Não fui para a guerra de carro, mas voltei de carona

13/08/2014 | Conflito, Política, Sociedade.

Até agora, com o reinício dos ataques após o cessar-fogo de 3 dias, o resultado da última guerra em Gaza é de quase dois mil mortos, mais de dez mil feridos, cerca de dez mil casas destruídas e o aumento da distância entre palestinos e israelenses. Ódio, raiva, revanche são sentimentos que se fortalecem muito durante o período de guerra. Tudo parece ficar mais distante.

Em uma sociedade tão pequena não tem quem não conheça alguém que foi para a guerra, e é justamente por conhecê-los que sabemos que eles não queriam estar lá.

A história a seguir aconteceu no término da Operação Pilar Defensivo, no final de 2012.

Não tive a possibilidade de ter essa mesma experiência do lado palestino, mas tenho certeza que há muitas histórias parecidas, onde as vidas são interrompidas por um conflito que se arrasta. e faz milhares de vítimas nos dois lados.

 

Todo domingo e quinta feira eu viajo para uma região de Israel chamada Gezer, no centro sul, entre Jerusalém e Tel Aviv, perto do aeroporto e das cidades de Lod e Ramla. Há dois ônibus que eu posso pegar, o 438 (ele não vai nem pra Vila Isabel e nem pro Leblon) e o 448, ambos saindo de Jerusalém e indo até Ashdod, cidade costeira que fica a cerca de 30 km de Gaza.

No último domingo, ao entrar na rodoviária de Jerusalém, eu percebi que o 448 havia sido cancelado e um cartaz no ponto do ônibus dizia que em função das condições de segurança no sul as linhas tinham sofrido modificações. Além disso, os soldados que estavam indo para a guerra tinham preferência para pegar o ônibus.

Peguei o 438 e o ônibus estava vazio. Geralmente há fila (ou quase isso, porque fila é uma palavra que não consta no dicionário de hebraico!) e uma tradicional confusão para se pegar o ônibus, mas não nesse dia. No caminho passamos por três caminhões do exército transportando tanques para a entrada de Gaza.

Quinta feira, quatro dias depois, poucas horas depois do cessar fogo, lá vou eu novamente, para Gezer e, mais uma vez, observo algo novo para mim. Na entrada da plataforma do ônibus tinha um cachorro Dálmata preso num ferro ao lado de uma mala rosa. A dona do cachorro e da mala estava comprando bebida no quiosque em frente. Um casal e suas duas filhas tentavam passar pelo cachorro, mas não conseguiam, ficaram com medo, só o pai conseguiu passar.

Ele segura a porta e começa a gritar:

– “Venham, venham, vocês vão perder o ônibus! Venham, venham. Venham agora, já. Motorista! Motorista! Motorista, espere, motorista!”.

Desesperado para não perder o ônibus ele gritava sem parar, como um louco. Enfim, sua esposa e suas filhas entram no ônibus e a mãe abre um sorriso fala:

– Oi motorista, vamos para Ashdod, estamos voltando pra casa.

Continuam fazendo uma bagunça enorme até que os quatro se acomodassem e o pai voltasse pra pagar as passagens. E quando pra minha surpresa entra no ônibus a moça do cachorro Dálmata com a mala rosa (que era do tamanho do cachorro), uma imigrante russa, ainda aprendendo a falar hebraico.  E esse foi o cenário:

Sobe escada, empurra a mala, cachorro excitado e irritado com a focinheira, abre bolsa, pega a carteira, cachorro empurra, mala cai, gritos com o cachorro, pega o dinheiro, motorista pergunta pra onde ela vai, cachorro empurra, desce a escada, puxa o cachorro, vai no banco, deixa a mala e o cachorro, volta pra falar com o motorista, o motorista pergunta novamente pra onde ela vai, o cachorro volta, o motorista reclama do cachorro, ela grita com o cachorro, as pessoas da fila começam a reclamar, todos temem o cachorro, mas enfim ela responde ao motorista após ser perguntada pela terceira vez:

– “Eu vou para Ashdod, motorista”.

Pouco tempo depois do término do conflito as pessoas tentam voltar às suas vidas e retornam às casas. Todas devem pensar se terão que fugir novamente, quando (e não se) esse terrível conflito se expressará em forma de guerra e mísseis novamente.

Na minha volta para Jerusalém, estava  esperando o 448, quando um carro para na minha frente. Desce um soldado e diz:

– “Vai para Jerusalém? Tem um lugar”.

Sempre que eu vou pra Gezer eu pego carona depois que desço do ônibus (ele me deixa perto de onde eu preciso ir). Mas carona para Jerusalém é algo muito raro. Ao entrar no carro percebi que os outros quatro viajantes eram também soldados. Mais novos que eu, rostos cansados, mas também aliviados. Ouvem as notícias e riem um com o outro. Então perguntei:

– “Vocês estão vindo de Gaza?”

Um deles responde:

– “Bom, não entramos em Gaza, mas estávamos lá”.

Então perguntei o que eles achavam do cessar fogo. A resposta foi rápida.

– “Não sabemos. Não vimos as notícias dos últimos dias!”

Então perguntam:

– “E você? Qual é seu batalhão?”

Respondi que não servi ao exército, que imigrei para Israel há dois anos e, em função da minha idade, já tinha expirado a minha validade para o serviço militar. Então perguntam de onde eu venho.

– “Do Brasil”. Eu respondo.

