Não em meu nome

31/07/2014 | Conflito; Política

Como é do conhecimento de todos, o clima em Israel não é dos melhores. A guerra muda a rotina pelo simples fato de existir, por mais que esteja a 60km de Tel Aviv.

A cada dia que passa, desde a entrada israelense em Gaza o número de mortos não para de aumentar. Do lado palestino vemos, a cada momento, o número de crianças e mulheres mortas subindo. Eu ainda prefiro vê-los como vítimas, pessoas como eu, com sua história particular e seus laços. Há quem prefira chamá-los de “efeito colateral”, como se suas mortes fossem um mal para se chegar a um bem maior. Desumanizar o outro faz parte da manutenção do discurso de inimizade, de afastamento e também facilita a digerir suas mortes (por mais que essa não seja a intenção de todos que utilizam esse termo).

Esse clima pesado, tenso, sempre preocupado com um conhecido que está em Gaza, me fez ver que somos todos envolvidos em um turbilhão de notícias novas, porém não inéditas, que nos querem fazer acreditar que a guerra era o único caminho. Que o Hamas não havia deixado outra alternativa ao governo Israelense.

Será?

Essa guerra não surgiu do nada. Como sempre, em cada evento histórico, há sempre uma série de acontecimentos anteriores que os cercam. Nesse caso, quais eram? Por que o Hamas começaria uma guerra com Israel? Estaria o Hamas interessado em mais uma rodada de mortes sabendo que não teria como vencer o seu inimigo? Será que o Hamas entendeu que esse era o momento de implementar a Jihad em seu pleno significado?

Então analisemos o pano de fundo dessa guerra, o que vinha acontecendo antes, para entendermos se havia algum outra saída..

O governo israelense e a Autoridade Palestina saíam de uma tentativa de negociações fracassada. O esforço dos EUA para manter o diálogo não foi capaz de convencer a extrema direita israelense, um dos fiéis da balança da coalizão. O lobby dos colonos dentro do governo é forte[ref]http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4514484,00.html[/ref] e a criação de dois Estados não é a visão dessa parcela da população.

O resto desse capítulo já é conhecido: Israel se recusa a liberar o quarto grupo de prisioneiros[ref]http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/1.582592[/ref][ref]http://www.jpost.com/Diplomacy-and-Politics/Netanyahu-No-deal-to-release-prisoners-without-clear-benefit-for-Israel-346906[/ref] [ref]http://www.jpost.com/Diplomacy-and-Politics/US-to-Israel-No-Palestinian-prisoner-release-is-violation-of-terms-of-talks-346878[/ref], como havia sido acordado anteriormente, e aprova a construção[ref]http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/1.583200[/ref] em áreas além da Linha Verde. A Autoridade Palestina, por sua vez, no mesmo dia, solicita a participação em 15 convenções da ONU[ref]http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/1.583409[/ref] (havia sido acordado que a Autoridade Palestina não faria isso até o final das conversas). Ambos os lados se acusam pelo fracasso das conversas e apresetam termos novos (não inéditos) para a continuação das conversas[ref]http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/.premium-1.583709[/ref]. 2010.

Pouco tempo depois, ainda buscando a diplomacia como forma de diálogo, um governo de unidade é formado na Palestina. Composto por tecnocratas, o governo tinha Mahmoud Abbas, do Fatah, como presidente. A formação de um pacto nacional entre as principais forças do cenário político palestino formou um governo que representava as populações de Gaza e Cisjordânia, mas foi ignorado pelo governo israelense que criticava a participação do Hamas no cenário político palestino. Israel alegava que não poderia negociar com um governo que o Hamas tivesse envolvido[ref] http://www.theguardian.com/world/2014/jun/02/palestinian-unity-government-sworn-in-fatah-hamas[/ref].

Um dos principais argumentos que se tornou senso comum em Israel é de que Mahmoud Abbas não representava toda a população palestina e quando, por meio de acordos, ele passa a assumir o papel de representante da Cisjordânia e de Gaza,  a argumentação israelense muda para a participação do Hamas no governo[ref]http://mideastafrica.foreignpolicy.com/posts/2014/06/02/palestinian_president_abbas_swears_in_unity_government[/ref]. Será que Israel tem o direito de dizer quem deve participar da política palestina[ref]http://www.timesofisrael.com/palestinian-official-slams-pm-for-nixing-negotiations/[/ref]? O governo de coalizão não é do Hamas, o Hamas reconhece o governo. Como disse anteriomente, o governo é composto por tecnocratas e Mahmoud Abbas, do Fatah, é o presidente[ref] http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4529749,00.html[/ref] [ref]http://mideastafrica.foreignpolicy.com/posts/2014/06/02/palestinian_president_abbas_swears_in_unity_government[/ref].

