foi invadida e incendiada. Pixações racistas e de ódio também foram deixadas nas paredes do colégio: “morte aos árabes”, “basta de assimilação” e “não há coexistência com câncer”.

Cheguei ao colégio ainda na presença dos bombeiros. Os diretores, um professor judeu e uma professora árabe, também já estavam no local. Alguns parentes chegavam também, junto com outros curiosos. A televisão também estava no local e entrevistou o chefe dos bombeiros, os diretores e a vice-prefeita, que repudiou o crime.

Na manhã seguinte fui novamente ao colégio para apoiar os alunos e ver o que era possível ser feito para ajudar. Cheguei às oito horas da manhã e na entrada já haviam dezenas de pessoas e a mídia. Todos impedidos de entrar. Cumprimentei Guy, o responsável pela entrada no colégio, e poucos metros depois cruzava com o prefeito de Jerusalém, que deixava a instituição.

O meu fácil e constante trânsito pelo colégio se dá porque eu tenho um projeto chamado “Árvore da Vida – Jiu Jitsu – Nos Recusamos a Ser Inimigos”, no qualeu dou aula de jiu jitsu para as crianças da escola. Tenho alunos entre 5 e 14 anos. Judeus, árabes e armênios. Cristãos e mulçumanos [3].

Nos recusamos a ser inimigos.
Nos recusamos a ser inimigos.

Apesar de toda a confusão e da presença de diversos pais de crianças que as acompanhavam, o colégio teve um dia normal de aula. Pelo menos era essa a intenção. As duas primeiras horas de aula foram dedicadas ao que aconteceu na noite anterior e as crianças, de todas a séries, fizeram cartazes e desenhos incentivando a coexistência.

Depois entrei na reunião dos pais que estavam no colégio. Na biblioteca todos queriam dar a sua opinião e o medo tomava conta dos pais. Colocar muros mais altos em torno do colégio, câmeras, grades, seguranças, fazer rodízio de pais que vigiariam o colégio. Todos com medo, árabes e judeus. Ninguém está a salvo de extremistas.

Como esse não foi o primeiro ataque ao colégio, porém o mais radical (antes pixações já haviam sido feitas), há o receio de que outros atos de terrorismo possam ocorrer.

Uma das mães presentes na reunião disse que o prefeito enviaria um consultor de segurança para o colégio, e que a prefeitura queria que os pais trouxessem idéias. Então a questão levantada foi que a prefeitura é que deveria trazer propostas, não os pais. As autoridades devem ser responsáveis pela segurança dos cidadãos e, obviamente, do colégio. Eles devem apresentar soluções. Nesse momento, se levanta um outro pai, judeu, e diz: “Como esperar do prefeito uma solução para o problema? Por causa de suas ordens professores e alunos árabes de Jerusalém oriental não conseguem ir para as aulas. Estão presos em seus bairros. Não se pode contar com a prefeitura de Jerusalém”[4]. O medo e a incerteza são sentimentos aflorados entre todos os parentes e envolvidos.

Quando saímos da reunião, já na hora do primeiro recreio, percebi que havia do lado de fora da escola mais de 300 pessoas que manifestavam-se em defesa da democracia, da coexistência e do colégio. Estudantes de diversos colégios de Jerusalém chegaram para prestar solidariedade. Membros de diversas instituições sociais também estiveram presentes.

Ainda no recreio, parei para conversar com um aluno do primeiro ano, afetada pelo incêndio. Ele olhava fixamente em direção à sala de aula, coberta por uma lona verde. Perguntei se estava tudo bem com ele e a resposta foi: “Estou preocupado com o incêndio. Como vou estudar? Não tenho mais caderno nem livros”. Tratei de tirá-lo dali imediatamente e acalmei-o dizendo que ele receberia mateiral novo e poderia continuar aprendendo. Logo após, as crianças foram presenteadas pela diretora com mais 5 minutos de recreio e uma gritaria de alegria foi ouvida por todo o colégio.