– “Que maravilha. Que bom pra você. No Brasil não tem guerra, né?”

– “Não”.

– “Bom pra você. Muito bom”.

Logo depois o carro encosta em um outro ponto de ônibus onde um outro carro já estava parado. O soldado que estava no banco do carona abre um sorriso e dá tchau para uma mulher que estava do lado de fora. Antes de sair ele cumprimenta os amigos e diz:

– “Espero que nos encontremos em tempos felizes. Nos vemos em duas semanas no parque ou na entrada de Gaza novamente”.

Então ele sai do carro em direção à mulher. Se beijam, se abraçam, riem, se acariciam. Ele sai para pegar a mochila na mala do carro.

Ela vem ao carro e diz:

– “Deixa eu ver quem é o motorista”.

Ela olha para dentro do carro, cumprimenta a todos e diz:

– “Que bom que vocês estão voltando pra casa”.

Então o motorista diz:

– “Eu fui ao casamento de vocês. Cuide bem do seu marido. Ele é um líder. Todos gostam muito dele”.

Ela abre um sorriso, agradece e vamos embora. Vamos subindo a serra e o telefone do motorista toca. Estava escrito no celular: Hagit sheli, minha Hagit. Ele atende o telefone e ouvimos uma criança chorando muito no fundo. Então a Hagit fala:

– Oi, aonde você está?

– Estou no caminho pra casa. O que aconteceu? Por que a Hilá está chorando?

– Ela estava sentada no chão e eu pisei na mão dela sem querer.

– Fala que eu comprei uma surpresa pra ela.

– Não quer você mesmo dizer isso?

– Sim, passe o telefone para ela.

Então a criança chorando atende.

– Oi Hilá, é o papai. Tá tudo bem?

– Sim (ainda aos berros).

– O que houve? A mamãe pisou na sua mão?

– Sim.

– Tá doendo muito?

– Sim.

– Você sabe que foi sem querer, né?

– Sim.

– Você desculpou a mamãe?

– Sim.

– O papai está levando uma supresa gostosa pra você. Mas você tem que parar de chorar, tá bem?

– Sim.

– Você quer a supresa?

– Sim.

– Então, tá. Me espera que eu estou chegando. Você vai me esperar na porta pra me dar um beijo e um abraço?

– Sim.

Então ele se despede e desliga o telefone. Todos rimos em função da enorme quantidade de respostas positivas que ele conseguiu tirar da menina. E um dos soldados que estava atrás perguntou:

– Você tem duas filhas, né?

– Sim, duas.

– Essa era a mais velha?

– Sim. Ela tem dois anos e a outra tem um ano e dois meses.

O motorista muda de assunto e pergunta:

– Pra onde vocês vão em Jerusalém? Eu vou pegar a auto-estrada Begin, depois Giló e vou para Gush Etzion.

Um dos soldados atrás também ia pra Gilóe eu e outro para o centro da cidade.

No final das contas, estão todos felizes por estarem voltando para casa e para suas famílias. Jovens, muitos ainda com menos de 30 anos, são enviados para guerra que também pode destruir suas vidas.

 

Como diz Bataiole, baseado nas reflexões de Nobert Elias, “não há como pensar a sociedade sem pensar os indivíduos que a compõem. Ela se dá numa relação de interação, se constrói e se estrutura, economicamente, culturalmente, politicamente… por que o homem faz parte dela como e se ajustas as suas estruturas organizacionais. Pensar a sociedade sem estar inserido no seu contexto histórico é estar fora dela, da cultura que a sustenta, como ciência”[ref]http://www.recantodasletras.com.br/artigos/3620713[/ref].

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Não fui para a guerra de carro, mas voltei de carona”

  • Mario S Nusbaum

    13/08/2014 at 16:15

    “Até agora, com o reinício dos ataques após o cessar-fogo de 3 dias,” Sério? Estou com a CNN ligada há uma hora e não ouvi nada sobre isso.
    A história é emocionante, principalmente quando lembramos que existem
    milhares e milhares como essa.

    • Marcos Gorinstein

      13/08/2014 at 16:33

      Oi Mario,

      Essa introduçao foi escrita apos o ultimo cessar-fogo. O atual tem prazo ate meia noite e esta sendo mantido pelos dois lados.

      Abs

    • Mario S Nusbaum

      14/08/2014 at 16:50

      OK Marcos, muito melhor assim, e agora são mais 5 dias. Fico imaginando a tensão por aí com esses cessar-fogos a conta-gotas!
      um abraço

  • Raul Gottlieb

    13/08/2014 at 23:12

    Os jornais dizem que os Palestinos dispararam mísseis contra Ashkelon hoje (quarta feira) 2 horas antes de acabar o cessar fogo. O Hamas negou ter disparado. Mas alguém em Gaza disparou contra Ashkelon.

  • Marcelo Starec

    14/08/2014 at 18:35

    Oi Marcos,
    Realmente a história é emocionante, simplesmente por se tratar de pessoas – em meu entender é sempre importante lembrar que nunca se deve “demonizar” um povo inteiro, pois geralmente o que se tem em todos os lugares é,em sua maioria, pessoas que tem sentimentos, problemas, frustrações, esperanças que por vezes estão reféns de uma minoria extremista e fanática que as domina, como no caso de Gaza e do Hamas. Mas por trás disso tudo há uma população civil que em sua grande maioria, havendo um ambiente propicio, só quer levar as suas vidas em paz.
    Abraço,
    Marcelo.

Você é humano? *