A entrada do Hamas nesse governo era uma demonstração de fraqueza. O cerco israelense e a total indisponibilidade do novo governo egípcio em dialogar com o grupo terrorista mantinha Gaza isolada do resto do mundo e a situação política do Hamas não era nem um pouco boa. Além disso, a crise financeira em Gaza é gravíssima e os funcionários do Hamas já não recebiam seus salários há mais de 4 meses[ref]http://www.bbc.com/news/world-middle-east-28371966[/ref].

O Fatah vinha recebendo amplo apoio internacional pelas suas iniciativas e o reconhecimento norte-americano e europeu ao novo governo palestino era uma demonstração de que aquele era o caminho a ser seguido pelo governo israelense[ref]http://www.theguardian.com/world/2014/jun/03/israel-us-palestinian-unity-government-netanyahu[/ref].

Apesar do novo cenário na política palestina, a situação não melhorou para o Hamas em Gaza. A crise se arrastava. Há escassez de luz (12 horas intermitentes por dia, antes da guerra[ref]http://www.reuters.com/article/2014/03/15/us-israel-palestinians-gaza-idUSBREA2E0AU20140315[/ref]), não há remédios[ref]http://www.doctorswithoutborders.org/article/gaza-chronic-shortages-drugs-and-medical-supplies[/ref], não há material de construção (importante dizer que o Hamas utilizava o material de contrução que entrava em Gaza para construção de túneis[ref]http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/1.607616[/ref]). O grupo terrorista precisava mostrar à rua palestina que ainda tinha algum poder de persuasão e o meio utilizado é o terrorismo.

Esse era o cenário político que antecedeu o sequestro e assassinato dos três jovens israelenses por terroristas palestinos. Logo após o sequestro, Abu Mazen, na Arábia Saudita, faz um discurso inédito criticando o ato e dizendo que ele fere a luta nacional palestina[ref]http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/1.599584[/ref] e é acusado de traídor, principalmente depois de continuar cooperando com o exército israelense para encontrar os sequestrados e sequestradores[ref]http://www.itnsource.com/en/shotlist//RTV/2014/06/18/RTV180614111/?v=1[/ref].

O governo de Israel imediatamente após o sequestro, culpa o Hamas pelo ato e vota por um “crackdown” na organização[ref]http://www.jpost.com/Defense/Netanyahu-blames-Hamas-for-the-kidnapping-of-the-three-Israeli-teens-359364[/ref]. O exército entra com mais tropas na Cisjordânia, prende membros do Hamas, alguns que haviam sido libertados na negociação pela libertação do soldado israelense Gilad Shalit em 2011[ref]http://www.washingtonpost.com/world/middle_east/israel-goes-after-hamas-in-west-bank-in-wake-of-teens-abduction/2014/06/18/d3576d56-adc5-4027-9a0b-90e570346543_story.html[/ref] [ref]http://uk.reuters.com/article/2014/06/24/uk-palestinian-israel-idUKKBN0EZ18M20140624[/ref]. Quanto a Abu Mazen, o primeiro-ministro israelense disse que depois que o caso do sequestro fosse resolvido, iria avaliar as ações da liderança palestina para saber se era realmente um parceiro confiável[ref]http://www.jpost.com/Operation-Brothers-Keeper/Netanyahus-office-issues-tepid-response-to-Abbas-strong-denunciation-of-kidnappings-359827[/ref]. Será esse governo apoiado por colonos confiável?

Quando os corpos dos meninos foram encontrados, a tensão voltou a crescer em Israel e na Palestina e pedidos de vingança começam a ecoar com força em determinadas parcelas da população[ref]http://www.haaretz.com/news/national/1.602523[/ref]. O discurso de Bibi onde fala que o Hamas iria pagar pelo sequestro e assassinato, é a resposta que os setores radicais do governo queriam[ref]http://www.israelnationalnews.com/News/News.aspx/182364#.U9fhG-OSzsY[/ref].