Jpeg
Sala da turma do primeiro ano

Os alunos que estudam nas salas afetadas foram movidos para outra área do colégio para que pudessem continuar estudando e tudo foi feito para que sua rotina fosse o mínimo afetada. Muitos me chamaram para mostrar a sua nova sala e, obviamente, tive que ir com eles. Eu usava um broche escrito em hebraico “eu não sou racista” e muitos, ainda aprendendo a ler em hebraico, me perguntavam o que queria dizer racista. Expliquei e imediatamente e eles começaram a gritar: “eu sou árabe”, “eu sou judeu” e olhavam entre si e riam. Suas identidades étnicas e religiosas não importam. Rir e brincar com o balão inflável, além de pular no meu pescoço, era mais importante.

Fim do recreio. Nova visita. A então ministra da justiça, Tzipi Livni (HaTnua), chega ao colégio. Condena o ato e diz que o colégio é um exemplo a ser seguido pela sociedade israelense. Conversa com pais e diz que vai fazer o possível para colocar os que cometeram o crime na cadeia.

Saí da biblioteca, onde a ministra conversou com os pais, e pude entrar na sala incendiada. Não sobrou nada. Livros e cadernos foram empilhados e utilizados para começar o incêndio. Conversei mais com os pais e fui embora do colégio. Me despedi de Guy, na porta, e descobri que os terroristas deixaram também, na noite anterior, duas balas de pistola.

Hoje voltei ao colégio. Um pouco mais calmo que ontem. Cartazes em prol de uma sociedade onde árabes e judeus vivam em paz estão espalhados por todos os lados, dentro e fora da escola. A sala queimada já está quase toda reformada. O trabalho começou ontem mesmo e não parou em nenhum momento. Porém o cheiro de queimado não deixará a ala do primeiro ano tão cedo.

O radicalismo racista que vem ganhando força na sociedade israelense, e em especial em Jerusalém, é uma ameaça iminente à democracia no país. O mais preocupante é que o atual governo, com membros que defendem transferência de árabes, anexação de territórios, e aprovação de leis que tendem a privilegiar etnias, não farão nada para coibir de maneira eficaz atos como esse, muito pelo contrário.

O ataque ao colégio que educa para a coexistência não é somente um ataque aos árabes. É um ataque a todos que querem viver em uma sociedade onde não haja distinção étnica, nacional ou religiosa, como deve ser a sociedade israelense. O câncer, nesse caso, são esses criminosos, que têm que ser levados à justiça e passar bons anos fora do convívio social.

 

[1] – http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4597563,00.html

[2] – http://www.haaretz.com/news/national/.premium-1.629272

[3] – www.treeoflife-bjj.com

[4] – Com o início da onda de atentados o prefeito de Jerusalém ordenou um “crackdown” nos bairros árabes e muitos foram fechados pela polícia em diversos momentos

Comentários    ( 6 )

6 comentários para “Na escola bilíngue, o terror falou mais alto”

  • Marcelo Starec

    06/12/2014 at 21:35

    Oi Marcos,
    Não há como não concordar com grande parte do seu artigo, notadamente com a essência dele!…Quanto a conclusão, entendo muito boa: “O ataque ao colégio que educa para a coexistência não é somente um ataque aos árabes. É um ataque a todos que querem viver em uma sociedade onde não haja distinção étnica, nacional ou religiosa, como deve ser a sociedade israelense. O câncer, nesse caso, são esses criminosos, que têm que ser levados à justiça e passar bons anos fora do convívio social.” Inclusive porque não existem somente árabes lá, mas muito pelo contrário, uma parte grande dos alunos são judeus ou outros, portanto se o alvo fosse os árabes, seria mais lógico um ataque a uma escola árabe!…Entendo que cabe aos judeus e a todo o mundo combater com firmeza o extremismo que exista do lado de cá (e sempre vai existir, infelizmente, pois ninguém é perfeito!)…mas que há também a necessidade de dar ao menos um mínimo de atenção a intolerância do outro lado, o Oriente Médio árabe e islâmico, o qual representa 99,9% do território e onde judeus não podem viver, homossexuais, cristãos e também islâmicos que pensam de modo um pouco distinto. Esses e muitos outros grupos simplesmente não podem viver por lá…e disso, infelizmente, pelo menos na mídia brasileira virtualmente ninguém fala!…mas uma coisa não justifica a outra e apesar de tudo devemos sim sempre combater com firmeza o extremismo e a intolerância do lado de cá, ainda que insignificante comparado com o outro lado, mas é o justo, o correto a ser feito!…
    Abraço,
    Marcelo.

