Não haverá Paz, e Não Haverá Governo

16/03/2015 | Conflito, Eleições, Política.

Não haverá paz. E provavelmente também não haverá governo.
As pesquisas mostram uma imagem clara: salvo algum crasso erro estatístico, Israel enfrentará um período de governo inoperante na melhor das hipóteses, e até guerra mundial entre seus membros, segundo outras previsões.

Crasso erro estatístico é o que já se viu tantas e repetidas vezes em outras eleições em Israel. Nas eleições passadas, ninguém previu o impressionante número de cadeiras que conseguiu o partido Yesh Atid, por exemplo. Em outras eleições, houve resultados ainda mais dramáticos, tal como a queda meteórica do Likud em 2006, ou as impressionantes 17 cadeiras do Shas em 1999, ou até em 2003 quando de repente o partido liberal de Tomy Lapid (o pai de Yair) se tornou o terceiro maior. Ninguém tinha previsto estes movimentos nas pesquisas e ninguém tinha levado em consideração suas consequências ao imaginar que tipos de coalizões poderiam formar-se.

A inabilidade e a paralisia de um futuro governo são apenas especulações, baseados numa estatística sempre duvidosa. Já a falta de acordo de paz é um fato incontesto. Ou seja: é até possível que todas as pesquisas estejam completamente erradas e que vejamos um governo forte e estável depois das eleições, mas seja qual for este governo, não há a menor chance de acordo de paz permanente.

A palavra paz entrou em desuso já nas eleições anteriores. Agora praticamente desapareceu por completo (para ter uma perspectiva da situação, leia também este texto, do meu colega João K. Miragaya). A palavra Shalom se tornou suicídio político para todos os partidos que não sejam de assumida e pura esquerda (portanto todos afora o Meretz). Isso não significa que a questão palestina seja completamente ignorada no cenário eleitoral. A questão sim é debatida, mas de outra forma. Eufemismos como “Solução Política”, “Traçado de Fronteiras Permanentes”, “Situação de Jerusalém Oriental” são comuns e na verdade vão diretamente ao âmago das negociações: como se ninguém acreditasse que resolver esses problemas irá trazer realmente paz, mas que devem ser discutidos e que deverá haver avanços nesses terrenos, nem que por motivos puramente práticos.

Ser prático, ser pragmático, realista e responsável. Parecem ser estes os atributos mais aceitáveis pelo israelense médio para um líder respeitável nessas eleições. Benjamim Netanyahu tentou reverter essa imagem para parecer um forte estadista em frente a uma verdadeira catástrofe nuclear que se aproxima inexoráavel e vertiginosamente. Foi ao Congresso dos EUA tentando vender a persona de Churchill, prometendo a catástrofe, mas também sua pronta solução. No final, para o público israelense, não conseguiu nem uma coisa, nem outra. Não por tempo suficiente. Subiu nas pesquisas por alguns dias, mas só para descer logo em seguida para onde estava e um pouco menos. Se a paz não vende mais, a catástrofe parece que também já não surte os efeitos eleitorais necessários.

Não haverá paz, tampouco haverá acordos. Mas por outro lado, prevejo que não teremos mais esta santificação ao status quo tão festejada pelo Primeiro Ministro. O atual governo passou anos paralisado observando as mudanças geopolíticas sem considerar qualquer ação. ISIS (ou Estado Islâmico), guerra na Síria, mudança de governo no Egito, reposicionamento da Turquia, terremoto econômico e político na Rússia… Netanyahu reagiu quando atacado nas últimas rodadas de violência contra o Hamas, perdendo oportunidade atrás de oportunidade enquanto um grave movimento na Cisjordânia se consolidava e se transformava em atentados sérios em Jerusalém. Não fez nada para melhorar a crise com a Turquia, antigo aliado, nem para expor a radicalização de seu governo. Piorou consideravelmente as relações com os EUA para um novo histórico patamar negativo, e permitiu que movimentos antissionistas e antissemitas crescessem e se disseminassem pela Europa. Tudo pela santificação do status quo – que nem status é, nem quo seguiu sendo.

A esquerda enfraquecida fez péssima oposição. Se vencer as eleições, dificilmente o fará em condições de mudanças severas. Ou sequer mudanças conceituais. Centro e centro esquerda venderam para o público a imagem de reformistas de assuntos econômicos internos. Só quando jornalistas insistiram muito, seus candidatos deram suas opiniões a respeito de política externa e de segurança. E o resumo do que disseram é mais ou menos como comecei o outro parágrafo: serão práticos, pragmáticos, realistas e responsáveis. Cada qual traduzindo esses conceitos para conteúdos clássicos da direita ou da esquerda, conforme o DNA do partido. Mas na prática, significando que dada a atual geopolítica local e a forma como os palestinos têm se administrado, farão muito pouco além de sentar-se para conversar.