Um dia depois é encontrado o corpo de um menino palestino de 16 anos, morador de Jerusalém Oriental, que havia sido queimado vivo por jovens israelenses que resolveram vingar o sangue judeu[ref]http://www.timesofisrael.com/palestinians-murdered-arab-teenager-was-burned-alive/[/ref]. Jerusalém Oriental começa a borbulhar e manifestações diárias e violentas no bairro de Shoafat acontecem[ref]http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4537699,00.html[/ref].

A política de “crackdown” no Hamas continua sendo aplicada na Cisjordânia[ref]http://972mag.com/west-bank-kidnapping-israels-crackdown-moves-beyond-hamas-militants/92162/[/ref] e o grupo é o principal perdedor com o governo de coalizão. Abu Mazen perde força por não conseguir defender seus cidadãos da agressão do exército[ref]http://time.com/2917528/palestine-hamas-israel-kidnapped-teens/[/ref], enquanto o Hamas continua em Gaza, perdendo o controle da opinião pública, na medida em que não conseguia tirar nenhum proveito da política adotada ao reconhecer o governo de união nacional.  Além de ver quase toda a sua liderança da Cisjordânia ser presa.

Qual o resultado disso? Violência, guerra. A forma do grupo terrorista de mostrar para as ruas palestinas e para o mundo que resiste ao “sionismo” é através de mísseis disparados contra a população civil de Israel[ref]http://www.theguardian.com/world/2014/jul/01/israel-vows-hamas-pay-murder-teenagers[/ref]. O governo de Israel responde com ataques pontuais em Gaza[ref]http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/1.602557[/ref].

Mas por que o Hamas silenciar-se-ia? Não havia mais muita coisa a perder. Em vez de negociar com o governo de coalizão para  se chegar a uma saída, o governo israelense prefere dizer que não há parceiros.

Começa então a oitava missão israelense em Gaza em dez anos. É a oitava vez que o discurso de trazer calma para o sul de Israel através da repressão ao Hamas e da redução do seu poder de ação é proferido. Todos sabem que o Hamas não poderá ser destruído. A única forma de enfraquecer o Hamas é fortalecendo alternativas ao grupo terrorista e é exatamente isso que o governo isralense não faz.

Discutir moralidade de guerras é muito complicado, na medida em que um lado vai sempre achar que há moralidade e outro achará que não há. A guerra poderia ter sido evitada e não foi. Não foi porque em ambos os lados há dirigentes intolerantes que preferem perpetuar preconceitos e mentiras de que não há parceiros de ambos os lados. A guerra de propaganda feita pelo governo israelense e pelo Hamas se aproximam em muitos desses aspectos.

Interessante é que para se chegar a um cessar-fogo, os lados precisam negociar. Não seria mais interessante ter feito isso antes da guerra? Será que o Hamas é parceiro somente para assinar acordos de cessar-fogo? Não acho que Israel tenha que negociar com o Hamas, mas se não fizer isso com a alternativa existente, o terrorismo somente será fortalecido.

Para além disso, somente a linguagem das armas faz com que esses atores se comuniquem de forma extremamente eficiente e é o que esse setor belicista e intolerante da política israelense e palestina precisam. A guerra em Gaza, “longe de casa” (em comparação a um conflito na Cisjordânia), responde ao pedido de vingança enraizado nesses setores. A vingança se fez, na guerra, no fortalecimento do discurso dentro da sociedade israelense de que a guerra era inevitável e que é melhor termos “efeitos colaterais” do lado palestino do que do lado israelense.

Nesse turbilhão de guerra midiática na era da informação em massa em que é difícil sabermos no que devemos acreditar, prefiro analisar os acontecimentos políticos baseados no história dos fatos e da relação entre os atores políticos, de outra forma, falhamos em fazer isso corretamente.

Que não venham me impor esse raciocínio de inevitabilidade e “efeitos colaterais”. Cada vítima carrega a sua história e a de sua família. Cada bomba israelense ou foguete do Hamas aumenta a ferida e dificulta a já complicada cicatrização.

Reforço o que escrevi no artigo sobre o sequestro dos jovens, a culpa da violência é dos extremistas de ambos os lados. Que recaia sobre eles a responsabilidade pelas mais de mil mortes nessa rodada de violência, que como se acredita, se repetirá em breve.