  • Sheila Tellerman

    06/12/2014 at 22:44

    Uma vergonha para nós,judeus e seres humanos preocupados com a democracia e a convivência pacífica entre todos .
    Inconcebível um ato desse porte JUSTAMENTE numa escola que se propõe a mostrar ao mundo que a convivência entre “diferentes”,não só é possível como também a única solução!!!
    Muito triste!!

  • Mario S Nusbaum

    07/12/2014 at 04:45

    “O ataque ao colégio que educa para a coexistência não é somente um ataque aos árabes. É um ataque a todos que querem viver em uma sociedade onde não haja distinção étnica, nacional ou religiosa, como deve ser a sociedade israelense. O câncer, nesse caso, são esses criminosos, que têm que ser levados à justiça e passar bons anos fora do convívio social.”

    Fiquei arrasado quando soube desse ataque, repito, ARRASADO. Dito isso, faço questão de fazer algumas observações:
    1) Ninguém ficou ferido, diferentemente do que aconteceu com os esfaqueados por animais sanguinários em Jerusalém
    2) O FATO de que esta escola existe (presumo que continuará existe, o que nem se sonha possa acontecer em territórios governados pelos palestinos é muito mais significativo do que o incêndio provocado por uma minoria de fanáticos
    3) Concordo em que o ataque ao colégio que educa para a coexistência não é somente um ataque aos árabes, é um ataque a todos que querem viver em uma sociedade onde não haja distinção étnica, nacional ou religiosa, como deve ser a sociedade israelense. Só que é IMPOSSÍVEL haver uma sociedade onde não haja distinção étnica, nacional ou religiosa e em que uma minoria se empenha em ASSASSINAR membros da maioria, onde uma minoria se acha no direito de determinar onde membros da maioria podem rezar.
    Ou seja, nestas condições NÃO é o ataque ao colégio, altamente condenável, que inviabiliza a tal sociedade.
    4) O câncer,inicial, portanto possível de cura, são esses criminosos, que têm que ser levados à justiça e passar bons anos fora do convívio social. O câncer,maligno, em metástase, MORTAL, são os animais hidrófobos dispostos a morrer desde que matem outros compatriotas que professam outra crença, que consideram a data nacional de seu país uma catástrofe. Encerro dizendo que fico tão arrasado quanto fiquei ao saber do incêndio quando vejo que tenho que dizer isso a judeus que moram no país onde tudo aconteceu.
    Esse incêndio, por mais lamentável que seja, não passa de um arranhão comparado aos ferimentos mortais causados por árabes israelenses quando traem seu país.

  • Aron Hazan

    08/12/2014 at 02:05

    Quem não quer quem ?
    Vocês acham que os palestinos adoram os judeus?
    Estive há pouco tempo em Jerusalém.
    E vi muito ódio,

  • Raul Gottlieb

    08/12/2014 at 09:10

    Sim, existem racistas judeus, o que não é novidade para ninguém, a menos dos que pensam serem os judeus seres humanos diferentes de todos os demais.

    Mas diferente do que acontece do lado Palestino, em Israel estes racistas são denunciados moralmente pela esmagadora maioria da sociedade e perseguidos pela polícia e pelo governo.

    Os supostos (porque ainda não foram condenados) responsáveis pelo ataque à escola foram presos. Vejam em http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4600720,00.html

    Fico me perguntando se a baixíssima incidência de racismo na sociedade israelense (principalmente quando comparada com a enorme incidência na vizinhança árabe) tem relação com o repúdio judaico a esta ideologia e com as ações dos sucessivos governos (inclusive deste atual) em colocar fora da lei os perpetradores.

  • nanci

    08/12/2014 at 23:13

    Concordo com o Marcelo, qualquer preconceito é abominável, a convivência é fato, quer queira ou não. Porém , algo que a cada dia tem chamado muito a minha atenção é pelo fato de não se divulgar ou pior, não existir uma condenação pelos árabes israelenses dos atos terroristas de seus pares.

Você é humano? *