Não que dada a atual geopolítica local isso seja pouco.

Há muito em jogo e no momento 11 partidos lutam por cada uma das 120 cadeiras da Knesset.

 

E não haverá governo.

 

O primeiro lugar nas pesquisas é a União Sionista. Isaac Hertzog, lider do partido, mesmo que realmente obtenha maioria das cadeiras, dificilmente vai conseguir montar uma coalizão sem comprometer a própria integridade da sua liderança. Vai ter que reunir partidos antagônicos e rivais. A soma total de cadeiras dos partidos da esquerda ou centro esquerda apenas se aproxima da metade necessária para uma coalizão estável.

O segundo lugar é o Likud. E o Likud tem sofrido sérios danos nas últimas pesquisas. Brigas internas e tentativas de pré-coalizões que não avançaram e estão desgastando ainda mais o partido de Netanyahu. No entanto, mesmo que não ganhe, se a diferença de número de cadeiras entre ele e a União Sionista for pequena, poderá vir a montar o próximo governo. Não será o governo direitista ideal, nem para o Likud, nem para o resto da direita. Aqui também partidos antagônicos e rivais vão ter que sentar-se juntos para tomar decisões importantes.

O terceiro, eis a surpresa, é a Lista Unificada. Três partidos árabes e um partido misto de judeus e árabes que correm juntos e, segundo as últimas pesquisas, abocanham até 13 lugares. Ainda não se sabe que posição terão na composição do próximo governo, mas podem ter um papel determinante. Até agora, manifestaram-se de forma neutra e descomprometida.

É difícil governar um país nestes termos. Mais difícil ainda será tomar decisões difíceis e fechar acordos importantes. E decisões difíceis e acordos importantes são o que transformam um núcleo de parlamentares administradores em um Governo, com “g” maiúsculo. E este, salvo o tão famoso crasso erro estatístico, estará em falta por essas bandas.

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “Não haverá Paz, e Não Haverá Governo”

  • Mario S Nusbaum

    16/03/2015 at 18:40

    Tenho sérias críticas a fazer ao Netanyahu em relação a como conduziu a questão Israel x palestinos, mas não entendo algumas das suas. “Não fez nada para melhorar a crise com a Turquia” O que poderia ter feito? Antigo aliado, exatamente como o Irã, só que assumiu o poder um semi-fundamentalista que, assim como os aiatolás, decidiu, sem NENHUM motivo, que Israel é o inimigo. “Piorou consideravelmente as relações com os EUA para um novo histórico patamar negativo” Com uma enorme ajuda do Obama. É óbvio que Israel depende dos EUA e a recíproca não é verdadeira e que o Netanyahu poderia ter agido melhor, mas com o Obama na Casa Branca provavelmente não mudaria nada. “permitiu que movimentos antissionistas e antissemitas crescessem e se disseminassem pela Europa” Permitiu ???? Por um acaso pediram autorização para ele???? Essa é surreal!

    • Gabriel Paciornik

      16/03/2015 at 19:50

      Olá, Mário.

      A crise com a Turquia foi piorando cada vez mais depois do lamentável episódio do Marmara. Lembre-se que no final Israel fez tudo que o governo turco exigiu a respeito deste caso. Mas demorou mais de 4 anos para isso, enquanto manteve todas as negociações cozinhando em água fria, ao invés de resolver o problema de forma inteligente. Erdorgan tem relações positivas com a Europa, e ainda tem ambições ocidentalistas. Netanyahu teria muitas ferramentas para lidar com o assunto. Não fez nada.

      Quanto aos EUA, Sharon tinha uma PÉSSIMA relação com o presidente dos EUA. Nunca deixou isso atrapalhar as relações dos dois países. É incompetência do Bibi não separar as coisas.

      E quanto ao antissemitismo, eventualmente você teria razão, se Netanyahu não tivesse feito praticamente tudo em suas mãos para azedar ainda mais a opinião pública por lá.

  • Mario S Nusbaum

    16/03/2015 at 20:48

    Oi Gabriel.
    A forma como lidou com o Marmara é uma das coisas que critico no Netanyahu, mas o Erdogan vive procurando pretextos para brigar com Israel. Lembre-se que Davos foi ANTES desse episódio.
    Leia este artigo de um jornalista turco:

    http://www.al-monitor.com/pulse/originals/2015/01/turkey-west-erdogan-davutoglu-davos.html#

    “É incompetência do Bibi não separar as coisas.”
    Quase concordo, digo quase porque além de incompetência vejo nisso uma dose de querer mostrar que é “macho”, algo muito comum aqui na América Latina, mas inadmissível em um governante.

Você é humano? *