Comentários    ( 10 )

10 Responses to “Não em meu nome”

  • Mario S Nusbaum

    31/07/2014 at 16:14

    “enquanto o Hamas continua em Gaza, perdendo o controle da opinião pública, na medida em que não conseguia tirar nenhum proveito da política adotada ao reconhecer o governo de união nacional”
    “A forma do grupo terrorista de mostrar para as ruas palestinas e para o mundo que resiste ao “sionismo” é através de mísseis disparados contra a população civil de Israel 30”
    Mas por que o Hamas silenciar-se-ia?
    Porque, segundo você mesmo, perdeu o “controle” da opinião pública? Quando isso aconteceu com os trabalhistas em Israel, o Likud assumiu, e eles não lançaram foguetes sobre ninguém. Idem nos EUA com os republicanos.

    Sabe Marcos, se eu não soubesse nada sobre o hamas o texto abaixo me daria uma excelente idéia de quem se trata:

    “Arab Leaders, Viewing Hamas as Worse Than Israel, Stay Silent”
    “The Arab states’ loathing and fear of political Islam is so strong that it outweighs their allergy to Benjamin Netanyahu,” the prime minister of Israel, said Aaron David Miller, a scholar at the Wilson Center in Washington and a former Middle East negotiator under several presidents.
    “I have never seen a situation like it, where you have so many Arab states acquiescing in the death and destruction in Gaza and the pummeling of Hamas,” he said. “The silence is deafening.”

    Acho que não preciso dizer o quanto os líderes árabes nos amam, e se ELES preferem Israel ao hamas…….

  • Mario S Nusbaum

    31/07/2014 at 16:18

    ” A única forma de enfraquecer o Hamas é fortalecendo alternativas ao grupo terrorista e é exatamente isso que o governo isralense não faz.”
    Sempre defendi essa tática, mas cá entre nós, não seria muito mais lógico e normal que os palestinos fizessem isso?

  • Gabriel

    31/07/2014 at 21:19

    Sabia que quando os palestinos batem nas suas mulheres, a culpa é de Israel?

    Isso foi afirmado dia 08 de abril deste ano, antes do conflito atual, pela High Commissioner for Human Rights Navi Pillay, que acusa a ocupação israelense pela manutenção e exacerbação de um patriarcalismo frustrado dentro da sociedade palestina.

    Cito o pedaço do relatório em inglês que trata da questão:
    “Por que os homens palestinos batem nas suas mulheres?
    Mulheres com maridos explicaram que a situação econômica difícil e as pressões da ocupação fizeram seus homens mais violentos porque perderam sua habilidade de prover e proteger — dois elementos fundamentais da masculinidade em uma sociedade patriarcal. Quanto mais é tirada a masculinidade desses homens, as mulheres se transformam nas absorvedoras de choque das crises como alvo de violência doméstica.”

    De acordo com a mesma mentalidade, qualquer ação do Hamas é culpa de Israel.

    Pelo cargo dela, High Commissioner for Human Rights, parece ser uma afirmação séria, feita por alguém que realmente entende do assunto. A ONU afirma com isso que os homens palestinos não têm responsabilidade por suas ações e não têm compasso moral, pois estão frustrados e portanto são violentos.

    Se a ONU acredita realmente nisso, acho que chegou a hora dela intervir em Gaza e começar a desmilitarizar essa gente sem responsabilidade e sem compasso moral, frustrada e CHEIA DE ARMAS – porque armas matam e causam problemas humanitários bem graves.

    Violência do Hamas? Não em meu nome.

    Aqui o relatório na íntegra: http://blog.unwatch.org/wp-content/uploads/Report-by-Navi-Pillay-A_HRC_25_40.pdf

  • Raul Gottlieb

    31/07/2014 at 22:41

    Texto do jornalista israelense Zeev Chafetz da Fox News (oy gevalt yidn! da direita!)

    Hamas deve ser derrotado à moda antiga, a começar por exigência de rendição incondicional.

    O jornal Jerusalém Post publicou na manhã de segunda-feira os resultados de uma pesquisa sobre os próximos passos de Israel. [No Globo, aqui.] Cerca de 10% do público disse que já bastava, e que era hora de um cessar-fogo. Outros 3% não tinham tanta certeza.

    Entretanto, 86.5% dos israelenses judeus disseram que queriam continuar lutando.

    Ninguém me perguntou, mas eu estou com a maioria.

    Israel tentou duas vezes antes, em 2008 e 2012, pôr um fim à infiltração e ao disparo de mísseis por parte do Hamas através de ações militares limitadas. Ambos esses esforços terminaram com um cessar-fogo acompanhado por ameaças do governo de Israel ao Hamas, do tipo “não nos obriguem a voltar aqui novamente”.

    Quando o Hamas abriu fogo, três semanas atrás, muitos israelenses esperavam que, desta vez, fosse diferente. Em vez disso, o primeiro-ministro Netanyahu e o seu gabinete adotaram um conjunto limitado de objetivos de guerra: destruir os túneis do Hamas que os levavam a Israel, enfraquecer sua estrutura de foguetes e melhorar as condições para o próximo cessar-fogo.

    Desde então, Israel destruiu muitos túneis. Derrubou muitos mísseis e foguetes. E concordou com quatro ou cinco cessar-fogos. E, ainda assim, não conseguiu atingir nenhuma dessas finalidades limitadas. O Hamas continua atirando mísseis (nesta segunda matou seis em solo israelense), infiltrando unidades de comando via túneis supostamente destruídos (outro grupo foi interceptado na segunda), e violando cada um dos “cessar-fogos humanitários” (como fez na segunda). Em suma, o Hamas está lutando para valer. Ele vê esta guerra como uma guerra de verdade, uma batalha de vida ou morte.

    Neste ponto, estou com o Hamas.

    Esta é uma guerra de verdade. E o objetivo de uma guerra de verdade é a vitória.

    O Hamas não será derrotado por meio da explosão de seus túneis. Se Israel bater em retirada após o próximo cessar-fogo temporário, eles construirão túneis melhores e mais profundos. O Hamas não será derrotado pelo esgotamento de seu arsenal de foguetes. Se Israel permitir que o Hamas permaneça de pé, ele conseguirá mais do Irã (que admite abertamente fornecê-los), ou os construirá com partes contrabandeadas. Se puder, preencherá esses novos foguetes com produtos químicos, o que tornará extremamente perigoso para Israel interceptá-los em áreas civis, que são os alvos do Hamas.
    Não, o Hamas tem de ser derrotado à moda antiga. Isto começa com uma nova exigência – rendimento incondicional – e a disposição em fazer o que for necessário para atingi-lo.

    As imagens televisivas terão impacto negativo na imagem de Israel? Depende de quem estiver assistindo. A esquerda europeia anti-Israel e os muçulmanos europeus anti-judeus ficarão indignados, mas isso eles já estão. Alguns rabinos liberais e celebridades judias, ruborizados, ecoarão Michel Corleone (“É minha família, Kay, não sou eu”). Editorialistas e colunistas menosprezarão a perda do “alto padrão moral “ de Israel. Experts que insistem que é ciência política indiscutível que o terror não pode ser derrotado militarmente recusar-se-ão a crer em seus próprios olhos.

    Como eu sei isso? Eu já vi esse espetáculo antes.

    Mas o universo televisivo é um lugar grande. Os governantes do Egito e da Arábia Saudita, que consideram o Hamas um inimigo terrorista, provavelmente apreciarão o show. Assim como os líderes de Rússia, China, Índia, Nigéria e outros países atualmente engajados em esforços para derrotar as insurreições fundamentalistas islâmicas.

    Para Israel, os jihadistas são uma chave demográfica. Eles podem não gostar de ver Gaza em chamas e o Hamas derrotado, mas essas são cenas que concentrarão suas mentes. Os aiatolás iranianos, o Hezbollah, a Al Qaeda, as Crianças Assassinas do Califado do ISIL [da sigla em inglês para Estado Islâmico do Iraque e do Levante] e outros Saladinos dos tempos modernos aparecerão odiando Israel ainda mais do que eles odeiam agora? Talvez sim. Mas eles também terão uma visão mais realista do que eles podem fazer a respeito.

    Como sempre, a audiência mais importante de todas está bem aqui, em casa. Com o passar dos anos, os israelenses ficaram habituados a um certo nível de violência do Hamas. Mísseis? Ah, eles nem matam tanta gente assim. Sequestros? Solte uns mil terroristas que você consegue o cara de volta. Substituir o Hamas? O que vier depois pode ser pior! Não podemos simplesmente fazer um acordo melhor desta vez, conseguir mais uns anos de relativa tranquilidade antes do próximo round?

    A resposta é não. Não há acordo a ser feito com o Hamas, nem sucessor algum que Israel deva temer mais do que ele. Hamas é o diabo que Israel conhece e também o demônio que tem de matar. A quantidade de matança depende do quão rapidamente os hamasniks se renderão ou ⎯ aqui vai a possibilidade menos provável ⎯ da população em Gaza decidir que já sofreu o bastante e que é hora de se voltar contra eles.

    Será que Bibi Netanyahu tem estômago para levar isso adiante? Será que ele quer? Eu não sei. Mas eu sei quem quer que ele tente – 86.5% do público judeu israelense.

  • Marcelo Starec

    31/07/2014 at 22:43

    Oi Marcos,

    Tenho muita discordância a respeito desse seu artigo (não integral) e digo isso com todo o respeito. Quero apontar um fato que, no meu entender, você não está correto ou, no máximo, o está parcialmente e esse ponto é fundamental. Você afirma que: “A única forma de enfraquecer o Hamas é fortalecendo alternativas ao grupo terrorista e é exatamente isso que o governo israelense não faz.” Bom, não tenho certeza a respeito de esta ser a única forma de enfraquecer o Hamas, mas certamente é um ponto a se tomar em conta, para fins de elaborar uma análise completa. A minha discórdia vai justamente para o restante dessa frase, quando você diz: “e é exatamente isso que o governo israelense não faz.” Isso eu discordo totalmente, visto que a colaboração existente (e você já afirmou isso várias vezes, em outros posts) entre a Autoridade Palestina e o Governo de Israel vêm ocorrendo e veja, a Cisjordânia há muitos anos vêm crescendo economicamente, a taxas elevadas (cerca de 10% ao ano). Os árabes palestinos da Cisjordânia estão, gradualmente, se tornando mais preocupados com o seu dia a dia do que com um objetivo doentio de “jogar os judeus ao mar”. Esse é um resultado – se a situação dos palestinos sob a liderança da Autoridade Palestina ainda está longe do ideal, te digo que por outro lado o modo distinto com que os governos da Cisjordânia e de Gaza tratam a questão levam a consequências diferentes e até opostas. De um lado, há cooperação (como você mesmo diz) e isso está gerando resultados tanto para Israel quanto para os palestinos da Cisjordânia. Gaza está dominada por um grupo terrorista armado, que matou os seus opositores e tem uma situação muito pior. Assim, como trata-se de um caminho de longo prazo, vejo que a cooperação com Israel está sim gerando resultados positivos, para ambos os lados e os palestinos de Gaza eventualmente prefeririam viver assim, mas só poderemos saber da sua opinião quando o Grupo Terrorista Hamas for enfraquecido militarmente, pois hoje eles se encontram muito bem armados, apesar de todo o bloqueio israelense e Egípcio, tendo uma enorme infra-estrutura de túneis para fins de praticar o terror e mísseis que são capazes de causar sérios danos em Israel.
    Abraço,
    Marcelo.

  • MauroS

    31/07/2014 at 23:00

    Muito bom o texto, me deu lágrimas nos olhos ao lembrar-me da minha prima que mora em Israel.

    Me permita no entanto lembrar-lhe de um “ato falho” seu.

    As duas séries de assassinatos (dos israelenses e do palestino) foram ao que tudo indica atos isolados cometidos por pequenos grupos, algo que governo ou liderança nenhuma pode controlar, ainda mais na situação belicosa de Israel.

    No entanto, vc se refere aos assassinos dos israelenses como “terroristas palestinos” e aos assassinos do palestino como “jovens Israelenses”. Por que você não usou a expressão “terroristas Israelenses” aos assassinos do palestino? Ou “grupo palestinos” aos assassinos dos Israelenses?

    Por que a diferença de tratamento?

    • Mario S Nusbaum

      01/08/2014 at 18:55

      Cabe ao Marcos explicar MauroS, mas vou dizer como eu chamo os dois: terroristas palestinos e animais. Não chamo os judeus de terroristas porque não fazem parte de um grupo organizado de bestas assassinas, simples questão de nomenclatura.

  • Ricky

    01/08/2014 at 12:14

    “Nesse turbilhão de guerra midiática na era da informação em massa em que é difícil sabermos no que devemos acreditar, prefiro analisar os acontecimentos políticos baseados no história dos fatos e da relação entre os atores políticos, de outra forma, falhamos em fazer isso corretamente”.

    O problema é que cada um analise os acontecimentos políticos baseado na historia dos fatos, de acordo com a sua visão. É pretensioso demais achar que, em meio à essa explosão de opiniões e analises, “a minha” é a correta.

    Nesse texto eu li criticas pesadas, mas não consegui entender o que você acredita ser a melhor maneira de lidar com o que está se passando agora. Não quero entrar em discussão alguma, acredite. Estou sofrendo muito com a (já oficialmente) guerra, espero que nossos soldados (amigos, familia…) saiam de Gaza o mais rapido possivel, e etc. Acredito, com todas as minhas forças, na possibilidade de vivermos em harmonia (como você pode ver nesse artigo do conexão que escrevi ainda em 2012: http://www.conexaoisrael.org/o-exemplo-vem-de-yafo/2012-12-26/colaborador).

    Mesmo assim, a maneira como você interpreta é de que Israel está lutando contra os palestinos e isso não é verdade. Israel está lutando contra o Hamas. É Israel que puxa o gatilho, mas o Hamas que os coloca no alvo. Não acho justificável, nós sofremos as mortes do lado de lá tanto quanto sofremos as do lado de cá. Mas não vejo solução para resolver a questão.

    Não vendo uma solução para o agora, acho que a critica feroz não traz nada de positivo. Se o governo de Israel errou na condução das negociações, na construção de assentamentos, e na politica “da boa vizinhança” ANTES disso tudo começar (o que concordo), que deixemos para discutir isso depois, quando sairmos de dentro do bunker, quando deixarmos de ser atacados 2 horas após o inicio de mais um acordo de cessar fogo.

    Agora é a hora de entender o que fazer de acordo com a situação real em que estamos vivendo. O mundo da imaginação é lindo. O meu se assemelha demais ao mundo que John Lennon descreve em “Imagine”. Mas a gente vive no mundo real. E esse é duro demais. É complicado demais. Não tenho a solução.

    Podemos, da mesma maneira que você fez, interpretar e analisar fatos e a historia de acordo com as noticias do jornal, provando que Israel pode e tem o direito de fazer o que quiser em Gaza e que está certo. Tudo depende da maneira como utilizamos as palavras.

    Por algum motivo existe a expressão “critica construtiva”. Esse texto foi apenas a critica. Precisamos de mais construção.

  • Alex

    01/08/2014 at 17:33

    “a culpa da violência é dos extremistas de ambos os lados. Que recaia sobre eles a responsabilidade pelas mais de mil mortes nessa rodada de violência, que como se acredita, se repetirá em breve.”
    Marcos, acho que a frase acima resume bem a questão da responsabilidade. Eu concordo.
    Neste contexto o que você faria se tivesse que tomar a decisão?
    Quem decide tem que analisar riscos e considerar a confiança que tem nos atores do conflito.
    Voce confiaria em acordos com um governo formado pelo Fatah com o Hamas?? Um acordo destes estaria dentro das margens de risco que voce acharia razoável?? E se depois do acordo com as concessões que Israel teria que fazer o Hamas achasse que na verdade ainda falta devolver tudo que foi ocupado em 1948?? qual seria o seu plano B??
    Eu sei que também tem a direita israelense que defende um Israel grande, mas Israel é uma democracia e, imagino que o que a maioria decidir, será feito, como foi por ocasião da ocupação de Gaza.
    Como você bem apontou cada um tem a sua narrativa e suas razões, a questão é que alguem tem que decidir o que fazer agora, diante dos fatos agora e levando em consideração os objetivos estratégicos, os riscos e a confiança que tem nos atores.
    Mesmo me desagradando muito, eu defendo o que está sendo feito, não por motivos ideológicos (sou contra assentamentos e sou a favor de um Estado palestino), mas porque não confio que os parceiros de uma negociação tenham condições e vontade de entregar o que prometerem e por isto o risco agora é alto demais para apostar.
    Quem tiver interesse, leia a coluna do Sergio Malbergier na Folha. Ele coloca o tema numa perspectiva mais ampla que explica melhor, na minha opinião, as verdadeiras raízes do problema.